sexta-feira, dezembro 28, 2007

1501

Marcus Ottoni

"Nossa gente está protestando nas ruas. Ela era uma mulher de ferro, que tinha anunciado mil vezes que a matariam. Foi um ataque contra o Paquistão."
Ghulam Abbas, secretário-geral do Partido do Povo Paquistanês na região de Punjab, sobre o assassinato de Benazir Bhutto


DEUS.DOC

Eduardo Alexandre

deus.doc

the computer

in winword

seis ponto zero

deus.doc

WINDOWS

MEU DEUS, DIANTE DE TI

ESTOU PERDIDO

SEM CONHECER OS TEUS SEGREDOS

AS TUAS MANHAS

TEUS CÓDIGOS

OU ÍCONES

MEU DEUS DIANTE DE TI

ESTOU PERDIDO

DIANTE DE TANTAS POSSIBILIDADES

E NÃO SEI USÁ-LAS

DEUS LEVE-ME AO

TUTORIAL

OU AO HELP

HELP GOD COMPUTER MMMMMM




MMMMMMM MMMMMMM MMMMMM MMMMMM

MMMMMM O QUE É ISSO CHEIO DE VERDES E AZUIS ?

MARGENS

IMAGENS

QUE NÃO SEI DE ONDE VÊM...

GOD COMPUTER, AJUDA ESTOU PRECISANDO

UNLOCK. RESET. F1. CAPSLOCK

A\: QUE DIABO EU TECLO?

TIMES NEW ROMAN

REC. INSERIR

QUE É QUE EU FAÇO DO MEU

486 DX 40 4 MB DE RAM?

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Natal-Rn, novembro de 1994



Beco da Lama, 1501

Antes dos poetas, antes das hebdômadas hostis de cada esquina, do lendário Câmara Cascudo, o Beco da Lama já existia. Noutra geografia, mas existia.

Sua vegetação era rasteira. Existiam aguapés secos, maceiós desgovernados.

Um gramado de restinga aprisionava a areia ao solo.

Assim, foi o beco um dia. A areia fina, grãos polidos pelo vento, cartão postal que impressionava olhos desprotegidos. Era terra de lobos vermelhos, leões de todas as cores e tamanhos, veados voadores, peixes que andavam e cavalos que nadavam.

Lembro-me da primeira vez. Do dia que venci todos os obstáculos primários e caminhei pelas ruas do Beco. Foi enfiando os pés nas areias fofas e quentes da praia que derrotei as primeiras léguas. Driblei tanto a fauna faminta quanto a flora melindrosa.

Foi chegar ao Beco pela primeira vez e ver sua alegria incomum, sua rotina que teima em surpreender.

À meia légua da desembocadura do grande rio, vi um grupo de mulheres jovens. Do estirâncio, elas observavam a geografia estrangeira que galopava lenta pela praia.

Em minha direção, resolveram caminhar. Rapidamente. Um passo majestoso, curto, ligeiro. Caminhavam ansiosamente felizes. Simplesmente caminhavam. Felizes. Assim, o grupo chegou bem próximo de mim.

Pareciam comentar sobre o achado.

Começaram a tocar-me. Seus braços e ombros esbeltos, alegremente, estudavam milímetro por milímetro do meu corpo.

Fiquei corado de vergonha. Procurei afastar-me discretamente. Não cheirava bem. Foi inútil: antes de somar alguns passos, elas me cercaram e começaram a tocar-me novamente. Sorrisos largos, seus pudores nus. Um carrossel holandês de belas mulheres girava embriago, fazia o meu sangue ferver. Elas eram lindas, seus corpos perfeitos. Pareciam amigáveis e não ligaram para o meu aspecto asqueroso de rato de navio.

Pensei ser a visão do paraíso. Um paraíso jamais imaginado. As conseqüências disso, uma ereção monumental.

Medo, euforia, prazer, dúvida? Não sei ao certo, só me lembro de salivar. Salivar muito.

Meus cabelos crespos aprisionavam suas mãos. E elas puxavam, e doía. Tocavam meus pudores, amassavam meu órgão ferido de tanta manipulação. Antes de tudo escurecer, eu apenas desfrutava, sem nada expressar.

Acordei amarrado pela cintura. Senti nos lábios um gosto adocicado de uma bebida lombrosa, misteriosa, amarga, que embaçava meus olhos.

Aos poucos, a embriaguês transformou-se em lucidez gostosa. Meu corpo estava

relaxado. Apesar do galo na cabeça dormente, meu corpo estava relaxado.

Eu podia ver mulheres e homens consumindo, até a exaustão, o precioso

néctar. As mulheres serviam-no aos homens, que bebiam e dançam. Uma

multidão.

Pintados, emplumados, com instrumentos de sons, enfeitados. Produziam um ritmo dançado por toda a tribo. Percussão e harmonia.

Corpos cobertos por penas brancas e cocares de penas vermelhas puxavam fila indiana. Fila que se estendia por centenas de metros. Ela dava voltas no entorno da aldeia. Num mesmo ritmo. Uma marcha poderosa.

As mulheres cantavam e beberam por último. Pintaram seus corpos nus, ostentaram adereços emplumados e saíram também como em procissão. A noite era toda de festa.

Vi um homem enorme que segurava um pau igualmente grande. Estendido por trás da cabeça, em posição de ataque. Fiquei sóbrio nessa hora. A corda amarrada à minha cintura nua, como um cabo de guerra, roubava-me o fôlego.

Desta vez, o tacape foi mortal.

Soube, depois, que comeram minha carne moqueada junto a ervas. Mulheres fizeram papa de mandioca, banquete de ritual.

Fui devorado para ser eterno entre eles. Para ser um deles. E acho isso bom.

Sob uma única condição, pesa pequeno fardo: em troca, uma maldição guia meu espírito pelos tempos, não tenho escolha: sempre quero voltar e tem que ser para o mesmo lugar do ritual: todas as vezes, nascer, viver e morrer no Beco da Lama.

Franklin Serrão

por Alma do Beco | 4:46 AM


Hugo Macedo©

Beco da Lama, o maior do mundo, tão grande que parece mais uma rua... Tal qual muçulmano que visite Meca uma vez na vida, todo natalense deve ir ao Beco libertário, Beco pai das ruas do mundo todo.

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Praieira
(Serenata do Pescador)


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A imagem de fundo é do artista plástico e poeta Eduardo Alexandre©

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