quarta-feira, outubro 31, 2007

AGORA-VAI-NÃO-FOI

Marcus Ottoni


"Ontem foi um dia curioso na Fundação José Augusto. Mas foi definitivo para compreendermos a dimensão da sujeira com que jogam os inimigos da administração petista da instituição. E mais do que isso aferir o nível baixo do jogo, de gente profundamente mau-caráter que movida por interesses escusos, não perde oportunidade de jogar a lama do esgoto moral onde vivem para tentar recuperar espaços."

Crispiniano Neto, diretor geral da Fundação José Augusto, Jornal DeFato, 28.OUT.07


Foto: Karl LeiteEduardo Alexandre

Carta aberta à Governadora Wilma de Faria


Exma. Senhora Governadora,

Hoje, Dia do Funcionário Público, infelizmente não temos nada a comemorar. Nós, funcionários de carreira da Fundação José Augusto, passamos por vários governos e em todos, em nome do crescimento da nossa instituição, sempre procuramos ajudar aos que aqui chegaram, pois, ao longo dos anos, aprendemos a amá-la e respeitá-la. Aqui, é parte do nosso lar, e onde nos formamos profissionalmente e também para a vida, difundindo a cultura e o conhecimento.

Sabemos do seu valoroso trabalho em prol da cultura do Estado, sem sombra de dúvidas o Governo que mais tem trabalhado pela cultura, tão esquecida em alguns governos.

De repente, nos deparamos com uma administração do PT. A princípio, até gostamos da idéia, pois a sigla significa PARTIDO DOS TRABALHADORES.

Ledo engano, companheiros: "suas idéias não correspondem aos fatos"!

A nossa Fundação se transformou num inferno. Vir ao trabalho, hoje, significa tristeza, insatisfação, falta de vontade.

Essas pessoas que aqui estão em cargos diretivos, indicadas pelo PT, têm transformado nossos colegas em servidores sem qualquer valor. Revoltados, profissionais com 20, 30 anos de Casa, pensam em pedir demissão em decorrência de pressões e humilhações sofridas. Transferem de setor, sem que nos seja dado o direito de optar. Impuseram um ponto eletrônico que só funciona para os funcionários da Casa e para os que têm cargos comissionados indicados pelo governo. Os "deles", raros são os que têm essa obrigação, inclusive a de comparecer ao expediente. Sem contar com as diárias de viagens, a troco de quê não se sabe. Culturalmente, muitas não se justificam.

Em nome dos funcionários desta Fundação, digo que admiramos muito o seu trabalho em defesa do desenvolvimento da cultura do nosso Estado e esperamos que, em breve, todo esse engano seja resolvido; esse pesadelo deixe as nossas vidas.

Essas pessoas trabalham com rancor e jamais serão como nós, que trabalhamos cultura com o carinho que a cultura merece: parece trazerem consigo os dramas da incompetência do próprio partido.

O senhor que veio para ser o diretor geral, a qualquer platéia, em qualquer ambiente, não pára de fazer críticas abertas aos funcionários da Casa. Fala as coisas mais absurdas, faz intrigas, é indiscreto, mal educado, caluniador, falastrão. Fala, como se nós fôssemos os responsáveis pelo fracasso cultural de sua gestão, batizada pela crítica de arte como “agora-vai-não-foi”: acusa-nos pelo seu fracasso; faz da cizânia arma para administrar interesses próprios, jogando servidor contra servidor.

Escrevo esta carta aberta de desabafo para pedir SOCORRO em nome de todos nós funcionários da Fundação José Augusto. Não assino, porque temo a retaliação que, com certeza, se assinasse, viria: a truculência é outra característica bem deles.


Quem não pode com o pote...

O Bom Dia RN mostrou hoje (29.OUT.07) mais uma situação de abandono que está relegado o patrimônio histórico e sentimental de Natal e do RN.

Desta vez, foi a Estação (ferroviária) Central, na velha Ribeira disposta a guerras, segundo depoimentos de moradores, inconformados com a situação.

Quando deixamos o Centro de Documentação Cultural Eloy de Souza, projeto arquitetônico de reforma e utilização estava pronto, com a assinatura de Haroldo Maranhão. Equipamentos de informática estavam comprados. Trabalho de Isaura Rosado.

Quando a "administração petista" assumiu a FJA, aquilo que era um dos grandes projetos da instituição foi colocado à margem, relegado. Os equipamentos adquiridos foram para as salas de direção da FJA. O CEDOC, que havia planejado e trabalhado em projetos que tiveram resultados, era chamado de "primo rico da FJA" pelo novo diretor geral, que dizia aos quatro cantos ter descoberto uma mina de computadores e outros equipamentos.Tratava-se de um projeto Isaurista, portanto fadado às iras da atual gestão, que "desaparelhou" ou "expropriou" os equipamentos que estavam previstos para o Projeto Estação Central.

O diretor geral da FJA, Crispiniano Neto, diz estar numa guerra contra um inimigo que não ousa declinar publicamente, apenas insinuar, deixando margens a muitas dúvidas. Mas quem a ele tem acesso, sabe a quem ele se refere: Isaura Rosado, a quem credita todas as "tramas" assacadas contra ele.

O fato é que Isaura está quieta no seu posto de trabalho, a Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do RN, realizando uma administração profícua e merecedora de aplausos, como, aliás, tem sido por quase todos os setores que passou e teve tempo de mostrar disposição, que a ela não falta, como pode atestar qualquer pessoa que com ela trabalhe ou trabalhou, enquanto a administração de Crispiniano na FJA tem se mostrado ineficiente e equivocada.

Ao chegar à FJA, no lugar de angariar a simpatia dos funcionários, declarou guerra a estes.

O resultado foi o teor manifestado pelos próprios, em carta anônima (por medo de retaliações) à governadora. Anônima, mas com conteúdo verdadeiro, cuja carga de insatisfação pode ser atestada em qualquer conversa na instituição.

Eventos programados, ali são cancelados com uma facilidade espantosa. A FJA tornou-se uma casa de vai-e-vens. Raras são as realizações, e projetos, esses, não há.

Ali, o planejamento caminha ao largo.

A entidade está visivelmente dividida entre petistas e governistas wilmistas, até o diretor geral escancara isso em qualquer conversa. Mas a divisão é maior do que parece e ele diz. Entre os petistas, as divisões também existem: o que um faz, o outro desmancha. É um caos de desentendimentos a Fundação.

O nível de linguagem do diretor geral é de dar pena. Para ele, seus críticos são "escroques", "gente profundamente mau-caráter que movida por interesses escusos, não perde oportunidade de jogar a lama do esgoto moral onde vivem para tentar recuperar espaços", esquecido, talvez, do boato que fez espalhar de que Isaura não queria administrar a FJA, onde era a diretora geral, para ocupar a Secretaria de Educação, de onde, aliás, viera como secretária.

Boataria publicada em jornais de sua própria terra, Mossoró, e que tinha um único objetivo: ocupar o lugar de Isaura na fundação de cultura do Estado.

A atual administração até tenta realizar coisas, mas não consegue. Falta-lhe CREDIBILIDADE.

O próprio Crispiniano escreveu em sua coluna do Jornal Defato: "a Fundação José Augusto realizou há poucos dias um Seminário sobre Turismo Cultural e de todo o trade, somente João Sabino compareceu e nenhum outro respeitável deu sinal de vida, visto que Turismo Cultural nunca foi o forte em nosso Estado de turismo tão competente." É essa a sua linguagem, também capenga na pontuação. Em vez de insistir em trazer os investidores do turismo para a cultura, fazendo uma auto-crítica do insucesso, uma avaliação sensata do fiasco do intento, reage a coices e ponta-pés contra quem precisa de convencimento.

Não sabe ele que a ironia e o desdém, em vez de aproximar as pessoas, distanciam. E depois reclama do pouco ou nenhum sucesso obtido.

O mesmo resultado pífio acontece quando convoca os artistas para as reuniões de suas Câmaras Setoriais de Cultura: o vazio é imenso.

Cansados de tanta decepção ao longo dos anos de pouca verba e atenção, os artistas já não crêem em solução para a área cultural do Estado e da cidade. O desencanto e a desilusão povoam as conversas de quem produz cultura.

No nosso querido Beco da Lama de todos os dias e de cultura espontânea e verdadeira, não imposta pelos poderes políticos, uma apreensão é comentada com o poder de fogo que encerra: a atual administração teria perdido o prazo, para a apresentação à Secretaria de Administração e Finanças, do seu plano plurianual para o setor de sua responsabilidade.

Espero que a notícia seja falsa. Porque, se verdadeira a apreensão dos artistas, queda e coice no futuro nada promissor: quatro anos sem um único centavo minguado do governo do Estado para a cultura, a não ser o que a governadora e o futuro governador(a), a ser eleito(a) em 2010, tenha piedade e remova dinheiro de qualquer outra fonte para a instituição imprevidente e, porque não dizer, irresponsável.

Eduardo Alexandre

Poeta, Artista Plástico

Ex- presidente da Associação dos Artistas Plásticos Profissionais do RN

Ex- Diretor Executivo da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências

Prêmio Diário de Natal de Produtor Cultural do RN

Criador da Galeria do Povo


por Alma do Beco | 10:31 AM | | Ou aqui: 0




sábado, outubro 27, 2007

EX-MANICACA

Marcus Ottoni


"A democracia no Brasil corre o sério risco de sofrer um golpe e, devagar, vai se delineando no horizonte da política aquilo que o presidente Lula vinha fazendo questão de publicamente negar: que ele deseja pleitear mais quatro anos de poder".
De nota do PPS, sobre a defesa por deputados, como Devanir Ribeiro (PT-SP) e Carlos William (PTC-MG), de apresentação de uma proposta de emenda constitucional que viabilize um terceiro mandato ao presidente Lula a partir de 2011.


Deise AreiasLei Leandro de Castro, no Sarau da Aliança, quinta-feira passada

Festival Gastronômico do Beco contará com grandes nomes

Depois de uma reunião marcada pela discórdia entre os diretores da Samba (Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências), Dorian Lima e Júlio César Pimenta, na tarde deste sábado no bar Bardalos, que quase chegaram “às vias de fato”, finalmente a programação foi fechada.

Com o esforço de Aluízio Matias e Camilo Lemos, que se juntaram voluntariamente a Júlio César Pimenta, diretor da Samba, após o colapso nervoso de Dorian Lima, que abandonou a reunião, ficou decidido, após vários contatos telefônicos e dentro do orçamento da entidade, as seguintes atrações para os três dias do Pratodomundo:

1. Romildo Soares/Yran

Mad Dogs

2. Donizete Lima

Rodolfo Amaral

3. Chorinho da Sexta (Catita)

Kristal

No “Carnabeco”, bateria da “Malandros do Samba” e uma banda de frevos.

O evento ocorrerá nos dias 10, 17 e 24 de novembro e o Carnabeco no dia 1º de Dezembro. A Confraternização natalina será no dia 29 de Dezembro. A entidade (Samba) não dicidiu nada com relação ao Reveillon do Centro Histórico.

Trabalhando com um orçamento reduzido (apenas três mil reais), dado pela Funcarte, os diretores da Samba não tiveram como estender a programação, apesar do sucesso do Pratodomundo em anos anteriores.

O fato é que, embora a prefeitura de Natal tire enorme proveito político das ações culturais emanadas dos que fazem cultura a partir do Centro Histórico de Natal, trata os produtores da Samba como pedintes, apenas dando um orçamento que talvez não cubra uma almoço festivo da Funcarte para contratar algum nome nacional.

Mesmo assim, com cachês quase simbólico, nomes como Kristal, Rodolfo Amaral e Mad Dogs se prontificaram em estar presentes no evento.

O esforço histórico do grupo G16, que assumiu a direção da entidade após o abandono da diretoria eleita, é merecedor de todas as honrarias. O esforço empreendido por essas pessoas em favor da entidade não deverá ser esquecido. Talvez o evento não tenha a dimensão e brilho dos ocorridos em anos anteriores, mas terá a marca do esforço de poucos que se juntaram em favor de Natal, embora as "autoridades" da cultura local não consigam vislumbrar a importância do Pratodomundo para a cidade e para o turismo.

É o Beco. É a resistência!

Leonardo Sodré



Beco da Lama

Eu vi o Beco

não vi a Lama

vi que o Beco

só tinha fama.


Parede torta

verdade crua

nem era Beco

nem era rua.

O meu olhar

inda continua

nem vejo beco

nem vejo rua

de dia, sim!

o tempo sua

de dia, o sol

de noite, a lua

parece lama

mas não flutua

corre poesia

naquela rua

tem peito cheio

tem pouca grana

viola amiga

cara humana

quem tem dinheiro

cresce na fama

então é Beco

então é lama

amor jogado

sem ser na cama

quem come carne

que vem da lama?

o mar bem perto

a onda chama

tem caranguejo

dentro da lama

a boca é suja

inventa e trama

por que o Beco

Beco da Lama?

A lama é rica

é um oceano

o Beco fica

no meio da lama.

Geraldo Anízio



A Feira de Caicó

Farinha seca é feita de mandioca

Beiju assado, pamonha de milho verde;

Canga e cangalha, Cantareira de umburana,

Ferro de brasa, tipóia e cordão de rede.

Jibão de couro, dobradiça de porteira,

Chapéu de palha, cocorote e brilhantina;

Sela e chicote, arataca e candeeiro,

Mel de abelha e pavio de lamparina.

Além do peixe, a melhor carne de sol,

Feijão macaça, cebola e trança de alho;

Arroz da terra, rapadura de primeira,

Batata doce, manteiga e queijo de coalho.

De tudo tem pra vender na feira livre

Colher de pau, valentão, pua e quichó;

Se duvidar tem até moça bonita,

Que é o produto mais bonito de Caicó.


Geraldo Anízio


'amar-te a ti nem sei se com carícias'*

amar-te a ti nem sei se com carícias

por toda a vida sei amar-te-ei

se bem prefira seja com carícias

pois sei que assim melhor amar-te-ei

mas se disseres serem-te as carícias

desnecessárias inda amar-te-ei

transformarei palavras em carícias

e em cada verso a ti amar-te-ei

meio ao silêncio — anseio de carícias

de corpo inteiro inteira amar-te-ei

com meu olhar envolvo-te em carícias

e ao meu olhar dirás — amar-te-ei

dia após dia nem sei se em carícias

unicamente a ti amar-te-ei

Márcia Maia

*Amar-te a ti nem sei se com carícias é o título do romance de Wilson Bueno, publicado pela Ed. Planeta do Brasil, Rio de Janeiro, 2004.



Ojuara e seu desafio contínuo contra o cão atemporal

O caboclo Ojuara Abaporujucaiba foi talvez o maior macho norte-rio-grandense que há. Mais macho que o Jesuíno? Do que o tarairiú Janduí? Do que Celso da Silveira (que nas "Pelejas de Ojuara" é o glutão Celso da Silva), Cascudo e mais uma ruma de gente? Talvez. E é exatamente o que aqui se glosa que vai agora mesmo ser moteado!

Ojuara descende de Janduí. O rei dos tarairiús que teve 25 mulheres em sua vida. No romance, o historiador (já falecido) natalense Olavo de Medeiros Filho surge como Olavo Filheiros, que diz o que aqui foi dito no início deste parágrafo. Ojuara surgiu quando Zé Araújo se rebelou do título de manicaca recebido pelos homens de Jardim dos Caiacós, por onde vivia com a fogosa Duá, Dualiba. Muito sexo. Ele com a jiribaita. Ela com a poderosa perseguida, seus peitos e sua grande bunda, com atenção merecida. Um jornalista francês ao ler Jorge Amado viu o que se segue: Para começar, sexo. Depois sexo, e mais sexo e então sexo, sexo, e por fim sexo. Parecido com As Pelejas. Só que neste livro há metáforas de grande profusão filosófica, metafísica, política.


Há a luta do bem e do mal. Deus e o diabo. Tupã e o diabo, para ser mais preciso, por conta da identificação indígena de Ojuara, falando e tendo grande apreço para com a língua indígena. Continuando, Zé Araújo se revolta ao ouvir do barbeiro Pompílio: "barba ou pentelho, seu Araújo?", gozando do episódio contado pelo menino Zé Pretinho, que trabalhava na casa de Araújo e Duá, que falou o que diz neste verso do livro cantado pelo glosador Tota de Dona Biga, na obra:

Jamais conversa fiado,
Num fala de coisa feia
Nem é cabra de peia
O guarda livros coitado.
Tem o focinho fechado
Parece fazer careta
E se sabe, não é peta,
Que além de tudo mais isso:
O guarda livros magriço
É barbeiro de buceta.

Aí então José Araújo Filho se torna Ojuara Abaporujucaiba, herói norte-rio-grandense, riograndense do norte e mais um personagem que seja um herói brasileiro genuíno. Um personagem multifuncional!

O exemplar volume do potiguar Nei Leandro de Castro é uma das obras feitas para deleitar. É livro de ponta, de primeira qualidade, temperado com a inspiração do sertanejo, o miolo de quartinha, as paixões, o bovarismo, o homérico, o bélico, o sexual, o espontâneo, o Felismarte de Hircania, Palmeirim de Inglaterra, Roldão, Orlando, Rodrigo e o Pégaso e o quixotesco, o pitoresco, do povo e de suas obras, do cordel e da poesia erudita, do tupã, do deus, do Zeus, do tribufu, caningado, cão, diabo, da safadeza, da esperteza e da incógnita, do Moyses e do Sesyom, do sertão sem porteira, do menino e do homem, do homem e da mulher, do doce e da carne-de-sol, da peia e do xibiu, da cachaça e do vinho, da macaxeira e da carimã, do Rio Grande e do Brasil.

Há no livro o mesmo sertão do Grande Sertão: Veredas; o sertão que se transforma em mundo e em constelação. Há a mesma luta com uma força maior: o diabo. O diabo que diz Posso Cair e parece um caititu. Que estupra. Que não briga se restringindo ao solo. Briga até o fim dos fins. Um diabo matreiro e safado que não quer saber de nada (que é o que se espera de um cão).

No filme "O Homem que desafiou o Diabo", baseado n ´As pelejas de Ojuara, o diabo dança maracatu e fala que só um Cão mesmo. É inteligente e intenso. Chama-se Cão Miúdo, por ser bem menor que o seu inimigo Ojuara. Um personagem e tanto, pensado e muito bem pensado.
Aqui chegamos a uma conclusão, um consenso. Heidegger, quando foi versar sobre O pequeno Príncipe disse é um dos livros preferido do professor Martin Heidegger. E aí pego o que disse o das alemanhas, e abro mais, e espalho: é o livro do povo norte-rio-grandense.

Pedro Lucas de Lima Freire Bezerra
Aluno da 8ª série da Escola Viva (13 anos)


Ladies free

Apaixonado por línguas, jamais fui daqueles puristas de acreditar que qualquer estrangeirismo é atentar contra a língua pátria, a última flor do Lácio, como cantava Bilac. Sempre achei até belo que palavras de outros idiomas se incorporassem ao português, como o caso dos vocábulos franceses “soutien” e “abajour”, que viraram os corriqueiros “sutiã” e “abajur”, com a mesma fonética. Mas, sinto que atualmente a coisa parece fora de controle em relação ao uso de palavras em inglês.

Certo que a língua de Shakespeare e Hemingway se impôs mundialmente com o rock e o cinema, e com a própria dominação político-cultural dos EUA. Certo também que incorporar palavras estrangeiras ao cotidiano não é crime nem pecado. Uma das gírias que os jovens falam atualmente é “curtir a night”. Há décadas se fala “Brother” em relação a amigos. Até aí nada demais. O problema é quando o universo econômico começa a registrar termos em inglês como se normais, cotidianos, e isso passa a ser normal para uso sócio-cultural. Exemplos: nada mais hoje é entregue em domicílio. Tudo é “delivery”. Não existe mais “descontos” ou “promoção”.

Nas sempre esnobes butiques de shoppings, tudo é “off”. Dia desses no Midway Mall (Shopping do Meio do Caminho, em bom português) vi uma loja de sapatos anunciando: “Shoes off”. Diz a lenda que o sempre aguerrido defensor da língua Ariano Suassuna teria recusado participar de um evento ao saber tratar-se de um “workshop”. Que diabos será isso? Será parecido com seminário, evento, encontro, debate? E o que falar de “coffee break”, que substituiu nos convites pomposos o velho e bom “café da manhã”?

Mas, o que me motivou a escrever este texto foi uma faixa afixada na BR-101, a respeito da reinauguração de uma casa de show em Macaíba. A propaganda registrava a data da reabertura e as atrações principais: Eliane e Forró Pé de Urtiga. Até aí tudo normal, o evento até parecia convidativo à minha humilde presença, não fosse eu um homem caseiro, não estivesse apaixonado e recém-casado e não fosse mais afeito a pop-rock e MPB que a pseudo-forró.

Porém, ao continuar a leitura da faixa, me assustei com o que vi, pintado em letras vermelhas para realçar a propaganda: “LADIES FREE ATÉ 23H”. Respirei fundo. Ladies free? Quer dizer que lá as damas estarão livres? Em que sentido? Lembrei da minha época de adolescente quando as faixas e cartazes do gênero nos brindavam com um singelos: “Mulher não paga”. Meu medo é bater lá no dito lugar e dar de cara com cartazes e placas escrito “Parking” e “Open”.

Dá tristeza ver esse estrangeirismo excessivo e ilógico. Aliás, para agradar esta gente fanática por uma língua que sequer domina, vou aderir: I´m very, very sad. Poor Portuguese...

Cefas Carvalho


por Alma do Beco | 3:06 PM | | Ou aqui: 0




segunda-feira, outubro 22, 2007

A LA CARTE

Marcus Ottoni


"O líder cubano Fidel Castro solicitou neste domingo que o presidente dos Estados Unidos, George Bush, suspenda o embargo econômico contra seu país e não ameace o mundo com uma guerra nuclear. "
O Globo OnLine

Orf
Reunião da Samba, sábado, 20 de outubro, para decidir sobre o Pratodomundo 2007

A LA CARTE

Ficou gosto de pouco
Pouco gosto ficou
ficou gosto de mais
um gosto indefinido
com sabor dominante
para paladares extravagantes
mesclados
a sentidos embebidos
de sonhos embutidos
emaranhados
a palavras e trocadilhos
suaves, afilados,
precisos, diretos,
camuflados, insensatos
foi pouco
ficou o gosto

Deborah Milgram

DE POETAS E QUIXOTES, DOIDAS E MUSAS

Em outubro comemora-se o Dia do Poeta. E gosto do termo poeta para os dois gêneros. E sobre poesia, poderíamos ficar aqui horas falando sobre mímesis, retornando a Platão, o pai da matéria, o que daria uma tese. Mas, um de seus estudiosos, Erick Havelock, lembra com propriedade que o termo mímesis é “a mais instável das palavras do seu vocabulário filosófico” , e portanto, o leitor interessado que procure, caso queira se enveredar pelos caminhos mais labirínticos da filosofia e da arte. E ademais, concordo com Edson Cruz – músico, poeta e co-editor do site Cronópios, que Platão é profundamente cruel com os poetas. E ponto.

Gosto mesmo do que diz Artur da Távola: “o poeta vê o verso, vê o outro lado. Por isso ele é perigoso (...). O poeta é perigoso porque prefere ficar com o verso”. E Cruz e Souza: “entre raios, pedradas e metralhas, ficou gemendo, mas ficou sonhando”. Podemos rir, mas isso é muitíssimo verdadeiro.

O quê? Você pensou que eu faria aqui o discurso romântico que todos fazem sobre o poeta? Não, não farei isso. Vou falar sobre o reVERSO. Vá dizer, que você não acha um(a) poeta uma pessoa esquisita? Nunca pensou no porquê? Para mim, uma das muitas verdades é porque o poeta (homem ou mulher) está sempre só, independente de quantas pessoas estejam ao seu redor. Pode crer. Quer uma prova? Experimenta falar com um desses seres quando está absorto com alguma idéia ou com o olhar perdido no horizonte. Ele simplesmente NÃO TE OUVIRÁ. Não porque não queira, mas porque vive atemporalmente. É, sim. Ele vive no presente, no passado e no futuro, ao mesmo tempo. Por isso – e o mais perigoso de tudo - a sua morada é o labirinto, e no labirinto, você sabe, só há entrada. Por isso está sempre a buscar a porta de entrada, na infância, nas pessoas, nos mais inusitados lugares. Quem é poeta tem o seu próprio reino profundo. Tão profundo que às vezes vai e não retorna nunca mais de lá. Vai parar, quem sabe, como Peter Pan, na Terra do Nunca, um lugar para onde vão também os meninos perdidos.

Poetas são todos um pouco Peter Pan e meninos perdidos. Uma pessoa normal, feito a Wendy – que quer crescer como todo mundo -, não se adaptará à Terra da Fantasia onde moram os sonhos. E os sonhos das pessoas comuns, que não querem ser crianças nem poetas, onde estarão escondidos? Em baús fechados a cadeados grandes? Numa gaveta bem fechada, onde, de vez em quando vão lá e abrem bem pouquinho, só para dar uma espiadinha, pois é perigoso que escapem e daí ninguém sabe o que poderá acontecer. Gavetas e baús são como a caixa de Pandora. Perigosos, muito perigosos. E vai que escapem e não reste no final nem a Esperança?

Então não há saída para quem é poeta? Não pode ser feliz? Claro que pode, mas pelo fato de que pensam muito, fica mais difícil... Isso fica. Mas veja: quem é poeta é também um tantão de Dom Quixote, que sempre foi feliz, não foi? Tinha a sua Dulcinéia d'El Toboso, imaginada, é claro, mas tinha. E pense, poetas são charmosos. Homens e mulheres. Como Neruda, em O Carteiro e o Poeta, são quase sempre rodeados de musas apaixonadas. Esse é o grande mistério de quem é poeta: “Quando um homem toca uma mulher com palavras...” (e vice-versa). Mas vou contar outro segredo: as musas, se são apaixonadas, são todas umas doidas. Montariam sem exitar na garupa do Cavaleiro de La Mancha e sairiam por aí, enfrentando moinhos de vento. E os musos (nem sei se o termo existe), esses, não exitariam em disputar mesmo que a duelo, o amor de sua Poeta. Existem, também, poetas solitários e solitárias, eternamente apaixonados. E se não correspondidos – e não são poucos -, se fecham no seu reino mais profundo, no seu labirinto. E esse assunto vai longe, longe. Talvez vá parar na Terra do Nunca. E daí, era uma vez...

Neide de Camargo Dorneles.

por Alma do Beco | 2:08 PM | | Ou aqui: 0




quinta-feira, outubro 18, 2007

RISO SUPERADO

Marcus Ottoni


"Após mais de 20 dias esperando o prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves (PSB), responder a uma solicitação formal de reunião com a comissão do Partido dos Trabalhadores que queria começar a discutir alianças para a próxima eleição, o PT desistiu."
Diário de Natal

Ilustração: Newton Avelino

BECO

Na linha reta

Tropeça o meu perfil

Traçado a ferro e fogo

Tornando tortuoso

O rosto em desatino.

Já não me sou

Verdade nem futuro.

Não passo de presente

Em ponto escuro.

Nem luz no túnel

Acena sol e sonho,

Nem beco sem saída

Se a entrada é muro.

Sou passo atrás

Dos argumentos vivos,

Sou riso superado

Para ouvidos moucos.

Enfim, se fui

A luta despojada,

Sou trajetória triste

E terminada.

Rubens Lemos

1987



I - DE TIRO A TOUROS (OS FENÍCIOS)

A quizumba toda, bota tempo nisso, começou com a História Universal de Diodoro da Sicília, ao descrever uma gloriosa viagem dos fenícios, muito antes de Cristo. Utilizando carpássios (grandes veleiros de cinco velas, embarcações de longo curso) e partindo da costa africana, perto de Dacar, no rumo do Sudoeste, atravessaram, de cabo a rabo, o Oceano Atlântico. Travessia, por sinal, muito parecida com a do beirão Cabral - que se fazendo de inocente, também de velas pandas, navegando para o Sul e topando com as correntezas e delas se valendo, segundo Lenine Pinto, (“Reinvenção do Descobrimento”) satisfeito da vida, aprumado que só ele, chegou a Touros (Praia do Marco).

Júlio Gomes de Senna, ceará-mirinhense ilustre e esquecido – com sói acontecer na nossa Jerimunlândia -, era um indivíduo competente, pesquisador e doutor em cartografia do antigo Ministério da Viação e Obras Públicas, no Rio de Janeiro, onde faleceu. Muito antes da bem postada e discutida tese de Lenine, escrevendo sobre as origens da sua terra, o “verde vale dos canaviais”, defendeu com excelente argumentação “que muito antes das viagens portuguesas, já a zona do Ceará-Mirim tinha na sua orla atlântica recebido a visita exploratória de outros povos ilustres”, acreditando, convicto, na presença dos ancestrais dos libaneses no nosso litoral. Tarcísio Medeiros e Pedro Moura, referem-se às inscrições parietais e desenhos encontrados na região, tendo o segundo afirmado que muito antes do século XVI, onze séculos antes de Cristo, povos civilizados, “os Fenícios, estavam presentes no atual território do Rio Grande do Norte, inicialmente em Touros, e depois em Extremoz.” Um austríaco polêmico, Ludwig Schwennhagen, dizia haver estudado aterros e subterrâneos no “lago de Extremoz”, além de ruínas existentes na Vila de Touros”. Canais, de dez ou mais quilômetros, abertos pelos navegadores, ligavam o Atlântico às lagoas próximas às praias, onde se abrigavam as troncudas naus mediterrâneas.

Navegadores de Sidon e Tiro, poderosas cidades-estado, fundaram Cartago, Cádis, Lisboa. Espalhando colônias, chegaram à Cornualha, Chipre, Malta, Sardenha, Sicília, passaram à África Atlântica, atingindo Mogador e Guiné. Competência e vontade teriam, pois, para vir ao Brasil e ao litoral do Rio Grande do Norte. Por que não, se inventaram o vidro, o seguro de bens, o alfabeto e outras milongas mais?

Na história não-oficial, depois deles – e antes de Cabral, pois, pois – aqui não estiveram, em junho de 1499, Alonso de Ojeda, no delta do rio Assu e, em fevereiro do mesmo ano, Diego de Lepe, no cabo de São Roque? O labrego João Ramalho, prás bandas do Sul, papando cunhantãs, não fazia, já, mamelucos, uns dois anos antes da descoberta de Colombo? Segundo alguns doutores das PUCs da vida, o “espírito áspero” do grego não é encontrado no Tupi, via influência cário-fenícia? O prefixo car (de “cário”) aparece em numerosas culturas ameríndias: Carioca, por exemplo, descende do tupi kara'ïwa 'homem branco' + 'oka 'casa, De onde, o homem branco, naquelas alturas? Cário-fenício? Vai por aí o nhenhenhém...

Sobre a origem do topônimo “Touros”, há controvérsias. O supimpa Câmara Cascudo,

oráculo-mor da paróquia nessas filigranas, no seu “Nomes da Terra”, tirou o time de campo, ficando calado que só um coco, na dele. Excelências outras, chutando ou não, apontam três versões. Uma muito fraca, raquítica: teriam, os primeiros portugas avistado bois pastando, dando bandeira, de rolé, na desabitada costa. Nada a ver, a não ser havendo referência – vou chutar, também - a um dos significados de Tiro, valendo “força”, uma das alcunhas do reino fenício. Outra, alinhavada às custas de uma “barreira pedregosa que configurava uma impressionante cabeçorra taurina”, vista da enseada – chamada pelos indígenas de “Suaçu-Guaçu” (veado grande, êpa!). Caprichando noutro arremesso, de trivela, lembro de outro significado de Tiro, lá deles: “rocha”, valendo “saliente no mar; rochedo, grande massa de terra extremamente dura, banhada pelas águas” (Houaiss).

Resta “Touros”, vocábulo corrompido, vindo de Tiro, a poderosa cidade-estado fenícia que - bota tempo no tempo - tanta dor de cabeça deu a Alexandre Magno, glorioso rebento de Olímpia do Épiro e Felipe da Macedônia. Por que não?


2) DE RIFFAULT AO REFOLES (OS FRANCESES)

A utópica França Antártica de Villegaignon (1555) não tinha dado certo. Por essa época, todo o litoral brasileiro que não tinha o domínio português foi sistematicamente batido pelos franceses, chamados de “intrusos” pelos lusitanos. Não fundavam povoados, vilas, cidades. Aventureiros, marinheiros corsários da Normandia – em nome do Rei de França - interessava-lhes, apenas, o tráfico da ibirapitanga e dos búzios. Nada impunham aos silvícolas, levando vida mansa, fazendo amizade com os tuxauas, beiço furado, bebendo cauim, banzando nas tipóias, cabeça feita de chá de jurema na companhia dos pajés. Não era raro, nessa quadra, entre os potiguaras, aparecerem cunhãs e corumins de cabelos louros e olhos azuis...


Jacques Riffault aqui deixou fama e temor. O Refoles – antes Nau do Refoles e sítio onde hoje está a Base Naval de Natal, numa curva do “Potengi amado” – lhe recorda o nome e as estripulias entre nós. Destemido, em 1597, partindo desse ancoradouro, comandando uma dúzia ou mais de embarcações piratas, atacou a Fortaleza de Cabedelo, na vizinha Paraíba. Foi um dos idealizadores, ainda nos idos de 1594, da chamada França Equinocial, na “ilha do Maranhão”, que conhecia bem. Chegou, inclusive, a propor a empreitada ao Rei Henrique IV, em parceria com um dos seus tenentes, Charles des Vaux. Desapareceu depois, no tempo e no vento, sem adivinhar que séculos depois, no seu porto da curva do rio, descansariam das formidáveis travessias as grandes asas das “libélulas de aço” de Mermoz.

Laélio Ferreira

por Alma do Beco | 6:36 PM | | Ou aqui: 0


ESSES

Marcus Ottoni


“Ainda bem que minha mãe já se foi. Porque se ela ainda estivesse aqui eu levaria uns tapas quando chegasse em casa hoje. Fui mal-educado, mas não fui sozinho.”

Eros Grau, ministro, em tumultuada sessão do STF, sobre uma lei de Minas Gerais que mantém no cargo 126 defensores públicos não-concursados.

EA

TORDESILHAS

Ainda acredito

Na lei da distância

Democrática, intacta

Sábia, equilibrada

Bem estruturada

Facilmente assimilada

Inteiramente humana

Deborah Milgram



TRÊS SONETOS COMEÇANDO EM PARA

1.

Para escrever grande, comece assim: "em tese".

E lá pras tantas um rotundo "em princípio"

(nem tanto lá pras tantas, pode ser no início).

No final: "ou seja". Mas, veja, não se apresse...


A turma gosta dessa coisa tipo ascese.

Então, aproveite: meta o malho no vício

(no de linguagem, não, irmão. No mais difícil

de encarar: o seu. Mas, e daí? tergiverse!).


Importa é o seu discurso altivo e escorreito,

como faz (copia!) o neófito em Direito

(neófito! e eu quase me esquecia dessa).


Olhe a coisa feita. Se orgulhe do seu texto!

Você é o cara inserido no contexto!

Um Machado temporão —oh!—quiçá um Eça!.

2.

Para escrever um poema bem cabeça,

desses que o leitor faz que entende e não entende

pê ene (aliás, nem você compreende),

escreva com desdém e muito tédio e desça


o verbo (vê lá: com desdém) em quem pareça

só saber escrever com start, middle & end.

Você, não. Você é do tal que não se rende

nunca a qualquer inspiraçãozinha besta.


Cite um poeta esquecido (é mão na roda!).

O leitor vai dizer: rapaz, o cara é foda!

"Eu sou a última Coca-Cola do deserto!",


(você vai se achar). Depois (sempre com desdém),

diga ao leitor: que é isso, meu brother!, nem vem!

Ah! "concisão" é a palavra. Fique esperto.

3.

Para escrever sobre o que não se conhece,

nada como uma busca básica no Cadê

ou no Google (todo mundo faz!). E você

estará apto pra dizer o que acontece


quando a pressão sobe e a temperatura desce

e o que isso implica no fato de chover

ou fazer sol no seu quintal. E perceber

que, se você não é o tal, tal se parece.


Vale até (vá por mim) pesquisar o latim

e, como quem não quer nada, dizer assim

uma frase ou outra, citando sempre o autor.


O seu conceito vai subir que benzadeus!

O tema é verso grego? busca-se "troqueu".

E dirão (juro!) de você: puta escritor!

Antoniel Campos


Esses

Esse estigma esse ranço esse receio essa cólera de ironia travestida essa patrulha essa partilha esse guia essa vontade dos caminhos da poesia esse achismo esse ismo esse outro ismo esse atavismo em vã guardismo esse fascismo esse apartheid esse dedo indicador essa receita essa doença esse doutor essa palavra essa não essa palavra esse escaninho esse jeitinho bonitinho essa postura esse salto essa impostura essa rede de sim-sim essa costura essa estratégia essa falácia esse tribuno esse quartel essa polícia esse coturno essa salada essa sopa essa lavagem essa ordem de beber goela abaixo esse arauto apocalíptico e demiurgo esse moicano derradeiro desse burgo esse poema de outdoor e passarela essa tramela esse embuste essa panela

Antoniel Campos


Pela concisão, contra a concisão

Então, daqui pra frente — quem foi mesmo o guardador dos caminhos e em qual data? —, a poesia será concisa. E ai daquele que ousar a contramão. Ansioso, prolixo e verborrágico ficarão de boa monta aos recalcitrantes. E haja o poeta iniciante ir atrás dos próximos ditames dos “iniciados”, os guardadores dos caminhos. E tolhe aqui, tolhe acolá. A tesoura passa a ser mais importante do que a palavra. Acredita piamente que o seu poema alcança a poesia pretendida pelo guardador, qual seja, A Poesia. Quebra o verso na metade com a rapidez de um “enter” (o poema ficara diminuto demais...), como se isso, por si, agregasse valor ao já concebido. Como se a disposição espacial do verso no poema estivesse divorciada da leitura e do ritmo que ele, autor, gostaria de dar. Mas isso é outra história. Voltemos à concisão. O prejuízo ao entendimento da mensagem é totalmente desprezível, face à canalhice inventada de que tudo o que se pretende poema, há que ser conciso. Ora, o que é concisão? Por ventura algo relacionado à extensão do poema? Lógico que não, dirão os prestimosos teóricos. Tem a ver com a idéia, o insight, o flash, a fagulha poética captada pela lente do poeta, dirão. Ponto pacífico até aí. Mas é aí, justamente, onde quero chegar. Porque esse cânone esdrúxulo que se quer impor na poesia, esse fascismo indefensável, tem sido responsável pelo que vemos por aí, uma proliferação de poemas “angustiados”, com duas vertentes: a primeira, pela confusão entre concisão e extensão, o que leva a poemas microscópicos; a segunda, e a mais grave, pela abordagem apenas de uma idéia, a idéia central, com a pressa, a angústia para dizer de uma vez aquilo que foi captado, aquilo em que reside poesia. Aí é o poeta que se tolhe, não o poema, pois abre mão da possibilidade de surgir outros momentos no poema, igualmente válidos, igualmente poéticos. Por quê? Porque o sentimento de extensão está interligado, no entendimento dele, à abordagem única da idéia captada. Pode-se fazer poesia escrevendo poemas diminutos em extensão e abordando um único tema? Óbvio que sim. O que não se pode dizer é que toda poesia tem que ser assim.

Outras canalhices foram inventadas, como a não-adjetivação do poema e a necessidade imperiosa da substantivação do poema, como se o escritor estivesse fadado a abrir mão de suas ferramentas de trabalho — as classes das palavras —, ou como se um pintor estivesse proibido de usar certo tipo de pincel, ou um entalhador só pudesse usar o buril e nunca a goiva, ou um músico de não visitar certos ritmos. Mas isso, também, é outra história. Escrevamos aquilo que tivermos de escrever, sem nos preocuparmos com extensão ou quantidades de idéias abordadas. Que isso seja conseqüência e não causa do poema. E tenhamos a convicção de que não há guardadores dos caminhos da poesia. Cada poeta constrói o seu.

Antoniel Campos

por Alma do Beco | 5:20 PM | | Ou aqui: 0




terça-feira, outubro 16, 2007

GRANDE HOTEL

Marcus Ottoni

"Estamos incomodados em ver uma diretoria eleita de forma acachapante não fazer a lama ferver de cultura e arte."

Augusto Lula, sobre a apatia administrativa da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências


"Se quiserem evitar uma 3ª Guerra Mundial, devem impedir que os iranianos obtenham conhecimento necessário para desenvolver uma arma nuclear.”

George W. Bush


DIA DO POETA

O que é o Poeta?

O poeta é um fingidor ou o fazedor?

Arte de poiésis: fabricação.

Pra que serve o poeta?

È inútil ou simplesmente essencial à sociedade?

È a pimenta do planeta? Malagueta!

É farto no pão dos eleitos?

Quem desfolha a bandeira?

A bandeira será amarela?

Amarela cor da bandeira dos meus olhos!

Deve sentir na pele a necessidade de experimentar?

Aquele que precisa comer,

para alimentar a fome do novo!

Criticar, deleitar ou transformar?

Com um poeta se faz uma revolução?

Os poetas são pontos luminosos?

Profetas do inaudível?

Sentimental, ama com as tripas?

Ou desata o nó do borongodó?

Antes, a poesia que o poeta pariu

Ou, o poeta que a própria obra produz?

Aquele que passou da fase anal

E na ágora,

num repente oral

Vomita poesia para o público

boquiaberto....

Queria ter tempo para me auto exilar num garajau

sentado num trono de Poesia privada

com face e pose de o pensador

enjaulado lá nas cocadas

arquitetando careta para o presidente ianque

(bestialmente batizado na praça)

realizando estripulias e milacrias para o bebop absorto.

Enquanto isso, como homem comum

Vou fazer entrevista para produzir mais-mais-valia.

E depois, mais tarde,

quando a arte arder

sob a tez translúcida

me deleitar na musa híbrida

Demônio e deusa

Madonna que me doma.

Plínio Sanderson




1944 - Festa no Grande Hotel

O salão estava lotado de natalenses e americanos, que sorviam doses generosas dos uísques Logan, White Horse, Chivas e Old Parr, e fumavam Chesterfield, Kent e Malboro, em detrimento ao nosso Hollywood, Luís XV e Pesela, da Cia Lopes Sá.

Natal respirava e vivia o período da guerra, tendo mudado os velhos hábitos dos quase 60.000 habitantes, por influência dos contingentes militares que aqui se encontravam, principalmente o norte-americano. Na época, a música mais tocada era "To You", nas radiolas de ficha, e já conhecíamos a Coca-Cola, introduzida pelos americanos. A Ribeira vivia em plena efervescência econômica e social. O comércio, as pequenas indústrias, tudo estava em franca ascensão.

Na praça de carro, os Ford 42, Chevrolet e Packard reluziam, nas mãos dos velhos motoristas de praça da Tavares de Lira, que se divertiam, limpando as faixas brancas dos pneus.

Nessa noite, Zé Areia passeava ao largo, esperando um gringo, para vender um mico. As notícias vinham pelos rádios e jornais dos Aliados, ou então eram transmitidas por Luiz Romão, da Agência Pernambucana, desde 1938. Na Rampa da Limpa, em Santos Reis, o pouso e a decolagem dos hidroaviões tinham sido intensos.

O prefeito José Augusto Varela comemorava a inauguração do abrigo Juvino Barreto, que tinha ocorrido no dia 26 de março último.

Nesse dia, em Natal, 29 de março de 1944, em plena 2ª Guerra, alguns intelectuais da terra comemoravam os 42 anos de fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

O terreno do Grande Hotel tinha sido adquirido pelo Interventor Mário Câmara, e o projeto era do arquiteto George Munier. O "Majó" não escondia a sua satisfação em ver que o hotel estava lotado. A música, a todo ritmo, soava tranqüila para os festivos participantes.

No saguão, todos reunidos ouviam o dedilhar perfeito do maestro, no velho piano de canto. O lustre de cristal tcheco, com corrente de latão, balançava cadenciado pela música da época.

As senhoras bem vestidas, de relógios da marca Longines, desfilavam a última moda européia, em vestidos de tecido de seda veludosa ou cetim de organza plissada, e desdobravam-se em amabilidades, ao lado de senhores austeros, de terno de tropical inglês: a fina flor da sociedade natalense. Os cheiros de baton, rouge e pó de arroz misturavam-se aos cheiros dos extratos femininos: Zero Cinco, Belles Flevas, Muggo Chine, Bond Street e outros.

As mesas, com toalhas de linho branco, bordadas, exibiam as melhores louças portuguesas, ricamente decoradas, e algumas faianças inglesas, marca H&B. Os garçons não paravam de rodar, no salão, com as bandejas de prata, repletas de taças de cristal com champagne francesa, doses de uísque, água de coco, refrigerantes e ponche. O buffet tinha sido severo, desde os canapés, até os casquinhos de siri e camarões empanados. Tudo perfeito!

O refrigério do Potengi atingia a sala de recepções do Grande Hotel, levando aquele vento doce e salgado, aos convivas extasiados. A noite, pelo jeito, iria demorar a fluir, na ampulheta do tempo, daquela Natal do século 20. Quando serviram o prato principal: caviar ao molho branco, pernil de lagosta e peru, já se tinham gastado três horas do crédito da madrugada.

O velho prédio, em frente, onde depois foi o Bandern, a tudo assistia e, conformado, concordava com quem comentava sobre a Rádio Poti, recém inaugurada, que sucedia à Rádio Educadora.

Elísio Augusto de Medeiros e Silva

elisio@mercomix.com.br

por Alma do Beco | 3:19 PM | | Ou aqui: 0




domingo, outubro 14, 2007

NOVA NATAL

Marcus Ottoni


"Quero dar um exemplo de ex-presidente: quero deixar a Presidência e não vou virar palpiteiro."
Lula



VERSÍCULOS

Faz de conta

Que esse capítulo não foi lido

Escolha um lindo happy end

Para seu epílogo

Embaralhe, troque

As escritas

Economize elogio

Rasgue os rascunhos

Permita-se erratas

Sublinhe o poder

Rasure o saber

Traduza a única

Palavra que falta

Leia o que não foi escrito

Lembre do que foi esquecido

Deborah Milgram


DE NATAL A MANHATTAN

(HOLANDESES E JUDEUS)

Pero Mendes de Gouveia, Capitão-mor (espanhol, segundo alguns), ferido nos combates, muito macho, não entregou a Fortaleza. A rendição (1633) se deu por obra e graça da covardia dos subalternos. Começara mal, assim, a dominação holandesa no Rio Grande. A galegada flamenga de Olinda e Recife, cinco anos depois da conquista de Pernambuco, estava de olho no gado, no açúcar e na mandioca da terra. O Reis Magos virou Castelo Keulen, a incipiente vila de poucas palhoças, na Cidade Alta, foi rebatizada: Nova Amsterdã. Começou a inhanha: a exploração, a violência, os massacres – um deles, o de Uruaçu, poucos dias depois da conquista.

Jacó Rabi (rabbi, em hebráico, significando “mestre”), Conselheiro da Companhia das Índias, judeu alemão, pintou e bordou em Cunhaú, em 1645, matando muita gente. Esse camarada arranjou amizade com os tapuias Janduís, comandando uma tropa de choque, violenta longa mano dos interesses batavos. Era tão ruim que os próprios judeus, portugueses e protestantes, prejudicados com suas façanhas, forçaram o seu assassinato, a mandado do coronel holandês Garstman, casado com uma brasileira.

Significativa, intensa até, foi a presença israelita no Nordeste durante a ocupação flamenga. Tangidos de Portugal e Espanha, acusados de heresias - vivendo outros na própria Holanda mas originários da Península, - os sefardins, ricos, chegavam aos nossos portos, atraídos pelo comércio, ganhando dinheiro, prosperando. No Recife, fundaram a primeira sinagoga das Américas. Gilberto Freyre afirmava que, desde Cabral, de dez portugueses que vinham para cá, oito eram judeus marranos (cristãos-novos).

No Rio Grande, hoje, pouca gente se dá conta da sua origem hebraica. Vencidos os holandeses nos Guararapes, liberada a Capitania, seu forte e sua vila primeira (Natal), a maioria dos judeus afortunados da região - marranos ou não - se escafedeu para o Caribe e para uma outra “Nova Amsterdã”, um entreposto flamengo, na ilha de Manhattan – que depois, sob o guante da espada inglesa, viria a ser chamada de Nova Iorque. Esse grupo ajudaria a fundar o império capitalista americano. Os outros, os menos bafejados pela sorte, obrigados novamente a se cristianizarem, foram palmilhar os caminhos do sertão, misturando-se às populações indígenas. Ficaram, todavia, os sobrenomes reveladores: Carvalho, Moreira, Nogueira, Oliveira, Pinheiro, Lopes, Dias, Nunes, Souza ou Sousa, Medeiros, Costa, Cardoso, Fonseca e tantos outros. Dos costumes e manias - afirmam, por aí - , deixaram-nos a carne de sol; o comércio à prestação, de porta em porta; a pintura das casas no final do ano; a sangria dos animais para a alimentação; o sepultamento dos defuntos envolvidos em mortalhas.

Os holandeses, por sua vez, parece (ainda bem, ainda bem!), só nos deixaram os Wanderley do Assu - salvo algumas poucas exceções -, gente de brio, de prumo, de engenho e de muita arte, até nossos dias.

Laélio Ferreira

Setembro de 2007-10-14

por Alma do Beco | 6:14 AM | | Ou aqui: 0




sábado, outubro 13, 2007

NASCERAM

Marcus Ottoni


"Tem havido uma demonstração flagrante, infeliz de incompetência de liderança entre nossos líderes nacionais. Como diz um provérbio japonês, ação sem visão é um pesadelo. Não há dúvida de que a América está vivendo um pesadelo sem fim à vista. Enquanto os políticos mantêm uma retórica desenhada para preservar suas reputações e seu poder político, nossos soldados morrem."
Ricardo Sánchez, general reformado, ex-chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos no Iraque


EANikita, ao fundo; Tutankamon (centro) e; Sherazade

A Máscara

(Uma homenagem a Paulo Autran, em 12/10/2007)

A máscara que vesti

não era a máscara que

alguns homens

e mulheres,

incautos,

desavisados,

insistiram

e teimam em ostentar.

A máscara que vesti

e o nariz de palhaço

me trouxeram dignidade

e honra.

E o sonho

me chegou,

bem perto,

bem perto!

Com aquela máscara,

com aquela fantasia,

eu, um mero clown,

um operário sonhador,

dei, de volta,

o sorriso surrupiado

do povo.

Dei, de volta,

àqueles que me viram

em cena,

àqueles que me tomaram

no ato,

toda força do meu corpo

e de minha alma,

e, ainda, do meu sonho,

algo que nunca

teve máscara!

Lívio Oliveira



Não se lê nesse país

Na fila, a multidão se espremia. Cansadas, as catracas rangiam quase se opondo à passagem das pessoas. Dentro fazia calor. Fora, chovia. Dentro, entremeado de estantes, livros em labirinto. Sonhos ofertados a preços módicos e aos montes. Gente passando, gente querendo, gente comprando. Não se lê nesse país, dizem os intelectuais. Não se lê nesse país, afirma a mídia. Não se lê nesse país? ela pensa. E o que dizer da multidão a se espremer ali, uma semana inteira e, ainda mais nessa tarde, em pleno feriado, numa feira cuja única atração são os livros?

Márcia Maia


Sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Tenho ficado em casa, dias e dias sem pôr os pés na rua.

Na sexta-feira passada, contudo, tive que sair para uma conversa à qual fora chamado e não podia postergar.

Quando volto, mamãe estava inconsolável. Havia mais de duas horas, procurava encontrar pela rua, sem sucesso, Nikita, a sua poodle branca. Segundo ela, haviam deixado aberto o portão de acesso à casa, e a cachorra, em dias de ganhar filhotes (barrigão deste tamanho!) ganhara o mundo, fugira, escafedera-se.

Procuro em todos os cantos da casa, mas não a encontro. Faço uma caminhada pelas ruas adjacentes, mas nada. Nada de Nikita, coitada, que vai parir na rua, na casa de alguém desconhecido ou vai ter destino pior, vai ser atropelada no tráfego louco de todos os dias da avenida Hermes da Fonseca.

O sábado amanhece em nossa ilha de proteção do Tirol, guardada pelo seus limites: o morro e sua vegetação ainda virgem de Mata Atlântica, o muro do quartel, a AABB e a avenida, que, nos idos da guerra, recebera "a pista" dos americanos, caminho entre o aeroporto de Parnamirim e a pracinha Pedro Velho, em Petrópolis.

Nikita, se viva ainda, deveria estar neste pequeno quadrilátero. E buscas e buscas infrutíferas foram realizadas. Recados com a vizinhança, deixados. E, o mais importante, conversas sobre o assunto despejadas em profusão em todas as bodegas das adjacências. Digo mais importante porque conversa de bodega chega fácil ao mundo, e, se a notícia do desaparecimento da cadela chega ao mundo, havia uma esperançazinha de ainda encontrá-la, talvez já parida e sem os filhotes, mas viva, para reintegração ao lar.

Por esses dias, no quadrilátero, uma novidade nos assombrava, pela felicidade que traz. Um canto mavioso de graúna é ouvido, forte e melódico, bonito, cativante. Com sua elegância e penas reluzentes, tinindo de preto, uma graúna livre todos os dias acompanha um bando de anuns, pretos como ela, mas de um preto fosco e feio, fora o vôo desengonçado e toda a barulheira que fazem com o seu alvoroçado cantar, mais parecido a grito de desespero.

Ficaria a graúna, pelo menos. Até que alguém a capturasse em alçapão e a colocasse em gaiola, dessocializando sua presença majestática e o seu canto nobre, a encantar nossa ilha.

Manhã e tarde inteiras de sábado sem a mínima notícia de Nikita.

Comecinho de noite, depois de servir alguma coisa para o jantar de mamãe, chega Márcia e formamos uma mesa de pif-paf, para distrai-la, até que o sono chegue.

No meio da décima quinta cartada, eis que irrompe, casa a dentro, esbaforida, inquieta, faminta e sedenta, a super Nikita!

- Mas como, se o portão de acesso à casa estava fechado?

Nikita passara resto de tarde e noite inteira da sexta bem escondida, manhã e tarde do sábado, também, e, agora, sem quem a chamasse, dava o ar da graça para trazer a notícia: nasceram.

Apresento-vos: Gulliver, D'Artagnan e Maria Bonita.

Eduardo Alexandre

por Alma do Beco | 11:02 AM | | Ou aqui: 0




segunda-feira, outubro 08, 2007

PARTIDO DO POVO BRASILEIRO

Marcus Ottoni


"Pela livre candidatura"
Do Manifesto do Partido do Povo Brasileiro


Marcus Ottoni

A história de um partido político que foi roubado

A partir da Galeria do Povo, foi criado o Partido do Povo Brasileiro (PPB), com um ideário totalmente avesso ao que era pregado pela ditadura militar.

Por Vinícius Menna


A prova de que a Galeria do povo tinha uma grande força política está no surgimento do Partido do Povo Brasileiro (PPB), em 1978, num momento onde só existia a Arena e o MDB e era proibido se falar na criação de outros partidos.

“Nós ousamos criar o Partido do Povo Brasileiro. A força do PPB era tão grande que o então presidente da Arena, o deputado José Sarney, tentou transformar a Arena no Partido do Povo Brasileiro”, lembra Eduardo Alexandre, o Dunga, idealizador da Galeria do Povo e do PPB.

Segundo ele, a Polícia Federal chegou a fotografar o que ocorria no muro da Praia dos Artistas. Os órgãos da segurança do exército também freqüentavam o local. “Mas viam que era um movimento pacífico e bem intencionado, apesar de ser contra a ditadura”, comenta Dunga.

Ele explica que teve que redigir um manifesto do PPB. Saiu pregando o texto nos postes da cidade, até que Luís Maria Alves, que era o diretor-geral do Diário de Natal na época, fez uma matéria de primeira página com Eduardo Alexandre.

“Nós dissemos que o PPB era um partido nascido do povo e que não tinha o capital desonroso que a Arena tinha. Mas José Sarney insistiu, até que, em 1985, ele pagou um testa-de-ferro para registrar o partido, quando já se falava na formação de novas siglas”, conta o artista.

De acordo com Dunga, o Partido do Povo Brasileiro foi o primeiro partido registrado oficialmente depois da ditadura. Ele considera que a atitude de Sarney foi um golpe muito baixo cometido contra a “talvez mais bela sigla de partido de toda a história brasileira”.

“Lembro que ligaram para mim, de manhã, e perguntaram se eu já havia registrado o Partido do Povo Brasileiro. Eu respondi que não e então me disseram para comprar o Jornal do Brasil. Eu fui correndo até a banca e vi a matéria de capa falando da criação do PPB. Acho que foi o dia mais triste da minha vida”, recorda Eduardo Alexandre.

Segundo o artista plástico, Sarney percebeu que a sigla era forte e conseguiu mandar o jornalista Antônio Pereira, do Rio de Janeiro, registrar. “Inclusive, Antônio Pereira foi candidato à presidente da República com campanhas ridículas e preconceituosas. Ele não logrou o mínimo êxito, foi muito mal votado”, opinou Dunga.

O idealizador verdadeiro do PPB ligou para o falso, se identificando e dizendo que era o criador do partido. Disse ainda que iria procurá-lo no Rio de Janeiro.

“Ele me recebeu. A única coisa que eu disse foi: ‘Amigo, se você registrou o Partido do Povo Brasileiro, meus parabéns. Agora, existe uma história antes da sua, existe uma história do partido lá em Natal’. Mostrei a ele todos os documentos que nós tínhamos, disse que tínhamos filiados e que gostaríamos de juntar as forças”, revela o artista plástico.

De acordo com Eduardo Alexandre, ele explicou a Antônio Pereira que se houvessem divergências - e havia divergências - ambos, numa convenção, colocariam um ponto na situação. “Mas ele nunca aceitou. Nós fomos embora e ele nunca aceitou nossa filiação”, afirmou.


O Poti, de 20 de Janeiro de 1980

Partido do Povo Brasileiro

Pela Paz Universal
Pelo Partido da Paz Universal
Pelos Partidos dos Povos
Pelo desarmamento atômico
Pelo total desarmamento

Partido do Povo Brasileiro

Manifesto aberto à Nação

Que o governo do povo, pelo povo e para o povo
Viva e esteja sempre com o povo
Por uma democracia verdadeira
Por um Brasil feliz
Partido do Povo Brasileiro

Pela defesa da flora
Pela defesa da fauna
Pela defesa da vida
Partido do Povo Brasileiro

Pela união dos povos
Pela autodeterminação dos povos
Pela sua integridade
Partido do Povo Brasileiro

Pela defesa das nações indígenas
Pela defesa dos seus territórios
Pela defesa de sua cultura
Partido do Povo Brasileiro

Pela livre manifestação artística
Pela livre manifestação política
Pela livre manifestação de credo
Partido do Povo Brasileiro

Pelo respeito à constituição
Pelo respeito aos nossos governantes
Pela defesa das leis
Partido do Povo Brasileiro

Pela valorização do trabalho
Pela segurança no trabalho
Pela justa remuneração
Partido do Povo Brasileiro

Pela libertação do operário da exploração patronal
Pela livre organização sindical
Pela participação do trabalhador nos lucros da empresa
Partido do Povo Brasileiro

Pelo direito à educação
Pelo direito ao emprego
Pelo direito à Justiça
Partido do Povo Brasileiro

Pela dignidade humana
Pelo direito a uma existência digna
Pela defesa do homem
Partido do Povo Brasileiro

Pela terra dividida
Pelo teto
Pelo pão
Partido do Povo Brasileiro

Pela não intervenção das forças armadas no jogo político
Pela responsabilidade dos partidos no jogo político
Pelo livre traçar dos nossos destinos
Partido do Povo Brasileiro

Contra a dominação do capital estrangeiro
Pelo fortalecimento da empresa nacional
Pelo fortalecimento da indústria nacional
Partido do Povo Brasileiro

Pela livre iniciativa empresarial
Pela liberdade interna de mercado
Pela lei de remessa de lucros
Partido do Povo Brasileiro

Pela convocação da Assembléia Constituinte
Por eleições presidenciais diretas
Pela implantação da República Democrática
Partido do Povo Brasileiro

Pela coincidência de mandatos e eleições
Pelo voto distrital para deputados estaduais e vereadores
Pelo senador nacional
Partido do Povo Brasileiro

Pela livre candidatura
Pela livre formação partidária
Partido do Povo Brasileiro

Publicado em O Poti, de 20 de Janeiro de 1980, em Natal/RN

por Alma do Beco | 11:49 PM | | Ou aqui: 0




domingo, outubro 07, 2007

VOZ

Marcus Ottoni


"Um ente gerado com o sangue do doador tende a replicar seu DNA".
Gaudêncio Torquato, sobre a intenção do governo em criar a TV Pública

Antônio Manso
Se essas paredes falassem...

Galeria do Povo, manifestação cultural e política do final dos anos 70, completa 30 anos neste mês.

Por Vinícius Menna

nominuto.com


Eduardo Alexandre mantém a idéia da Galeria viva, realizando exposições esporádicas pela cidade.


Antes da Galeria do Povo, não havia movimento cultural organizado em Natal. Em 1° de outubro de 1977, porém, foi dado o pontapé inicial para uma produção que não teria mais fim. Artes plásticas, visuais, fotografia, literatura, música, dança e teatro deram um salto a partir da iniciativa que surgiu da necessidade de dizer às pessoas que estava tudo errado no país.

"A Galeria do Povo nasceu de uma necessidade de voz", explica Eduardo Alexandre, o idealizador do movimento e poeta, escritor, artista plástico, jornalista, também chamado de Dunga.

O Brasil passava por um momento triste da história com a ditadura militar. Os jornais do sul tinham censores em suas redações e os demais jornais do país faziam auto-censura.

"Existia uma série de assuntos proibidos, principalmente as críticas ao governo. Principalmente a ditadura em si. A Galeria do Povo surge em meio a esse descontentamento da população brasileira em relação a esse momento difícil que estava passando", lembra o artista.

A Galeria do Povo se contrapunha a esse momento adverso. A idéia inicial era fazer uma galeria itinerante que terminaria em frente ao Congresso Nacional, com uma grande exposição de artes plásticas, poesias e shows de grandes artistas brasileiros se contrapondo ao momento em que a população brasileira estava vivendo.

"Não fizemos isso em decorrência de adversidades financeiras, mas a Galeria do Povo continuou sendo feita em Natal durante os sábados e domingos. E se tornou um veículo de livre manifestação popular, que era a proposta inicial", comenta Eduardo Alexandre.

Nos fins de semana, os artistas chegavam no mural da Praia dos Artistas e começavam exposições que não eram planejadas. A Galeria era composta a partir do material que era trazido pelas pessoas que já faziam arte há algum tempo ou estavam começando.

A primeira exposição é de 1° de outubro de 1977. Ela começou a ser preparada em abril, época que veio o estalo de fazer a Galeria do Povo. Geisel havia fechado o Congresso e editado um pacote de medidas.

"Aí, nós vimos a necessidade de ir para uma luta mais ostensiva, mas pacífica e com arte no pé do muro. Fizemos a primeira exposição no contorno da Ladeira do Sol, descendo a Praia dos Artistas, com artes plásticas, fotografias, poesias. Em cavaletes ou pregadas nas árvores que tinham lá na época", conta Dunga.

A segunda exposição foi só de poesia, num mural, em frente a uma casa. Era uma coletânea dos escritos de Eduardo Alexandre. A filha do dono da casa em que os artistas expunham viu a exposição, gostou e procurou Eduardo Alexandre no meio da semana.

"Sempre a gente estava se reunindo ali na Praia dos Artistas. Ela chegou, disse que pintava e me chamou para ver os quadros dela", explica o artista plástico.

O nome da garota que cedeu o muro da casa era Dulce. A partir da terceira exposição, a Galeria ganhou as paredes, com os quadros dela e de outras pessoas. A partir deste sábado, conta Dunga, começaram a surgir muitas pessoas interessadas em participar do movimento.

"Essa exposição foi até 24 de dezembro de 1977. O pai dela [Dulce] morava em Macau. Quando chegou, viu aqueles pregos no muro dele e mandou acabar com a exposição. Foi meu presente de Natal", revela Eduardo Alexandre.

O artista lembra que ficou muito chateado. "Mas a Galeria do Povo precisava continuar. Então, comecei a procurar outros muros e não tinha nenhum tão bom quanto aquele. Como a necessidade de expor era muita, optamos por um muro ruim, mas que era um muro, até que a Secretaria de Educação resolveu construir um mais adequado", diz Dunga.

Foram realizadas mais de 500 exposições até 1986, mo mesmo local que a secretaria cedeu para os artistas, na praia.

O pontapé

"A Galeria do Povo fez com que surgisse o movimento artístico da cidade. Através dela conseguimos fazer o os festivais de arte no Forte dos Reis Magos, o Festival de Artes de Natal, passeatas de poetas, que a gente chamava de Passeio Poético da Cidade do Natal, e vários outros acontecimentos artísticos que durante um tempo sobreviveram, depois desapareceram e outros que ficaram, como o Dia da Poesia, que ainda hoje é muito comemorado pela cidade", comenta o Eduardo Alexandre.

Frases do movimento eram românticas e até ingênuas, mas de efeito.



Dunga afirma que não existia movimento artístico em Natal até então. Segundo ele, dava para se contar nos dedos os artistas que habitavam a cidade.

"Os artistas plásticos eram Newton Navarro, Dorian Gray, Tomé, Iaperi, Leopoldo Nélson. Com a Galeria do Povo formou-se realmente um movimento. E aí agregou não somente as artes plásticas, mas fotografia, poesias, crônicas, música teatro, dança, tudo. Então tornou-se um movimento mesmo a partir da Galeria do Povo", diz o artista.

À época, a Praia dos Artistas era o local de maior convergência na cidade. Antes dela, tinha sido o Grande Ponto, no centro da cidade, mas caiu em decadência. Então, praticamente toda a cidade descia para a Praia dos Artistas para se encontrar.

"Nosso grupo, que era oriundo do Marista, se reunia todos os dias, de manhã cedo, a partir de 10h. Nós passávamos a semana planejando o que fazer no sábado e domingo", lembra.

De acordo com Dunga, uma arma importante do movimento eram as faixas de manifestação. Os dizeres eram discutido ente os artistas, sempre visando um texto que não fosse agressivo.

"A gente sabia que aquele movimento era politicamente muito visado. E a gente queria manter essa independência política e essa vontade de mostrar à sociedade que nós estávamos inconformados com aquela ditadura", revela Eduardo Alexandre.

As frases eram românticas e até ingênuas, mas de efeito, segundo Dunga. "Por exemplo: 'Ao povo brasileiro, o direito de escolher o seu próprio destino, Pela convocação da Assembléia Constituinte' ou 'Por uma democracia verdadeira, por um Brasil feliz'. Coisas que não agrediam a ditadura, mas que davam um recado positivo do que a gente queria dizer", diz o artista.

Enfim, Brasília

De acordo com Dunga, a Galeria chegou ao objetivo inicial algum tempo depois. "Ela passou a ser feita no Cruzeiro Novo, por um rapaz de Minas Gerais, que era praticamente de Brasília, mas que veio trabalhar em Natal. Marcus Ottoni realizou várias exposições lá. Fizemos também a Galeria do Povo em Recife durante um ano e ainda uma exposição em Campina Grande", conta.




Uma praia de artistas

Com a decadência do Grande Ponto, no centro da cidade, praticamente toda a cidade descia para a Praia dos Artistas para se encontrar.

Por Vinícius Menna

nominuto.com

Na época da Galeria do Povo, a cidade toda descia a Ladeira do Sol em direção à Praia dos Artistas.

Era na Praia dos Artistas que as coisas aconteciam no final da década de 1970. De playboys a doidões, todos iam para lá. E foi lá que começou uma pequena revolução cultural em Natal, com a Galeria do Povo.

Segundo conta Flávio Rezende, jornalista que participou ativamente com poesias que foram expostas no muro da Galeria, a Praia dos Artistas era a moda. "A cidade toda descia a Ladeira do Sol, dava volta de carro e de moto, chegava, fazia uma apresentação e ficava por ali", lembra.

O jornalista conta que produzia muito, quase diariamente, mas não tinha como expor. "O Dunga organizava essa exposição, que ele chamava de Galeria do Povo. Morávamos na mesma rua. Eu passei a participar ativamente, passava os domingos lá no muro com ele. Isso foi muito importante para a minha vida como escritor", explica Flávio Rezende.

Ele recorda que havia uma certa divisão na época. "Existiam os caretas, que só faziam contar piada e falar da vida do povo, e os doidões, o pessoal que fumava maconha, gostava de cultura alternativa e ficava encostado no muro", diz Rezende.

O movimento ao redor da Galeria do Povo começava logo cedo, às 10h, nos sábados e domingos. O pessoal ia pregando obras na parede e quando chegava às 17h, o lugar estava lotado. Era gente passando e olhando o tempo todo.

"Geralmente o povo já estava por lá de manhã, pegando um sol, dando uma bola. Na minha geração, a gente respirava cultura quase o dia todo. No Tirol acontecia o mesmo. Ou a gente tava na casa de um e de outro, compondo músicas e escrevendo poesias, ou estava na Praia dos Artistas mesmo. A gente sentava num banquinho e ficava por ali", conta o jornalista.

As influências da época eram Pink Floyd, Led Zeppelin, Santana, Janis Joplin, Jimmy Hendrix Gilberto Gil e Caetano. O pessoal usava roupas folgadas de algodão, coloridas, túnicas indianas, chinelos.

Era comum que os homens também cultivassem cabelos grandes, e deixassem a barba crescer. O corte black power também era a moda que estava em voga vinda do fim da década de 1960 para início da década de 1970. "Éramos doutores em cultura, mulher e maconha", brinca Flávio Rezende.

Festival

O idealizador da Galeria do Povo, Eduardo Alexandre (Dunga), comenta que planejava uma maneira de expandir o movimento cultural na cidade. Segundo ele, se chegou à conclusão que só um Festival de Arte para além das artes plásticas e visuais, que agregaria a música, teatro e dança.

"Eu estava um dia no mural da Galeria e chegou um artista plástico que tinha um atelier na Praia de Areia Preta. Era Sandoval Fagundes, um artista de João Pessoa. Sugeri a idéia de fazer no Forte dos Reis Magos, mas disse que eu não ia solicitar isso à Fundação José Augusto", diz Dunga.

"Eu era radicalmente contra trabalhar com qualquer meio oficial de cultura. Para mim, era um absurdo a arte trabalhar conjuntamente a instituições que representassem a ditadura", arremata.

Depois, foi feita a solicitação da Fortaleza para que o Festival fosse realizado. A primeira edição durou um dia. No segundo ano, Sandoval Fagundes não estava mais no Estado e a festa foi feito com a produção de Carlos Gurgel, no Centro de Turismo.

"Em 1980, eu não estava em Natal, fui para Recife. Aí não teve Festival. Em 1981, quando eu voltei, nós retomamos, dessa vez, já em três dias e voltando à Fortaleza dos Reis Magos", lembra Eduardo Alexandre.

E daí por diante o Festival se consolidou. Com ele, surgiu uma Associação de Artistas Plásticos e uma Cooperativa de Artistas, que entre 1983 e 1986, conseguiu dar um impulso ao movimento artístico de Natal.

"Até a quinta ou sexta edição, o Festival foi no Forte dos Reis Magos. Também foi feito no Bosque dos Namorados e depois na Cidade da Criança. Acho que foram oito ou nove festivais. Não sei ao certo porque não participei dos últimos", conta Dunga.

Segundo Flávio Rezende, ele foi ao Festival do Forte desde pequeno. "Meu irmão era meio malucão e me levava para todos esses lugares. A Galeria do Povo era transportada para lá, numa sala. Dunga levava o material todo para o Forte", diz o jornalista.

De acordo com Rezende, o clima era liberal. "Tudo acontecia muito na paz. Não existia essa obsessão por produzir, ganhar dinheiro, era tudo em função simplesmente da arte", comenta.

O jornalista complementa: "As pessoas queriam mostrar os trabalhos. O som, a iluminação, eram coisas mais simples. A gente ia para ouvir, ninguém tinha muitas exigências. Parece que hoje em dia as pessoas se preocupam mais com a moldura e não com o quadro em si".

por Alma do Beco | 11:10 PM | | Ou aqui: 0


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