Segunda-feira, Julho 31, 2006

+ 10 VEZES +

Marcus Ottoni


"Não tem aliança, não tem apoio. Ele nunca conversou comigo, nem eu com ele. Fora disso, é viagem interplanetária."
Heloísa Helena, sobre a manifestação de apoio de Anthony Garotinho a sua candidatura

Alexandro Gurgel


O POETA BOB MOTTA

O poeta trovador,
trova dor e trova amor.

O poeta cantador,
canta dor e canta amor.

Seu matuto coração
- que de rimar não se cansa -
aposta vingar a esperança,
qual semente em rico chão.

Cantando a vida e a lida
de um povo e de seu lugar,
vê a Poesia, guarida,
no peito de um potiguar.


Neide de Camargo Dorneles






Como satisfazer uma mulher


acaricie a fala massageie os lábios cante seus cabelos suporte a ânsia alimente o pensamento dê banho em sua sombra ria do nada sorria sem motivo estimule a invenção console o pensamento abrace a sua alma excite cada poro pacifique a mordida proteja no seu corpo seduza a cada olhar ligue ontem corresponda antes antecipe hoje perdoe sem motivo sacrifique-se por tudo assessore antes do pedido mostre-se igual sem perceber fascine sem palavras respeite a cada toque encante sem querer eleve e se ajoelhe defenda-a dos seus medos faça planos juntos enfatize o comezinho faça serenata ainda que em silêncio agrade naturalmente mime e goste de mimar nine-a em seus caprichos se banhe na sua saliva se perfume no cheiro dela elogie o seu batom faça uma surpresa a cada olhar acredite cegamente santifique-se pela presença dela reconheça seus incometidos pecados seja gentil e educado mas a pegue firme atualize-se na sua cor predileta aceite sem ressalvas presenteie mesmo sem presentes peça o impossível escute e adivinhe entenda o que não foi dito leve a qualquer lugar bonito e único acalme suas dúvidas mate por ela qualquer obstáculo morra por ela a todo instante e momento sonhe com ela acordado prometa e cumpra se entregue como condição para viver se comprometa e seja inteiro alivie seus pés sirva a sua boca salve a noite o dia a tarde prove as suas coxas agradeça a cada sim dance com ela olhe nos olhos presentes em todo o seu corpo escove os seus pêlos seque os seus pêlos dobre os seus joelhos lave as suas coxas passe a sua perna em suas pernas guarde essa mulher cozinhe qualquer coisa idolatre essa fêmea ajoelhe-se e sorva-a e diga que a ama todos os dias de antes e de depois e volte ao começo e faça tudo de novo + 10 vezes + 10 vezes + 10 vezes + 10 vezes + 10 vezes + 10 vezes + 10 vezes + 10 vezes + 10 vezes.

Antoniel Campos




Vinte anos sem o mestre

Luís da Câmara Cascudo era, sobretudo, cioso das suas responsabilidades como escritor e jornalista, procurando fazer todos os registros de suas pesquisas com fidelidade. Seus biógrafos relatam que ele “desconfiava da interpretação apressada, por saber que, quando se cava um poço a primeira água sai barrenta”.

O mestre Cascudo era considerado uma das maiores autoridades em folclore nacional. Nascido no Rio Grande do Norte, sempre morou em Natal, exceto no período em que estudou Medicina na Bahia e no Rio de Janeiro, terminando por se formar em Direito em Recife, pois naquele tempo não havia faculdades em Natal. Exerceu várias funções. Foi jornalista e até deputado estadual e durante vários anos lecionou em escolas e na faculdade de Direito de Natal.

Ele começou a se interessar pelo folclore quando ainda era um menino. Dizem que ele tinha um ouvido especial para os “causos” que eram contados por vaqueiros, cantadores sertanejos, pescadores, rendeiras, enfim, tudo que emanasse do povo e que representasse tradições, hábitos, crendices e superstições, tanto da área rural quanto da cidade grande. Sem esquecer de suas incursões nos terreiros de macumba, nas praias para estudar costumes e portos de jangadeiros, além de inúmeras visitas para o sertão.

Na África, pesquisou os hábitos alimentares de regiões colonizadas por portugueses, que motivou um estudo sobre a herança culinária deixada pelos escravos no Brasil, gerando informações que se transformaram no livro História da Alimentação no Brasil.

Cascudo escreveu cerca de 190 obras, sendo a Antologia do Folclore Brasileiro considerada uma das mais importantes. Ele morou num casarão defronte ao rio Potengi, que amava, em meio a livros, obras de arte, objetos sacros e outros que ia recolhendo durante suas viagens de pesquisa. Na porta daquele ambiente que misturava o passado e o presente, a inevitável placa: “O professor Cascudo não recebe pela manhã”.

Obra - O seu primeiro livro foi Vaqueiros e Cantadores, publicado em 1939, que juntou poesia sertaneja e literatura de cordel. Outros famosos são Dicionário de Folclore Brasileiro, Geografia dos Mitos Brasileiros, Civilização e Cultura, Literatura Oral no Brasil, Locuções Tradicionais do Brasil, Contos Tradicionais do Brasil, Prelúdio da Cachaça e História dos Nossos Gestos.

É importante destacar que Cascudo trabalhava como jornalista desde 1918. Aliás, o seu “debut” foi exatamente no dia 18 de outubro daquele ano no jornal A Imprensa, que era de seu pai, o coronel Cascudo e que circulava desde 1914. Depois ele trabalhou no jornal A República e escreveu crônicas para vários veículos de comunicação, sempre com novos nomes para seus espaços de crônicas, tais como “Ensaios Literários”, “Cartas do Rio”, "Notas de História”, “Biblioteca” e “Actas Diurnas”, considerada a mais importante de todas.

Comunicação - O escritor mantinha uma constante comunicação com a cidade e o Rio Grande do Norte. Ele chegava a todos os níveis de leitores. Falava do tempo, da terra, dos homens, das lendas, de literatura, de arte, de boemia, enfim, abordava assuntos diários e alcançáveis que seus livros, mais específicos, não traziam. Sobre isso, alguém escreveu que “o livro seria, talvez, a sua torre-de-marfim, aberta apenas a iniciados”. Mas, melhor do que falar em Cascudo é ler Cascudo, por isso, abaixo emprestamos uma crônica da série “Acta Diurna”, publicada a 25 de setembro de 1943, em A República, e intitula-se O Tonel das Danaides:

“As Danaides eram cinqüenta filhas de Danão, rei de Argos. Seu irmão, Egito, tinha cinqüenta filhos. Mandou a filharada masculina casar com as primas. Danão não queria o casamento. Combinou com as filhas um plano.

Os cinqüenta recém-casados tiveram a mais estranha noite de núpcias de que há notícias no mundo. Foram todos assassinados pelas esposas. Só escapou um, Linceu, poupado por sua mulher, Hipernestra.

Júpiter condenou as Danaides às penas do Tártaro, que era o Inferno daquele tempo. As Danaides enchiam um tonel sem fundo. Séculos e séculos, sem pausa, sem descanso, interrupção, as moças carregavam água, despejando-a no barril furado.

Teodoro de Banville contou o fim dessas Danaides, na Lanterna Mágica.

Os Titãs venceram os Deuses. O Tártaro ficou sem chefe, despovoado de sofredores, todos perdoados.

Astperio anuncia a terminação da sentença:

- Acabou vosso suplício. Largai essa penitência. O tonel está cheio.

As Danaides pararam, pela primeira vez, há milênios. Enxugaram a fronte, descendo as bilhas infatigáveis. E dizem confusas e desapontadas:

- Está cheio o tonel? Pois bem! Que havemos de fazer? Já estamos habituadas com o trabalho contínuo, mesmo inútil.

Não perguntem, pois amigos, por que escrevo sempre, com ou sem leitores, com ou sem compreensão, estímulo ou tolerância. Deixem-me com o meu barril sem fundos. A tarefa finda significaria o repouso incômodo, a displicência, a preguiça mortal.

Por isso, mesmo sem ter ofendido Apolo, encho, obstinado e tranqüilo, a talha imperfeita, escondido num recanto de província. Quando não mais ouvirem o rumor da água agitada, não se dirá que Júpiter sucumbiu.

Será que, para sempre, desfaleceu na morte, o braço humilde do trabalhador...”.


Leonardo Sodré




Domingo, Julho 30, 2006

20 ANOS SEM ELE

Marcus Ottoni


“Repórter eu já fui. Lembro-me que, quando íamos entrevistar, nossa liberdade era grande. Se o homem não dizia nada, a gente inventava.”
Luís da Câmara Cascudo (30 de dezembro de 1898 - 30 de julho de 1986)

Luís da Câmara Cascudo


"Nestes 20 anos de encantamento, sinto que sua ausência
é um engano... Ele continua andando por esta cidade,
que ele tanto amou, frequentando
o Beco da Lama, a Ribeira e a Cidade Alta."

Daliana Cascudo



No Cantão da Tatajubeira

No Cantão da Tatajubeira
Encontrei o meu amor
Era feia, desengonçada
Cheirava que nem fulô

Debaixo da gameleira
Na Praça da Alegria
Passava a vida inteira
Em profunda calmaria

No Cantão do Potiguarânia
Na velha Rua da Palha
Cantavam e encantava
Praieira dos meus amores


Dos fundos da Rua Nova
A lama sempre escorria
No beco da boemia
Você sempre sorria

O ponto, o Grande Ponto
Chegou muito depois
Foi ponto e contraponto
Do amor de nós dois

Eduardo Alexandre




Imagem de Cascudo


— Já consultou o Cascudo? O Cascudo é quem sabe. Me traga aqui o Cascudo.

O Cascudo aparece, e decide a parada. Todos o respeitam e vão por êle. Não é pròpriamente uma pessoa, ou antes, é uma pessoa em dois grossos volumes, em forma de dicionário que convém ter sempre à mão, para quando surgir uma dúvida sôbre costumes, festas, artes do nosso povo. Êle diz tintim-por-tintim a alma do Brasil em suas heranças mágicas, suas manisfestações rituais, seu comportamento em face do mistério e da realidade comezinha. Em vez de falar Dicionário Brasileiro poupa-se tempo falando “o Cascudo”, seu autor, mas o autor não é só dicionário, é muito mais, e sua bibliografia de estudos folclóricos e históricos marca uma bela vida de trabalho inserido na preocupação de “viver” o Brasil.

Agora, mandam dizer de Natal que vão comemorar os 50 anos de atividades culturais, os 70 anos de idade de Luís da Câmara Cascudo, o que é de inteira justiça. Bater palmas ficou muito sem sentido, depois que, na televisão, artistas se aplaudem a si mesmos, fingindo que aplaudem os acompanhantes ou o público, êste último convidado perenemente a aplaudir tudo e a todos. O govêrno auto-aplaude-se, imitando o nôvo costume, e o Brasil parece uma festa... encomendada. Vamos esquecer o convencionismo publicitário, diante das comemorações a Cascudo. Êste fêz coisas dignas de louvor, em sua contínua investigação de um sentido, uma expressão nacional que nos caracterize e nos fundamente na espécie humana.

Lendo agora o vasto documento de Joaquim Inojosa sôbre O Movimento Modernista em Pernambuco (também dois tomos em véspera de quatro), vou encontrar o jovem Luís da Câmara Cascudo, nos longes de 1925, tangendo a lira nova. Não é surpresa para mim, que o saiba poeta modernista, não arrolado por Bandeira em sua antologia de bissextos. Em carta que Inojosa reproduz (seu livro contém, muita coisa que vale a pena conhecer, como retrato intelectual dos anos 20), o futuro autor da Geografia dos mitos brasileiros manda-lhe dois poemas modernistas para serem publicados no Recife. Eram de um livro que em Agôsto se chamava Bruaá e em Novembro do mesmo ano passaria a intitular-se Caveira no campo de trigo. Nunca se editou êsse livro. O poeta Cascudo permaneceria inédito, sufocado pelo folclorista e historiador.

Êste cronista sabia da fase poética de LCC por haver recebido dêle, eram eras remotas, um Sentimental epigrama para Prajadipock, Rei do Sião, um reino “governado em francês”. Como também lhe conhecia êstes Lundu de Collen Moore, que marca suas preferências nativistas sôbre os mitos importados de Hollywood, é bem típico do nosso modo de dizer em 1929:

Os olhos de Collen Moore
olhos de jabuticaba
grandes, redondos, pretinhos...
mais porém
são olhos de americano,
meu-bem.
Eu sempre prefiro os seus,
meu bem!

Olhos de ver no cinema,
só lembra a gente espiando
e depois é se esquecendo,
meu-bem.
Eu sempre prefiro os seus,
meu-bem!

Ôlho de gente bem branca
que não mora no Brasil
fala fala atrapalhada,
meu-bem,
é ôlho de terra boa
mas porém
eu sempre prefiro os seus.
Meu-bem!...

Tocando o verso inicial pela prosa, Cascudo não abandonou “mais porém” a poesia. Em sua paixão de brasileirista, vista-a no lendário, nas tradições, na espiritualidade primitiva e lírica de nosso pessoal. E registra-a com êsse amor de tôda uma vida fiel à sua terra e sua gente.

Carlos Drummond de Andrade



Luís da Câmara Cascudo:
50 anos de vida intelectual - 1918/1968


Ao atingir os 50 anos de atividades intelectuais, Luís da Câmara Cascudo confessa não compreender que interesse possa ter uma confidência sua, como escritor "profissionalmente provinciano", sobre seus métodos de trabalho e os antecedentes de sua incurável enfermidade de amar os livros.

Mas nada pode recusar ele, autor, a quem tantos anos dedicou a expor sua bibliografia, revelando-a a ele mesmo; a quem se colocou a serviço de sua velha e teimosa obstinação livresca.

Volta-se para o passado e começa a incursão na infância. A difteria promoveu a anjos do céu seus três irmãos. Por isso e a partir de então, seus pais o cobriram de asfixiantes cuidados defensivos, tentando libertar da lei da morte o terceiro rebento, magro, triste, amarelo e distraído como certas consciências. Todas as coisas apetecíveis e sedutoras faziam-lhe mal. Evitar sol, sereno areia seca ou molhada, vento da tarde, cabeça descoberta, luz da lua, pé no chão, fruta quente, banho frio, pisar na grama; brincar de correr, de pular janela, cavalo de carrossel, comida de lata, brincar com menina, bolo de tabuleiro, água de maré, pingo de chuva; pegar em rabo de lagartixa, encangar grilo, catucar pinto, puxar rabo de gato e outras tentações - eis o código proibitivo de vida-menino que lhe era imposto.
Restou-lhe o direito de ver livro de figuras, colecionar estampas de santos e ouvir estórias de Trancoso, enquanto menino e rapaz, da ama Benvenuta de Araújo e, homem feito, da inimitável Luísa Freire, sua Sherazade analfabeta.

Aos seis anos sabia ler. Não sabia como aprendeu e nem para quê. Os livros enchiam-lhe a casa: presentes dos pais e dos amigos destes. Coleções, álbuns, revistas aos montões.

Esse ritmo, acelerou-se no tempo. "Annante cum fuoco". Foi o primeiro menino, em Natal, a possuir um quarto para a biblioteca que era visitada, gabada, aludida nos jornais por gente grande. Dispensável é, pois, salientar a gabolice infantil e a natural afetação do " leitor de calças curtas e gravata crisântemo".
O pai não o orientou, jamais, para tornar-se um homem prático, industrial, comerciante: uma dessas criaturas surpreendentes que sabem as quatro espécies de contas de alto manejo, para ele impossível.

Fê-lo, porém, estudar três anos de Latim com João Tibúrcio (1845-1927), mestre das gerações, lento, gordo, irônico, suficiente. Latinos e gregos compareceram nas velhas encadernações simpáticas. "Graecum est, non legitur". Aprendeu o alfabeto e a transpor para letra romana o correspondente grego. O Latim era disciplina dominical, porque o professor ia almoçar em sua velha, ampla, alpendrada e desaparecida chácara, na rua Jundiaí. As "sabatinas" tornavam-se risonhas, saboreadas das curiosidades lidas nos poetas e historiadores da Roma Republicana e Imperial. Empurrado para ler os gregos, deve a isso a sua predileção etnográfica, deparando no milênio a contemporaneidade local. Descobria que a farinha de peixe da Amazônia era conhecida dos babilônios; que o costume de estirar a língua já fora anotado em Tito Lívio. Superstições ouvidas na cozinha doméstica estavam em Horácio, Tácito e Suedônio, em Aristófanes e Xenofante.

Como 98% dos brasileiros, teve uma formação desordenada, confusa, alagante. Lia tudo, alternadamente, com a facilidade que possuía o seu pai de mandar buscar livros na Europa. Eram obras indicadas pelos amigos letrados, livros lidos sem muita percepção.

A História foi a sedutora inicial e o amor fiel inarredável, ensinando-lhe a velhice das novidades e a universalidade do regional.

Em 1922, aprendeu a ler o Inglês para acompanhar os viajantes pela África e Ásia. A informação ampliou-se pelo conhecimento dos grandes continentes misteriosos.
O primeiro artigo veio em 18 de outubro de 1918, publicado em A Imprensa, jornal de propriedade e direção do seu pai, o Coronel Francisco Cascudo (1863/1935). O jornal durou de 1914 a 1927. Nele, a geração de Luís da Câmara Cascudo espelhou vozes, "limando na pedra o bico da pena potiguar, riscando todos os assuntos sabidos ou deduzíveis".

Em 1921, surgiu o primeiro livro: Alma patrícia, "estudinhos de críticas sem examinar a gramática dos poetas". No livro, havia uma curiosidade: o final do volume inclui uma notícia bibliográfica. Era a primeira. João Ribeiro, Afonso Celso, Alberto de Oliveira e Monteiro elogiaram-no.

Pedro Alexandrino dos Anjos (1872/1917), seu antigo professor de literatura, tinha profunda desconfiança das citações. Habituou Cascudo a ir verificar nas possíveis fontes. Esse hábito tornou-se mania. Cascudo deixa de citar se não pode consultar a fonte original. Despreza citações em Segunda ou terceira mão. A experiência que adquiriu em 50 anos de pesquisa contínua provou "que a frase lida no original do texto tem, às vezes, significação bem diversa. E as em idiomas estrangeiro, sofrem identificação fatal".

Para Cascudo, a leitura diária, normal, inevitável, posta no rumo utilitário do conhecimento é uma capitalização insensível e normal. Enriquece o leitor sem que a memória perceba o lento acúmulo da riqueza disponível. Naturalmente, afirma ele, o dilúvio determina a escolha limitadora das águas para a navegação. E assegura que não se deve abandonar a visita amorosa aos velhos, às vezes esquecidos autores que guardam fundamentos indispensáveis à orientação ou aferição das derivas.


Zila Mamede

In Luís da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual - 1918/1968
Fundação José Augusto, 1970.




Sexta-feira, Julho 28, 2006

VAREITE, SEU!



"Quando nos dizem que há uma influência síria ou iraniana sobre o Hisbolá, respondo: ainda maior é a influência dos EUA sobre Israel."
Émile Lahoud, presidente do Líbano



Um sábado à flor da pele

Mais uma vez, a magia da sala escura ganha o acompanhamento luxuoso das letras. Neste sábado, dia 29, a Livraria Bortolai, em parceria com o Cineclube Natal, abre suas portas para a quarta edição do Projeto “Cinema e Literatura”.

É dentro deste ambiente convidativo, que os cinéfilos terão o prazer de assistir “Razão e Sensibilidade”, do diretor Ang Lee. Ao término da sessão, haverá debate com a platéia. A programação começa às 19h, no auditório da livraria, na Avenida Afonso Pena, 805, Tirol. O acesso é gratuito.

A escritora inglesa Jane Austen (1775 -1817), apesar dos poucos romances que escreveu, deixou como herança um estilo inconfundível. Ou seja, soube como ninguém observar e retratar com brilhantismo a sociedade de sua época. A versão cinematográfica de “Razão e Sensibilidade” deu início à febre da "Austen Mania" no cinema. Pouco tempo depois, outro livros da autora também ganharam vida na telona: "Emma", "Persuasão", "Orgulho e Preconceito" e "Mansfield Park".

Em “Razão e Sensibilidade”, Ang Lee conta a história da Sra. Dashwood, uma viúva que é obrigada a entregar as terras em que vive ao filho mais velho do primeiro casamento de seu marido. Diante da nova realidade, ela e as três filhas têm que se mudar para o campo e se adaptar a um novo padrão de vida. O filme ganhou os prêmios da Associação dos Críticos de Nova York 1995 (Melhor Diretor e Melhor Roteiro), Festival de Berlim (Urso de Ouro), Globo de Ouro (Vencedor de Melhor Filme de Drama e Melhor Roteiro) e Oscar 1996 (Melhor Roteiro Adaptado.

SERVIÇO

Livraria Bortolai
Avenida Afonso Pena, 805, Tirol
Tel: 3201 – 2611

FICHA TÉCNICA

Filme: Razão e Sensibilidade

Gênero: Drama
Tempo de Duração: 135 min.
Ano de Lançamento (Inglaterra: 1995
Direção: Ang Lee
Roteiro: Emma Thompson (adaptação do livro de Jane Austen)
Elenco: James Fleet, Tom Wilkinson, Harriet Walter, Kate Winslet, Emma Thompson, Gemma Jones, Hugh Grant, Alan Rickman


Livro: Razão e Sentimento
Autor: Jane Austen
Editora: Nova Fronteira
Edição: 2006
Outros livros do autor: "Orgulho e Preconceito" (Martin Claret, 2006); "Persuasão" (Francisco Alves, 1997), “Emma” (Nova Fronteira, 2002)

José Correia Torres Neto



SÁBADO NO SEA WAY
20:15h - Luiz Gadelha
21:30h - Valéria Oliveira


Cascudo

O Núcleo Câmara Cascudo de Estudos Norte-Rio-Grandenses, da UFRN, tem a honra de convidar para o lançamento do livro Leituras sobre Câmara Cascudo, de Humberto Hermenegildo de Araújo. Trata-se de uma coletânea de artigos publicados em revistas especializadas, assim como de participações em congressos e seminários.
O lançamento acontecerá no dia 29 de julho (sábado), às 18 horas, na Livraria Siciliano (Midway Mall).




Que tal preencher seu Sábado com mais arte?

Interagindo entre as possibilidades do diverso e do inverso, um grupo de artistas e produtores culturais está organizando um dia de encher olhos e seduzir ouvidos com a arte produzida na esquina do Brasil.

Quer participar? Dia 29/07 (sábado), a partir das 15h, é só você ancorar na Ribeira (prédio por trás do Banco do Brasil, em frente à Receita Federal) pra conferir uma mostra de curtas metragens, exposição de artes plásticas, exposição fotográfica, oficinas de Origami e papel e carvão, dança do ventre, intervenções teatrais e muita música.

De quebra, ainda leve umas 'quinquilharias' pra Feira do troca.

Venha!!!

15h – Abertura e formalidades - quem é quem nessa bexiga!
15:30h – Mostra de curtas, com vídeos de gente do RN
17h às 19h – Oficinas e visitação às exposições. Intervenções e recitais
19h – Chill out e outras cositas com Sammy (Agregados)
20h – Brigitte Beréu - MutuM



Plena de todos os sentidos
me entrego ao nosso momento:
que tem a duração de um passeio
que acontece entre palavras e paredes
que é único e raro
que é segredo!

Renata Marques



Vareite, seu Clárqui Quente!

Adispois de num sei quantas luas sem dá nutiça e nem rodete nessa catraca de doido, folgado qui só dentadura de véio amolegada na boca e mais à toa do qui sindicalista da CUT no guverno de Lulinha, porém, mais ligado do qui fio da COSERN e xórti de rapariga se amostrando em Ponta Negra, tenho a lhe dizê qui passei esse tempo todim me enchendo de livro aqui no Rio das Quintas.

Fui a várias cigarreiras e em todas elas comprei dois, três jornais do sul do país pra mode ficá mais desarnado, despachado, todo letrado e sabido. Garrei a lê, tomém, o véio revoltado e rabujento Ugo Vernomentti; os causos do cumpádi Leo Sodré (direto dos Unáites Esteites Ófi Mossoró); as escrevecenças de Dunga - "a alma mais penada do beco" - e a caluna toda chique de Ailton Medeiros, dando banho de cultura e ciença das coisas qui se assucede na terra dos cariocas.

Meu gosto por leiturança chega dói nos óios, seu Clárqui. Comprei uma ruma de cordel lá no sebo de Raminho Balalaica e li, com muntcha sastifação, "O Menino Que Nasceu Com Duas Cabeças E Quatro Bocas", de Pedro Quaresma dos Santos; "A Vida Triste De Zé Pancada", de Minelvino Francisco Silva; "A Queda Do Skylab E O Medo Do Povo", bem como "O Eclipse E O Cometa Kohoutek", ambos de José Francisco Soares. Li, tomém, "Satanás Trabalhando No Roçado De São Pedro" e a "Negra Da Trouxa Montada No Bode Preto", todos dois de José Costa Leite. Duma botada só li, ainda, "Antonio Silvino E O Negro Currupião", de Francisco Alves Martins; "A Estória do Homem Que Deixou A Mulher Por Uma Jumenta", de Joaquim Batista de Sena; "Os Prantos De Cacilda E A Vingança De Raul", além do afamado "Banho De Copacabana", todos dois de autoria do alagoano José Pacheco da Rocha. Tudo isso sem contá com vários discos de roedeira de Bartô Galeno, uns carimbós de Pinduca e um compacto da pernambuquinha Kátia Cilene cantando "Manchinha No Lenço".

Tomém tô revendo, no meu video cacête de duas cabeças, o filme "O Ébrio", de Gilda de Abreu, a mulé de Vicente Celestino. Só num dô conta de mode vê inté o fim, apois as águas dos zóios cumeçam a pingá de quatro em quatro, feito colírio Moura Brasil escorregando na cara de maconheiro.

Acho qui todo cu-de-cana devia de assistí um filme desse. Num sei pruquê num passa na Grobo. É de premeira e merecia de sê agraciado com o "Priquito de Ouro", lá no festivá de cinema de Gramado! Tresontonte passei na calçada da venda do "Genro" de cumádi Juvita, lá no antigo Peixe-Boi, hoje Gramoré.

Eita lugazim qui num me seduz. O povo de lá tem a triste mania de cumê e ficá alevantando os quartos, soltando bufa rasteira e espiando desconfiado pros ôtros... parece arte de quem comeu pirão azedo com cangulo estragado. Pense num povim mal-inducado pra gostá de fazê fita! É por essas e ôtras coisas qui prefiro ficá no meu "inzílio", aqui no Rio das Quintas, bebendo e ceiando dentro de casa pra mode num tê aborrecimento dessa qualistria, apois eu quero é paz.

Mas toda sexta-feira, quando largo da roleta, desço lá no Gancho e vô direto pra venda de Galego de Bilinha, tumá celveja gelada com rabo de tanajura frito passado na margarina. O povo "gelésse" acha uma d-e-l-i-i-i-i-i-c-i-a!

Lá eu sô amigo do garçon e tenho um reselvadozinho em riba da laje qui dá pra vê os "Detalhes De Um Pôr-Do Sol" tão arretado, qui num tem Nabocóvi e gota serena nenhum capaz de fazê pouco e butá defeito. Ah, se êle visse as calanguinhas qui aparecem por lá... num tem "Lolita" com vestido de chita e calcinha queimando arroz qui bote elas no chinelo!!!

Agora é só esperá o xôu de "Marisa aos Montes" no Alberto Maranhão, lá na "Ribeira véia de Guerra", visse? É cuma diz aqueles velsos da musga de "Zito Borborema E Seus Cabras Da Peste", qui era tema do programa "Patrulha da Cidade", lá na "Rádia Cabujalves":

- "Sou escurinho, doutô, mas freqüento a sociedade".

Rocas Quintas




Terça-feira, Julho 25, 2006

HISTÓRIA DO PÉ-QUEBRADO

Marcus Ottoni


"Eles querem vir comer o filé mignon que nós colocamos na mesa? Vão ter de roer o osso que nós roemos."
Lula

Alexandro Gurgel
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Espaço Empreendedor

Felipe Cabral debaterá no Espaço Empreendedor experiências do carnaval de Olinda como atividade que movimenta a economia local e integra as agremiações e comunidades envolvidas.

A Agência Cultural SEBRAE / SESI em continuidade às atividades do Espaço Empreendedor, realizará mais um encontro com os agentes culturais da cidade. Desta vez, o palestrante será o produtor cultural e carnavalesco Felipe Cabral, organizador do Bloco da Saudade, Empreendedor do Clube de frevo Escuta Levino e Coordenador Artístico do projeto Olinda é! Caranaval do Brasil. Serão esperados produtores culturais, carnavalescos, técnicos de instituições culturais, comerciantes, artesãos e demais interessados na temática.

O encontro ocorrerá no dia 27 de julho e terá como objetivo principal evidenciar intercâmbios e experiências com o carnaval de rua enquanto atividade geradora de emprego e renda, informações sobre atividades já realizadas, suas potencialidades, dificuldades, responsabilidades coletivas e resultados, bem como outros aspectos que apontem para o fomento desta importante atividade cultural.

O Espaço empreendedor é uma iniciativa da Agência Cultural SEBRAE / SESI para a aproximação dos agentes culturais e econômicos do Rio Grande do Norte, possibilitando assim, um espaço para a troca de informações, apresentação de propostas coletivas, palestras, bate-papos presenciais e outras formas de comunicação que promovam o fortalecimento do empreendedorismo cultural.

Data: 27/07/2006
Hora: 17:00 horas
Local: sede da Agência Cultural SEBRAE / SESI - Solar Bela Vista
Av. Luís da Câmara Cascudo, 417 - Cidade Alta
Informações : 3201.1131 e 3215.4990


agenciacultural@rn.sebrae.com.br
www.agenciacultural.com.br



CONTABILIDADES

Minhas queridas dúvidas
Acorrentam-se às velhas certezas
Juntas embelezam minha respiração
Fazem parte do meu cotidiano
Nivelam minha inspiração

Minhas descuidadas afirmações
Propagam-se pelo ar, evaporam
Algumas inocentes; outras indecentes
Duram o tempo certo, dissolvem-se
Desequilibram meu coração

Deborah Milgram



O BECO COM OITO PÉS A QUADRÃO

Léo já chegou namorando
E Hugo fotografando
O Dunga sempre pintando,
A SAMBA em reunião,
Pra resolver a questão
Que virou um rebu danado
A história do pé quebrado
Com oito pés a quadrão

Rosélis trouxe uma flor
Dizendo que era pra Clô,
Jornalista de valor,
Pra acabar a confusão.
E de todo coração,
Pediu pra deixar de lado
A história do pé quebrado
Nos oito pés de quadrão

José chegou todo prosa
E Meire querendo a glosa
De uma rima famosa
Que teve repercussão,
Segurando em sua mão,
José estava indignado
Com a história do pé quebrado
Dos oito pés de quadrão

Antoniel entregou a Tadeu
Um papel que ele leu,
De uma rima que escreveu,
Com singela perfeição,
Mas disse de antemão,
- Estou ficando arretado
Com a história do pé quebrado
Em meus oito pés a quadrão

O Barba chegou de "finim"
Se encostou lá num "cantim"
Só pensando no "chinim",
Quis entrar na discussão
E disse: Já tô com tesão,
- Isso me deixa tarado,
Essa história de pé quebrado
E os oito pés a quadrão

Mário chegou de repente
Ainda meio descontente
Por causa do deliqüente
Que roubou seu violão,
Mostrando indignação
Disse: Tô eletrocutado
Com a história do pé quebrado
Nos oito pés a quadrão

Pe. Agustin muito calmo
Com um livro na mão a palmo
Descreveu um lindo Salmo,
E recitou uma oração.
Com o livro ainda na mão,
Disse: Eu não fico calado,
Com a história do pé quadrado
Nos oito pés a quadrão

Ainda ressabiado,
Ele olhou pra todo lado,
E neste lugar sagrado
Abriu o seu coração.
E dando a sua benção,
Ele deu por encerrado
O assunto do pé quebrado
E acabou a confusão.

Chagas Lourenço



CUT a caminho da degeneração
Tribuna do Norte
25/07/06

Ao me despedir da presidência da Central Única dos Trabalhadores - CUT/RN, cargo que ocupei no período de 2003 a 2006, fiz uma retrospectiva do que foi o nosso mandato. Na ocasião, também fiz uma advertência: a nova direção da Central não tem o direito de encaminhar o debate em defesa da reeleição de Lula e de Wilma de Faria para os governos federal e estadual, respectivamente.

Entendemos que a reeleição de um governante só pode ser reivindicada quando se está exercendo o mandato de forma coerente, com ética e com moralidade e se foi efetivamente magistral no exercício do poder. O que definitivamente não é o caso de ambos governantes. Lula assumiu a Presidência lançando uma cruzada contra a corrupção e que as reformas exigidas pela sociedade seriam feitas por auxiliares competentes, escolhidos nos quadros funcionais de carreira. Hoje, vemos que há uma grande distância entre o discurso e a prática.

O que se esperava da equipe econômica era que os impostos fossem mais elevados aos que têm condições de pagá-los e que a aplicação desses recursos fossem feitos com correção, equidade e licitude. A reforma econômica não foi feita porque o governo Lula aderiu aos ditames do capital ao privilegiar os banqueiros, os especuladores e ao grande capital nacional e internacional.

Sem recursos financeiros da reforma econômica não houve condições de alavancar a reforma agrária de qualidade para o atendimento aos trabalhadores. Lula certamente não fará em um possível segundo mandato, pois está alinhado ao neoliberalismo destruidor dos anseios populares.

Também não foi feita uma reforma política consistente. Ela viria para acabar com o fisiologismo e com o aluguel de partidos na véspera de eleições. O que se vê são os partidos inescrupulosos negociarem favorecimentos eleitorais, enquanto os partidos constituídos com embasamento ideológico são prejudicados pela instituição da Cláusula de Barreira.

O governo Lula ainda tentou fazer uma reforma sindical baseada no reatrelamento do sindicato ao governo central. Para tanto seria criado o Conselho Nacional de Relações do Trabalho, com a finalidade de manipular e controlar a estrutura Sindical. Esta reforma ainda não é uma realidade devido à crise política gerada pelo Mensalão, que envolveu o governo Lula e o Partido dos Trabalhadores - PT.

Os serviços públicos funcionam em um estado caótico. Os acordos firmados pelo governo Lula e Wilma de Faria com o funcionalismo só saem por meio de pressão e greves. Algumas categorias, tais como magistrados, ministério público, tribunais de contas e o poder legislativo são privilegiadas com aumentos salariais. Situação contraditória com a maioria do funcionalismo, que fica com migalhas.

Não há razão de um sindicato de luta, uma federação, uma confederação ou a central sindical para apoiar a reeleição de governos que são aéticos, imorais, fisiológicos e que produzem e ampliam a dilapidação do patrimônio da sociedade de forma tão vil e grosseira.

O papel da CUT, como de qualquer entidade que se reivindique como vanguarda operária, é de construir o movimento sindical autônomo, independente, de luta e em defesa da classe operária. Se a CUT prosseguir com estes apoios irracionais e irresponsáveis, ela vai caminhar para sua degeneração.

Santino Arruda




Sábado, Julho 22, 2006

RIBEIRA DOS LIVROS

Marcus Ottoni


“A resolução do caos transformaria o Brasil num tedioso inferno de problemas resolvidos.”
Josias de Souza



GRAFITE

Imprimindo sua doce voz
Para suprimir minha confortante dor
Comprimindo seu prazeroso grito
Para restringir meu calado choro
Resistindo à sua explícita indiferença
Para afagar a minha estimada existência
Quase desistindo,
Declaro
Aqui e agora,
Gloriosa independência

Deborah Milgram



O caminho de comprar livros

Ainda lembro, no encantamento de minha juventude, de quando descia para a Ribeira em busca das novidades da Livraria Clima. Saía do colégio de bolsa nas costas e sol a pino. Descia a ladeira do Baldo embalado pelos gestos falsos da gravidade que mostrava a sua verdadeira intenção quando eu passava por baixo do viaduto e subia pela Rio Branco.

O cansaço esticava em légua e meia a ladeira ingrata. A calçada da esquerda era a que me proporcionava a melhor visão do majestoso e esquecido prédio da TVU. Dava uma paradinha no Cinema Nordeste para ver os cartazes das matinês e encontrava, vez por outra, alguma loira de olhar sedutor em uma posição meio desinibida que escondia seus fartos seios com as mãos, resguardando-se por trás do vidro da vitrina.

Voltava a Rio Branco e aproveitava para cortar caminho pelas ruas posteriores ao Churchill para ouvir a melancólica poesia que as pedras desalinhadas dos antigos calçamentos me segredavam. Atravessava correndo a Junqueira Aires até parar na calçada da Capitania. As brechas da velha fachada sem cor, juntamente com os restos das pequenas construções que se avizinhavam, deixavam-me encarar, do outro lado do nada, o rio Potengi.

Num pulo já estava no pátio da rodoviária. O ruge-ruge de pessoas e ônibus era o prenúncio do partir e do chegar. Velhos, crianças, feirantes, cestos de frutas, feijão, galinhas amarradas pelos pés, vendedores de amendoim, cobradores e seus trocados por entre os dedos, motoristas e seus cafés, apitos de fiscais. Era um sem-fim de imagens em breves segundos. Ônibus de porta de manivela esperavam malas, bagagens e bagulhos que se entocavam um a um em seu subsolo.

Meu passo sem medo cortava as plataformas dos intermunicipais e dos interurbanos. Alguns homens e mulheres sem-destino olhavam aquele reboliço em busca de alguns trocados ou, com um pouco de sorte, um trago a mais.

Entrava na Dr. Barata em busca da Livraria Clima. Ainda na porta procurava as estantes do lado esquerdo. Lá findavam as minhas buscas. Cheguei a passar horas folheando os livros e procurando aqueles que se encaixavam com a mesada semanal.

Esbaldava-me com tantos livros. Foi lá que conheci as letras de Alex Nascimento (Quarta-feira de um país de cinzas) , Celso da Silveira (50 glosas sacanas), Tarcisio Gurgel (Os de Macatuba), Deífilo Gurgel (Os dias e as noites), Waldir Reis (Nós sofre, mas nós glosa), José Alexandre Garcia (Acontecência e tipos da Confeitaria Delícia) e tantos outros escritores.

Amealhei alguns trocados economizando no lanche escolar, para conseguir comprar alguns livros. Hoje, quando passo em frente da antiga Clima, sinto a saudade do trajeto Alecrim-Ribeira. Sinto que minha disposição já não é a mesma e não consigo mais ver as estantes do lado esquerdo onde me encantavam o buscar e o revirar livros. A velha rodoviária ainda permanece com aquele cheiro de esquecimento. Nunca deixará de ser velha. Talvez por já ter nascido assim.

Enfileirados em minha estante descansam os antigos exemplares. Guardam o meu carinho e alguns segredos em suas letras. As folhas soltas, marcadas, relidas, fazem um trajeto que nunca sairá de minhas lembranças. Uma lembrança que nunca será substituída...

José Correia Torres Neto




Quarta-feira, Julho 19, 2006

BIBLIOTECA DA MENTE

Marcus Ottoni


“A Síria tem de forçar o Hezbollah a parar de fazer essa merda.”
George Bush, numa conversa privada com Tony Blair, durante a cimeira do G8

"Meu marido e meus primos ainda estão lá, um país encantador que, infelizmente, está sendo palco desse terrorismo barato que está assustando o mundo todo".
Joheina Mankara, residente em São Paulo, que voltou do Líbano com medo do bombardeio israelense.


Alexandro Gurgel

Encontro da Samba, sábado passado, no Bar de Aluízio

RITUAL

Cobro
A cobra
Descubro
A coberta
Desperto
E me cubro
Com a incerteza
Dessa roleta-russa

Deborah Milgram



Informes Samba

A entidade está legalizada juridicamente: CNPJ, certidões junto à Secretaria Municipal de Finanças, Ministério da Fazenda e Secretaria da Fazenda.

O Pratodomundo está já sendo encaminhado pela comissão de cultura (Civone, Dorian e Julinho). Será em outubro. Já nos reunimos com Eduardo Viana do Sebrae, temos audiência marcada com Dácio Galvão da Capitania das Artes e, lógico, também procuraremos a FJA.

Foi criada também uma comissão para encaminhar o Projeto Social (Prof. Bira, Aluízio Matias e Carlos Albérico). O rascunho foi enviado à lista para subsidiar a discussão dos membros, que por ventura estejam motivados a contribuir. Infelizmente, não foram muitos, mas a reunião, no real, foi muito boa como as fotos podem demonstrar.

Está sendo construído o Site becodalama.com.br Conseguimos o domínio próprio no Portal das Dunas, que é propriedade de um dos nossos conselheiros, o Mário Manga Rosa.

A diretoria continuará realizando a reunião mensal oferecendo sempre atrações culturais com música ao vivo, exposição de trabalhos de artistas da comunidade, lançamento de livros, etc. como forma de estimular a participação de todos nas discussões dos projetos, democratizar as decisões e descentralizar as ações.

Foi acatada por aclamação dos presentes a intenção da diretoria em cumprir e fazer cumprir o estatuto no que diz respeito ao pagamento da contribuição social estipulada em R$ 2,50 a mensalidade ou R$ 30,00 a anuidade ou a forma de pagamento que o sócio achar mais conveniente, desde que pague.

O Jornal da SAMBA deve ser lançado em agosto. O jornalista responsável será o companheiro Alex Gurgel, que, diga-se de passagem, tem demonstrado espírito público divulgando e participando das nossas reuniões.

Ubiratan de Lemos
Diretor Executivo - SAMBA




A Biblioteca sagrada da minha mente

Por força de circunstâncias que não pretendo relevar ao leitor curioso (que leitor não é curioso?) fiquei temporariamente afastado de minha Biblioteca. A principio a separação dos meus livros me doeu na carne, acostumado que era a qualquer momento consultar algum deles ou simplesmente contemplá-los imperais, harmoniosos, arrumados verticalmente nas estantes de madeira.

Contudo, passados alguns dias longe da minha Biblioteca (sempre com B maiúsculo, como vaticinava mestre Borges, sábio maior desta entidade mágica e sagrada denominada biblioteca) a dor amainou. Não que a paixão (ou amor) pelos meus livros tivesse desaparecido com a distância (como acorre com tantos amores ditos eternos...) mas sim pela descoberta, ou percepção (talvez revelação) que minha Biblioteca na verdade não é algo apenas físico, mas que existe prioritariamente em minha mente. Ela não precisa estar perto de mim meus olhos para existir. Ela existe em mim. Pra levar o raciocínio metafisicamente mais longe, minha Biblioteca só existe porque eu existo; eu morrendo, a Biblioteca também não mais existirá.

De forma que a revelação fez com que eu veja e sinta meus livros a toda hora, estando em min há nova casa ou não. Consigo visualizar cada um dos meus...livros (leitor curioso, não importa o número de livros de uma Biblioteca, oito ou oitenta mil, o que importa é a relação - necessariamente doentia - entre o leitor-dono e a Biblioteca). O raciocínio apresentado entre os parênteses acima leva à constatação de que a minha Biblioteca só existe enquanto minha, posto que foi a aquisição particular de cada dos livros que a compõem que a torna uma Biblioteca. Ou seja, minha Biblioteca em mãos alheias não passará de um amontoado de livros. Da mesma maneira que a Biblioteca de Câmara Cascudo só o era enquanto ele estava vivo e tornando viva a sua Biblioteca. Após sua morte, a Biblioteca de Câmara Cascudo passou a ser uma peça de museu, estática, pois que ninguém mais poderá acrescentar um livro nela. Idem com a biblioteca do felizmente ainda vivo José Mindlin. Sua Biblioteca só existe porque ele existe. A morte do primeiro acarretará na morte da Biblioteca enquanto ente sagrado, vivo, dinâmico.

Contemplando com os olhos sempre argutos da mente a minha Biblioteca, evoco livros que só existem como o são para mim. Como o exemplar de “O Jardim do Éden” de Hemingway, comprado em um sebo da avenida Ipiranga, quando eu morava em São Paulo no início dos anos 90. Como não identificar o triângulo amoroso do livro com aqueles dias chuvosos e com a fumaça paulistana? Cada vez que leio o livro – e o fiz várias vezes – evoco aquele sebo (qual o seu nome? Não lembro...) e aquele período de minha vida.

Vejo com minha mente meu exemplar de “Os demônios de Loudun”, de Huxley, comprado há meia década no Sebo Vermelho, de Abimael. Capa brega, livro quase caindo aos pedaços, mas cheio de marcações dos antigos donos e lido em uma época admirável da minha vida.

Vejo ainda outros livros. Possuo três exemplares de “Dom Casmurro”, um deles, mais recente, de capa dura, mas para mim Capitu é mais Capitu e Bentinho mais Bentinho quando leio a edição da Ática em papel jornal comprada na livraria Universitária ainda nos anos 80, com papai ainda vivo. Salvo engano, compramos o livro, cujo nome me parecia enigmático, lanchamos na finada Lojas Brasileiras, fomos ao Café São Luiz, onde eu podia assistir a papai em ação com suas anedotas e gargalhadas e por fim, fomos para casa onde comecei a ler a obra prima machadiana. Claro que aos onze anos não entendi todas as nuances, mas o livro, de capa preta com um desenho multicolorido, ainda está nas minhas Bibliotecas (a real e a da minha mente).

Nesta Biblioteca da minha mente estão até mesmo livros que já se foram. É o caso de “O homem que olha”, de Moravia, que emprestei para meu amigo Cláudio em 1989 e ele perdeu em um bar durante uma bebedeira. Mas, para mim, o livro continua lá nas estantes, ao lado de “1934”, “A romana” e “A ciociara”. E se tiver que recuperá-lo, quero que seja da mesma edição da Nova Fronteira, com a mesma capa azul e branca. Vejo também na minha estante o clássico hardcore “Albertine no inferno”, que está há um par de anos em poder da amiga jornalista Vilma Torres (desculpe a cobrança pública, mas para recuperar livros, como no amor e na guerra, vale tudo!) Ah, os livros emprestados que jamais voltaram para Biblioteca...filhos queridos que se foram...que os amigos me perdoem, mas como alertou Cid Augusto em um artigo, ladrão de livros vai para inferno...

Continuo de olhos fechados então e navego na minha Biblioteca sagrada, nas marcações que fiz com marca texto (geralmente cor laranja), nos endereços e telefones riscados nas páginas em branco dos livros, nas notas fiscais esquecidas dentro de exemplares. Velejo no mar dos poetas que admiro, Pessoa, dos Anjos, Castro Alves... e me afogo nos versos das poetas por quem sou eternamente apaixonado (Cecília, Florbela, Zila, sempre elas...) e me perco nos braços e olhares de Capitu, Oriane de Guermantes, Diadorim, Lady Brett Ashley... por fim me vejo da Biblioteca de Babel, hexagonal, sagrada, labiríntica, como escreveu Borges, que sem ver, a tudo via.

Acordo do sonho então, satisfeito como quem acorda de uma noite de amor carnal. Minha Biblioteca pode até ser incendiada, como aconteceu com a de Alexandria, mas, jamais terá fim, por estar sempre dentro de mim. Em nome de Jorge Luis Borges, amém!

Cefas Carvalho




Terça-feira, Julho 18, 2006

CONFIRME

Marcus Ottoni


"Quando a água recuou, todo mundo começou a gritar que vinha um 'tsunami'. Agarrei a minha mulher e meus dois filhos e fomos para longe da praia, de moto. Ficamos com muito medo. Esta noite ninguém dormiu. Nossa casa fica muito perto do mar e, de longe, vimos como ela desapareceu debaixo de uma parede de água negra."
Deny Mulyani, pescador indonésio


Hugo Macedo


Confirme

Se recebeu um arco-íris de presente
Confirme o que sente
E vê se não desmente
O que ainda não disse

Vê também se não desmente
O que de se bem querer não Kiss
É apenas para entender
E não se desfazer
De todo meu bem querer

Confirme

Se além do arco-íris
Existir uma lua
E com ela meio deserta, meio nua
Uma velha rua

E sob ela, a sombra da lua
Nossos corpos a planar
De mãos dadas, em pleno ar

Confirme

Se há algo melhor
Que essa estranha e insustentável
Sensação de leveza
Que só o amor dá

Confirme !!!

Cristina Tinoco



GREENWICH

Foi num desses verões
Tropicais,
Peles queimadas pelo sol,
Rostos reluzentes
Sonhavam com outro presente
Acompanhavam

Foi num desses verões
Tropicais
Na calçada fervente
Almas em trânsito
Pararam, olharam,
Evaporaram

Foi num desses verões
Tropicais
De repente duas bocas
Doces sensuais
Emudecem, umedecem
Estremecem

Deborah Milgram



O amor

Uma praia deserta, uma barraca, um jovem casal apaixonado, muitos beijos e carícias em meio à luminosidade de um final de tarde e nenhum dos dois cabe em si de tanta felicidade. É uma cena da novela das sete, onde o casal protagonista irá enfrentar muitos desafios e desencontros, antes de ficarem juntos e viverem felizes para sempre.

O amor. Ah... o amor! Tão lindo e tão contraditório é o amor. A sua busca pelo ser humano é a mesma busca pela felicidade. Encontrar a metade da laranja, o outro pé do chinelo, a alma gêmea e ser feliz é tudo o que se quer desde sempre, pois “ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, sem amor eu nada seria”. E do amor “falou-se tudo e tanto e sigo e segues entendendo quase nada”.

Há quem acredite no amor predestinado, escrito nas estrelas, amor pra vida inteira, que se perpetua e não acaba nem com a morte. Há quem acredite no amor do aqui e agora e que devemos amar tudo e tanto quanto for possível e dane-se o resto. Há os que amam tanto que por medo de perder transformam o amor em posse e prisão até que ele acabe e vire dor.

Há também os que acreditam que estão fadados a amores impossíveis, do tipo “quando é a minha hora nunca é a sua vez”, e para esses não tem jeito porque o sonho sempre acaba doído e tarde. Há, ainda, os que preferem o anonimato dos amores escondidos. E há, também, os que como a minha sábia vizinha, acreditam que não há amor que sobreviva às dificuldades impostas pela miséria e “quando a pobreza bate à porta, o amor sai pela janela”. Como Fernando Pessoa, há os que pensam que “ninguém ao outro ama, senão o que de si há nele” e nesse caso amaríamos no outro o nosso próprio reflexo.

Eu, romântica que sou, acredito em muitos tipos de amor, mesmo nos proibidos, e que cada um ama conforme a sua capacidade de amar. E que em troca do amor que damos, não recebemos, necessariamente, a mesma medida. Acredito, também, que o amor pode acontecer a qualquer um e em qualquer tempo e lugar e que chega desavisadamente e se instala, soberano, dentro de nós. Que ele, o amor, está fora de todos os códigos que conhecemos e que por vezes parece ter vontade própria e nos transforma em títeres. Nada é estranho, nada é proibido aos que amam. A experiência inigualável do amor é a mágica do conhecer e do descobrir dentro de si e do outro, lugares e sentimentos nunca antes visitados.

Faço parte daquele grupo que pensa que é o amor que colore a vida, nos dá viço e gosto de viver. Que é quando amamos que ficamos mais interessantes, nossos olhos brilham mais, ficamos mais criativos, motivados e sentimos prazer e nos realizamos.

Quando não amamos ficamos como plantas impedidas de ver luz e sentir o calor do sol, e por isso os nossos dias, independentemente da estação do ano, são frios e a vida é um filme em preto e branco. Sabemos que as cores estão lá, mas não as vemos, não estamos sintonizados com elas, pois estão escondidas em meio à bruma triste do nosso não sentir.

Acredito no amor que vê no ser amado a beleza que os outros não conseguem ver. No amor que está além da idade e que o tempo não acaba, como aquele que Rubem Alves descreve entre a Menina e o Pássaro Encantado, cuja história termina assim:

“Muito longe dali, o Pássaro se olhava no espelho e chorava os sinais do tempo gravados no seu rosto e a única coisa que via era sua própria imagem. De repente, entretanto, algo passou bem no fundo a sua alma, como se fosse um Vento Leve, bem leve; ou um raio de sol crepuscular; uma pequena chama de fogueira no frio das montanhas; um sonho bonito, em meio à noite... E ele se lembrou da Menina. Onde estaria ela?

Deixou sobre a mesa o espelho e saiu 'em busca das marcas da sua Ausência', no perfume das flores, no gosto dos frutos, no quarto vazio... Havia por todos os lugares a presença da sua Ausência. E naquele corpo, por tanto tempo morto dentro do espelho, o Desejo cresceu, o rosto sorriu, as asas se abriram e o que era pesado voou... ressuscitou...

E cada um deles (pássaro e menina) partiu, ignorando o que o outro fazia, em busca do reencontro... O feitiço fora quebrado. Estavam apaixonados. Voavam leves, ao Vento, com as asas da saudade... E ambos traziam, no brilho dos olhos, os sinais da juventude eterna que os anos não conseguem apagar... Porque os que estão apaixonados, não envelhecem jamais...”

Ah....não é mesmo lindo o amor? Mas nos tempos de hoje, somente um amor e uma cabana não bastam para que alguém seja feliz. Pode ser contraditório, mas nesses casos, até o meu romantismo exagerado tem limite.

Neide de Camargo Dorneles




Antiga guloseima é vendida nas ruas de Mossoró

"O homem do cavaco chinês - estranha massa de farinha de trigo, parece que feita exclusivamente para aguçar a fome - com um baú cilíndrico às costas e a agitar o característico triângulo numa inconsciente aplicação prática da ação do som sobre a secreção salivar, vibrava nesses tímpanos e espremia nossas glândulas salivares enquanto anunciava:

- Ôie o cavaquinho chinês".


(O Jornal. Rio de Janeiro, 03/09/1950 - Brandão, Téo, em Boletim trimestral da Comissão Catarinense de Folclore).

O vendedor de cavaco chinês era inevitável nas ruas da infância. Ele passava todos dos dias tocando um triângulo de ferro, oferecendo a guloseima que parece um casquinho de sorvete, mas que é muito mais gostosa. E é barato. Até hoje é muito barato. Em Mossoró, ele custa R$ 0,20 centavos a unidade, sendo oferecido no formato de uma casquinha gigante parecido com as de sorvete. Delicioso e aceito por todos. Noutras cidades, como Natal, ele é vendido chapado dentro de saquinhos de plástico. A informação é do único fabricante mossoroense do produto, Manoel Maria Marinho que, aos 28 anos, casado e pai de dois filhos, sobrevive apenas disso. Aprendeu o ofício ainda adolescente "com um vendedor chamado Josimar".

Depois, conheceu "seu Francisquinho", 102 anos, que lhe vendeu a primeira prensa, que ele chama de "máquina" e que calcula ter uns 120 anos, considerando que ele já há havia adquirido de outra pessoa, no início de sua carreira de fabricante de cavaco chinês. Ele imagina que Francisquinho foi a primeira pessoa a fabricar o produto em Mossoró, no início do século passado.

Não é fácil encontrar muitas informações sobre a origem do cavaco chinês. Na Internet quase não tem nada. Poucas citações lúdicas, mas Manoel Maria diz saber que "cavaco significa raspa de pau, coisa pouca e que teria sido inventado na Índia, porque pessoas muito pobres precisavam aproveitar o máximo do pouco que tinham para distribuir em casa". "Por isso - enfatiza, - o cavaco chinês, que não tem nada de chinês, é tão fino e delicado".

A "fábrica" é nos fundos da casa de Manoel, que produz e vende juntamente com apenas um vendedor, Marcos Roberto da Silva, 27, também casado e pai dois filhos. Produz em média 300 cavacos por dia, das seis até as 12 horas, almoça e depois sai para vender nas regiões próximas da sua casa, que fica no bairro Belo Horizonte.

Perguntado por que vendia tão barato, explicou: "Dependendo do freguês, pode ficar um pouquinho mais caro".

Ele tem uma clientela fiel e normalmente vende toda a produção. "Tem gente que vem de Areia Branca e outras cidades, mas eu não dou conta de fornecer para muita gente porque eu não posso perder a qualidade do produto". Realmente, ele trata com carinho todo o processo de fabricação, inclusive usando luvas e procurando evitar o máximo de contato de pessoas quando está assando a massa, que manuseia de forma artesanal. "Aqui somente uso água, farinha de trigo e açúcar e cada cavaco é feito individualmente nas prensas novas e na velha que foi de seu Francisquinho", explica.

O TRIÂNGULO E A LATA - A lata, como chama o cilindro que os vendedores usam para transportar o produto, é absolutamente igual em todos os locais. Os vendedores de cavaco chinês sempre a usaram e são reconhecidos de longe. Mas, existe um componente interessante: O triângulo feito de ferro que, segundo Manoel Maria, é usado para chamar a atenção termina servindo para criar estilos musicais. "Eu toco mais compassado, diz, e ele, (Marcos) toca mais fininho, mais rápido".

Curiosidade - Manoel Maria afirma que "muita gente não sabe o que é um cavaco chinês. A gente sai tocando, chamando a atenção e as pessoas perguntam: O que é isso? Não é casquinha de sorvete? Outros perguntam pelo "recheio". E não vai botar nada aí dentro? Outros somente querem tocar o triângulo e terminam comprando o produto que é feito em fogão a carvão, lentamente".

As pessoas mais novas ficam curiosas e quando provam gostam do gosto do passado de muitos que, fora o cavaco chinês, conheciam poucos outros doces. "Muita gente importante, comerciantes, industriais, gente mais velha, vem até aqui em casa para comprar. Usam em aniversários, ornamentam tortas, esse tipo de coisa"... Encerrou.

Leonardo Sodré




Domingo, Julho 16, 2006

PRÍNCIPES OU SAPOS?

Marcus Ottoni


“Quem é bonito, é bonito. Nem só, como também.”
Marcelus Bob

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Musa bailarina

Arlequim e Colombina
no bloco tocam pistom
botam pó rouge e batom
confete com serpentina
minha musa bailarina
teu perfume eu vou cheirar
um bom fumo vou tragar
longe daqui, aqui mesmo
tem cerveja com torresmo
na piscina azul do mar

João Gualberto Aguiar




Com vertigem e perícia

Sob as torres de Gaudí,
Acredito no amor como acredito em Deus
- com vertigem e perícia.
Caminho pelos subterrâneos e revejo lendas
- fábulas que negros olhos me mostraram.
A beleza permanece com as faces lanceadas.
Como lhe falar da estupidez humana?
Tenho comigo o sudário marinho.
É com ele que sou puta e sagrada.
Celebro nesta noite
uma vida de pontiagudas adagas.
Porque estou só nestas ramblas
consigo contemplar certos mares
e certas sedes escandalosas.

Marize Castro




Homens: Príncipes ou Sapos?

Cá entre nós, mulheres – e que os homens não nos ouçam -, não deve ser nada fácil ser homem hoje em dia.

Você duvida? É só prestar um pouco de atenção e perceber a avalanche de receitas que circulam por aí, ensinando como entendê-los como se eles fossem seres de outro planeta que aterrissaram diretamente no mundo feminino. Nunca se viu tanta tentativa de explicar o quanto e como são “diferentes” de nós, mulheres. E nós corremos para as livrarias porque queremos que nos digam “Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor” (aliás, o livro é interessante!), queremos entender as nossas diferenças de “Homem Cobra, Mulher Polvo” (e não é que faz sentido?!).

Incansáveis que somos, estudamos psicanálise e devoramos a teoria junguiana para ficarmos especialistas em anima X animus. E a ciência conseguiu provar por a mais b que a mente masculina funciona de forma diferente da nossa e por aí vai. Mas, por favor, não estou aqui negando o valor inestimável da psicanálise, o maravilhoso avanço da ciência, nem dizendo contra as obras em questão, pois, afinal, sou uma mulher do meu tempo.

O fato em questão é que crescemos (a minha geração) acreditando em conto de fadas e que se fôssemos boazinhas, um dia, um príncipe valoroso-lindo-rico-sedutor-fidelíssimo bateria à nossa porta e nos levaria para o seu palácio encantado. Um dia o homem-príncipe surge na nossa vida e nos apaixonamos perdidamente. Só que a história passa a ser diferente quando descobrimos que ele é cheio de imperfeições, não é e nunca vai ser aquele que idealizamos e, sabe o que acontece? Sim, você sabe tanto quanto eu, que quando se apresentam desencantadamente normais, os príncipes viram sapos.

Queremos um homem maravilhoso e irresistível como Dom Juan De Marco, do filme (e que atire a primeira pedra quem não tenha se arrepiado inteira ao vê-lo se aproximando, com olhos hipnóticos, da mulher na outra mesa, pegando-lhe a mão e beijando-lhe cada um dos dedos, ai, ai...) e queremos que ele nos seja fiel e é aí que a porca torce o rabo (um Dom Juan fiel? Jamais). Queremos um homem que seja protetor, que pense na família, na casa, adivinhe nossos pensamentos, que seja ardente e um excelente amante que nos enlouqueça na cama e que nos surpreenda todos os dias e que entenda a nossa TPM. Queremos, sim, encontrar o homem que sonhamos e não devemos desistir disso.

Há muita gente feliz com seu parceiro ou com sua parceira. Mas o nosso ideal precisa ser coerente para não se tornar irreal. Ou estou completamente equivocada?

Se você é mulher como eu e ainda estiver lendo esta crônica, não pense que isto é um tratado a favor do machismo, tampouco um habeas corpus para ser distribuído a cada homem no intuito de absolvê-los dos inúmeros golpes que levamos, muito - mas não tudo - por conta da herança cultural da qual fomos/somos vítimas. Nada, também, justifica um defeito de caráter, seja ele feminino ou masculino.

O que quero, na verdade, é louvar as diferenças quando imagino quão insuportável seria se os caminhos dos nossos pensamentos fossem os mesmos, se homens e mulheres “funcionassem” da mesma forma. A vida seria chata, previsível, maçante e nada ou muito pouco seria acrescentado de um para o outro. E porque somos diferentes, somos instigados, desafiados o tempo todo. Penso que é por isso que o jogo do amor existe e que por isso conquistar e ser conquistado é tão gostoso.

Por mais que nos esforcemos não podemos nos adivinhar, apenas nos sentir e é isso o que realmente conta. Não sou contra os manuais de “entenda o seu homem agora mesmo”, porque, afinal, a intenção é aproximar - além de vender, é claro. Mas sou a favor de sermos essência, essência feminina e essência masculina, sem grandes estresses nem neuroses. Somos seres, homens e mulheres, imperfeitos, que se complementam e crescem juntos. E para isso fomos feitos. Ainda bem.

Neide de Camargo Dorneles




Sábado, Julho 15, 2006

0609-00 = ZERO

Marcus Ottoni


“O prefeito cometeu um equívoco. A Ribeira nunca foi o berço da Cidade de Natal. Ela foi fundada em 1599, no local onde hoje é a Praça André de Albuquerque, na Cidade Alta. Por muitos e muitos anos, aqueles aceiros onde se ergueu a primeira igreja (e a matriz de Nossa Senhora da Apresentação está lá, mais do que quatrocentenária) foram o primeiro lugar povoado da capitania. A primeira povoação, o primeiro aglomerado, as primeiras casas. Depois ergueram o prédio da Cadeia, com o Senado da Câmara em cima, e o sobrado do Governo. Era a Rua Grande, olhando para o Rio que corria no pé do platô, lá embaixo, aonde mais tarde viria a ser o Passo da Pátria.”
Woden Madruga

Hugo Macedo

Detalhe da Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, que tomou lugar da capelinha ao derredor da qual nasceu a cidade do Natal

FOME DE VOCÊ

Ah, se você chegasse agora
Certamente eu não iria olhar
Qual a hora
E iria te abraçar
Te cheirar, te acarinhar
Te morder e te ninar
Até me saciar.

Ah, se você viesse logo
Certamente eu nada iria dizer
apenas te morder
E querer te comer
Com a fúria de uma antropófaga

Primeiro a tua orelha.
O lóbulo tenro, molinho
Iria desfibrá-lo todinho
qual pássaro fazendo ninho.

Depois teu pescoço
longo, durinho
Tão cheio de osso.

Depois teu peitinho
pequenino, bonitinho.
Ia ficar só o furinho

Ah, e tua barriga
macia, comprida
Viraria uma grande ferida.

Descendo mais um pouquinho
Ao céu, ia encontrar o caminho
Mas não te comeria.
Aí a coisa se inverteria
A caça viraria caçador.

Ah! Meu amor!
Tudo não passa de devaneio
Por não te ver há tanto tempo
Que já ando assim
Doidinha e a fim
de te comer e de te querer
Pertinho de mim numa noite sem fim.

Dentrinho de mim
Você sendo eu, eu sendo você.
A gente se fundindo até se perder
Neste paraíso, que sem aviso
Nos leva pra terra do além
Da dormência, da indecência
Do amor, do não pudor.
Ah, se você chegasse agora meu amor!

Cristina Tinoco



MEU HOMEM

Afundas em mim
E te faço líquido
Mergulhas em mim
E te sinto ser

Moras em mim
E te conheço homem
Defeitos e efeitos
Da educação, da discriminação.

Navegas em mim
E te guio capitão
Ao porto seguro
Da paz, da comunhão.

Habitas em mim
E te faço Deus
Completo, sereno, maneiro.
De corpo inteiro

Meu Deus
Meu trovão
Meu Diabo
Minha Alucinação

Explodes em mim
E te sinto universo
Fagulhas de vida
Transformadas em versos

Te amo tanto
Que enlouqueço
Entre teus braços
Teus pêlos, Teus desvelos

Te amo tanto
Que me desespero
Pois te quero

Te quero
Como o mar quer o luar
Para lhe pratear
Como o céu quer as estrelas
Para lhe cintilar
Como a flor quer a abelha
Para lhe polinizar

Meu homem
Minha paixão
Minha outra metade
Minha complementação.

Cristina Tinoco


Cristina Tinoco e Eduardo Alexandre

Destino de gado

Ah, agora eles descobriram as comunidades do Orkut!

Até o começo de outubro, nossas caixas de e-mail gmail ganharão centenas de mensagens ”Participe da comunidade de sicrano deputado 0609-00 = Zero”.

Quanto tempo tiveram antes? Podiam ter enviado mensagens tipo: atendendo apelo da comunidade, consegui que fosse aprovada a lei que pune todas as indecências, com a ressalva das sexuais consentidas e prazerosas, e aplaude todas as virtudes dos humanos bons de coração e até os nem tanto de juízo, mas merecedores por caráter, ações nobres e/ou gestos de generosidade.

Mas não tem importância.

Não darei importância a elas, as mensagens/convites para participar de tais comunidades, até porque cansei de ser massa de manobra e voz usada para fins que até podiam ser verdadeiros, mas que se viram traídos – os fins.

Por isso, estou afim mesmo é de assistir o jogo sorrindo, contemplando de fora todas as macaquices dos estripuliantes contendores, senhores de todas as virtudes e de todas as soluções.

Como não participarei das comunidades das buscas de votos, comprometo-me a não perder uma sessão sequer de programa eleitoral gratuito. Catalogá-los-ei entre os meus favoritos de todos os dias, para a discussão vespertina e noturna, se necessária e producente, de todos os dias nos bares galhofeiros e acirrados do Beco da Lama.

Espero com essa propaganda, que faço questão de receber, mudar de opinião cética, cheia de descrédito e de desalento.

Eu precisava acreditar em Deus e não consegui.

Por não acreditar em Deus, procurei acreditar no seu criador, o homem, mas ele se me tem mostrado pior do que a antítese criada por quem o homem criara – o anjo mau, também conhecido por Satangoz, no dizer matuto do meu Nordeste.

Vou tentar, pelo menos. Vou me plantar diante da tela mágica e tentar que os discursos dos marqueteiros lidos dos teleprompteres pelos candidatos me convençam a sair de casa no dia combinado para dar meu voto a alguém.

Não vou deixar de votar. Vou escolher um nome em cada alternativa que me for posta. É o que quero: vou, mais uma vez, fazer fé.

Declarar em quem vou votar, até posso. Como até posso me indispor com amigos e trocar tapas pelas minhas convicções – embora isso eu repudie.

Sinto que nunca estivemos tão sem alternativas; tão em descrédito com o porvir que já parece tenebroso de véspera e, pior, em marcha acelerada para o destino do gado ao abate que se faz próximo e sabido.

Mas vou, não me recuso: briguei pelo jogo.

Eduardo Alexandre




Quinta-feira, Julho 13, 2006

SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA

Marcus Ottoni


"Não estamos fechando por medo, mas porque todos os clientes foram embora."
Antônio Calixto Pinheiro, garçom do Genésio, bar na Vila Madalena (zona oeste), um dos principais bairros boêmios da classe média paulistana.

Hugo Macedo
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Sindrome da abstinência

Entre ter-te tão pouco
Ou não ver-te mais
Sou mesmo exagerada
Amar-te: jamais

...

Face ao silêncio
Mais uma vez calamos

Frente às palavras-punhais
Emudecemos

Mediante a Distância
Sofremos

O Silêncio

É castelo
Modorra, mordaça
Amarras de sentimentos
Vislumbre de momentos

Momentos delícias
Momentos tormentos

Momentos calados
Anulados
Não realizados

Face ao silêncio
Esmorecemos
E não vivemos

Crys
Em Crysi s




BILHETE DA EUROPA
O Outro Lado das Notícias

The day after

Possivelmente não serei o único, nesta semana, a usar a expressão “O Dia Depois”, título de um filme que hoje significa e é usado por jornalistas e editoriais para resumir uma data importante de um evento mundial.

Durante semanas esquecemos não a guerra, mas as “guerrilhas” urbanas no Iraque, na Somália, na Tchetchênia, no Timor, no Oriente Médio e Índia. Saíram das manchetes os escândalos com políticos e grandes empresas aqui na França, A380 e o “dopping” de ciclistas antes do Tour de France. E como no Brasil, é a globalização da crise moral que nosso planeta está afundado, conseqüência da inépcia e corrupção das elites políticas da esquerda e da direita.

A ilegítima agressão cometida aos Poderes Constitucionais, à Constituição de alguns países, ao Charter das Nações Unidas, aos Direitos Humanos, agressão essa por parte das lideranças políticas, dos poderes econômicos e militares numa incestuosa associação da imprensa e de algumas religiões e seitas religiosas, marcará indelevelmente a história da humanidade no início deste Século XXI.

Foi suficiente olharmos nos painéis de propaganda nos estádios europeus palco dos jogos da Copa para nos apercebemos o quanto estamos submissos à força do marketing e por que não dizer, da importância dos investimentos para assegurar posições de liderança nos mercados internacionais tão competitivos.

Nos casos dos torneios de tênis com prêmios aos jogadores e no caso do basquete na liga americana e futebol no resto do mundo, os salários pagos justificam, queiram ou não, a presença de milhares e milhares de torcedores nos grandes eventos.

Por conseguinte, criticarmos os salários mirabolantes de alguns atletas é ignorar a realidade da capacidade desses mesmos atletas e torneios de gerarem uma movimentação milhões de dólares no mercado de produção e comercialização. Certamente as multinacionais recuperam seus investimentos, milhares de trabalhadores nos cinco continentes trabalharam fabricando bolas, camisetas e afins.

É lógico que somos nós que pagamos quando compramos esses artigos promocionais e nos beneficiamos das transmissões e da ampla cobertura da imprensa e do acesso à mágica da rede Internet.


Foi a Copa ou a cozinha?

Por outro lado os telespectadores de todo o mundo devem ter ficado surpreso de constatar como a globalização racial é uma realidade. Habituado que estou a assistir os jogos da primeira divisão e das Copas Européias, eu não me surpreendo.

Em alguns países nórdicos como a Suíça, a Alemanha, Inglaterra e mesmo na Suécia, há alguns nativos da raça negra lá nascidos ou por adotarem a cidadania dos mesmos, representam a raça dos seus países de origem.

Nada de menos que oito na seleção da França, dando a errônea impressão de um sentimento de integração, após as grandes arruaças em Paris onde centenas de veículos e lojas foram incendiadas. Finalmente seria bom lembrar que dois ou três brasileiros que adotaram a cidadania de outros países jogam em seleções disputando essa Copa, três técnicos são brasileiros e há ronaldos para todos os gostos.

Como nas embalagens de sabão ou refrigerantes, há o modelo Ronaldo gigante, o tamanho médio do Ronaldo da seleção de Portugal e naturalmente o modelo econômico, Ronaldinho. De econômico este nada tem, pois segundo revelado pela Revista Forbes, ele faturou o ano passado US$ 25 milhões.

Na verdade não é na copa que escrevo essa crônica sobre a Copa, mas assistindo na sala, a salada racial dessas seleções.

A copa com que os romanos comemoravam vitórias é também o lugar onde privilegiados que somos, podemos comer nossas refeições. E é na copa que podemos assim saborear a salada de culturas, das raças, da música e das cores e confraternização dos atletas de trinta e seis nações do mundo.

Os italianos famosos por serem os inventores da pizza se mostraram também vorazes comedores do chucrute alemão, das cozinhas africanas e da Tchecoslováquia e como não poderia deixar de ser, da famosa especialidade francesa, o Coq au Vin regado com um bom tinto italiano.



Réquiem para um mito

Lamento como não poderia deixar de o fazer, a derrota da França.

Pior do que a nossa derrota na Copa do Mundo de 1950 é essa derrota que se tornou na verdade, o Réquiem para um Mito.

“Réquiem aeternam don eis.” Em português, Daí lhes o repouso eterno – é a dura, dolorosa e traumatizando realidade que o povo francês enfrenta após a expulsão do seu ídolo.

Alguns órgãos da imprensa francesa no sábado chamaram a jogadora de tênis Mauresmo... a Rainha da Inglaterra. Francamente, rainha de Wimblenton ainda poderia ser. Depois de oitenta e um anos, pela primeira vez uma francesa conquistou esse título. Na técnica e na concentração. Porém foram esquecidas outras campeãs que ganharam não um, mas dois, três e quatro Wimblentons.

A imprensa francesa classifica Zidani o maior jogador de futebol de todos os tempos. Melhor que Platini, Backebauer, Maradona, Ronaldinho e nosso Rei Pelé.

Assim sendo vemos que um genuíno patriotismo pode extrapolar a lógica, os índices e a história. Mestre do “tico-tico - no fubá” com dribles desconcertantes, porém falta ao Mito, o coração de um Platini, a força de um Backanbauer, as arrancadas de um Maradona, os lançamentos em profundidade do Ronaldinho e os recursos, de todos esses, resumidos no talento do Rei Pelé, um eterno Planeta cercado de estrelas na constelação dos jogadores do mundo. Como sabemos as estrêlas desaparecem...

A agressão feita pelo Mito, a segunda mais grave falta nas regras do futebol, após uma agressão ao árbitro, sua recusa de cantar o Hino Nacional Francês e seu recorde de doze expulsões, sendo uma na Copa de 1988 e duas nessa Copa de 2006 mostra que o Mito tem um dossiê que mostrou o caráter frágil de um ser humano.

Escolheu para seu funeral, uma audiência de mais de 100 milhões de espectadores, anulando assim a mágica e inalienável imagem que ele deveria ter mantido para milhões de jovens e crianças da França.

Triste, com vídeo ou não, se o Mito não tivesse sido expulso e a França tivesse ganhado a Copa de 2006, milhões de esportistas o mundo estariam gritando “mutreta, foi tudo acertado pelos poderes econômicos.” Afinal é um finalista que chegou à final com o menor total de gols marcados, sendo que um legal; mas o do Brasil foi inexistente (Henri é que tropeçou na perna do jogador brasileiro e dois pênaltis por faltas dentro da área da seleção da Espanha que não foram dados.

Sendo assim... quem ganha nos pênaltis existentes (1) e nos dois que não foram acordados aos adversário deveria aprender também a perder nos pênaltis mal batidos, no caso do jôgo contra a Itália.

Politicamente, como o presidente Lula e o Presidente Chirac, ambos teriam se beneficiado em caso da vitória do Brasil ou da França nessa Copa de 2006 como seria o caso em qualquer país.

Nesta salada de interesses seria adicionar a cereja ao bolo da sobremesa onde ambos os políticos estão com índices de popularidade de mitos ou estrelas cadentes na constelação dos políticos desse mundo conturbado em que vivemos.


Coincidências e controvérsias

Nesse mundo de coincidências e controvérsias, os fatos se acumulam.

O grito de guerra dos franceses, ALLEZ LES BLEUS, deixou de ser lógico desde que eles jogaram de uniforme branco e quem dominou o terreno foi a equipe da Itália, toda em azul.

Premonição maldita: dois dias antes da final o técnico francês afirmou:

"O grupo viveu junto e morrerá junto". No comment...

A FIFA que nomeou o Mito, melhor jogador da Copa 2006, abrirá um inquérito sobre a agressão cometida por Zidani. No comment

Joel Conrado - França




FLUXO

Mediterrâneo
Nele encontro
Um ponto visível
Inapalpável,
Sorte, destino, darma, azar, karma
Que importância tem?
Basta a onda cobrir com espuma
O sentir, o saber, o ser
A certeza de haver
Um eterno bem-querer

Deborah Milgram




Um teste vexado

Estava entediado na hora do almoço. Silêncio total na redação quase deserta. Sonolento, lia os "Re" do grupo de discussões e brigas do Beco da Lama. Nenhuma adjacência. Somente as respostas rápidas sem muitas novidades e dezenas de fotos enviadas por Alex Gurgel. Mas eis que, de repente, chega um e-mail que prometia, com o título: "Testando para ver se chega".

Finalmente, não era um novo "Re", uma nova foto, um elogio velado. Era uma coisa nova. E o que poderia significar "Testando para ver se chega"? Um mote laeliano? Um teste suicida de um revólver amalucado? Uma poesia de Anton? Alguém bulindo na paciência de Dunga, o primeiro e único do Beco? Serrão querendo mudar a logomarca da Samba mais uma vez? O que poderia ser, meu Deus?

Preparei-me para abrir o e-mail. Será que eu devo? Devagar, apertei o 'enter'. Com tanto carinho que a mensagem foi vindo devagar, aos poucos, como aquelas chatíssimas mensagens com bonequinhos. Mas não foi assim: surgiu branquinha, branquinha, sem nada dentro.

Olhei estarrecido, como às vezes olho para algumas telas em branco, antes de botar pincel. Não tinha nada. Então, cheguei à conclusão que o narrador de "Chuva de Bala", que transformou a resistência heróica de Mossoró na “Terra de Lampião”, quereria mandar algum tipo de recado. Quem sabe, em código. Talvez, lançar, imprudentemente, ainda a dois anos e muita coisa do pleito da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências, sua candidatura, como já fez da vez anterior, e teve apenas uns 10% dos votos válidos.

O que será que ele quis dizer com a brancura?

Parei de me concentrar. Um e-mail em branco pode significar muita coisa. A imaginação de Alex é fértil até demais, e ele poderia estar codificando algum tipo de desafio lúdico para a sua coleção de textos; para o seu blog e outros endereços.

Pois bem, caro avançado jornalista: aceitei seu desafio e respondo ao seu branco, aguardando que outros façam a mesma coisa das mais diversas formas possíveis, até com fescenismos.

Seu branco é meu branco, e tenho dito!

Leonardo Sodré




Resposta de Crys Tinoco
ao e-mail teste de Alex


Seu branco vai voltar recheado de preto.

Seu Alex: Isso é coisa que se faça?

O beco andando assim, assim... tão sem as poesias de Anton, tão sem palavras, com tantas imagens e poucas legendas.

Cadê aquela chuva de poesias, crônicas enaltecedoras, glosas provocadoras, declarações disfarçadas, brigas anunciadas?

Cadê todo mundo que parece que, de repente, ficou com preguiça de digitar coisas que saem do coração, dos lampejos da razão ou dos riscos e risos da alucinação?

Esse Beco anda quieto, sombrio, parece até que anda chovendo muito nele, e todos estão aproveitando a chuva para outras coisas menos coletivas.

Que pena...

Ou...

Que bom!

Depende do lado que você escolhe para ver.

Uma bela e aconchegante tarde de chuva para todos

Crys




Um rio nunca é o mesmo

Vejo um texto de Renato Sabbatini onde lembra uma das frases preciosas do confucionismo que diz que ao mergulhar nossas mãos duas vezes seguidas em um rio, nunca as estamos mergulhando no mesmo rio. Lembra, também, que Heráclito (o famoso filósofo grego) comungava dessa linha de pensamento que concebe a realidade como algo em fluxo contínuo de mudança.

O simbolismo evocado pelo rio e suas metáforas são alegorias perfeitas utilizadas em todas as épocas e culturas para representar o ciclo da vida humana. O homem e o seu desejo de saber-se.

É nesse tipo de divagação que me encontro nesse final de tarde, sol se pondo no horizonte do lago. O dia esteve abafado, calor escaldante, poeira grudando na pele. Agora venta forte e a natureza se agita. Sentada na área da velha casa observo três imensos plátanos que sacodem suas folhas de uma forma tão interessante que parecem tremer, trazendo-me à mente um dos poemas de Cecília Meireles, que diz: “o vento é o mesmo, mas a sua resposta é diferente, em cada folha”.

Na outra margem uma plantação em diversos tons de verde se perde no horizonte. Na linha do horizonte, mais à direita, o pôr-do-sol. E venta ainda. As árvores nervosas entregam folhas secas ao vento parecendo uma chuva dourada. Esse espetáculo da natureza dá um tom onírico à paisagem. Apuro o olhar para ver melhor o que ao parecer, se transforma: um cenário absolutamente incrível, de um sonho onde chovem folhas douradas num final de tarde róseo-violeta. Minha imaginação não conseguiria produzir uma cena tão linda. Só mesmo Garcia Márquez na sua mítica Macondo enquanto chovem flores amarelas...

Ao olhar demoradamente para as águas do lago pergunto a mim mesma se o lago também é rio. Acho que não, respondo, pois em sendo lago, não deve ser rio... E se for? Talvez seja um rio que foi impedido de chegar ao mar... Concluo que não sei nada sobre lagos, mas que a minha ignorância não impede que desfrute de sua beleza generosa. Um lago com pequenas e audazes ondas que ignoram força maior que essa.

Ondas que são a resposta do lago ao vento que de tão poderoso revolve as águas e nada, nada se assemelha a elas. Debate-se o lago movido pelo vento e estoura em pequeninas grandes ondas na margem barrenta. Ainda assim, são mansas ondas.

O lago é um rio que descansa? Também acho que não, pois no lago as águas cumprem seu destino de ser lago. Águas que não vão tornar-se mar – a não ser por alguma evaporação transmutada em gotas de chuva que não adivinhariam nunca de onde vieram... A natureza não precisa de definições, nós é que nos inquietamos.

Definir-se rio é saber-se mansidão de nascente, força adquirida no caminho, vigor acumulado, poderoso em sua foz. Definir-se rio é saber-se a caminho do mar para ser totalidade. É saber-se micro, uma partícula no seu destino de fundir-se ao macro para ser totalidade.

Nem sempre sou rio. Às vezes sou o rio que conduz o barco, às vezes o barco que navega nesse rio. Às vezes, navegante desse barco em rumo que acredita certo, outras vezes à deriva (“rimando, rimando, rimando, pra quem sabe um dia tocar as margens de sua doçura” – diz o poeta). Às vezes, sou a margem que contém o rio, e, às vezes, a água que transborda e feito louca vai à solta e perde o rumo e se perde no caminho.

Outras vezes, sou desse rio a água assustada com o próprio ritmo e que sem comportas se encaminha à corredeira. Às vezes sou a própria corredeira. A surpresa. O susto. O medo da queda. O prazer do risco. Êxtase de cascata transformada em branca espuma, gozo explodindo em bolha e bruma... (tudo é poesia?!)

Agora é quase noite e já parou o vento. Calmaria. A paz é tanta que eu poderia ser somente porto. Um porto talvez seja a parte mais generosa e amorosa de um rio, lago ou mar, pois que permite ao barco e ao navegante cumprirem o seu destino de sair e de chegar. Um porto não pergunta sobre destinos e vive a plenitude de acolher.

“Se um veleiro repousasse na palma da minha mão/ Sopraria com sentimento e deixaria seguir sempre rumo ao meu coração/Meu coração, como a calma de um mar/Que guarda tamanhos segredos/De versos naufragados e sem tempo (...).”

Neide de Camargo Dorneles




Terça-feira, Julho 11, 2006

MARAVILHA INEVITÁVEL

Marcus Ottoni


"Pela primeira vez criamos vida utilizando espermatozóides artificiais.”
Karim Nayernia, professor da Universidade de Newcastle, Grã-Bretanha



Maravilha inevitável do amor

Maravilha inevitável do amor
Que une sem saber do passado
Que pune sem viver do pecado
Que ensina vida nova, toda razão, toda prova
Vem desembocar num rio de verdades...

Queira amor, queira!
Deixa dor, deixa
Coração, cabeça, corpo inteiro
O amor é verdadeiro
Sair do chão, sentir paixão, lembra o infinito
Desse sentimento tão bonito
Que de tão grande às vezes dói
Mas, constrói no ser
O que de mais sagrado é!
Viver de pé, sem cair
Só sentir, mesmo com dor
Essa "maravilha inevitável do amor".

Pedro Mendes



Mesmo virtualmente

O que corta
Une
O que dói
Cura
O que silencia
Grita
O que esvazia
Supera
O que pertence
Desaparece
O que sobrevive
Luta
O que completa
Ilumina

Deborah Milgram



Sem saída

Na sombra da fome,
A noite escura,
Amarga da vida,
Morre.

Menino e homem,
A cruz de cada um,
O eterno querer,
Que toca e não passa.

À silhueta de um lobo,
De uma maneira tal,
Tristemente anda,
Pelas escuras veredas da vida.

Docemente impiedoso,
Tenta encontrar guarita,
Acaba entrando,
Num beco sem saída.

Roselis Medeiros



Não me mandem cartões virtuais

Outro dia, encontrei uma amiga e ela cobrou:

- Você não respondeu ao cartão virtual que lhe enviei. Não o recebeu?

Respondi que a mensagem deve ter chegado, sim, mas que não abro mensagens como aquelas.

Alguém deixou um recado para você. Alguém enviou um cartão para você. Coisas assim, não abro.

Pode até doer o coração e aguçar a curiosidade, mas já perdi arquivos preciosos na memória do PC por conta de vírus vindos nessas mensagens.

Essas são coisas engendradas por espíritos de porco que nos impedem, muitas vezes, de receber belas mensagens e até convites a reflexões amorosas com alguém. Mas eu prefiro não arriscar.

Assim, solicito que não me mandem cartões uol, terra, seja de que provedor for. Gosto das palavras. Quem quiser me enviar uma mensagem, use suas próprias palavras que vou ficar muito mais satisfeito. E não vou ficar frustrado por não abrir a mensagem.

Não precisa vir com flores, beijos, desenhos de corações entrelaçados.

Prefiro apenas as seguras palavras de um e-mail particular, individualizado, que a frieza de um cartão suspeito, talvez para prejudicar, que me leva a abri-lo pela ansiedade de encontrar ali belas palavras de amor.

Não. Não abro mais cartões virtuais, apesar de toda a ansiedade que a curiosidade deixa.

Eduardo Alexandre




Segunda-feira, Julho 10, 2006

NO BECO, UMA FULÔ QUERIDA

Marcus Ottoni


“Lula e seus companheiros poderiam ter aproveitado os episódios do mensalão e do caixa 2 do PT para se reconciliar com antigos valores que pavimentaram sua ascensão ao poder - mas não foi isso o que ocorreu. Apenas se tornaram mais cínicos.”
Ricardo Noblat

Alexandro Gurgel

Maria Dália

DUNGA TEM TODA RAZÃO,
DÁLIA NÃO É UMA FLOR?


Ela é mesmo um tesão
seja no Beco ou na lua,
ante a linda foto sua
Dunga tem toda razão.

Se por consideração,
sejam apreço ou amor
a turma lhe faz louvor
e Alex a fotografa,
não é mesmo uma graça,
Dália não é uma flor?

Maurílio Eugênio

Alexandro Gurgel

Antoniel Campos, Hugo Macedo, Mércia Carvalho, Léo Sodré, Padre Agustín, Dália, Dunga, Júlio Pimenta, Plínio Sanderson

A Vida é um sonho passageiro por isso vamos sonhar...

Que cantem os poetas,
Que digam os loucos,
O que disserem,
Mas o sonho tudo pode,
Basta acreditar.

Por isso creio,
Espero, amo e sonho,
Lembro e esqueço,
Durmo e acordo,
Sou rainha e sou rei,

Oh, sonho! oh, ilusão!
Oh, Deus! eu clamo:
Ajuda-me a sonhar,
manter o vôo que me eleva...
Ave leve num mundo novo.

Roselis Medeiros

Alexandro Gurgel

Em cima: Hugo Macedo, Antoniel Campos, Aluízio Matias, Cabrito
Embaixo: Dália, Dunga, Carlos Tourinho


Acho-te
Acho-te em cada momento,
nas palavras que me rebentam na boca
como frutos maduros, roxos.
Acho-te no frio
que a maresia empresta,
nas vagas
selvagens, salgadas.
Acho-te em cada olhar,
procurando o mais além,
nas águas tímidas
vertidas de olhos perdidos.
Acho-te nas planícies
que não alcanço,
na imensidão dos pensamentos
guardados,
Acho-te
nas folhas brancas
que esperam meus dedos,
Acho-te no cheiro
da minha pele,
onde passaste, brincando,
Acho-te
no esplendor de um dia de Sol,
no mistério das noites enluaradas,
Acho-te no sentido
da vida,
Acho-te
em todos os pedaços.

Roselis Medeiros

Alexandro Gurgel

Dália e Dunga

Paixão

Onde estão ancorados os teus olhos?
E a tua boca que me devora?
O teu lugar é aqui,
Nos meus braços...
Sinto saudades de ti,
Te penso,
Te imagino,
Estarás pensando também em mim?
Sentindo aquela dorzinha no peito?
Tateando no escuro da tua solidão,
Algum ponto do meu corpo para te apoiar e te lembrar?
Sinto que me queres,
Mas me perco no rumo deste silêncio...
Ouço a tua voz no cálido vento, que anda lento comigo, sonolento,
triste tormento...
E no eco deste momento posso sentir o cheiro da tua pele...
Fingir que não estou só...
Sentir que na certeza absoluta te quero.

Roselis Medeiros

Alexandro Gurgel

Augusto Lula, Maria Dália, Plínio Sanderson

Visita de uma flor

Exilada em São Francisco, Califórnia, dedicada à educação de sua filha Juliana, de nove anos, Maria Dália tem acompanhado diariamente o que é postado aqui, no Alma do Beco.

Ficou com água na boca, saudosa dos prazeres gustativos de outros tempos, quando da realização do Pratodomundo, o Festival Gastronômico do Beco da Lama.

Quando da realização do Carnabeco, no início de dezembro, o seu desejo era estar conosco, na folia do sábado que prepararia o I Réveillon do Centro Histórico.

Do seu Seridó, para o Réveillon do Beco, veio, especialmente convidado para a noite, nada menos que Elino Julião, nosso maior forrozeiro.

E ela lá, na terra do cinema, computando dias para voltar à terrinha, rever os amigos e degustar a buchada de Mãinha e outros sabores do seu nordeste brasileiro. Sons. Cores. Céu.

E veio o carnaval e ela, de longe, acompanhou todos os preparativos para a festa maior e mais esperada: o I Carnaval do Centro Histórico de Natal.

Queria estar aqui, conosco, na festa momesca.

E veio o Dia da Poesia e mais saudades bateu junto ao seu coração pleno de sensibilidade. Estivera conosco quando da inauguração da Praça da Poesia, em outra data dos vates natalenses e relembrou, lá longe, os recitais, as apresentações dos nossos músicos. As performances. Os passeios poéticos.

Quando a notícia de que haveria eleições para a escolha da nova diretoria da Sociedade dos Amigos do Beco lhe chegou, quis participar, votar por Internet. E sentiu o desejo de assinar o livro preto de filiações à Samba, quando aqui chegasse.

Terminado o período escolar de Juliana, ela não contou conversa e aterrissou em terras de suas saudades.

- Quero ver, rever a todos, e conhecer quem ainda não conheço. Quero conhecer o novo presidente da Samba, e comer a buchada de Mãinha.

Foi o primeiro desejo.

Mãinha só faz sua buchada se encomendada na quarta, para recebê-la na quinta e prepará-la de véspera, na sexta, para só servir aos fregueses a famosa iguaria no sábado.

Como chegamos atrasados com a encomenda, a cozinha campeã do Pratodomundo recusou-se a antecipar etapas e não aceitou para o sábado passado servir o prato dos desejos da nossa fulô do Beco. Ficou para uma outra oportunidade.

Mas a visita aos amigos do Beco foi feita e a turma acorreu com alegria e felicidade para recepcionar aquela nossa leitora de longe e de todos os dias. Muitos se dirigiram ao Beco para recebê-la e fazer-lhes as devidas homenagens.

Sobre o encontro/reencontro tão esperado, sensibilizada, ela anotou no caderno de saudades que fez questão de trazer para o momento, para os autógrafos em poesias ou desenhos de todos:

- Foi uma tarde agradável e divertida no Beco da Lama. Nazaré nos recebeu de braços abertos. Fiquei super emocionada com a receptividade de todos. Revisitei os antigos amigos e conheci outras figuras maravilhosas. Dunga, como sempre, muito acolhedor. Conversa vai, conversa vem... e muitas poesias. Espero ter o prazer de voltar ao Beco e desfrutar de outra tarde maravilhosa. Beijos para todos. Adorei... adorei.

Eduardo Alexandre




Domingo, Julho 09, 2006

ÚLTIMO JOGO

Marcus Ottoni


“Deve-se ao repórter Fabiano Maisonnave a descoberta da última peripécia de José Dirceu. O ex-chefão da Casa Civil esteve na Bolívia nos dias 23 e 24 de abril. Uma semana depois, o companheiro Evo Morales decretou a nacionalização das reservas de gás e de petróleo, impondo a refinarias da Petrobras uma incômoda ocupação militar.

Descobriu-se que Dirceu teve reuniões com o presidente boliviano e com políticos de oposição. Embora afastado do governo há um ano, apresentou-se como emissário de Lula. O Planalto negou ter dado procuração a Dirceu.”

Josias de Souza


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Os agouros de Galvão

Não foi muito fácil assistir o jogo da seleção brasileira no último sábado ouvindo os comentários do jornalista Galvão Bueno, da TV Globo. Aliás, somos obrigados a ouvi-lo devido ao contrato exclusivo que aquela a emissora fez com a FIFA para ser a única a transmitir a Copa do Mundo para todo o Brasil. Isso também chama a atenção: Como é possível uma única rede de televisão deter o contrato para transmissão do maior evento esportivo do mundo para um país do tamanho do Brasil?

É no mínimo estranho que esse espetáculo fique nas mãos de apenas uma empresa de comunicação, nos obrigando a ouvir os comentários de Galvão Bueno, que durante toda a partida somente reclamava do time brasileiro. Não é fácil ver nossa seleção jogar tão ruim ouvindo os desairosos discursos de um comunicador que passa a impressão de ser o absoluto dono da verdade. Até com os seus companheiros de transmissão, os ex-jogadores Roberto Casa Grande e Falcão e o ex-juiz Arnaldo César Coelho, ele é impertinente, o sabedor de tudo. Tanto, que uma revista de circulação nacional noticiou um desentendimento dele com Casa Grande e outros que teria tido com César Coelho ao longo das transmissões dos jogos preparatórios para a Copa do Mundo da Alemanha. Aliás, é visível a truculência com que ele trata os seus companheiros de trabalho.

Mas, a maior pérola de Galvão durante a transmissão do jogo contra a França, foi quando ele reclamava do jogador brasileiro Kaká, que caiu na grande área do selecionado francês. Ele disse, reclamando que o jogador teria se jogado para cavar um pênalti: "Assim não dá, ele se jogou caindo". Como se alguém pudesse se jogar sem cair. Mas, era a ânsia de ser, repito, o dono absoluto da verdade. Ele, assim como o Rei Pelé, deve ter "previsto" a apática atuação da seleção brasileira e apostou nisso as suas fichas para sair como vaticinador do resultado do jogo. Pelé até disse o placar: um a zero para a França.

O agourento Galvão Bueno acertou em cheio quando começou a exprimir toda a sua raiva contra o selecionado de Parreira logo depois dos primeiros dez minutos de jogo. Mas, imaginemos que o time tivesse conseguido virar e ganhasse, digamos, de dois a um. O que ele iria dizer? Como é que ele iria chegar em casa dizendo que torceu contra o Brasil? E ele torceu mesmo contra o Brasil.

No local onde assisti a insólita partida, todos estavam estarrecidos com os comentários do principal comunicador de esportes da TV Globo, porque mesmo jogando mal, perdendo oportunidades de gol, deixando - no segundo tempo - até de chutar em direção ao gol dos adversários, todos torciam, desejavam, arregalavam os olhos em busca de um milagre, um golzinho no final do segundo tempo para irmos, pelo menos tentar ganhar na prorrogação. Ninguém deixou de admirar a atuação do time francês, principalmente do jogador Zidane, que jogou feito um brasileiro. Mas, mesmo vendo o Brasil ser batido, um Brasil cansado, torcíamos para que a virada fosse possível, que viesse um gol "salvador da pátria", daqueles que emudecem uma nação desejosa.

Uma moça de uma mesa vizinha pulava, não se conformava, roía as unhas em busca do gol. Em alguns momentos até ensaiava um chute. Quase a vi correndo pela ponta direita do bar Delícia da Praça para cruzar um bolinho de bacalhau em direção aos nossos atacantes. Outros gritavam se aproximavam do telão. Sabíamos que estávamos indo mal, mas torcíamos, desejávamos uma virada. Menos Galvão, o agourento.

Leonardo Sodré




Vive Le Renaissance

Três a zero para a França. Três shows de Zinedine Zidane. Não estou “a falar” (vai Felipão!) das três vitórias francesas nos últimos vinte anos contra a seleção brasileira. É que assisti três vezes ao jogo do sábado, a primeira vez ao vivo, envolto num clima de torcida dos amigos ao redor, e depois, mais duas vezes, nas reprises de domingo da Band Sports e da ESPN Brasil.

Contemplar três vezes a categoria exuberante de Zidane é ser afetado instantaneamente pela “síndrome de Estocolmo”, o fenômeno psicológico que provoca na vítima uma explosão de afeição e admiração pelo carrasco, paixão pelo algoz. Zidane é como um último moicano, um guerreiro elegante dos gramados com direito a sentar-se no panteão onde já estão Pelé, Garrincha, Maradona, Zizinho, Di Stefano e Puskas.

Zidane é um carrasco romântico, um gentleman quando humilha o adversário. Com a mesma leveza que deitou dois brasileiros com seus dribles, estendeu a mão para levantar um Zé Roberto aos prantos. Com a mesma magia que deu um balão em Ronaldo e Gilberto Silva, afagou com um beijo as cabeças de Robinho e Cicinho, dois candidatos a seus pupilos no Real Madrid.

A manchete do diário espanhol Marca, “no te jubiles nunca!”, é o sentimento dos que amam o bom futebol, o futebol de craques como Zidane, que não precisam das jogadas de marketing como lentes de aumento do seu talento. Sua maestria com a bola tem a objetividade da arte do jogo, não a ilusão do malabarismo circense. O talento de Zidane tem a dimensão que os olhos dos deuses do futebol alcançam.

Horas antes dos embalos de sábado à tarde, brasileiros idiotizados pelo ufanismo midiático gritavam nas ruas de Frankfurt, “ô, ô, ô, Zidane aposentou”, enquanto apresentadores de TV gozavam dos seus 34 anos e o intragável Zagallo declarava “Zidane já era”. Logo nos primeiros minutos da partida, o francês com sangue africano mostrou que na sua terra não são apenas os vinhos que adquirem perfeição e sabor quando envelhecem.

Em campo, Zidane se tornou a própria Renascença, o grande movimento de renovação das antigas escolas filosóficas de padrões clássicos, surgido na Europa do século 14. E nada mais clássico do que esse Platão da bola a destruir em noventa minutos a pobre ciência de resultados de um técnico quadrado e sem magia. Parreira não soube transformar duas dezenas de craques numa equipe, mas a França viu renascer uma equipe na manifestação de arte de um homem só, bailando em vésperas da despedida.

Quisera ter agora a dádiva de traduzir gênios como Zidane, ser um Leonardo Bruni da paixão platônica que arrebata amantes da bola na adoração dos campos. Me sinto privilegiado por ter visto em vida metade desses homens incríveis e suas jogadas maravilhosas. Eu vi Pelé jogar e o vi parar, vi Maradona, Zico, Beckenbauer, Cruyff, Tostão, Garrincha e Rivelino. Não queria ver agora o Zidane parar. Até porque não sei quando verei outro igual a começar.

Alex Medeiros




Sábado, Julho 08, 2006

ICONOGRAFIA DO CANGAÇO

Marcus Ottoni


“Apesar de eu não ter jogado a Copa do Mundo, estou com o pescoço duro de olhar para o gol para ver se a gente marcava e não marcamos.”
Lula



Iconografia da resistência do povo de Alexandria ao bando de Lampião

Em dois momentos, quando da entrada do bando de Lampião no Estado do Rio Grande do Norte, o chefe quadrilheiro fez valer sua experiência como chefe de cangaço, evitando deliberadamente confrontar-se com a resistência que foi organizada.

A passagem dos cangaceiros em Alexandria foi desviada propositalmente, a fim de evitar consequências funestas, como em Belém do Rio do Peixe, no mês de maio de 1927, o que atrasou a marcha em mais de um mês. A resistência em Alexandria, organizada pela briosa e destemida família Oliveira, assim como a efetivada em Mossoró, também perfaz referência brilhante à bravura potiguar, embora não tenha havido confronto em razão de Lampião ter ponderado sobre o que o esperaa em Alexandria.

O segundo desvio proposital dos cangaceiros foi em Caraúbas. O “rei do cangaço” conhecia a fama de quem havia estruturado a resistência. Tratava-se tão somente do “ Coronel” Quincas Saldanha, o “gato vermelho” da expressão sisuda e respeitosa proferida pelo próprio Virgulino Lampião.

Atordoados com a fama perversa de Virgulino Ferreira da Silva e seus cabras, os jagunços do “Coronel” Quincas Saldanha iniciaram forte tirtoteio, a esmo, cujo erro foi notado imediatamente pelo experiente sertanejo, observando que os disparos estavam sendo feitos apenas de um lado. Quincas Saldanha ordenou cessar fogo e notou que estava certo. Lampião tinha desviado a rota para Pedra da Abelha, onde aprisionaria o “Coronel” Antônio Gurgel. A esperteza do chefe dos cangaceiros era uma das razões para o “sucesso” que obteve em vinte e dois anos de lutas no cangaço.

Em Alexandria lembraram-se de eternizar a valentia daqueles que pegaram em armas para obstacular as ações ensandecidas dos cangaceiros. Uma fotografia rara e inédita, de propriedade do senhor José do Patrocínio de Oliveira Maia, natural de Catolé do Rocha (PB), residente no presente da cidade de Mossoró (RN), é a prova iconogáfica do empenho valoroso que a família Oliveira efetivou, organizando frente de combate, a qual, conforme pode-se verificar no importante registro iconográfico, estava decidida e irresoluta.

A necessidade de fomentar obstáculo a Lampião se dava em virtude da forma tresloucada como o bando vinha se comportando desde quando cruzou a fronteira com a Paraíba. Em Cantinho do Feijão (PB) (hoje município de Santa Helena), o bando cometeu verdadeiros atos de vandalismo.

O senhor José do Patrocínio, conhecido por todos por Sinô Maia, guardou a relíquia com todo zelo, principalmente em virtude de que na fotografia aparece o avô do dono da iconografia rara e inédita. O combatente chamava-se José Garcia, estando assinalado na fotografia, como forma do neto demonstrar carinho ao valente sertanejo. Sinô Maia residiu muito tempo na fazenda cachoeira, em Brejo do Cruz (PB), servindo ao Dr. Fábio Mariz, na profissão de vaqueiro, durante décadas.

Sinô Maia não soube informar os nomes dos outros combatentes, nem a autoria da foptografia. Apenas guarda de recordação há muitos anos. Na fotografia, conforme pode-se notar na mesma, indentifica-se a bandeira do Brasil como pano de fundo, envolvendo simbolicamente o grupo da resistência de Alexandria na legalidade.

No âmbito histórico-iconográfico considero que o registro fotográfico da resistência organizada em Alexandria tem a mesma importância que as fotografias perpetuadas por Raul fernandes em seu clássico opúsculo por título “A marcha de Lampião – assalto a Mossoró”.

Nenhum documento sobre a arrogante invasão do bando de Lampião ao território potiguar pode ser desprezada. O valor de uma fotografia rara e inédita sobre o tema, é incomensurável, visto que temos de relatar de todas as formas possíveis às gerações presentes e futuras a grandeza da bravura do povo potiguar, sobretudo mossoroense, que resistiu galhardamente a um dos mais absurdos atos de agressão a seres humanos, a maioria indefesa, à lei e à ordem no Rio Grande do Norte.

Qualquer documentação inédita que tenha ligação com o cangaço deve ser valorizada, principalmente em razão de que a importância do fenômeno social ocorrido nas caatingas nordestinas traduz a essência da busca pela compreensão da dimensão regional de uma forma holística.

José Romero Araújo Cardoso



As cotas e o Estatuto da Igualdade Racial

Dá pena em ver pessoas letradas se submeterem às pressões de um patrulhamento ideológico fraudulento que convence, no grito, representar o pensamento majoritário do povo brasileiro. Desde quando iremos corrigir as injustiças da escravatura rasgando a Constituição?

É em nome da Constituição-Cidadã, beijada pelo pranteado Ullysses Guimarães, que devemos aprofundar a discussão sobre os projetos de lei de cotas raciais no ensino superior e o Estatuto da Igualdade Racial, inspirados em propostas da Fundação Ford e ótimas para os Estados Unidos, porém péssimas para o Brasil.

Infelizmente, faz-se necessário tomar-se de coragem para denunciar que a política das cotas e o Estatuto, aparentemente defensores de direitos de negros e de índios, trazem no seu bojo pesados desequilíbrios estruturais ameaçando objetivamente os princípios democráticos conquistados às custas de lutas seculares.

Essas propostas imediatistas e estreitas circulam no Congresso Nacional, iludindo os desavisados ao fazer crer que, se aprovadas, solucionarão o problema de acesso de negros e índios na universidade e nos cargos bem remunerados do mercado de trabalho. Representam, entretanto, uma fratura social causada pela renúncia ao princípio da igualdade de todos perante a Lei.

O imediatismo se reflete na pressa em aprovar os dois projetos e sua estreiteza obscurece o verdadeiro objetivo a ser atacado, a pobreza geral e crescente que atinge igualmente brancos, índios e negros. Essa situação de inferioridade social atinge paritariamente todos os pobres sem nenhuma distinção de cor da pele, prevalecendo apenas a condição comum de miserabilidade.

Está na cara de qualquer cidadão bem-intencionado que a tornando obrigatória a reserva de vagas para negros e índios nas universidades federais a Lei de Cotas provoca uma dupla preocupação: primeiro, é uma ameaça real à qualidade do ensino superior, desnivelando-o; e, segundo, desonera a promoção do mérito acadêmico consagrado universalmente.

Quanto ao Estatuto da Igualdade Racial, devemos reconhecer que se trata de uma bomba acionada por controle remoto para o futuro. Os danos que acarretará são inomináveis, a partir da classificação racial oficial dos cidadãos. E, com essa divisão, propõe cotas de acesso ao serviço público e estabelece benefícios para empresas privadas que adotem as cotas raciais para contratar empregados.

Vai além essa barbaridade ao prever que 20% dos cargos comissionados do Governo Federal deverão ser preenchidos exclusivamente por afro-brasileiros. Tal exclusão dos brancos esforçados, originários das classes pobres demolirá por certo o Estado Brasileiro.

Instituindo legalmente o racismo nas escolas e na administração pública, o País adotará uma sociedade heterogênea, com cidadãos de primeira, segunda e até terceira classes, porque deixará de fora além dos brasileiros brancos pobres, os emigrantes porventura fracassados, latinoamericanos, orientais e africanos, além de incentivar minorias sexuais, como os homo e bisexuais, a exigir tratamento igual.

A futurologia nacional espelhada nos projetos das cotas e do Estatuto, se nos depara como o apartheid da antiga África do Sul, jogando por terra a utopia da igualdade e justiça sociais.

Miranda Sá




Sexta-feira, Julho 07, 2006

NA BASE DOS PÊNALTIS

Marcus Ottoni


“Acho que o PT já teve a sua oportunidade. Agora, como o presidente gosta de metáfora futebolística, é hora de ir para a reserva. É hora de time novo, energia nova.”
Geraldo Alckmin

Yahoo


O BONDE NOVO

O bonde que inauguraram
É amarelo e muito claro...
Sua campa bate alegre e diferente das outras...
Os seus olhos vermelhos indicam Petrópolis...
Anda sempre cheio porque é novo...
Chega na balaustrada espia o mar...
E os passageiros todos nem olham pro mar...
Só vêem o bonde novo...
Só ouvem a campa nova...

Aquele bonde só devia sair aos domingos
Pois ele é a roupa domingueira
Da Repartição dos Serviços Urbanos...

Jorge Fernandes



DEDO DE DEUS

Diálogo, dueto
Dinâmico, dublado
Dosado, daninho
Dopado, despido
Domado, derradeiro
Direito, desperto
Direto, defeito
Decerto dolorido
Dramático, dobrado
Decadente dupla
Decente dilúvio
Déjà vu

Deborah Milgram



Quem ri por último...

...sempre ri melhor. Velho ditado brasileiro que ao lado de outro ditado bem brazuca, "Quem nunca comeu melado, quando o come sempre se labuza" ou um outro que diz, "Quanto maior o coqueiro, maior a queda."

Assim sendo, se vocês aí no Brasil têm um Galvão Bueno, a imprensa francesa, rádio, jornais e TVs estão repletas de galvões, melhor dizendo, de gaviões para elogiar ou criticar. Ao lado dos espanhóis que aos quatro ventos gritavam que eles iriam aposentar o velho e careca Zidane.

A seleção francesa foi tocada em seu brio e reagiu.

Assim foi como chegaram à final.

A Inglarerra, a Itália e mesmo o Brasil e a Espanha marcaram gols espetaculares, de uma sutileza e beleza que faz do futebol uma arte.

No jogo do Brasil, o gol de Henri foi uma chance, pois Roberto Carlos, preocupado com suas meias, deixou o atacante livre.

Mas a França chega à final na base dos pênaltis. Um válido e outros dois, inválidos, contra a Espanha.

Queiram ou não queiram, o pênalti que teria ocorrido quando Henri entrou na área nunca existiu.

Felizmente, gravei o jogo, pois a TF1 jamais mostrou, logo após o pênalti batido, a
falta. Podemos ver claramente que Henri tropeçou no pé do defensor e caiu, mergulhou no gramado.

Outro pênalti que ajudou os franceses foi aquele negado quando o jogador espanhol foi deliberadamente empurrado dentro da área. Pênalti claro e evidente, mas que não foi "visto" pelo juiz.

Assim sendo, a França chega às finais na base de pênaltis inventados e ignorados.

Aos franceses resta uma esperança: se ganharem a Copa, eles precisarão de mais três Copas para igualar os títulos do Brasil.

Será suficiente convocar Zidane para as Copas de 2010, 2014 e 2018 e, quem sabe, de cadeiras de rodas ou com bengalas, ele ajudará a França a igualar o Brasil em números de títulos conquistados.

Naturalmente, com pênaltis inventados ou ignorados.

Joel Conrado Veiga




O que é o futebol de Copa do Mundo

Na madrugada de Pequim, o chinezinho assistia França X Espanha. O jogo estava emocionante e o 1 X 1 não dava pinta de ampliar-se para 3 X 1 pró França nos minutos finais. E o chinezinho ligado.

Por quem torcia, nem ele mesmo sabia, desligado do mundo que estava.

Antes do segundo gol da França, o alerta da vizinhança:

- Fogo! Fogo!

E ele achava que o calor que sentia era o nervosismo que a correria em campo trazia da tela a si.

A mulher e os filhos dormiam em seus quartos e os gritos de alerta aumentavam de intensidade.

- Fogo! Fogo! Fogo!

E o chinezinho, nem aí.

Estava alucinado diante da TV, o futebol a hipnotizá-lo de forma fulminante.

- A casa está pegando fogo, Fu-Tung! Gritou a mulher de olhos puxados, que correu para o quarto dos filhos pequenos para colocá-los na rua, fora de perigo.

A casa em chamas e o chinezinho ligado, na televisão.

A mulher pegou o filho mais novo, e o levou para longe do perigo.

E o chinezinho na poltrona, o fogo chegando, e ele abestalhado, ligado em Zidane.

A mulher volta, pega outro filho, dá uns gritos para tirar Fu-Tung da hipnose, nem, nem, porém.

Depois que a mulher salvou todos os filhos, a casa já desabando, o chinezinho ainda ali, vidrado, a mulher puxa o fio da tomada e ele acorda.

Empurra a mulher para o lado, pega a televisão e sai, louco para encontrar, na rua, uma tomada salvadora.

Quando encontra, o aparelho anuncia o fim do replay do terceiro gol da França, gol do seu ídolo, que metera, em 1998, três gols no Brasil, levando a França ao pódio mais alto do futebol mundial.

É quando chegam os bombeiros e a casa já está no chão, totalmente consumida.

Acaba o jogo, e ele, então, toma uma atitude:

- Cadê Cah Fu? Cadê Tos-Thon? Cadê Zin Dahnn? Você deixou os meninos lá dentro, Xinran?

Eduardo Alexandre




Quarta-feira, Julho 05, 2006

PALADAR EXÓTICO DA LOUCURA

Marcus Ottoni


“Zidane esteve fantástico. Chegou ao Mundial como se cada partida fosse a última.”
Pelé

"No meu governo, não mandam nem Bush nem Chávez."
Heloísa Helena

Yahoo


Freguês

Dizem que as grandes excelências
Estão nos pequenos frascos burgueses
Pão francês tem em toda padaria
Os padeiros são portugueses
E o Brasil é freguês desde 86 eu lembro
Napoleão morreu lutando
A seleção partiu se rendendo
Agora pode ser baguete
Pode ser bacalhau
Pode ser espaguete
Ou joelho de Porco com sal
Não faz mal
Nem o príncipe
Nem o Imperador
Nem o fenômeno
Só uma parreira sem uva
E uma chuteira Nike dando tchau...

Mário Henrique Araújo


SENTIDOS

Desejo amar o corpo de um sorriso no altar de seus mistérios antes de o dia amanhecer insolente, mal-humorado, atravessando as frestas das janelas numa carruagem puxada por cavalos de fogo rumo ao ocidente da cama úmida que nos enche o bucho de moleza. Não quero mais luz, não preciso de mais luz. Não pela luz ou pelo dia, apenas porque os olhos da musa bastam por lume no breu do quarto.

Embriague-me entornando copos de palavras ilícitas, sem gelo, muito menos energético, no tribunal secreto de meus tímpanos rotos de juras e segredos inconfessáveis além das fronteiras da luxúria. Necessito ouvir indecências, gemidos, gritos se possível, da boca miúda e rósea da Protegida por Deus que se desencaminha, mas sempre é salva por um anjo barroco habitante desta floresta negra do meu peito.

Sinta a fragrância da carne urdida em dois suores confiados à mesma panela untada com todos temperos mundanos. Permita ao cheiro da tesão tomar o rumo da venta e atravessar as paredes da toca, quem sabe ofendendo a vizinhança invejosa e mal-amada das outras galáxias, quem sabe incentivando a platéia invisível do circo. Depois, invada-me a ausência de juízo com sobejos perfumados de requeijão.

Beba em taça de cristal vagabundo este corpo derretido nas curvas do imenso corpo do vento. Deite sobre minha língua sua língua depois desça e desça e desça e desça depois suba e suba e suba e suba e desça e suba e suba e suba e desça e suba e desça e desça suba desça suba caminhe de frente para trás de trás para frente lado banda revestrés perca-se ache-se desoriente-se no paladar exótico da loucura.

Engula minha alma de boêmio incurável, de poeta desprovido da tal inspiração, de cronista despido dos assuntos cotidianos, de amante aposentado nos cabarés, com a boca das mulheres que são você, esse monte de mulher no mesmo shortinho preto, essa galera perdida e encontrada na melodia mágica de quando João Gilberto se levanta para tatuar a tez da flor com acordes dissonantes repletos de sabor.

Moça que se preza cultiva do primeiro ao último sentido, sem se descuidar do devir. Se nada fizer lógica depois de se ver, de se ouvir, de se cheirar, de se tocar e de se saborear cada letra que ofereço entre goles, goles e goles de maltes mais ou menos envelhecidos, rasgue, faz favor, a intuição da prosa e jogue os pedaços pela janela do terceiro andar. Talvez alguém os aproveite numa colcha de retalhos.

Cid Augusto



De memoricídio ou de destruição de livros

Poucas coisas neste mundo me irritam mais que ver alguem dobrando um livro, como se fosse uma revista de palavras cruzadas ou uma revista Caras. Dói-me até a alma ver um livro nesta situação.

Não que os livros devam ser totens intocados, como fazem espíritos fúteis que compram livros "da moda", como Milan Kundera foi um dia e hoje "O Código da Vinci" o é, e os colocam na estante para mostrar aos amigos e visitas como são "cultos" e "atualizados". nada disso.

Livros são para marcarmos, manusearmos, emprestarmos, livros devem estar em movimento. Mas não precisam ser destruídos por negligência ou descaso. Daí meu interesse por um livro que chegou às livrarias: "A história universal da destruição dos livros", do ensaísta venezuelano Fernando Baez (Ediouro, 438 páginas, 49 reais). Já estou juntando minhas moedas para correr a Siciliano, AS Livros ou Potylivros tão logo ele aporte em Natal. A obra investiga a história do que o autor chama de "memoricídio", que é a destruição sistemática e proposital de livros ou informações.

Segundo as resenhas que li sobre o estudo, a obra é fascinante: investiga desde a destruição, provavelmente pelos árabes, da famosa Biblioteca de Alexandria (no Egito) que tinha 700 mil papiros, passa pela intolerância dos inquisidores católicos que queimavam livros (e, quase sempre, seus autores) até chegar ao nazismo, que destruiu obras que não primavam pela "ideologia ariana".

Curiosamente, o autor registra que os maiores destruidores de livros não são bárbaros iletrados, como haveríamos de pensar, mas sim intelectuais. Isso porque são pessoas letradas quem têm noção do poder dos livros e portanto lutam por eliminar os livros que não correspondem à sua ideologia. Foi assim com os padres durante a Inquisição e tem sido assim até os dias de hoje.

Claro que, excetuando o que acontece em países islâmicos fundamentalistas e talvez nos grotões cristãos-radiciais de direita dos Estados Unidos, atualmente os livros não são mais destruídos como antigamente. Isso é bom? Possivelmente. Ou não. Pode significar que eles já não tem o poder de influenciar de antes, portanto, não são mais tão perigosos. Basta conferir as listas dos livros mais vendidos. Manuais de auto-ajuda, magias paulocoelhianas, best selleres de John Grisham, piadas do casseta e Planeta... nada parecido com obras como Ulisses (de Joyce) ou os ensaios do Marquês de Sade, que apavoravam a aristocracia francesa pré-revolução.

Hoje não temos mais queimas de livros, mas também não possuimos mais um Shakespeare, um Dante Alighieri, um Cervantes. Pensando bem, talvez fosse bom retornarmos aos velhos tempos...

Cefas Carvalho




Domingo, Julho 02, 2006

FESTA PARA O PORTUGA OLÍVIO

Marcus Ottoni


"Futebol, pra mim, é diversão e aquilo era uma agonia: não gosto de misturar prazer com agonia."
Ubiratan de Lemos

"Que diferença, não? Scolari como um leão à frente de sua “família” lusa, gesticulando, gritando, jogando a partir do “banco de suplentes” e Parreira passivo, com o olhar perdido, mastigando a língua, acompanhado pela expressão apática de Zagalo, enquanto o Brasil ia para o brejo."
Joffre Neto, no Blog do Noblat

“Se nada de significativo apareceu contra os tucanos até agora, foi apenas porque eles têm mais experiência no poder, não são afoitos como esse pessoal do PT, que se juntou com criminosos ligados a esquemas de lixo e a bingos.”
Maria Sylvia de Carvalho, professora de filosofia da USP e da Unicamp, à Veja

Newton Navarro


Naquele sábado o jogo daquele sábado

A tarde de sábado na Cidade Alta estava diferente.

Tudo bem, tinha jogo do Brasil: era diferente. Mas havia algo estranho, uma certa melancolia...

As pessoas simplesmente esvaziaram o centro, foram para suas casas ou para casas de amigos se confraternizarem numa festa religiosa em homenagem aos seus heróis, numa demonstração de paganismo.

Poucos transeuntes. Parecia um domingo. O Bardallos, reduto dos maiores craudes da Copa das adjacências, estava abaixo de meia boca. Dei uma espiada e peguei o Beco. Nem parei na meladinha, também tava devagar: a galera da casa e uns poucos fregueses.

Fui direto pra Nazaré. Lá encontrei Alex e Cabrito, onde, entre cervejas e vaticínios, fizemos a preliminar. Mas antes do jogo começar, estávamos eu, Seu Milton, Nazaré e Tázia. Algum movimento no Gigabaite.

Começa o jogo, todo o Beco e suas adjacências silenciam. O Gavião do Mal começa o seu grasnado agourento e a Nação de Deus é arrastada ao calvário psicológico, testemunhando a impotência dos seus heróis.

Assisto concentrado, lance a lance, analisando o posicionamento, a ocupação dos espaços, a mobilidade, a técnica, a iniciativa, o domínio do centro, as principais linhas de jogo, as manobras táticas, a estratégia, a segurança da meta; aplico os princípios enxadrísticos para tentar entender o que estava acontecendo, eles se aplicam a todo jogo de bando contra bando em terreno retangular.

A análise foi cruel: Vamos perder!

Saio no intervalo, vou até o Bardallos ver qual é. A troupe vermelha se deleitava como hienas, mais umas duas ou três mesas, o argentino entre elas, acho que Serrão e Sandrinha, também.

Não quero ver o segundo tempo. Futebol, pra mim, é diversão e aquilo era uma agonia: não gosto de misturar prazer com agonia.

Vou pro Alecrim. Lá, pelo menos, tem a galera das antigas e, afinal de contas, sábado é dia de feira, e a tarde sempre é movimentada.

Mas a tarde era diferente. O comércio estava fechado, a feira tinha encerrado, no Camelódromo não tinha vivalma.

Será domingo? Dia de finados?

Entro no beco da Cabogi e até a oficina de Erinaldo tinha fechado por conta do jogo. Seria normal, num sábado, estar de expediente encerrado e fava moendo.

Vou para casa. Já começou o segundo tempo.

Caminho pelo Alecrim durante o jogo. Ouço, à distância, o agouro do Gavião. Agora ele encarniça o canarinho abatido: IÉÉÉÉÉÉÉ da França!

No MacNilds, vejo o olé dos azuis. Enquanto espero o ‘Eucaliptos’, fogos, bastante fogos.

Quem são esses malucos?

Ah! É a galera que tava torcendo pela Argentina, “por que nesse time só tem mauricinho!”

Ubiratan de Lemos





A FESTA DO PORTUGA OLÍVIO

CONFEITARIA DELÍCIA
NOVA FASE (AVANT PREMIÈRE)

MEMORIALISTA DA BOEMIA


Memorialista, é ? O Pedro Nava de Natal !
Carlos Lima, editor e amigo - mas um safadão de marca maior, ao tomar conhecimento da última comparação, maliciou:
- Cuidado para não adquirir o vício do grande mineiro e morrer como ele...
Quem morreu ? Pedro Nava ? Quando ? Enterraram uns pobres restos humanos. O Pedro Nava está aí, mais vivo do que nunca, soberbo no “Baú de Ossos”, magnífico no “Balão Cativo”, excelente no “Chão de Ferro”, “beira-mar” e “Galo das Trevas”, mas me parecendo meio cansado em “Círio Perfeito”. Mas eu vou dizer isto ? Pra Ney Leandro soltar todos os cães de sua matilha e me esculhambar como esculhamba a VARIG toda sexta-feira ? Por falar nisto, Breno Pahim, meu amigo, resolve o caso de Ney ! Que valem uns míseros dólares para uma companhia como a VARIG ? Não me force, meu fraterno irmão, a viajar pela Transbrasil ou VASP.

COMO COMEÇOU

- Memorialista, é ?
Tudo começou quando, na abertura da Nova Delícia, depois que, durante dois anos, o local da Confeitaria foi profanado por uma livraria e o mural de Newton Navarro encoberto por prateleiras. Menotti Del Picchia tem um personagem meio boêmio, meio intelectual que denomina bar de oásis das sombras benditas.
Pois, como ia dizendo, quando a velha turma reencontrou-se no nosso oásis, nas mesmas mesas e cadeiras, renovou-se uma idéia sempre adiada:
- E a homenagem a Olívio que a gente ficou de fazer ? No dia 30 de junho ele completa 77 anos de idade e 40 como dono de bar.
Tudo acertado, levou-se o barco à frente e este será tema da Confeitaria Delícia - Nova fase: a festa do portuga Olívio, a partir da próxima semana. Mas posso adiantar que, entre as providências tomadas, couberam-me os contatos com a imprensa. Fala com um, fala com outro, resolvi escrever uma matéria sobre a Confeitaria sob o título “Uma medalha para Olívio”, onde descrevia o ambiente, os personagens, as acontecências da velha Delícia, e trouxe para Marcos Aurélio ler e, se estivesse conforme, publicar.


O BALÃO DE ENSAIO


Com sua natural lhaneza - que puxada ! -, Marcos o fez. Menino, recebi tanto abraço e palmadas às costas que tive que comprar Frixal para passar nas ditas cujas! Sim, Frixal, que sou do tempo de constipação, califon, Cafiaspirina, sabonete Eucalol e coisas que tais.
Depois, fui soltando, como balões de ensaio, umas crônicas desenvolvendo tipos e trazendo para o ilustre mestre diretor de Dois Pontos ler e - outra puxada - dignar-se publicar:
- Marcos, leia que amanhã passo para receber o seu veredictum.
Às vezes, o encontrava risonho e aprovativo. Outras, de cara amarrada e cenho cerrado. E ia logo adiantando:
- Suprimi vários tópicos. Você pensa que isto aqui é Ele & Ela pra publicarmos indecências ? Temos crianças e senhoras como nossos leitores. É preciso compostura !

AS CRIANÇAS DE HOJE

As crianças de hoje sabem muito mais nome feio que eu e todos os leitores de Dois Pontos juntos e expressam-se numa linguagem desabrida e livre que só ouvindo ! E as senhoras de hoje ? Freqüente uma roda de casais jovens ! Sai cada anedota imoral que vou te contar ! E, no dito sexo frágil, encontrei as maiores incentivadoras para ir em frente. No Lions-Norte, quando presidente, encerrei uma roda de anedotas, numa noite de luar, no Iate, após Edna Câmara, domadora de Severo Câmara, com aquela cara angelical que Deus lhe presenteou, contar um caso acontecido com um homem que comia demais. Eu conto, Edna ? Por você, sei que teria consentimento, mas Marcos Aurélio publicar ? Nunca !

O TOMADOR DE CERVEJA

- Boêmio, é ?
Boêmio que só toma uma qualidade de bebida (Cerveja); que vomita se botar na boca um conhaque, uma vodka; que nunca tomou cachaça, nem em beira de praia e em tempo de caju de conta ?

A CLASSIFICAÇÃO

José Waldenício de Sá Leitão, o rei da noite, quando da auto-apresentação no Ágape Clube, enquanto uns se anunciam professor, industrial, comerciante, médico e etc. e tal, ele inflama o peito e proclama:
- Waldenício, boêmio.
E explica: é o que realmente eu quero ser e estamos conversados. Posso ser Procurador nas horas vagas. Nas horas boas, sou boêmio.

A DEFINIÇÃO

Vicente Serejo pediu-me uma definição de boêmio. E eu escrevi mais ou menos assim:
É preciso, de início, fazer uma diferenciação entre boêmio e bebedor. Este é um inveterado, desfibrado, prisioneiro do vício. Um pobre diabo mal vestido, de idéias confusas. Bebe em ambientes sórdidos. Não trabalha, ou, se o faz, é com imperfeição. Um infeliz a caminho de uma cirrose hepática aguda.
Já o boêmio, não. É um ser inteligente, de idéias avançadas, alegre, folgazão, um papo excelente, sempre bem recebido e festejado, que trabalha e muito, porque, para transar na noite, principalmente acompanhado, é preciso ter lastro bancário. Tem os olhos de farol a iluminar essas deusas que Deus botou na terra com o nome de mulher, avançando o sinal quando de alto se notar um sorriso prometedor, mas debreando e recuando, estrategicamente, se notar que a rota não é a permitida.
Enfim, um boa vida, adorando uma boa bebida, um prato sofisticado ou regional, um ambiente que inspire momentos de êxtase espiritual e sentimental.
- Boêmio, é ?



A FESTA DO PORTUGA OLÍVIO

O ACERTO


Acertada a homenagem aos 77 anos de idade de Olívio, sendo que 37 como barman, para o entardecer do dia 30 de junho, data em que há sete décadas e bote-força, o deixe-que-eu chuto nascera na remota aldeia de Peruzinho - que Cascudo afirmava não existir - tomou-se a primeira providência: compor comissão para acertar detalhes e quefazeres.

A COMISSÃO

Comissão é como o professor Onofre bem dizia: é a coisa mais ineficiente e sem futuro dessa nação. Nomeiam 3, 5, 7, 10 membros e não vai para a frente, nunca. Se um só não levar o barco, estamos conversados.
Pois a nossa foi exceção à regra. Às cinco e meia duma tarde/noite meio chuvosa do início de junho, os sisudos e compenetrados membros se encontraram numa mesa da Nova Delícia. Abertos os trabalhos, com uma Antárctica para Alexandre, uma Brahma para Renato do Grande Hotel ( que só toma a Chopp ) e um uísque para o livreiro Carlos Lima, acertou-se, em linhas gerais, do que se comporia a homenagem: coquetel, salgadinhos, inauguração do retrato do portuga, palavras de saudação pelo poeta, pintor e freqüentador de caderno Newton Navarro, agradecimento do homenageado e bebida até chegar no meio da canela.

O PRIMEIRO IMPASSE

Quando, conseguida uma Remington, estava-se confeccionando as listas de adesão, irrompe, bar à dentro, truviscado e meio, o nosso bom amigo Leão, a protestar, em altas vozes, a sua não inclusão na comissão.
- Toda festa na Confeitaria foi organizada por mim ! Tomei parte em todas as comissões ! Por que não nesta ?
Carlos Lima, com seu olho meio-fechado de Camões, explicou, grave:
- A comissão foi escolhida pelo consenso.
Consenso ! Grande termo inventado pelos novos tempos. Significa tudo e nada explica.
Depois da ofensiva intimidativa, o protestante apelou para o lado emotivo:
- Me diga, doutor ! Quem foi a primeira pessoa a quem o senhor falou em homenagear Olívio ?
Confirmei que havia sido ele, mas que eu não possuía poder de decisão para indicar, incluir, vetar nomes do trio organizador.

HOMEM DE PALAVRA
Quando o homem das máquinas caiu em si e viu que eram baldados apelos e argumentos, entrou de sola. Deu um murro na mesa que balançou copos e garrafas e gritou:
- Pois eu nem assino a lista, nem pago. No dia, não piso nem na Ribeira.
Homem de palavra está aí ! Não assinou e não pagou. Mas, no dia, compareceu, assim como quem não quer nada, querendo, entrou firme e forte no uísque De Monge e saiu de quatro pés.

O RETRATO
A mim, fora reservada a incumbência de abordar o portuga e arrancar-lhe um retrato decente para ser ampliado.
- Fale com cuidado que o homem pode se emocionar!
Mas quem passou quarenta anos vendendo bebidas vai se emocionar com mais o quê ? Embora botando banca de que a festa era imerecida, cascavilhou numas velhas caixas e lá desencavou o retrato dum lusitano moço, forte, bem vestido, na altura dos 40 anos.
E estava certo. Era aquele o Olívio dos velhos e bons tempos. Certa vez, recusei homenagem que a FNFS elaborou, inaugurando galeria dos ex-presidentes e eu fora o primeiro e fundador. Tirar uma foto com cara de 25 anos atrás, impossível ! E foto daquela época, eu não tinha mais.

A MÁQUINA DE LAVAR

Botei o retrato no bolso da camisa e larguei-me para casa. Dia seguinte, estava a vestir-me, quando dei por sua falta.
Corri pra esposa.
- Cadê a camisa que estava vestido ontem ?
- Estava suja. Botei na máquina de lavar, agora mesmo.
Entrei em pânico. Olívio prevenira de que só possuía aquela foto.
- E o retrato que estava no bolso ?
- Que retrato ? Não vi retrato nenhum.
Em 35 anos de vida em comum, foi a primeira vez que a mulher não fizera uma inspeção em regra nos bolsos !
- Desligue esta máquina, pelo amor de Deus !
Quando, trêmulo, o recebi, ele estava meio diluído, quase esbranquiçado. Enxuga, passa ferro, procura fotógrafo para ver se dá jeito ! O homem deu. Quase milagre ! Mas quem o examinar bem de perto, notará, em seu todo, aqui e ali, suspeitas manchas brancas. O preço pago por ter passado quase meia hora na máquina de lavar.


A FESTA DO PORTUGA OLÍVIO – II

AS REUNIÕES


A comissão passou a reunir-se aos fins de tardes, numa mesa da Nova Delícia, para cotejar providências e decisões a serem executadas.
Desde já, protesto veementemente contra cavilosas insinuações veiculadas à época, de que a precípua finalidade da reunião do dia seria entregar-se a libações alcoólicas ( entregar-se a libações alcoólicas é ótimo ! ).
É verdade, molhava-se o bico, uma cervejinha, um uísque, uma caipirinha. Surgiam pratinhos de queijo ou fígado acebolado. Mas, por esse Brasil afora, reunidos três ou quatro filhos desse gigante adormecido que façam ou pretendam fazer parte de comissão, o normal é falar da vida alheia e tomar uma !

AS ADESÕES

As adesões eram saudadas com entusiasmo.
- A turma de Galvão Mesquita aderiu ! O próprio Paulo de Paula ficou de vir ! Mozart Silva telefonou afirmando que, apesar de ainda considerar o portuga um ladrão descarado que aumentava nas contas, podiam contar com ele.
- Albano, o portuga do cotonifício, assinou.
E também Ferreirinha, da Casa Lux, o alto comerciante Zé Rezende ( É Zé Rezende ! É Zé Rezende! ), Manoel Lisboa, da Codif. O negro Oméris, que estava desaparecido de há muito, reapareceu, e embora taxando de exploração a taxa de cinco cruzeiros, assinou.
Aliás, achar tudo exploração é inato de Oméris. No dia seguinte ao do lançamento das “Acontecências”, ele endereçou a Editora Clima o seguinte telegrama: “Livro realmente uma delícia Felicito escritor e editora protestando porém alto preço. A quem de direito, para providências PT Oméris”.
Ele deve ter pago nos telégrafos o preço de outro livro !

AS DECISÕES

Algumas decisões foram logo tomadas. Todas, de forma a mais democrática, como se há de notar, embora uma democracia ainda eivada de algumas interpretações, certamente produto da Era do Cavalo que vivemos nos últimos seis anos.
Carlos Lima não teve meias palavras.
- Este coquetel que vocês estão anunciando é pra inglês ver. Será servido uísque, e De Monge, que é a minha marca predileta.
Zé Alexandre não fez por menos.
- E os salgadinhos serão encomendados a Gelza que, além de ser a melhor banqueteira de Natal, é esposa de Etienne Reis, irmão de Eider. Minchou e pof !
Renato, do Grande Hotel, depois do terceiro copo, falou duro:
- E fiado, essa história de “depois eu pago”, comigo não cola. Nem Jesus Cristo, se aqui chegar, não assina fiado.
Como estão interpretando o Homem de Nazaré ultimamente de todas as formas, maneiras e posicionamentos, o futuro memorialista resolveu demonstrar alguns conhecimentos etílico-bíblicos.
- Está provado que o homem era chegado a um mé. Onde fez seu primeiro milagre ? Numa festa de casamento! Meio fruviscado, vieram lhe segredar que o vinho acabara. Ele, do alto dos seus tamboretes, não se fez de rogado e disse: Não seja por isso. Deixem comigo ! E transformou água em vinho. E que vinho ! Grande Job, pra lá ! Foi até elogiado o seu produto no Livro dos Livros. Um emérito fazedor de vinhos, ele foi.

MEU PROTESTO

Aproveito a ocasião para mandar a um certo lugar ( este puritanismo de meia tigela de Marcos a não permitir que a gente escreva um nomezinho feio de vez em quando ! ) um certo editorialista que chamou o meu bispo Dom Costa, o meu amigo Hudson e o padre Pio, que nem conheço mas admiro ( Ah, se a Maçonaria topasse ! ) de comunistas. Comunista e fichado na mocidade, todos nós sabemos quem foi. Woden já declinou seu nome em entrevista, com todas as letras.



A FESTA DO PORTUGA OLÍVIO – III

A imprensa colaborou, decisivamente, para o sucesso que foi a festa de Olívio. Woden abriu alas e deu passagem a uma série de encômios ao português - não fosse ele um velho freqüentador e boêmio ainda hoje, destes de pegar o sol com a mão ! -, aproveitando o ensejo para profligar contra a Edilidade pelo abandono em que se encontrava (e se encontra) a velha Ribeira.

O 'O' A MENOS

Cassiano também. Idem Albimar Furtado que o substituiu em seus dias de férias. Só que Albimar, alérgico ao álcool e sem muita intimidade com a militância boêmia, chamou Olívio de Lívio. Mas quem vai se importar com tamanha insignificância, um “o” a mais, um “o” a menos, numa terra em que tanta gente boa anda dando o “o” ?

O MENESTREL SEREJO

Vicente Serejo, o menestrel de “Cena Urbana”, escreveu, no dia da festa, belíssima crônica, sem dúvida, a mais bonita do ano, intitulada Milagre na Delícia, que começa assim:
“Imagino hoje, coisa das 18 horas, na Ribeira velha de guerra, o poeta Newton Navarro fazendo a saudação ao mestre Olívio Domingues. Acordando com recordações de caravelas portuguesas que um dia pintou na parede da Confeitaria Delícia. E sobretudo para ouvi-las navegar nas marolas da Ribeira palafita.
“Imagino é Olívio Domingues, os cabelos brancos fazendo espuma na beira do mar da Confeitaria Delícia. Onde as lembranças retornam nos brindes de cerveja e de conhaque no buquet de vinhos antigos que dormiram nas prateleiras, onde adormeceram os sonhos dos poetas de lá.
“Imagino José Alexandre Garcia voltando aos caminhos da Ribeira silenciosa e carregando nos bolsos as histórias e estórias das boemias. Para recolher nas mãos as lembranças, todas perdidas ao longo de tantas vidas, como se a Ribeira abrisse as portas da alma e libertasse nossas almas todas.
“Imagino Carlos Lima, um misto de boêmio e editor, o cigarro quase caindo nos lábios, o riso aberto aos amigos. É como se existisse um corredor entre a Livraria Clima e a Delícia, onde Carlos passa todas as manhãs, todas as tardes, desde que aprendeu os caminhos de lá”.
E segue, derramando poesia pura, mesmo declarando que não fora um freqüentador da casa.

O BANCÁRIO

Mas nem tudo foram flores na armação do evento. Eu mesmo, fui, um dia, abordar antigo bancário e freqüentador. Ele recebeu-me com quatro pedras na mão e olhos fuzilantes:
- Quando for para contribuir para o enterro de Olívio, me procure. Para homenagear aquele mal-educado, de maneira alguma !
Um que certamente guarda mágoas do velho barman, um crédito não concedido, uma palavra mais áspera, um tratamento à la bruta.
Quanto ao enterro, Olívio está aí, rijo e são do lombo, pronto para comemorar, no próximo mês, 78 anos. E o tal bancário é uma caixa de doença, de casa para o médico, do médico para casa. Diagnóstico da doença: ruindade congênita.

ZIL

Numa tarde em que gravemente a comissão estava reunida, chegou o pegajoso, abraçativo, adesivo e envolvente Zil, o “cérebro da família Paiva” e foi logo caronando uma cerveja e pedaços de queijos. Sem antes beijar a testa do bancário Getúlio. Espicacei Renato, do Grande Hotel.
- E Zil, paga ou não paga ?
Renato teve um momento de desânimo e ao mesmo tempo de solidariedade só encontrada nos bares:
- Zil é hors concours. Vem de qualquer jeito. É melhor considerá-lo convidado especial.
Zil, em retribuição, pegou o cabo da vassoura como se fosse microfone e cantou Tenderly.
E cantaria outras mais, se Zezito permitisse.
E eis que o dia da festa, chegou. O que será contado - finalmente ! - adiante.



A FESTA DO PORTUGA OLÍVIO - FINAL

A solenidade estava marcada para as 6:00 h. Todavia, às 5:00 h. a confeitaria já recebia a primeira carga de boêmios. Almeida, da Força e luz, também conhecido por Almeida Garret e seu braço de borracha; o primeiro presidente do Gango Tetéu, o hoje grave e circunspecto senhor Heráclio Pires Filho; Celso da Silveira, doido para iniciar os trabalhos; o poeta Navarro; os membros da comissão; o fiscal do Estado João de Brito, estreando uma barba branca, à la hemmingway.
- Vai tomar parte em algum filme ?
O ex-despachante alisou os pelos, com evidente satisfação.
- A você, eu conto. Aos demais, digo desaforo grosso. É que precisei extrair todos os dentes e a barba encobre a boca murcha e a banguela.

O BAFO

Às 6:00 h., não cabia mais ninguém. Os grupos espalhando-se pela calçada e pelos passeios, onde as mesas estavam colocadas.
Num grupo à parte, no sereno, as figuras de Júlio César Andrade, Augusto Dourado e Orlando Gadelha, alguns dos primeiros representantes de confeitos, chocolates e queijos a confiar em Olívio.
O hoje poderoso homem da SAM’S (quatrocentas toneladas por mês) contava um causo. O da partida de Borboleta chegado precisamente numa véspera de Natal, açulando os comerciantes, ávidos para faturar o produto, justamente num dia dos mais propícios.
Nervoso, Orlando Gadelha foi dos primeiros a telefonar.
- E o meu queijo, Portuga ?
Olívio tranqüilizava:
- O velho Zé Alexandre já providenciou tudo. Despachou na Alfândega, desembaraçou nas Docas e entregou os conhecimentos a Pedro Ferreira. Com recomendação para entregar primeiro a você.
Houve uma estática e a linha caiu.
O português procurou refazer a ligação e, quando conseguiu, com voz melíflua que reservava para os melhores fregueses, perguntou:
- Você sabe com quem está falando, Orlando ?
E Orlando:
- Sei. É o portuga da Confeitaria Delícia.
Olívio não acreditava.
- E como você adivinhou ?
O antigo representante respondeu em duas palavras e desligou antes de ter notícias da excelentíssima senhora sua mãe:
- Pelo bafo.

OS POETAS JOVENS

Um grupo de cabeludos intitulado jovens poetas, acompanhado de algumas mocinhas de cabelos eriçados e coxas generosamente de fora, em minúsculas saias - única parte palpável de inspirados estros -, ocupou uma mesa e pediu cerveja, em altos brados. O convencionado com Zezito, o futuro Olívio da Nova Delícia, era restringisse ao uísque De Monge e aos salgadinhos de Dona Gelza, pois estava na cara que os invasores iam terminar atrelando a despesa à conta da festa.
Mas foram atendidos, numa demonstração de apreço ao valor artístico de cada um, embora ainda inéditos. E as coxas em exposição das mesmas...

LIMARUJO

Deu seis, seis e quinze, e nada de Olívio chegar. Com o que impacientou-se o alto comerciante Limarujo, nos tempos de pobre, conhecido por Preá Barbado.
- Estou sob prescrição médica. Como beber não posso, vou embora. E saiu levando cinco pratos de canjica por conta de sua adesão à homenagem, infelizmente - esquecimento, lógico ! - não consubstanciada em metais.

OLÍVIO EM GRANDE GALA

Quase seis e meia, desce Olívio dum carro. Envergava, em grande gala, um jaquetão cor de burro quando foge, camisa social fina e flamante gravata, maravilhando a todos.
- É a sua roupa de casamentos, batizados e procissões - reconheceu um mais íntimo. Ele agora é da Irmandade dos Passos.



A FESTA

E Carlos Lima deu início à festa. Como agora descrever o discurso de Newton Navarro, se a comissão, em sua única falta imperdoável, esqueceu de providenciar gravador ? Mas o Poeta da Cidade soube dar conta de sua missão. Como sempre, aliás. Emocionando a todos, evocando, primeiramente, o poeta de além-mar, Fernando Pessoa.
Quando Olívio procurou palavras para agradecer, ele tão desembaraçado em tirar contas e anotar em cadernetas, estas lhe faltaram. Não saía nada.
E ele recorreu-se de José Alexandre, ao seu lado, para agradecer a placa.
Sim, porque existia placa a ser entregue, com dizeres que manifestavam tudo, numa síntese realmente elogiável:

OS BOÊMIOS DA RIBEIRA AGRADECEM AO PORTUGA OLÍVIO, 40 ANOS DE ALEGRE CONVIVÊNCIA.

Acrescentar mais o quê, quem é temerário ?

O RETRATO


Todos de copo na mão, o uísque correndo frouxo, os salgadinhos idem, retomado o clima de descontração que os discursos haviam interrompido por momentos, segue-se no salão principal a cerimônia de descerramento do retrato, recoberto pelas bandeiras das duas pátrias irmãs, Brasil e Portugal.
O tenente Vítor, à paisana, como já mandava o figurino dos novos tempos de abertura, descerrou a bandeira verde-amarela. Dona Elça, esposa do homenageado, a da Casa dos Bragança, a verde-rubra. Ocasião em que o radialista Ademir Ribeiro aproveitou para ler a sua crônica intitulada O Nome do Dia, com a qual homenageara o velho barman ao microfone da Rádio Poti naquele dia. Na crônica, Ademir Ribeiro reconhece que, ao longo de 40 anos de batente, Olívio jamais marcara encontro com a tristeza, sempre a proporcionar momentos felizes aos seus fregueses.
Ao ouvir tal, as lágrimas começaram a correr pelo rosto do português. Pois não é que, nesse exato momento, adentra a Confeitaria, com passos cadenciados dum verdadeiro Jorginho do ABC, a figura humanitária do médico Helen Costa ! Que, ao aproximar-se, ordena a Olívio para abrir a boca e lhe encaçapa, ato contínuo, dois providenciais tranquilizantes.

O MILAGRE

Para que contar mais ? Dizer das presenças, não o faço que não sou cronista social. Mas posso acrescentar que até representante do Governo tinha, na pessoa de Augusto Carlos Viveiros, presidente da Emproturn.
Peço, mais uma vez, permissão ao menestrel Serejo para encerrar esta estória justamente com o fecho de sua crônica Milagre na Delícia.
“Será uma homenagem simples, com certeza. Que a Delícia não comporta orgulho, vaidade ou coisa assim. Será um encontro de amigos. Como se todas as mesas estivessem ali.
“Como se tudo, tudo quanto antes existiu, existisse agora. Por puro milagre”.
É verdade e dou fé, ao som dum fado cantado com maestria por João Alfredo, o João Bolão da Redinha e das serestas.

José Alexandre Garcia




Sábado, Julho 01, 2006

CATADORA DE SONHOS

Marcus Ottoni


"Os brasileiros jogam futebol desde que nascem. Nós tínhamos de ir à escola das 8h às 17h e, quando pedíamos permissão à mãe para jogar ela dizia não. Eles jogam das 8h às 18h, então em algum momento a técnica aparece. Você só precisa olhar para as cinco estrelas em sua camisa para entender que o futebol é parte de sua identidade. Eles amam muito este jogo. Na praia, na rua, na escola. Onde quer que você olhe, eles estão jogando. Quando eu era pequeno, pedia para minha mãe para jogar futebol e ela não deixava. No Brasil, as crianças brincam das oito da manhã às seis da noite."
Thierry Henry, atacante da seleção francesa de futebol

"Eu ouvi muito bem o que ele disse. Muitas crianças largam realmente a escola e ficam jogando futebol, ele está certo. Precisamos de uma atuação melhor dos governantes para que isso não aconteça."
Cafu, lateral-direito da seleção brasileira de futebol

“Argentina cai; Brasil é o continente hoje”
Manchete de O Globo

Yahoo


Entrelinhas

Uma leitora atenta mandou e-mail sobre alguns textos que escrevo, onde exploro histórias e estórias engraçadas do cotidiano. Dizia que preferia textos mais sérios, mais precisos, calcados em autores consagrados ou em assuntos "preferencialmente educativos". Em parte, ela tem razão. Mas, talvez ela nunca tenha lido Celso da Silveira, Eduardo Alexandre, Laélio Ferreira, Alexandro Gurgel, Antoniel Campos, Armando Negreiros, Hugo Macedo e tantos outros que fazem a alma ficar mais arejada, menos carrancuda. Tanto, que em reuniões de amigos, geralmente as conversas se remetem a esse tipo de literatura, que explora o fescinismo, mas, que também contêm mensagens esclarecedoras e interessantes. Outro dia um amigo que viajava de Mossoró para Natal, num carro, ligou dizendo: "Estou lendo suas entrelinhas".

O escritor Eduardo Alexandre, o organizador da antologia 'Cantões, Cocadas, Grande Ponto Djalma Maranhão', costuma dizer que a vida não pode ser levada muito a sério, que precisamos ter um pouco menos de sobriedade para podermos enfrentar as 'seriedades' do dia-a-dia. Ele tem razão, pois a minha crítica leitora, por exemplo, gasta o seu tempo na internet mandando inúmeras mensagens contra o presidente Lula. Nada que não deva ser lido. Muito material que ela pinça de grandes colunistas, são esclarecedores, mas, da parte dela, é somente um rancoroso exercício de 'copiar e colar'. Não escreve o seu pensamento, um texto inteiro, reserva-se a pequenas mensagens sobre "o Brasil que não tem mais jeito, mas vamos vencer pelo voto". Clichês corriqueiros. Ela também manda interessantes matérias cristãs. Todos, também, copiados. E, as mensagens se conflitam, porque ela demonstra ser uma católica de primeira linha. E, católico que tem sua vida centrada em Jesus Cristo busca viver de forma 'cristocêntrica', ou seja, seguindo imediatamente e de forma radical os ensinamentos Dele com relação ao perdão e a busca das soluções pela fé e pela oração.

Respondi a ela sugerindo que comandasse uma grande corrente de orações em prol de mudanças para os problemas que ela detecta no presidente Lula. Ora, a internet propaga rapidamente qualquer coisa e ela faria algo inédito, seguindo os ensinamentos do catolicismo, pois o próprio Cristo manda abençoar os inimigos. Se você abençoa somente a quem ama, o que vale isso?

Na última quinta-feira a TV Globo, no programa Linha Direta, mostrou o terrível incêndio ocorrido em Niterói, no Grande Circo Norte-Americano, em 1961, quando mais de quinhentas pessoas morreram queimadas depois que um ex-empregado do circo pôs fogo na lona, por vingança. A comoção sobre o fato no Brasil e no mundo, foi grande e o exercício de solidariedade humana, também. Mas, a face mais emblemática disso foi o surgimento do profeta 'Gentileza', que na época era um empresário e que deixou tudo, inclusive a família, para perambular pelas ruas do Rio de Janeiro pregando a gentileza como forma de bom relacionamento entre as pessoas. A gentileza como forma de união. Ele morava no local onde o circo pegou fogo, por opção. Talvez como forma de poder estar sempre lembrando da necessidade dos bons pensamentos. Escrevo isso, para ilustrar que os bons sentimentos, as boas idéias, atitudes de humanidade, humildade, reciprocidade, honestidade, oração sincera, repercutem de forma extraordinária. Tão fortemente que às vezes passamos de um momento para o outro sem nem percebermos as riquezas interiores que estamos acumulando.

Portanto, minha amada leitora, irei continuar contando as histórias e estórias do nosso povo, algumas até lúdicas - preste a atenção -, esperando ansiosamente a sua iniciativa de suprir pela rede mundial de computadores uma grande corrente de orações pelo presidente Lula e pelo nosso Brasil.

Leonardo Sodré




CATADORA DE SONHOS

“Mais vale esgotar-se pelo bem,
do que ser esgotado pelo mal.”

Jacques Maritain

Verdade que comecei sem nenhuma pretensão, a não ser a de uma simples leitura de um livro, como me ocorre todos os dias, anos a fio.

A prosa, em suas diversificadas formas, gêneros, estilos; a poesia, com a sua grandeza intrínseca e extrínseca, e as variações sentimentais e estruturais, próprias de suas inacabadas maneiras de introspecção e formação, além de indecifráveis; (Ser poeta é uma maneira de ser, não de escrever, dizia Mario Quintana) os ensaios de cunho filosófico e os estudos literários propriamente ditos, mormente a crítica, as formulações biográficas com doses elevadas de um memorialismo sempre interessante; são, posso dizer, elementos integrativos e constantes do meu dia a dia, em diferentes horários, no aconchego da minha pequena biblioteca, que chamo às vezes de “minha clausura predileta”.

Não teria condições de escrever sobre todos os livros que leio. Não só por falta de “engenho e arte”, mas pelo tempo que consumiria. Faço algumas anotações, soltas. Pequenos fragmentos que se perdem levados pelo tempo. Sempre o tempo, que Hector Berlioz considerava “como um professor”, só que “mata seus alunos”.

Como disse, não pretendia faze-lo agora, mas faço-o, impulsionado pela leitura de um livro simples, mas tocante, de uma prosa cristalina que se transforma em verdadeiros poemas, fazendo do relato real e existencial, um fato contemplativo da beleza humana, transmudando a vida em um poema de amor, pela vida, emergindo em determinadas situações elementos líricos de pura grandeza. Há atitudes, gestos, ações, recolhimentos e interiorização de sentimentos que são verdadeiros e lindos poemas. E não se irá aqui teorizar sobre poesia, lembrando o que disse sempre com proficiência o mestre Paulo de Tarso, por todos os títulos, imortal: “A melhor teoria sobre o poema, é o poema.”

Não me furto, porém, de vislumbrar no texto percorrido, uma verdadeira poesia em prosa. E por isso, vem-me à lembrança, de inopino, como a justificar, um pequeno trecho de Baudelaire, que em síntese tem o significado de uma definição sobre a matéria superficialmente aqui tratada:

“Qual de nós, em seus dias de ambição, não sonhou com o milagre de uma prosa poética, musical, sem ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante rica de contraste para se adaptar aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência?”

Esse “Catadora de Sonhos,” de Lucia Rocha, não significa apenas sonhos, são realidades cruas catadas no lixo das ruas, por um estado social criado pelas injustiças sedimentadas através dos anos, numa evidente demonstração de que a iniqüidade social é o retrato da desumana presença do homem, criador por excelência da miséria coletiva que se perpetua, como se fosse esse, no final, o real objetivo.

Comecei e fui até o final, mesmo sem pensar que o fosse. Fui.

Descobrindo na leitura não só a grandeza de uma mulher, mas de duas. A que chega até nós, permanecendo diante dos nossos olhos, com sua nobreza no infortúnio das ruas e na construção de um humanismo solidário, próprio das notáveis heroínas de todos os tempos, graças ao relato que renasce com toda sua clareza, numa narrativa que tem o poder de aproximar a realidade dos sonhos, fazendo deles o instrumento sólido de uma construção de textos que a tornam também, como a primeira, de intensa grandeza.

Para pintar um quadro tão pesado, para fazer emergir e projetar tantos fatos de uma dura realidade vivida com estoicismo por uma mulher de pensamento e atitudes louváveis, sem quebrar a clareza, a singeleza e simplicidade na sua elaboração cuidadosa e ritmada, só uma experiente escritora o faria e Lucia sem dúvida, o fez, permitindo que o insólito, o grotesco e o cruel recebessem um tratamento que permite o não obscurecimento da nobreza da história e da protagonista principal. O texto, desde o início, comove, mas não perde a beleza, pela sensibilidade, agudeza e perspicácia com que é burilado, elaborado, resultando numa narrativa enxuta, de fácil leitura e compreensão.

Com habilidade, sem afetação, sem nenhuma conotação bombástica ou pieguice, que sem dúvida afetaria a simplicidade da história de uma grande vida, a autora usa uma técnica, sem quebra do poder e da qualidade da narrativa, que com maestria inter-relaciona as duas personagens, sem seccionar a harmonia e nem os efeitos grandiosos de uma vida construída em noites indormidas, em sonhos fantasmagóricos e em estados delirantes, penetrantes no próprio corpo frágil, mas interiormente fortalecido pela têmpera inquebrantável de uma mulher.

Inegavelmente, Maria Eulina, foi deveras bem servida, pois sua vida, sua nobreza de caráter, a dignidade que conseguiu manter por entre tantas ocorrências negativas, e também, quando encontra, pela fé ardente e arraigada, os caminhos da ventura, aparecem diante dos nossos olhos com tanta clareza, com tal simplicidade e suavidade, que se transforma numa presença marcante e bela, graças à maneira singela, mas viva, com que a autora delineia os caminhos e os fatos, dos corriqueiros aos mais complexos.

Lúcia Rocha conseguiu com argúcia, com fina e sutil sensibilidade, não cair no grotesco e nem na pieguice, mantendo intacto o alto padrão narrativo da história, e em posição sempre em elevado patamar, o alvo principal que era apresentar alguém que enche pela beleza das ações um universo do comportamento humano, singular, ímpar e digno de todos os aplausos.

Nunca pensei que alguém conseguisse, sem se nutrir com palavras vazias e ocas, estabelecer parâmetros criativos, através de um poder de recriação das realidades vividas, sem quebrar o nexo de causa e efeito predominante nas diferentes situações, clareadas com visível maestria e singularidade.

A autora de “Catadora de Sonhos” mostrou não só a reciclagem do lixo, mas a transmutação da própria vida, que do nada concretizado nas ruas, engrandecia-se pela consistência interior calcada e impulsionada por uma ardente e comovente espiritualidade.

Ela, Lucia Rocha, excedeu-se em beleza descritiva desse quadro de contrastes, pondo em relevo com uma cadência motiva e emotiva, os pontos chocantes da ausência e perplexidade de um ser que parecia se quedar diante da realidade crua, e nua, transformando-a em nada diante da imutabilidade temporal; e aquele outro que se mostrava irrealizável, e nas alturas, mas que fazia com que as fracas forças se regenerassem e passassem a formalizar reações aparentemente impossíveis, dentro da realidade vivenciada. Consubstanciava-se um outro estado de espírito, de difícil percepção e assimilação, impossível de se ver a olho nu, mas presente pela potência emanada da fé que se antepunha ao realismo flagrantemente cruel das ruas impregnadas pelo lixo e pelos odores fétidos exalados da promiscuidade ambiental.

O fim é apoteótico, não só pela vida que ganhava novos contornos, porém com a mesma coerência e persistência, mas pela maneira de ser a narrativa conduzida através de um canal visível, estabelecendo a simbiose da nascente, (raiz) com seu fluxo evolutivo, até o reencontro de um outro estado, sem desfigurar todos os elementos integrativos e formadores dos diferentes estágios percorridos.

É um fluxo e refluxo de ocorrências que, bem ordenados e bem urdidos, fazem com que persistam a cadência, o ritmo, a coerência e os nexos que no curso do próprio encaminhamento se complementarizam, num contexto limpo e bem elaborado, constituindo-se numa peça singularmente perfeita, ouso afirmar.

Portanto, digo finalizando, que a autora de “Catadora de Sonhos”, Lucia Rocha, cumpriu galhardamente, com brilhantismo, sensibilidade e inteligência, numa flagrante demonstração de experimentada escritora, o papel que ela própria escolheu desempenhar.

Nada mais a acrescentar, senão saudar a grande e afirmativa escritora, desejando amplo sucesso, inclusive com outros textos de sua autoria, com a mesma profundidade como o que foi alvo deste alinhavado de palavras.

Elder Heronildes



Professor Napoleão – Final

O restante da turma não gostou da conversa em particular, queria também saber a opinião do professor sobre o que o aluno propusera e isso fez com que Napoleão prometesse a resposta para a aula seguinte, naquela turma, a 7ª D, a turma dos indisciplinados.

Durante a reunião na sala dos professores, Napoleão comentou com os colegas sobre a aula que havia dado.

- Muito me impressionou essa 7ª D, a turma que vocês dizem ser a mais difícil da escola. Achei que são politizados, que gostam de temas sociais, e não tive nenhum problema de disciplina com nenhum deles...

Os professores, que já sabiam da revolução que Napoleão estava a fazer na escola entreolharam-se e nada comentaram, voltando ao assunto que estavam conversando antes do ingresso do mestre na sala: os baixos salários dos profissionais da educação.

Sentindo-se meio excluído, até por não ser mesmo professor daquela escola, estava ali só para substituir Amenófis enquanto resolvia os seus problemas particulares na Paraíba, Napoleão preferiu o silêncio. Tomou um cafezinho, foi à estante, pegou um livro de matemática e começou a folheá-lo, até que tocou para o retorno às aulas.

O professor Napoleão olhou o relógio, viu que faltavam cinco minutos para o término da aula, e mudou de assunto.

- Foi muito bom passar esses dias com vocês. O professor Amenófis já deve estar chegando da Paraíba e deve retomar sua disciplina, voltando a ministrar a aula de História, com H maiúsculo para vocês.

Ao dar aquela informação todos percebemos que estávamos para perder o nosso grande mestre em História, que as aulas tomariam seu curso normal, com aulas chatas e cansativas, sem um mestre como aquele a nos fazer sonhar com algo interessante. Atordoados, ficamos um certo tempo em silêncio até que Bittencourt, um menino que jamais abrira a boca para dirigir qualquer palavra a qualquer dos nossos professores, lamentou:

- Não, professor. O senhor quer dizer com isso que está nos deixando? Por que não deportamos Amenófis definitivamente para a Paraíba?

Desculpando-se, procurando palavras para não se mostrar arrogante, o grande mestre Napoleão retomou o rumo da conversa e se apresentou melhor:

- Eu havia me esquecido do detalhe. Sou PhD em História das Américas pela Universidade de Londres, e estou aqui de férias. Tenho de retornar aos meus estudos e às minhas aulas ainda nesse domingo, para segunda-feira já enfrentar aquele céu londrino, sem a alegria do sol daqui.

Margarida não deixou Napoleão ir adiante. Quis logo saber o que era aquilo de PhD que o mestre falara. Fez sua pergunta, que, afinal, era uma dúvida a muitos dos alunos e foi atendida imediatamente pelo grande mestre.

- PhD, é Philosophical Doctor, Margarida, um título que se dá àqueles que chegam aos estudos mais detalhados, mais avançados a nível de universidade, um título superior ao de mestre, ou de professor. Especializei-me em História das Américas exatamente pela minha curiosidade em relação às civilizações aqui encontradas quando do descobrimento. Os Mayas me fascinavam, os Aztecas me enchiam de dúvidas e de curiosidade e os Incas, entre tantos outros povos originários desse continente, me atraiam de uma forma magnética, daí eu ter me especializado em História das Américas.

Acabou de dizer isso quando tocou. Ele pediu licença, disse que havia adorado conversar conosco sobre tão atraentes assuntos, e prometeu que voltaria no ano seguinte, se aqui estivesse de férias e fosse novamente convidado pelo professor Amenófis, seu amigo e colega de muitos anos.

Dizer aqui o que se passou pela cabeça de todos é impossível, mas certo é que aula nenhuma assistimos mais naquele dia, enfiados numa tristeza azeda, certos da volta do marasmo ao nosso cotidiano escolar.

O professor Napoleão foi cumprindo o seu ritual de despedida uma a uma das turmas que lhe foram entregues pelo professor Amenófis, e em todas elas ia deixando o mesmo rastro de desolação em que a nossa ficara.

Realmente um sujeito impressionante, aquele Napoleão. Nunca na vida, vi uma escola em tanto silêncio como se tornara aquela, naquele dia de despedida do professor que conseguira fazer com que passássemos a amar o estudo da História.

A todos uma coisa ficou certa: nunca mais haveríamos de assistir aulas tão brilhantes, tão cheias de prazer, como aquelas do professor Napoleão. Professor Napoleão? Não. Napoleão não era o seu nome mas apelido, como dissera na sua primeira aula. Como se chamaria, de fato, aquele baixinho, careca, barrigudinho, com cara de palhaço, professor de História com H maiúsculo?

Acho que nunca saberemos. Amenófis disse, depois, não saber. Que desde que travou conhecimento com aquela celebridade que o trata por Napoleão, não conhecendo nem aquela estória do apelido.

- Quer dizer que o nome dele não é Napoleão? Perguntou ele, mostrando, de fato, ter sido pego de surpresa. Começou a falar do assunto do dia, coincidentemente, a Revolução Francesa, e aí a galera se colocou interessada, doida para ouvir a História de Napoleão, o grande general.

© Eduardo Alexandre


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