quarta-feira, maio 10, 2006

LERO DE CONSISTÊNCIA

Marcus Ottoni


“Eu não sei de onde tirei isso, se foi da imprensa, se foi de ouvido ou se foi da minha cabeça. Sobre essa entrevista, não sei mais onde está a verdade.”
Sílvio José Pereira, ex-secretário-geral do PT

Hugo Macedo
I Carnaval do Centro Histórico - 2006

DEIXA DE LERO DE CONSISTÊNCIA, META A MÃO NA CONSCIÊNCIA


Detesto afirmar que, ao menos uma vez, concordo com o tirano Capitão das Artes: o nível deveria ser outro, e não a repugnante postura da intolerância para com a diversidade e o contraditório.

Parafraseando Arnaldo Antunes, deixa de lero-lero de consistência e bote a mão na consciência!

Os cartazes são a materialização da posição autoritária no episódio “Barrados no Salão e Excluídos no Cartaz”. Todos nós, lesados pela malversação do erário municipal, devemos exigir que os cofres públicos sejam ressarcidos pelos equivocados mentores de ato tão ignóbil.

Outrossim, basta ver o expediente da “bruaca” da FUNCART e constatar a cooptação dos editores culturais. Exceção inglória de Alex de Souza, que, com sua práxis, dá uma aula de jornalismo independente.

Sem estrutura nenhuma, estamos realizando um Salão que veio para ampliar o horizonte da produção/veiculação da arte, principalmente para quem não pertence ao séqüito do podre poder ou ao crivo dos curadores (“uns gênios”). O evento foi irretocável (divertido, bonito e multimídia): uma plêiade de artistas, em entrelaçamento de influências e confluências pessoais, num ímpeto de liberdade individual e igualdade social. A “oposição oficial” que criticava o Salão esteve toda presente, subiu as escadas do palácio e aderiu babelescamente à festa.

Fatal e irremediável, a artista Sayonara Pinheiro detonou a exposição dos adesistas e assumiu uma postura elogiável de independência e contra a censura praticada pela instituição hereditária. Causou a maior celeuma; deflagrou uma hecatombe nas hostes dos mancomunados. Dizem que chegou a pedir demissão (não me perguntem de qual sinecura).

Esse senhor (que está) presidente da FUNCART passou anos na coordenadoria do Centro de Documentação Eloy de Souza, na Fundação José Augusto, numa passagem inócua, basta comparar toda sua gestão com a administração relâmpago da professora Isaura Rosado Maia (apenas alguns meses); além disso, utilizou a instituição em usufruto próprio.

Faz-se necessário abrir a caixa preta da Fundação Hélio Galvão! Pois esta terminou viabilizando um “Pontão de Cultura” no Ministério da Cultura. Para isso, é necessário pelo menos dez pontos de culturas, cada um de cento e oitenta e cinco mil reais, perfazendo hum milhão oitocentos e oitenta e cinco mil reais. Será que tem recursos para entoar o “Canto das Sereias”?

Pergunta-se: por que não foi divulgado na mídia? Convenhamos, não é apenas falta de ética: é imoralidade um gestor público que canalizou os recursos para sua Fundação Hélio Galvão, em detrimento do órgão estadual para que trabalhava, ou seja, pagávamos seu salário para ele produzir para si (é mole?).

Abaixo a caretice! Fora os dirigentes que se escondem em torres de marfins. ARTE RETA LAMA ALMA. Viva as práticas e atitudes rebeldes. Mais forte são os saberes do povo!

Plínio Sanderson



O caminho de beber livros

Ainda lembro, no encantamento de minha juventude, de quando descia para a Ribeira em busca das novidades da Livraria Clima. Saía do colégio de bolsa nas costas e sol a pino. Descia a ladeira do Baldo embalado pelos gestos falsos da gravidade que mostrava a sua verdadeira intenção quando eu passava por baixo do viaduto e subia pela Rio Branco.

O cansaço esticava em légua e meia a ladeira ingrata. A calçada da esquerda era a que me proporcionava a melhor visão do majestoso e esquecido prédio da TVU. Dava uma paradinha no Cinema Nordeste para ver os cartazes das matinês e encontrava, vez por outra, alguma loira de olhar sedutor em uma posição meio desinibida que escondia seus fartos seios com as mãos, resguardando-se por trás do vidro da vitrina.

Voltava a Rio Branco e aproveitava para cortar caminho pelas ruas posteriores ao Churchill para ouvir a melancólica poesia que as pedras desalinhadas dos antigos calçamentos me segredavam. Atravessava correndo a Junqueira Aires até parar na calçada da Capitania. As brechas da velha fachada sem cor, juntamente com os restos das pequenas construções que se avizinhavam, deixavam-me encarar, do outro lado do nada, o rio Potengi.

Num pulo já estava no pátio da rodoviária. O ruge-ruge de pessoas e ônibus era o prenuncio do partir e do chegar. Velhos, crianças, feirantes, cestos de frutas, feijão, galinhas amarradas pelos pés, vendedores de amendoim, cobradores e seus trocados por entre os dedos, motoristas e seus cafés, apitos de fiscais. Era um sem-fim de imagens em breves segundos. Ônibus de porta de manivela esperavam malas, bagagens e bagulhos que se entocavam um a um em seu subsolo.

Meu passo sem medo cortava as plataformas dos intermunicipais e dos interurbanos. Alguns homens e mulheres sem-destino olhavam aquele reboliço em busca de alguns trocados ou, com um pouco de sorte, um trago a mais.

Entrava na Dr. Barata em busca da Livraria Clima. Ainda na porta procurava as estantes do lado esquerdo. Lá findavam as minhas buscas. Cheguei a passar horas folheando os livros e procurando aqueles que se encaixavam com a mesada semanal.

Esbaldava-me com tantos livros. Foi lá que conheci as letras de Alex Nascimento (Quarta-feira de um país de cinzas), Celso da Silveira (50 glosas sacanas), Tarcisio Gurgel (Os de Macatuba), Deífilo Gurgel (Os dias e as noites), Waldir Reis (Nós sofre, mas nós glosa), José Alexandre Garcia (Acontecências e tipos da Confeitaria Delícia) e tantos outros escritores.

Amealhei alguns trocados economizando no lanche escolar, para conseguir comprar alguns livros. Hoje, quando passo em frente da antiga Clima, sinto a saudade do trajeto Alecrim-Ribeira. Sinto que minha disposição já não é a mesma e não consigo mais ver as estantes do lado esquerdo onde me encantavam o buscar e o revirar livros. A velha rodoviária ainda permanece com aquele cheiro de esquecimento. Nunca deixará de ser velha. Talvez por já ter nascido assim.

Enfileirados em minha estante descansam os antigos exemplares. Guardam o meu carinho e alguns segredos em suas letras. As folhas soltas, marcadas, relidas, fazem um trajeto que nunca sairá de minhas lembranças. Uma lembrança que nunca será substituída...

José Correia Torres Neto



A Pomba e o Pinto

A pomba vinha voando alegremente. Havia subido numa térmica potente na frente do Teatro Lauro Monte Filho e, lá de cima, quase alcançando uma nuvem, olhava o centro de Mossoró pequenino. Tinha discutido com Pombarez, seu atual marido, pela enésima vez, por causa de uma certa vizinha que costumava ficar batendo asas por ele. Por isso, resolveu voar antes das chuvas de abril, que certamente iriam esfriar um pouquinho a cidade e espantar algumas térmicas do centro. Resolveu voar muito para esquecer da rival. Não tinha raiva de Pombarez. Pombos, tinham muitos. Até gostava de brigar com ele para se sentir 'livre e solta'. Ria por dentro, quando pensava nisso. Ele, sempre culpado, ficava na maior tristeza. Coitado!

Lá do alto, contornando uma das curvas do Rio Mossoró, sentiu o cheirinho azedo do aqüífero, que está sendo rotineira e implacavelmente poluído das mais diversas formas. Já era umas três horas da tarde. Uns três pescadores insistiam em fisgar alguns peixes, entre tanto lixo acumulado.

Tão fácil limpar. A Pomba pensou. Basta alguns funcionários da prefeitura com varas e ganchos e em pouco tempo estaria tudo desobstruído. Aproveitou outra lufada de ar quente e subiu mais alto ainda. Tanto, que conseguia ver de muito longe a mudança das cores da tarde, ao longe. Mudança bonita do Sol do sertão que se vai. Depois, aprumou-se para descer rápido. Tinha visto um menino com um saco de pipocas na beirada do rio e calculou que com certeza iriam sobrar algumas migalhas para ela.

Foi chegando rápido, já planando. Garbosa. Era uma pomba bonita, misturada de branco e preto, de coxas grossas e avermelhadas. Foi quando viu um pinto. Aliás, o pinto mais feio que ela já havia avistado na sua vida. Meio amarelado, penas arrancadas e esmaecidas, olhar distante, encruado. Ele também olhava guloso para o saco de pipocas do menino, que nem o tinha notado.
Também, com um piado fraco desse ninguém vai vê-lo. Vão terminar pisando nele...

Quando Pomba parou, arrolhando para todos os lados, o menino vibrou de satisfação, logo iniciando a distribuição de pipocas. E, o que iria ser apenas um lanche, se transformou no seu jantar, comendo avidamente, porém com a elegância costumeira de todas elas. O pinto, que nem foi cumprimentado, comia pedaços menores rapidamente, correndo de um lado para o outro, numa sofreguidão que não combinava com o seu estado físico.

Quando o menino foi embora, Pomba subiu num resto de banco de uma praça no final da Travessa O Mossoroense, que deveria ser lúdica, observando o Rio Mossoró e alguns pescadores. Vez por outra, lufadas leves de ar mudavam a posição de suas penas na cabeça e dorso, realçando sua beleza. Olhos semicerrados, lembrava Gabriela a espera de Nagib.

Obviamente, o esquálido pinto, de olhar esperto e pidão, não conseguiu subir naquele banco. Ficou calado. Somente observando tão bela e desconhecida criatura. Sonhou por alguns instantes em ser um pássaro tão bonito quanto ela. Sonhou...

Foi quando ela virou-se e perguntou:

-E aí, Pinto? De onde tu vens, todo rasgado, magro e tão sofrido? Além do mais, sozinho! O povo da tua raça, feito os urubus, costumam andar em bandos.

A voz dele era fina, trêmula, mas explicou-se direitinho:

- Sabe, dona Pomba, eu nasci semana passada numa chocadeira lá para as bandas de Assu e vinha num caminhão em direção ao Ceará, numa caixa com outros 'irmãozinhos', quando o bicho bateu num quebra-molas (aqui tem um bocado, né?) perto daqui e eu escorreguei. Tonto e desorientado, terminei por chegar nessa beira desse rio, há uns quatro dias. Somente não morri de fome porque tem essa água azeda e porque não faltam muriçocas para comer. Aliás, Dona Pomba - Como é gostosa essa pomba! -, pense numa cidade para ter muriçoca!

Pomba gostou da sinceridade de Pinto. Era inteligente e colocava bem os pensamentos. Aos poucos, noite adentro, foi se afeiçoando a ele, até que resolveu levá-lo para o seu poleiro, o melhor do Teatro Lauro Monte Filho, na cobertura. Nem pensava mais em Pomberez e já imagina Pinto grande, galo cheio de tesão e esporas imensas. Vou é matar Pomberez de ciúmes! Ah, se vou? E foram.

No outro dia, quando Pomberez chegou da farra, encontrou Pomba de asas dadas com Pinto. Ensaiou uma briga. Quis expulsar Pinto, dizendo:

-Não admito traições! Mostre suas armas.

Pinto mostrou apenas uma. A única coisa que a natureza tinha lhe dado em abundância.

Pomberez, de olhos arregalados e ensandecido de pavor, voou em direção à Praça Vigário Antônio Joaquim, num vôo estabanado, quase se chocando com a estátua do Governador Dix-Sept-Rosado.

Passou uns tempos sem ser visto por aquela região e alguns companheiros alados acham que ele trocou aquele reduto pelos ares secos do Seridó, nas proximidades do Açude Gargalheiras, em Acari.

Com o tempo, Pinto se transformou num galo bonito, orgulhoso, grande e brilhoso. Comedor de pipoca, sem dispensar uma muriçoquinha - só para lembrar os velhos tempos -, vez por outra, e Pomba, agora meio despombalecida de tanto amor nas alturas, era só alegria.

Lá debaixo, as pombas e os pombos novos comentavam o milagre acontecido nas margens impuras do rio Mossoró: "É o casal Pinto Pomba! Amor para quinhentos anos".

Léo Sodré

por Alma do Beco | 9:43 PM


Hugo Macedo©

Beco da Lama, o maior do mundo, tão grande que parece mais uma rua... Tal qual muçulmano que visite Meca uma vez na vida, todo natalense deve ir ao Beco libertário, Beco pai das ruas do mundo todo.

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