sexta-feira, dezembro 14, 2007

RUA SÃO PEDRO

Marcus Ottoni

"Já tem gente falando em pesquisa no rastro das eleições municipais do ano que vem. Por estas brenhas potiguares fala-se até de senhores e senhoras abrindo os cofres generosos de procedência duvidosa. Privados e semi-oficiais. No colunismo social (ah, o colunismo social potiguar!) percebe-se os primeiros arrepios."
Woden Madruga

Recanto de cultura


Paulinho a Cores e Chagas Lourenço

Bob Motta se apeia da moto, tira o capacete e se apresenta num boa tarde sonoro e sorridente. Traz, pronta na língua, a poesia matuta feita no dia, e vem conferir a aceitabilidade da dita.

Mesa boa em Nazaré, Bob senta e a conversa segue adiante, Chagas Lourenço contando proezas de sedução fácil de rapazote, nos tempos que amigou-se com Neuza Margarida Nunes e vivia na Ribeira, de cabaré em cabaré, haja cachaça!

- Seu Chagas, o senhor é fichinha pro mano véio aqui. Desafiou Bob Motta.

Espantado, Chagas deu uma tragada no seu Ramon Allones cubano; desceu a mão ao copo de cerveja geladinha que estava sobre a mesa, acompanhou as volutas de fumaça no ar; até que resolveu responder:

- Mais do que eu, eu sei que você conhece do assunto, seu Bob. Mas mais do que eu e Paulinho a Cores junto, você não conhece, não!

Percebendo o desafio aceito, Plínio Sanderson arregalou mais ainda os olhos e o Bardin fez tremer no pandeiro toque de execução de sentenciado.

- Esperaí queu vou pegar caneta e papel! Foi o tempo que Cabrito pediu para registrar o entrevero para a Capitão Gancho Produções Artísticas.

Eu vi Danusa de Salles,

dizer na televisão,

que nas Rocas, tão querendo,

fechar nossa diversão.

O fim da Rua São Pedro,

além de me causar medo,

me entristece o coração.

Sapecou Bob, em meio ao silêncio que se fez ao retorno de Cabrito.

Não era à toa que o assunto girava em torno de cabaré: aquele era o dia do fechamento da Rua São Pedro a chumbreganças comércio/amorosas.

E se falava de Maria Boa, Rita Loura, o Arpege, recursos, até da Transamazônica, manguezal da Praia do Forte.

Chagas estava numa de nostalgia de fazer dó. Como Neuza fazia falta! E lembrava as madrugadas de fim-de-farra tomando as saideiras com caldo de feijão a cavalo da Tenda do Cigano.

Conhecia tudo, o menino. Mas o dia era de Bob e ele estava interessado na estória. Consentiu e Bob levou adiante:

- Se eu fosse capaz de impedir esse estrupício, eu iria à Promotoria pra dizer:

Ilustríssimo Promotor:

No aspecto cultural,

nas Rocas, rua São Pedro,

é, além de colossal;

manancial de memória,

que se confunde com a história,

da cidade do Natal.

Como todo bom bar que se preza tem a mesa dos comunistas, Albérico, o diretor de organização do PCdoBeco se levantou, dedo vibrando no ar:

- Valeeeeeeeeeeeu, Bob Motta! Alguém tem que levantar a bandeira da defesa da Rua São Pedro!

Quando sentou, na aba lateral do bucho, levou beliscão forte de Marta, para fazê-lo esquecer tempos outrora ali vividos, gastando em três dias todo o salário do mês, ouvindo música de radiola de ficha, a rapariga no colo, e a vida que pediu a Deus no mundo.

Em nome da boemia,

sob o céu de azul anil,

não feche os bregas, doutor;

Se as radiolas de ficha,

deixarem de funcionar,

doutor, com toda certeza,

o senhor vai se tornar,

digo, nos versos que faço:

O coveiro de um pedaço,

da cultura potiguar...

Albérico não agüentou de emoção e levantou bruscamente, aplaudindo. Todos os outros comunistas foram solidários e levantaram também.

A última foi Marta.

- Eu sabia que um dia você ia entender porque eu dizia que a Rua São Pedro era um recanto de cultura da cidade do Natal... Disse Albérico, olhando-a nos olhos.

Levou um muxicão tão do condenado, que desandou e derrubou duas cadeiras, numa das quais estava a bolsa de Marta, que caiu na lama do beco de Nazaré.

Edgar Allan Pôla


BARES E CABARÉS DE NATAL, NOS ANOS 60


Pouco mais de dez por cento,

eu tenho da tua idade.

Minha querida cidade,

eu louvo a todo momento.

Natal, és um monumento,

a transpirar de emoção.

Guardo no meu coração,

também na minha retina,

minha Natal pequenina,

meu amor quatrocentão.


Falando tão bem assim,

da minha linda cidade,

com toda sinceridade,

acrescento, outrossim.

E não falo só por mim;

Natal, prá teus filhos, és;

inspiração nota dez.

E esse poeta apresenta,

na década de sessenta,

seus bares e cabarés.


Era o vício que se tinha,

visitar depois da aula,

Francisquinho, Zéfa Paula,

Acapulco e Francesinha.

Otávio, Raquel, Aninha,

Arpege, Plaza, Ideal,

Rita Loura, que legal.

Margô, lembro em minha loa,

Virgínia e Maria Boa,

que era a melhor de Natal.


A Ribeira era um tesouro.

Lá na Quinze de Novembro,

com saudades, eu relembro,

Magrifh e Rosa de Ouro.

Quem ía furar o couro,

no Bar da Tripa passava.

Na Pensão Coimbra dava,

um beijo numa pequena,

no Beco da Quarentena,

certamente se encantava.


Cleide Drinks era cheio.

E lá na Tenda Cigana,

se tomava muita cana,

na velha Praia do Meio.

Fazendo grande arrodeio,

nas Quintas, se ía bater.

No Soçaite, espairecer,

depois de comer cióba,

ía lá prá Maria Taióba,

continuando a beber.


Ainda lá, digo a vocês:

Madalena, Elisa, A Lua,

mais abaixo, na outra rua,

o Meu Rico Português.

Lá no Quilômetro Seis,

Dona Nêga e As Duas Rosas.

Jovens, alegres, formosas,

deixavam o cabra nos trinques,

Milagres e Tetê Drinks,

As Divinas e Maravilhosas.


Voltando à velha Ribeira,

lá na Boate Alabama,

com a cara cheia de rama,

na Rua São Pedro inteira.

No final da brincadeira,

Duruca fazia alí,

ensopado de sirí,

e quem passasse batido,

comia o peixe cozido,

na Peixada Potengi...

Bob Motta

por Alma do Beco | 7:50 PM


Hugo Macedo©

Beco da Lama, o maior do mundo, tão grande que parece mais uma rua... Tal qual muçulmano que visite Meca uma vez na vida, todo natalense deve ir ao Beco libertário, Beco pai das ruas do mundo todo.

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Praieira
(Serenata do Pescador)


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A imagem de fundo é do artista plástico e poeta Eduardo Alexandre©

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