“As intensas operações realizadas na zona (em que os reféns seriam entregues) nos impedem entregar, como era nosso desejo, os reféns. Insistir seria arriscar a vida das pessoas e dos guerrilheiros.”
Comunicado das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - FARC - lido pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, por telefone, no canal de televisão estatal da Venezuela.
Danielle Cristine

A recriação do Mundo
Mesmo as culturas e os povos considerados mais primitivos na maneira de pensar; mesmo os mais tecnologicamente atrasados dos povos; mesmo os bandos mais longínquos no tempo; mesmo os grupos humanos mais arcaicos, quer estivessem eles em qualquer latitude deste globo terrestre, todos, sem exceção, entendiam que a natureza e a vida são cíclicas, obedecendo, ad perpetuam, a ritmos e espaços temporais que se desgastam, terminam e voltam a ser, recomeçando interminavelmente, ciclos eternizados.
Não existiu sociedade humana, por simples que tenha sido, que não possuísse o sentido da passagem inexorável do tempo, da duração efêmera das coisas materiais, da exigüidade da existência dos seres vivos.
É desta sensação de brevidade, da incompreensão desta subitaneidade, da imprevisibilidade da vida biológica, que nasceu a ansiedade da raça humana no confronto cotidiano gerado pelas suas ações e comportamentos. Esta ansiedade se acumula e se potencializa com o correr do tempo, e vai jogando o ser humano em uma torrente inescapável, que se torna cada vez mais pesada e cansativa, com o amontoado de medos, sustos, tristezas e fracassos que pejam o seu cotidiano.
Não há como recuar, nem compensar, pois, se algo agradável acontece, é sempre misturado ao que de ruim já aconteceu. A média, portanto, tende sempre para a diminuição do que é positivo. Afinal, são as tragédias que deixam marcas quase que indeléveis. São elas, ou melhor, o medo de que elas venham a acontecer, que geram a ansiedade e a sensação de insegurança no viver.
Portanto, mesmo fatos bons serão ‘amortecidos’ pelos fatos ruins que lhes foram anteriores. Isto quer dizer que, uma vez acontecido algo negativo, a vida do homem jamais voltaria a ter harmonia e ele jamais voltaria a ser feliz. Tudo teria ficado contaminado pelo acontecimento negativo.
O ser humano, no entanto, sempre possuiu a capacidade de criar meios para enfrentar os desafios do viver. É daí - precisamente da necessidade de romper com as vicissitudes que se perpetuariam -, que o homem entendeu a simbologia do tempo cíclico, a concepção do ‘eterno retorno’, no dizer de Mircea Eliade, um dos grandes estudiosos do tema. Toda a criação, porque advinda da divindade – seja ela qual for, pois o principal atributo da Divindade é o poder de criar - é perfeita, sem jaça ou defeito congênito. O Tempo Primordial, o tempo original, onde tudo inicia, onde tudo tem origem, é hígido, são, impoluto, sem pecados. Assim, sem culpas.
O tempo cíclico – como a vida, também cíclica – envelhece, se contamina no seu dinamismo, na sua senda. Enfim, se gasta com o uso, adoece e, então, fenece e morre. Mas sofre uma morte-ressurreição, pois reaparece – rejuvenescido – no mesmo tempo em que desaparece. Na realidade, o mundo, junto ao tempo, é re-fundado, é recriado, para reiniciar novamente – sem máculas nem falhas – um novo ciclo de tempo, um novo ano.
É nessa nova fundação do mundo que se estabelece e atua a força de viver do ser humano, pois é através desse entendimento simbólico do tempo, que ele se aproxima e convive com a criação, com o poder de criar, o que é, como vimos, atributo das divindades maiores. Tudo sendo renovado, as culpas são aliviadas, as tristezas aplacadas, os medos postos de lado e a esperança retomada. Afinal, eis que temos nova chance de iniciarmos – justos e perfeitos – mais uma vez.
Feliz Ano Novo
Walner Barros Spencer