
“A resistência do Centro Histórico de Natal empunhou a bandeira da cultura popular no fim de semana e expôs as feridas de uma cidade iluminada que vive às turras com o brilho de seus artistas.”
Rafael Duarte, na Tribuna do Norte, sobre o I MPBeco
Alex Gurgel

Túlio Ratto, da revista O Papangu (dir), conversa
com Rafael Duarte na redação de Tribuna do Norte
Sarau:
Antoniel Campos é homenageado na Siciliano
31/05/2006 - Tribuna do Norte
O homenageado da vez no projeto Poéticas e Prosas Potiguares, idealizado pela livraria Siciliano, no shopping Midway Mall, é o poeta potiguar Antoniel Campos. O sarau poético “de cada poro um poema”, ocorre hoje a partir das 19h. Em junho, as honras serão oferecidas ao escritor ficcionista, Francisco Sobreira.
O tema é o título do segundo livro de poesias de Campos, lançado em 2003. Antes desse, o poeta já havia publicado “Crepes e Cendais”. A terceira obra dele, “Esfera”, foi lançada em 2005.
Na esteira dos títulos, Antoniel Campos coleciona o primeiro lugar no Concurso Literário Eros de Poesia Sensual, com o poema “é como se as paredes respirassem”, além de menções honrosas nos concursos literários Othoniel Menezes e Luís Carlos Guimarães.
Engenheiro por formação acadêmica pela UFRN e natural de Pau dos Ferros pela sorte do destino, o poeta não esconde dos amigos que ainda carrega o sonho de se tornar um poeta por tempo integral.
Serviço:
Sarau poético “de cada poro um poema” Homenagem a Antoniel Campos
A partir das 19h
Livraria Siciliano do shopping Midway Mall
Papangus em Natal
Nessa quarta-feira, a partir das 18 horas, será lançada o 28º número da revista Papangu na AS Livros do Praia Shopping, em Natal. A mais irreverente revista do Estado destaca na sua capa, o Senador José Agripino no maior dilema político do mundo. Afinal, José Agripino não ganha nem para vice, imaginem do que esse homem é capaz. Conquistou o Troféu Papangu do mês.
Uma matéria especial com o poeta Bob Motta, o Trovador do Sertão, mostra seu talento e sua insatisfação pelo preconceito que sente na sua poesia por parte de alguns “modernistas”. O forrozeiro Elino Julião será homenageado nas páginas da revista.
Com fotos de Hugo Macedo, o presidente da Academia Norte-riograndense de Letras, poeta Diógenes da Cunha Lima é entrevistado pelos papangunistas Alexandro Gurgel e Lívio Oliveira e conta sua história como advogado e poeta, além de falar sobre o baobá, Nova Cruz, cultura, política, Saint Exupéry, etc...
O escritor Pery Lamartine está na seção Artigo com “A última boiada do Piauí”. Na crônica de maio, o professor Márcio de Lima Dantas conta como se deu o encontro com uma das professoras de sua infância.
A revista Papangu ainda tem nas suas páginas a colaboração de Damião Nobre, Antônio Capistrano, Marcos Túlio, Railton Lucena, Céfas Carvalho, Amâncio (charges), Túlio Ratto (editor), David Leite, Antônio Alvino e a estréia da jornalista Yasmine Lemos como papangunista, assinando a coluna “Deunomundo”.
SERVIÇO:
Lançamento da Papangu
Data: 31 de maio
Local: AS Livros (Praia Shopping)
Hora: 18:00
Alexandro Gurgel
Casa da Ribeira
Um espaço sempre aberto para a arte do RN
O segundo Prêmio Cultural Diário de Natal contemplou a Casa da Ribeira com o troféu O Poti, por ter sido a escolhida a Instituição Sem Fins Lucrativos que mais Apóia Cultura. ‘‘Estamos muito felizes, é importante observar que se trata de um prêmio analisado por um júri conhecedor de todos os aspectos avaliados, curadores que sabem o que estão fazendo, o que agrega diretamente valor ao prêmio’’, comentou Gustavo Wanderley, representante da Casa da Ribeira.
Desde 2001, a ong Casa da Ribeira realiza ações e projetos em parceria com artistas, públicos e empresas, com o intuito de promover uma política cultural que privilegia a formação de públicos apreciadores da arte e a defesa de iniciativas nos setores do ‘fazer cultura’ e do ‘sentir cultura’, priorizando assim ações em áreas não cobertas habitualmente pela indústria ou mercado cultural.
‘‘Os conceitos contemporâneos de produção cultural nos dão esse sinal de que a cultura e a mídia precisam estar em comum acordo para que a população como um todo tenha acesso e valorize as manifestações culturais e artísticas, e esse prêmio vindo de um grupo de mídia local fortalece essa vertente. O Diário esteve muito presente no processo de reabertura da Casa, e agora reafirma esse compromisso’’, afirma Gustavo.
Com programas nas áreas social, de fomento e de acesso, articulados a processos educacionais de sensibilização, a Casa vem desenvolvendo projetos a favor da sustentabilidade da cultura potiguar. Entre eles estão: Cosern Musical 2005 (programa de incentivo à música), Casa da Ribeira em Cena (programa de incentivo ao teatro), Natal Arte Contemporânea (espaço aberto para a arte contemporânea produzida em Natal e no Brasil), Da Escola pra Casa (promove e amplia o acesso à cultura de jovens da rede pública de ensino), ArteAção (projeto aprovado pelo Ministério da Cultura que promove ações que buscam o desenvolvimento artístico da cidade. Dirigido para jovens acima de 16 anos do bairro das Rocas), Ruas da Memória (classificado pelo Minc como Ponto de Cultura no Brasil, esse projeto promove a diversidade cultural no bairro das Rocas), Clube do Professor (garante aos professores do ensino infantil, fundamental e médio acesso gratuito aos espetáculos oferecidos pela Casa em 2006) e Projeto Terceira Idade (garante 50% de desconto para pessoas com mais de 60 anos nos espetáculos artísticos da Casa).
O segundo Prêmio Cultural Diário de Natal contou com o patrocínio da Cosern, do Governo do Estado, Prefeitura de Natal e de Mossoró, Banco do Brasil, Fiern, Sebrae/RN, Assembléia Legislativa, Fecomercio e Sesc. Além do apoio do grupo ADS, Capuche, Delphi Engenharia, BRA Transportes Aéreos, UnP e Unifarma.
O ATLETA
Desci dois lances de escadas aos pinotes, algo heróico para quem sofre de poliartrite congênita. Entrei no carro, corri o quanto o bom-senso e a fiscalização eletrônica permitiram e, mesmo assim, perdi as primeiras apresentações. Pudera, Cid Filho avisou-me que lutaria caratê nos Jerninhos vinte minutos antes do início da competição.
O importante é que, embora sujo, despenteado, sentindo gosto de guarda-chuva na boca e o peso de dois quilos de remela em cada olho, cheguei a tempo de vê-lo em ação, de torcer, de gritar, de xingar o juiz, essas coisas típicas de pai babão.
Ao final do torneio, que felicidade, que maravilha, que orgulho, o cabra estava no podium recebendo mais uma medalha para a coleção. Ficou em terceiro lugar. Eu, na platéia, sentia-me o vencedor por merecer aquele sorriso povoado de dentes, aquele aceno largo, aquele beijinho lançado de longe rumo ao centro do meu coração e o privilégio de gritar "É meu filho! É meu filho! É meu filho!".
Só não me perguntem a quem esse menino puxou, porque o pai dele, além de frouxo militante, é o único caso registrado pela literatura esportiva mundial de dono da bola que emprestava a bola na condição de não ser convidado para jogar.
Tentei futebol, basquete, tênis, pingue-pongue, natação... Ah, fui campeão de handball. A reserva da equipe do Colégio Diocesano estava incompleta, então emprestei meu nome para constar na súmula e desapareci sem assistir à partida.
Sim, preciso dizer de minha experiência nas artes marciais. Comecei, a exemplo de Cidinho, treinando caratê, mas desisti no primeiro dia de aula para não morrer de rir. Cada vez que alguém gritava "Iáááááá!" eu caía na risada.
Depois passei cinco ou seis anos no judô, atingindo a faixa laranja e até vencendo uma luta memorável. Apliquei o golpe no sujeito e o dito-cujo reagiu suspendendo-me do chão pela cintura, mas não agüentou meu peso. Caí sentado na barriga dele, que desmaiou.
De outra vez, mal o professor Deusdete Couto pronunciou a palavra que autoriza o início do combate e eu já estava no chão com o oponente apertando-me a goela e gritando, para ganhar força, algo parecido com "Suuuuuuuuul!". Na falta de alternativa decente, respondi-lhe berrando desesperado: "Noooorrrrrrteeeee". Risada geral, fim da disputa.
Experimentei capoeira, para horror de certos parentes metidos a besta. Sucumbi à falta de ritmo. Por último, matriculei-me na musculação tentando reduzir o colesterol e quase morro de tédio repetindo à exaustão movimentos chatíssimos.
Hoje, estou convicto de que meu lugar no esporte é o de torcedor, de tiete, na denominação afetiva do poeta Genildo Costa, do "velho Cidinho".
Cid Augusto
"Tem Maimota"
Uma das figuras mais conhecidas da região do açude Gargalheiras, no município de Acari, no Seridó, é o pescador e dono de bar Dudé. Ele não é de muitas brincadeiras, mas o seu jeito de ser o torna divertido, singular. Os avisos do seu bar, por exemplo, são hilariantes. O que proíbe som de carros é no mínimo complacente: "Atenção! É proibido som de carro, mas se outro carro estiver com o som ligado, espere a sua vez."
Como o seu estabelecimento, que serve excelentes tira-gostos e mantém a cerveja sempre na temperatura ideal, fica no entroncamento principal de acesso ao açude, é um dos mais procurados. Mas, Dudé não gosta muito de trabalhar no bar. Ele gosta mesmo é de pescar e cuidar de um pedaço de terra que tem na beira do açude, onde cria umas ovelhas e coloca suas redes. E, como dorme cedo, detesta clientes que entram noite adentro, mesmo que seja uma mesa lucrativa. Tanto, que num sábado de chuva e movimento fraco, quando estava quase por optar em ir pescar, já por volta das 11 horas, e viu o carro de um farrista conhecido que vinha chegando, ficou contrariado.
Quando a velocidade diminuiu e o veículo começou a fazer a curva, que pode significar parar no seu bar ou continuar em direção ao Gargalheiras, ele virou o rosto dizendo baixinho e compassadamente: Passando, passando, passando...
Ele nasceu na região e construiu sua casa vizinha ao bar, sendo que num outro terreno, mais próximo de uma montanha, mas também perto, ergueu outra casa para alugar ou, até para vender, como apregoa.
Ele é assim, diferente. E quem cuida da cozinha do bar é Aparecida, sua esposa, por quem nutre um grande amor. Nota-se. Mas Dudé também é teimoso e gosta das coisas organizadas do seu jeito. Se não for da forma como planejou, "o mundo cai" e, como todo casal já briga sem trabalhar juntos, imaginem reunidos num bar.
Por lá existe uma espécie de confraria liderada pelos artistas Dimas e Tatá, o primeiro escultor em granizo e o segundo escultor em madeira, que se reúne diariamente para tomar uma saideira, antes de seguirem para a rua - Acari -, onde moram.
Num final de tarde, chegaram e pediram a cachaça habitual, sob a complacência financeira do jornalista e fotógrafo Hugo Macedo, que atualmente mudou-se para aquele paraíso, e que relatou o caso ao cronista. Segundo Hugo, todos notaram que Dudé estava sombrio, triste, pensativo e olhando muito para a montanha. Nem tira-gosto de tilápia tinha.
- O que foi Dudé? Aconteceu alguma coisa?
- Aparecida me deixou. Foi embora morar naquela casa perto das pedras. Não sei porque. Foram somente umas tapinhas...
- Vige, emendou Dimas, é por isso que você não tira os olhos daquela casa...
- É, concluiu Tatá, ele fica somente pastorando.
- Tem maimota, Hugo, disse Dudé, olhando para a casa com expressão de extrema desconfiança. Eu sei que tem...
Ele estava mortificado, acreditando que Aparecida tinha ido embora por outro homem. Nunca pensou em viver sem Aparecida. Estava triste, arrasado. Olhou para Hugo em busca de auxílio. Não disse nada e seu olhar era recorrente, como o de uma criança. Mas, antes que Hugo dissesse qualquer coisa, Tatá, que não mede palavras e adora parecer perspicaz, foi logo admoestando:
- Calma, meu amigo, ninguém é de ninguém.
Ele não respondeu. Não precisava. Seu olhar foi mortal e aquela foi a noite mais longa de Dudé, que ficou olhando a casa, e a única em que o bar ficou aberto até o amanhecer.
Leonardo Sodré
DA PETROLÍVIA À VENEZUELA BRASILEIRA
Vareite, San Ernesto de La Higuera!
Um vate lá dos Esteites, um tá de Eliot, já dixe em suas escrevecenças qui "Jerônimo outra vez enlouqueceu".
Será qui êle já aduvinhava qui o índio pancadão Evo Morales ia butá pra reiá na Petrobrás do campãeiro Inaço?
E agora, acuma é qui fica a camisa do time do Framengo? Será qui a urubuzada vai carregá no lombo a marca da "PETROLÍVIA", hem!?
Já pensaro se o coroné Champolim Colorado, em nome do generá Abreu e Lima, arresorve mudá o epíteto (vixe!) de Recife pra "VENEZUELA BRASILEIRA", a troco de bancá a refinaria pros pernambuquins abestaiados qui vévem cantano goga e dizeno qui "a refinaria é nossa"?
Desse jeito e nessa pisada o majó Fidé Castro vai ganhá é muntcha sustança e vivê mais uma carrada de tempo pra mode George Bucho nenhum butá defeito, visse? "El Comandante" já mandou desenterrá inté "Camilo Cem Fuegos" e seus malungos qui sustentaro fogo com a macacada de Fulgêncio Baptista lá em Sierra Madre...
Inté o Ché Dieguito Maradona já tá de sobreaviso em "Boi nos Ares" pra mode subí os Andes e defendê o bugre cocaleiro no causo do camarada vira-casaca brasileiro arresorvê tomá os conselhos da negona Condoliza e mandá os milicos tupiniquins tirá õinda fuleira lá em riba dos Andes bolivianos.
O mió mermo era qui Lulinha "Peace and Love" matasse de réiva e de uma só tacada, tanto o pinta-braba boliviano, acuma o bode véio de Havana e o coroné metido a arrochado e a cavalo-do-cão, o tá do Champolim lá de Caracas na venta!
Era só radicalizá às avessas, qui nem fez "Collor Culhão Roxo" e o tucano Efiagacê... bastava trazê de vorta a "Light", a "Great Western", a "São Paulo Railway", a "Western Telegraph Company" e todo o resto do truste ingrêis e americano de cabo a rabo e priu! Queria vê só os três patetas arrumá jeito pra dá!!!
Ou será qui Inaço vai ficá escuitano o chará e conterrâno Lua Gonzaga cantá e puxá o fole:
- "Eu nesse coco num vadeio mais, apagaro o candeeiro e derramaro o gás".
Rocas Quintas
http://www.sanatoriodaimprensa.com.br/colunista.asp?idu=6&ida=2200

“Parreira armou um escrete podre. Ronaldão, balofo e desinteressado, tem mais barriga do que perna; o trintão Emerson já não esconde o cansaço; os laterais Roberto Carlos e Cafu ficam largados no meio de campo acompanhando a corrida tonta de Ronaldinho, Kaká e Adriano.”
Miranda Sá, O Jornal de Hoje
"No meio da multidão do Beco da Lama, o cidadão comum esbarrava nos músicos, tropeçava nos poetas e caía no colo da cultura. Do ator ao artista plástico, do cineasta ao dançarino. E tudo isso sem falar no compositor, acostumado a ver o intérprete montar na fama que passa feito cavalo selado em disparada. Independente de cara feia, todos ali eram populares."
Rafael Duarte, Tribuna do Norte
Alexandro Gurgel

Produtor Dorian Lima agradece presença do público no I MPBeco
Antoniel Campos realiza sarau poético
A livraria Siciliano do Midway Mall convida para o sarau poético "De Cada Poro um Conto", com Antoniel Campos. Compareça!
Data/Hora do evento: 31/5/2006 - 19h
Local: Livraria Siciliano - Shopping Midway Mall
TCHIM-TCHIM
Aos beijos não dados
Aos braços não entrelaçados
Aos corpos afastados
Aos corações safenados
Eu brindo!
Ao rumo tomado
Ao que tinha que ser
Ao fazer o quê?
Ao não arrepender
Eu brindo!
Ao tratado de paz
Ao direito de mais
Ao chamado jamais
Ao bem que me faz
Eu brindo!
Deborah Milgram
Viva a música autoral
Tribuna do Norte, 30/05/06
Rafael Duarte - Repórter
A resistência do Centro Histórico de Natal empunhou a bandeira da cultura popular no fim de semana e expôs as feridas de uma cidade iluminada que vive às turras com o brilho de seus artistas.
A final do primeiro festival de Música Popular do Beco da Lama (I MPBeco), realizado sábado passado para um público superior a duas mil pessoas, quebrou tabus, mostrou falhas na estrutura do evento e não fugiu à polêmica das disputas de antigamente.
No fim das contas, mesmo debaixo de vaias e gritos de “marmelada”, a decisão do júri que premiou “Volta”, de Simona Talma e Khrystal, como a melhor canção do festival, acabou funcionando como tema da trilha sonora dos eventos ao ar livre que costumavam reunir grandes públicos no passado. Simona ainda levou para casa o prêmio de melhor intérprete. Já as composições de Tertuliano Aires lhe valeram o segundo lugar (“Tarde”, em parceria com Nagério) e terceiro (“Jesuíno”, com Zé Fontes) lugares.
Ao todo, 168 canções inscritas disputaram os R$ 6 mil distribuídos pela produção do I MPBeco, que contou com patrocínio da Prefeitura do Natal, lei Djalma Maranhão, Destaque Promoções, Cardiocentro, Offset Gráfica, além do apoio das empresas Interjato, Aeromídia, Continental e a Vtacompugraphdesign. “Fizemos o projeto através da lei Djalma Maranhão, com renúncia fiscal e conseguimos os parceiros. Para o patrocinador também foi muito positivo. Tivemos uma média de duas mil pessoas em cada um dos três dias de evento, contando as eliminatórias. Abrimos novas portas. Vamos fazer de tudo para realizar a segunda edição porque na nossa visão foi realmente um evento positivo para a cultura do nosso Estado”, disse o idealizador do I MPBeco, Dorian Lima.
Em contrapartida, apesar da declarada valorização da produção autoral do Estado, o encerramento da noite sob a batuta da banda de covers “gringos” Boca de Sino deixou meio mundo de gente sem entender. Foi o ponto negativo do festival. “A gente ficou com receio de chamar uma banda para fechar o evento que tivesse inscrito música no festival. E optamos pela certeza de não passar por isso”, explicou Lima.
Para o próximo ano, a organização também poderia repensar a questão do conforto do público. A interdição da rua por trás do palco, espaço marcado pela descontração da galera que fugia do calor e da multidão que assistia aos shows, é fundamental. Principalmente pelas crianças acompanhadas dos pais que deram um clima familiar ao evento. Com a pista liberada, o risco de atropelamentos era iminente.
Antes do “pega-pra-capar”, uma justa homenagem ao forrozeiro Elino Julião, que morreu dia 20 de maio por conta de um aneurisma cerebral. O músico Galvão Filho, acompanhado de um autêntico trio pé-de-serra, lavou a alma com os principais sucessos do mestre, para delírio do povo.
Emocionado, o produtor musical José Dias fez uma revelação durante a apresentação. “Cresci ouvindo Elino Julião na rádio Cabugi, mas o primeiro show que vi dele foi no réveillon do ano passado, aqui no Beco da Lama. Estou muito emocionado de estar aqui, e com inveja do São João que vai ter no céu, com Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Jacinto Silva e Elino Julião”, disse.
Veteranos e jovens letristas dividem o gosto da platéia
No meio da multidão do Beco da Lama, o cidadão comum esbarrava nos músicos, tropeçava nos poetas e caía no colo da cultura. Do ator ao artista plástico, do cineasta ao dançarino. E tudo isso sem falar no compositor, acostumado a ver o intérprete montar na fama que passa feito cavalo selado em disparada. Independente de cara feia, todos ali eram populares, sem aquela coisa entalada do mainstream.
O público, que não arredou pé, aplaudiu. Das canções defendidas com unhas e dentes no palco, destaques populares para o “Exterminador de Sentidos”, parceria de Romildo Soares e Lupe Albano, interpretada pelo performático Rodolfo Amaral, que só não fez chover no Beco, porque agradou até São Pedro.
A música tem uma letra forte como nos versos “Você! Tem que aprender a sangrar todo mês / Tem que saber se portar entre gays / Sem tentar embaçar meus canais / Com lições teatrais de pavor” e uma melodia que coloca num mesmo campo a MPB e o tango. Se a decoração de palco já havia deixado Rodolfo no céu, a empolgação da galera fortaleceu a mágica parceria. “Foi o destino. Veio o cupido e flechou. Me sinto orgulhoso de cantar Romildo”, disse olhos nos olhos do compositor, que brincou com a própria sorte quando soube do resultado. “Festival tem dessas coisas. Se não tiver uma injustiça, não é um festival”, ironizou.
Também orgulhoso, mas um pouco mais frustrado pela pane no som quando defendeu a música “Cultura”, o cantor, rapper, compositor e percussionista Neguedmundo disse a todo mundo que a “música de preto” é tão popular quanto o samba e a bossa nova brasileira. Depois de tentar arrancar em vão um minuto de silêncio da galera em homenagem a Elino Julião, Neguedmundo foi o único a sair do palco com os gritos de “já ganhou!”. “Tirando a sabotagem do som, só de ter mostrado a bandeira do meu Estado e o vinil de Elino Julião, me sinto um vencedor”, disparou.
Alheia às vaias do público, a grande vencedora do I MPBeco, Simona Talma, caiu no choro quando soube do resultado. Ela dedicou o prêmio à amiga Khrystal com quem dividiu a parceria de “Volta”, melhor canção. “Somos compositoras muito jovens. Khrystal é maravilhosa. Não estou acreditando que ganhei. A gente só queria participar. Tem muita gente no festival que tem muita experiência e muita coisa boa. Não vi a reação do público, mas estou muito feliz. Apostava em Khrystal como intérprete”, afirmou.
João Maria Alves/TN

A luta coletiva de defesa do Centro Histórico me premiou
Depois da surpresa de ganhar o reconhecimento de um prêmio como o do Diário de Natal de produtor cultural do ano, vem a indagação das razões que levaram a conquista do tão almejado troféu O Poti.
Ainda em meio à forte emoção do primeiro momento, as primeiras palavras foram de agradecimento aos que estiveram conosco nos primeiros momentos de atividade artística. Vieram as lembranças dos finais de semana na Praia dos Artistas, quando no final dos anos '70 fazíamos a Galeria do Povo.
A Galeria do Povo era um movimento artístico a céu aberto, quando realizávamos exposições espontâneas de poesias, crônicas, artigos, recortes de jornais e revistas, artes visuais, esculturas e faixas de manifestações políticas.
Foi da Galeria do Povo que vieram os Festivais de Artes do Natal, no Forte dos Reis Magos, e as comemorações ao Dia da Poesia, realizadas, a princípio, romanticamente, e que se tornou data que se sedimentou no calendário de eventos da cidade.
Foram anos de muito romantismo na arte potiguar e que possibilitaram um ajuntamento de artistas das mais variadas manifestações e matizes, sem nenhuma preocupação de escolas ou tendências.
Dos tempos românticos aos dias de hoje, muitas promoções realizamos. Algumas vitoriosas, outras fracassadas. E muitos sonhos ficaram pelo caminho. Lembro 'O Dia da Criação', quando estivemos à frente da Associação dos Artistas Plásticos do RN, que, como tese, era algo a se esperar muito e que dele praticamente nada ficou. As limitações financeiras sempre foram vetores de alguns desses fracassos. Outras vezes, nem essas limitações impediram o sucesso de promoções sonhadas e realizadas.
Lembro a criação da Casa do Produtor Cultural pela FJA, da qual fui o primeiro administrador por pouco mais de três meses, e da tristeza de vê-la se acabar, poucos anos depois, à falta de quem zelasse pela idéia.
Claro que o passado de quem labuta nas artes da cidade há quase 30 anos, deve ter pesado na escolha de quem trouxe a mim essa homenagem.
Mas, creio, o trabalho recente deve ter pesado mais nessa escolha.
Com certeza, o trabalho à frente da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências foi de fundamental importância para esse reconhecimento.
Foi através da SAMBA que pudemos desenvolver um trabalho quase que cotidiano em defesa do nosso centro histórico. Já até se perdem na nossa memória o tanto de eventos realizados, todos tendo como preocupação primeira chamar a atenção de autoridades e da própria população para a importância de se preservar o local que foi berço da cidade.
Para tanto, foi preciso novo ajuntamento de pessoas interessadas para o trabalho coletivo. E quantos não foram os que já estavam nesse ajuntamento nesses 30 anos de dedicação?
Mas muitos outros vieram nessa soma necessária. Trouxeram idéias e delas se fizeram atitudes que procuraram dar força ao movimento cultural que emergia do centro da nossa Natal antiga e tão contemporânea, com seus novos poetas, músicos, atores, bailarinos, artistas plásticos, jornalistas, enfim, toda uma gama de pessoas que nem só queriam fazer crescer o movimento cultural que vivemos, como despertar cada vez mais o amor pela nossa cidade e sua cultura.
O ajuntamento cresceu e os eventos vieram, culminando com os ousados II Festival Gastronômico do Beco da Lama em três etapas consecutivas, o I Réveillon do Centro Histórico e o I Carnaval do Centro Histórico.
O Festival Gastronômico do Beco da Lama, o PratodoMundo, tendo, embutida em si, a pretensão de tentar transformar o nosso centro em Praça de Alimentação também para quem nos vista. Lutar pela preservação patrimonial, com olhos para o turismo, é buscar a nossa história ali viva e cheia de atrativos, desafiando escritores e alimentando sonhos e devaneios de novas gerações.
O Réveillon do Centro Histórico tentando e conseguindo preparar o Carnaval que há anos sonhávamos e que morto estava há pelo menos três décadas no nosso centro.
Esses foram os últimos eventos de nossa gestão. A eles, creditamos, talvez, a lembrança da premiação.
Mantivemos com estes três eventos uma relação de paixão. De gana em realizá-los. Mesmo diante de incompreensões e da muita dificuldade que foi fazê-los.
Hoje, não estou mais à frente da bem-amada Samba. Mas a entidade de defesa do nosso centro está consolidada e é uma referência da cidade. Uma referência forte, porque de bem-querer e porque de identidade, de pertencimento.
Aos que hoje a administram, ficou a responsabilidade de tocar o trabalho deixado. Inclusive a busca de compromissos firmados para melhorias físicas do espaço urbano, buscados junto a vereadores e firmados pelo prefeito da cidade.
As parcerias culturais para a realização de eventos estão consolidadas. Fundação José Augusto, Capitania das Artes e Agência Cultural Sebrae foram e são fundamentais para o sucesso do trabalho feito e a realizar.
Parto, individualmente, para novas iniciativas. Algumas, de caráter particular. Mas não poderei esquecer, jamais, a força que sempre os trabalhos coletivos tiveram em minha vida neste difícil, mas prazeroso, campo das artes.
Aos que estiveram conosco neste trajeto, deixo sinceros agradecimentos, ao tempo que, com todos, partilho a glória deste troféu Poti.
A todos, muito abrigado, na certeza de que ainda estaremos juntos em muitos outros projetos.
Eduardo Alexandre
Tributo a um ídolo, amigo e parceiro
Cantinho do Zé Povo – O Jornal de Hoje
Elino Julião da Silva é o nome do meu saudoso ídolo, amigo e parceiro. Nos conhecemos nos idos de 1968, numa fria noite de um sábado do mês de junho, no auditório da Rádio Borborema de Campina Grande-PB, durante o Programa Forró de Zé Lagoa. O saudoso Rosil Cavalcante era o apresentador e a cidade de Campina Grande, ainda não tinha “o maior São João do Mundo”.
A coisa era mais simples, mais poesia, mais amor, mais sertão... Um sertão onde a droga não passava nem perto (pra se falar em maconha, era por debaixo de “sete capas”...); não tinha discoteca e os forrós eram puxados a fole de oito baixos (Pé de Bode); não existia zabumba, era o melê (uma espécie de tambor feito com uma ancoreta sem tampa e o local onde o melezêro batia, não era de couro, era de borracha de câmara de ar); e complementado com o triângulo e o pandeiro, que só faltava falar na mão de um bom pandeirista. E, ali, no Forró de Zé Lagoa, tinha todos esses apetrechos.
Foi nesse ambiente que conheci meu saudoso e querido amigo Elino. Nos sábados à noite, quando eu estava por lá, pela fazenda Pocinhos ou Malhada de Roça, meu pai mandava Rivaldo Motorista na velha e saudosa veraneio, que vinha cheia para o Forró de Zé Lagoa. Lá, conheci Elino, Marinês, Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda em início de carreira e muitos outros ícones da música popular nordestina.
Depois do forró do auditório, ia-se para o forró propriamente dito, nas Buninas, Quartel do Quarenta, Bodocongó, Santo Antonio, Zé Pinheiro, e principalmente no Canarinho, o famoso primeiro andar da Rua Quebra Quilos, esquina com o Mercado Central. E, sempre nesses lugares, além dos freqüentadores e freqüentadoras costumeiras, “abrejava” de cantores da época. Minha convivência com Elino foi muito curta, mas intensamente vivida.
Nossos laços de amizade estreitaram-se, quando o encontrei por acaso na casa de Nascimento, seu cunhado, casado com sua irmã Mariquinha, lá na Cidade da Esperança. Aí, a gente passou a se ver mais vezes, sempre que tinha um “pé de cachaça” no quintal da casa de Nascimento, lá estávamos, e Elino, quando estava em Natal, dificilmente faltava a esses encontros... Chico Brasileirinho ao violão e Zezinho do Cavaquinho ao dito cujo, acompanhavam tudo que se propunha a cantar nesses agradabilíssimos encontros.
Em 2000, compartilhamos o palco pela primeira vez, na esquina da Miguel Castro com Jaguarari, no Tributo a Luiz Gonzaga, organizado pelos nossos queridos amigos Mano Targino, do então Bar e Restaurante O Beradeiro, e pelo Marcos Lopes, hoje com o Forró da Lua. Depois, participamos juntos de vários eventos, onde estava havendo qualquer coisa sobre cultura popular, lá estávamos, às vezes sem termos nem combinado, mas estávamos juntos, nessa parceria informal e voluntária, em defesa das nossas raízes culturais.
A última vez que estivemos juntos, foi na entrega do Título de Cidadão Natalense a Dominguinhos. Na semana passada, pouco antes de “sua passagem”, nos falamos por telefone, combinando sua participação no meu segundo CD; entraríamos em estúdio dentro de uns vinte dias. Ele iria participar cantando uma marcha de minha autoria, intitulada Entre a Praia e o Cariri, onde falo de todos esses lugares que palmilhamos juntos. Mas não deu tempo. Faz mal não, querido Elino; fica para a próxima encarnação! Deus te tenha!
Bob Motta
A sombra do juazeiro murchou com saudade de Elino Julião
A sombra do juazeiro potiguar está solitária com a partida do saudoso cantador do sertão, Elino Julião. Sua copa, que outrora nos deu sombra através da criação artística musical, numa espécie de conforto espiritual, perdeu as folhas, e o tronco ficou envergado, com os galhos em forma de braços, numa súplica cristã, dando um adeus ao poeta musical que cantou o sertão potiguar com a mesma naturalidade que tem os pequenos córregos que deslizam no coração da mata.
Elino que rima com menino, era a pureza humana de um coração infantil no corpo de um adulto. O riso estampado entre as curvas enrugadas do seu rosto, expressava uma felicidade tão eterna, como os eternos beijos das ondas na beira do mar. Acredito que a tristeza e o pranto, que tanto assola os seres humanos, não encontraram moradia na alma do cantador potiguar. Como o próprio juazeiro que oferece sua copa frondosa pra o sertanejo se abrigar, fugindo do sol escaldante do meio dia, Elino oferecia constantemente a sua imensa copa de afetos para quem se aproximava dele.
O seu espírito bondoso se projetava através da criação artística, fazendo com que a sua música expressasse sempre o lado bom da vida. Elino não foi o poeta/cantador da negatividade, da falta de esperança e do descontentamento. Tudo pra ele era feito de alegria e felicidade. Mesmo com a idade avançada, onde o crepúsculo da velhice cria sombras pra existência humana, Elino em cima do palco ou fora dele era uma aurora de vigor, de vitalidade e de desempenho. Quem teve a oportunidade de assistir o cantor do sertão, viu que ele não parava um instante sequer.
O grande legado do poeta/cantador, foi o compromisso de cantar a sua terra. Através da simplicidade poética musical, Elino exaltou o sertão potiguar com a mesma verdade que Elomar usa ao cantar as barrancas do rio do gavião. Acredito que o rio seridó deve está vertendo prantos com saudade do seu filho ilustre. Elino abraçou a sua terra com os olhos da observação contemplativa, e fez do seu lugar um mundo encantado de esperança, fé e fraternidade.
Na sua música encontra-se a fé cristã do homem sertanejo; nos seu canto, a paisagem da caatinga é expressa com imagens poéticas líricas da relação homem natureza; dentro do seu canto, o romantismo sertanejo é exaltado com pureza e autenticidade; a poesia da saudade da terra é constante pra quem como ele viveu distante do seu lugar, percorrendo os palcos de várias cidades do Brasil; o sentimento ecológico é a grande marca da sua preocupação com os animais do sertão, principalmente o jumento, um dos grandes símbolos da identidade sertaneja.
Elino, foi durante o século passado, um dos pioneiros e desbravadores que levou o estandarte cultural da arte nordestina para o Brasil, junto com Luiz Gonzaga, Zé Marcolino, Zé Dantas, Humberto Teixeira, Jackson do pandeiro, Antônio Barros, Rosil Cavalcante, João do Vale e outros compositores menos conhecidos O cantador de Timbaúba foi percussionista durante alguns anos do ritmista Jackson do pandeiro, e teve várias músicas gravadas na voz de Luiz Gonzaga.
Na história da musica produzida no nordeste, Elino tem a mesma importância que têm todos os compositores acima citados. Ele não fez só discos (mais de 40); ele usou a música pra mostrar pro Brasil a sua terra, e fez da vida e da arte musical o compromisso de ser porta voz de um povo simples, que habita uma região repleta de manifestações humanas, complexa e cheia de adversidades.
Por isso Elino foi e é imprescindível como forma de patrimônio cultural. O cantador resistiu as banalidades que o forró e outros estilos passam hoje em dia com a deturpação das chamadas bandas de forró. O poeta de Timbaúba universalizou a sua terra com simplicidade, capacidade e responsabilidade. Por isso é autentico e imortal.
Acredito que nesse instante o sertão chora sua partida. Na prosopopéia da imaginação literária, os galhos do velho juazeiro estão suplicando pra que Deus envie de volta quem o cantou tão bem; as folhas da árvore que sempre estão verdes, murcharam de tristeza por não puder mais oferecer a sua sombra ao vate do Seridó; o jumento baixou a cabeça e não relincha mais ao meio dia, e o seu rabo estar assustado com medo de outros “Nascimentos”, que paradoxalmente ameaçam a vida do animal símbolo do sertão.
Todas as coisas humanas ou não, que foram cantadas por Elino, choram de saudade, sabendo que o cantador menino viajou pra região celestial, e só voltará em forma de música e poesia, se seu trabalho musical continuar tocando em rádios, televisões e demais espaços destinados à cultura nordestina.
Mas nesse momento, acredito que existe um lugar transbordando de alegria com relação a Elino Julião. Esse lugar é o paraíso celestial da música. Pode ter certeza que debaixo dum Juazeiro, lá no céu, Elino está nesse momento cantando sua musica bela pra Zé Marcolino, Zé Dantas, Luiz Gonzaga, Rosil Cavalcante, João do Vale, Humberto Teixeira, Antonio Barros e outros, numa confraternização universal, oferecida com simplicidade e amor através das coisas belas que alimentam o espírito humano.
Gilmar Leite

Resultado do I MPBeco - Festival de Música do Beco da Lama
Vencedores:
Melhor Música: Volta (Krhystal/Simona Talma) Simona Talma
2º Lugar: Tarde (Tertuliano Aires/Nagério) Carlos Bem
3º Lugar: Jesuíno (Zé Fontes/Tertuliano Aires) Zé Fontes
Melhor Intérprete: Simona Talma
Melhor Arranjo: Jesuíno (Zé Fontes/Tertuliano Aires) Zé Fontes
MPBeco: letra da música ganhadora
Volta
(Simona Talma/Khrystal) - Simona Talma
Esqueci teu sorriso, volta
Volta que eu gosto de me olhar
Por que te vejo em meus olhos
Volta que sinto a falta do meu, por favor!
Que
Eu tinha pressa o tempo todo
Agora eu durmo
Vem que só vejo resquícios
E eu quero tudo inteiro
Volta que eu não fotografei teus sentimentos
Que eu nunca tive esse letreiro
Anunciando o que é o amor.
Júlio César Pimenta

Simona Talma foi a grande vencedora do I MPBeco
MINIMALISTAS
Possessivos
Meros pronomes…
Indiscutivelmente
Inexistentes
Nós carregamos
A real, evidente prova
Desse saboroso vácuo.
Deborah Milgram
EMBARGOS DE TERCEIRO
"Quem, não sendo parte no processo, sofrer turbação (...)
na posse de seus bens (...), poderá requerer lhe sejam (...)
restituídos por meio de embargos (CPC, Art. 1046)"
Acosta-se, embora intempestivo,
pedido de sustar-se esse processo
em que deliberei-me réu confesso
no Campo absoluto e relativo.
É pedra cada instante que atravesso,
e inútil perquirir por qual motivo
quis pedra fosse o instante onde me vivo
e por que não me paro e recomeço.
Mercê da própria vaga em que derivo,
um quê me diz de pleito impeditivo
e raras as nuances de sucesso...
Mas sendo o que me resta e ora peço,
o embargo dessa lide faço expresso:
acosta-se, embora intempestivo.
Antoniel Campos
A mais bela e quase ignota música do mestre Elino Julião
Como se fosse um poema da lavra mista de um Garcia Lorca com Patativa do Assaré, o mestre Elino Julião, juntamente com Dilson Dória ( parceiros em "Xodó de Motorista" e "Vamos Chamegar" ), compuseram uma das mais singulares músicas, dotada de um lirismo enigmático e arrebatador. Apenas Xangai e Renato Teixeira, até então, haviam contemplado tal pérola no CD "Aguaraterra", de 1995.
Trata-se da composição "Tirana do Vaqueiro Antenoro", onde a deliberada sintaxe matuta dos versos traduz a gesta de amor, tragédia e perdição dos vaqueiros nordestinos, permeada de aguda e sapiente observação dos que compartilham os segredos da natureza.
Certamente traspassado pelo impacto da perda desse "antepenúltimo moicano", representante do autêntico forrobodó nordestino (posto que também reconheço a importância de Genival Lacerda e Luiz Vieira neste contexto), ouso afirmar que pouco se tem registro de tão extraordinária criação poética e melódica em toda a obra de Elino Julião e até nas demais composições de autores da mesma cepa do mestre de Timbaúba dos Batistas.
A "Tirana do Vaqueiro Antenoro" contém os mesmos elementos emocionais e temáticos da toada e do blues, cuja linha matricial remonta aos tempos dos "cantos do trabalho":
"Oi tirana, tiraninha
trata de mim que sô tcheu
Si tu num tratá de mim
quem vai imbora sô ieu...
Eu vô morá em terra longe
Ausente do que é meu.
Retaiai os meus peitcho
cuma faca fina
E aparai o meu sãingo
cum tchas mão, minina.
Sangrai os meus peitcho
cuma faca fina
E aparai o meu sãingo
cum tchas mão minina.
Os rio preto quando enche
Nas curva faz um remanso
Dos pásso de pena que avoa
o mais bonito que eu conheço é o ganso
Apois quem tem sarna nas pôpa
As unha não tem descanso".
Foi justamente neste universo de trabalho criativo e sensível que Elino recebeu da revista Brouhaha (segunda edição), o epíteto de "Operário do Forró", denominação merecida para quem deixou uma vasta discografia em meio século de militância no mundo musical, como se percebe no título do seu derradeiro trabalho - "Por Dentro do Movimento" - a ser lançado postumamente e que pontifica a irrequieta e constante busca deste grande artista que seguiu as mesmas pisadas de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.
Portanto, resta aos potiguares (e principalmente estes) o zelo reivindicado na estrofe inicial da sentida "Tirana do Vaqueiro Antenoro": "Oi tirana, tiraninha / trata de mim que sô tcheu / Si tu num tratá de mim / quem vai imbora sô ieu... / Eu vô morá em terra longe / Ausente do que é meu".
Graco Medeiros
VOA, MEU SABIÁ
A cultura popular e o talento estão de luto. Todos estamos. Às nove e meia da noite do sábado, vinte de maio último, depois de pulsar por sessenta e nove anos, seis meses e sete dias, o coração generoso de Elino Julião parou de bater.
Perde o Rio Grande do Norte, perde o Nordeste, perde o Brasil. Maior forrozeiro de todos os tempos, compôs mais de setecentas músicas, das quais mais de quatrocentas foram gravadas. Ouvido em países como Portugal, Espanha, Bélgica, Itália e Japão, nosso Elino é um cidadão universal. Universalizou o forró e orgulhou esse valoroso Nordeste pelo mundo afora.
De Timbaúba dos Batistas, no querido Seridó, passa por Caicó e vem para Natal de carona, “pegando morcego” num caminhão. Em pouco tempo nossa capital fica pequena para ele. Com seu extraordinário talento, vai bater no Rio de Janeiro e de lá ganha o mundo.
Por ironia do destino, parte nesse período tão mágico, deixando com “água na boca” Santo Antônio, São João e São Pedro. Conosco, uma enorme saudade.
Ô, Elino, você não poderia nos deixar logo agora! Como é que vai ficar o forró? É certo que você voou para outro universo. Para a imortalidade, conquistada somente por aqueles que a semearam com o exemplo de vida.
Eu sei que Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Abdias estavam com muita saudade do companheiro. Mas para nós foi precoce. Tão precoce como a sua produção artística. Afinal ninguém consegue unir, a um só tempo, tanta simplicidade e tanto talento. Só você. É por isso que Patativa do Assaré lhe espera com um sorriso.
Você, nosso sabiá potiguar, voou alto. Encheu de orgulho o nosso peito de povo sofrido e injustiçado. É difícil explicar a relação mágica entre a alegria do canto do sabiá e o sofrimento de um povo excluído. Pela seca e pela cerca.
Cantar a realidade de seu povo é talvez o seu maior legado. Muitos conheceram o sertão através de seus versos e de sua música. No sertão, só a melodia do canto do sabiá para espantar a tristeza que a desigualdade provoca.
Em Natal, quando vereador pelo Partido Comunista do Brasil, foi um privilégio reconhecê-lo como Cidadão Natalense. A Câmara Municipal nunca viu tão bela festa como naquele vinte e oito de maio de 2004, na entrega da justa homenagem.
Uma coisa é certa: No período junino do ano da graça de dois mil e seis, com certeza o céu está muito mais animado com a presença alegre de Elino Julião. Nessa viagem, nosso sabiá certamente vai cantarolando: “... avisa ao pessoal de casa que eu vou mandar brasa em noite de São João”.
George Câmara
Armando, riso e siso
Tribuna do Norte
Na calçada do bar da meladinha, Território Livre do Beco da Lama, as mesas estavam ocupadas. A conversa girava em torno das glosas de Laélio Ferreira e da próxima candidatura de Alex Gurgel à presidência da Samba. De vez em quando, vinham de dentro do bar gritos, urros, palavrões - e nenhum bequiano se incomodava mais com aquilo. Todos já estavam acostumados com o bom humor, a educação, a delicadeza das mulheres que tomam conta do bar. Um retardatário chegou, bicou a meladinha de alguém e jogou com espalhafato um livro em cima da mesa. "Esse Armando Negreiros é o cão chupando manga!" - gritou. Um discípulo do boêmio Castilho completou: "O cão com febre e a manga quente!" Estava inaugurada uma longa sessão sobre A Folga da Dobra, o mais recente livro de Armando Negreiros.
Volonté, o poeta peripatético, disse que o livro estava em sua cabeceira, na fila para ser lido. E louvou o seu lançamento na AS Livros, numa festa onde havia "scotch" para afogar um batalhão de escoceses e comida para abastecer todo o programa Fome Zero. Volonté já está de malas prontas para comparecer à noite de autógrafos de Armando em Mossoró, nem que tenha que viajar a pé.
Outro bequiano, voltado para as artes plásticas, elogiou a capa do livro, principalmente a foto belíssima de Giovanni Sérgio. No Potengi incendiado pelo pôr-do-sol, o autor do livro observa ioles e remos que arrepiam o rio, sentado numa mesa onde seu copo de cerveja também se incendeia. "Giovanni é um dos maiores fotógrafos do país! É o nosso Sebastião Salgado em cores!", exclamou alguém. Houve aplausos.
Em seguida, o único intelectual que havia lido o livro começou a discorrer (intelectual não fala, discorre) sobre A Folga da Dobra. E todos, até o vendedor de umbu, ficaram sabendo que Armando Negreiros é um médico que escreve muito bem, tem um humor rico e maravilhoso, que ele externa num estilo preciso, irreverente, bem superior a muitos jornalistas de carteirinha. Domina temas como medicina, a língua portuguesa, leitura, literatura e até direito. E o que prevalece nele é sempre o humor, nunca o pedantismo. Demonstra ser um leitor compulsivo, com o privilégio de uma memória que fotografa e guarda tudo que lê.
"Parece o pai dele, Rafael Negreiros, que sabia de tudo e mais alguma coisa. E ainda era brabo que só a gota, macho dos seiscentos diabos", disse em voz alta um mossoroense bairrista (redundância?). O intelectual aproveitou o aparte para tomar uma meladinha, fumar um cigarro, depois continuou sua incursão pelo mundo de Armando Negreiros. Disse que os perfis elaborados pelo autor beiram a perfeição. E dá o exemplo de Negócio Neto, um talento extraordinário, que trocou figurinhas com Millôr Fernandes, que fez a versão para o latim do inglês traduzido literalmente por Millôr no seu "The cow went to the swamp" (A vaca foi pro brejo). A galeria de mortos e a legião de amigos de Armando desfilam pelas páginas do livro, com elegância e desenvoltura, e fazem a festa do leitor.
O intelectual bequiano, depois de uma breve pausa, remata (intelectual não conclui, remata): "Há um velho ditado que diz: 'Muito riso, pouco siso'. Armando Negreiros derruba essa aparente verdade proverbial."
Nei Leandro de Castro
Alex Gurgel

Margot, bela presença ontem no I MPBeco

"Como sou um partidário da defesa da liberdade de expressão, cada um utiliza esses termos como melhor lhe convém."
Lula, ao Le Monde
Elino Julião, o artista do ano:
veja no http://www.eduardoalexandre.blogspot.com/
ou no linque aqui à direita, nos Contatos Imediatos: O Bobo da Corte.
Raquel Souza

Dunga recebe o Troféu Poti, de Produtor Cultural.

Beco com saída
Tribuna do Norte – 27/05/2006
Rafael Duarte - Repórter
A música do beco é potiguar. Depois de transformar o sábado no dia municipal da cultura regional durante as duas últimas semanas, os companheiros de copo do Beco da Lama recebem o público, hoje, para a grande final do primeiro festival de Música Popular do Beco (I MPBeco). O encerramento fica por conta da banda Boca de Sino.
A festa começa a partir das 16h com uma homenagem póstuma ao forrozeiro pé-de-serra Elino Julião, que faleceu há uma semana. Os discípulos Isaque Galvão e Galvão Filho, devidamente acompanhados de uma zabumba, uma sanfona e um triângulo, puxam o fogo do repertório de Julião antes do “pega-pra-capar” das dez canções que disputam os R$ 6 mil em prêmios do festival.
Entre os compositores que concorrem à parada, muita gente boa como Simona Talma, Khrystal, Tertuliano Aires, Nagério, Neguedmundo e Romildo Soares.
A batata quente de escolher os melhores está nas mãos do maestro Neemias Lopes, o professor João Batista de Morais Neto e os músicos Carlos Zens, Camilo Lemos e Geraldo Carvalho.
A expectativa da organização é de espaço lotado, como ocorreu durante as eliminatórias. “Recebemos duas mil pessoas em cada final de semana da seleção. Ficamos até surpresos com tanta gente. Para as próximas edições temos que pensar em dar um conforto maior ao público. Tenho certeza que amanhã vai ter muita gente de novo. A homenagem a Elino Julião não estava prevista, mas a gente tinha que fazer. O último show dele em Natal foi no Beco, no reveillon”, previu o idealizador do MPBeco, Dorian Lima.
Sábado passado, o natalense só arredou pé do beco quando Os Grogs tocou a saideira no encerramento da noite num clima meio samba, bossa nova e rock in roll.
Lima faz um balanço positivo do evento, que teve o patrocínio da prefeitura do Natal, lei Djalma Maranhão, Destaque Promoções, Cadiocentro, OffSet Gráfica e apoio da Interjato, Aeromídia, Continental Cervejaria & Sanduicheria e Vitacompugraphdesign. “Saiu tudo dentro do que planejávamos. A qualidade das músicas, dos intérpretes... tivemos alguns problemas normais, como reclamação de regulamento, mas no fim saiu tudo muito bom”, analisou.
RELAÇÃO DAS MÚSICAS, POR ORDEM DE APRESENTAÇÃO
01 - Anglicana (Yrahn Barreto/Clésio Torres) - Lene Macedo
02 - Tarde (Tertuliano Aires/Nagério) - Carlos Bem
03 - O Exterminador de Sentidos (Romildo Soares/Lupe Albano) - Rodolfo Amaral
04 - A Filha da Lua (Yrahn Barreto) - Yrahn Barreto
05 - Santa TPM (Franklin Novaes) - Franklin Novaes
06 - Volta (Simona Talma/Khrystal) - Simona Talma
07 - Ninguém Merece (Marcondes Brasil) - Michelle Lima
08 - Natália (Tertuliano Aires/Nagério) - Khrystal
09 - Cultura (Neguêdmundo) - Neguêdmundo
10 - Jesuíno (Zé Fontes/Tertuliano Aires) - Zé Fontes
Veja abaixo as letras das canções classificadas para a Final do I MPBeco
Festival de Música do Beco da Lama
(Por ordem Alfabética)
A filha da Lua
(Yrhan Barreto) - Sueldo Soares
A lua no espaço
Distante daqui
Se ouve que o fim
Tá na rua
E nua aparece pra ti
A deusa da lua
Que impera e voa dali
Mensageira da alma que vai se partir
Anunciando que o fim dessa terra virá
Implorar não faz parte do plano
Nós herdamos o filho que a lua dará
Mensageira da deusa que impera
E se faz voltar
Na rua um rastro de raio nuclear
A lua num instante se parte num claro
De fato que a linda mulher tava nua
E na sua direita, um cavalo branco
E montado o guerreiro Jorge, de punho armado
O guerreiro ogum Jorge montado a cavalo.
É aí que a lua explode no ar
Sem juntar os pedaços, faz logo cair
Bem longe daqui pra podermos amar
A tal filha da lua que eu tento encontrar
A filha da lua virá
E solitário espero
Pois é tudo que eu espero
Esse amor vingará.
Anglicana
(Clésio Torres/Yrahn Barret) - Lene Macedo
Do igarapé Mucuripe
De lá não vejo o sertão
Eu vejo o verde bonito
Que move o meu coração.
Alçando vôo eu vejo
Encanto e muito esplendor
No verde nasce, nasceu
Uma história de amor.
Desbravando a cana brava
Emma Anglicana e o senhor
Do verde nasce, restou
Uma lembrança de dor.
Alçando vôo eu vejo
Encanto e muito esplendor
Do teu olhar sagaz
Eu vejo um certo pudor.
Do igarapé Mucuripe
De lá não vejo o sertão
Eu vejo o verde bonito
Que move o seu coração.
Cultura
(Neguêdmundo) - Neguêdmundo
Eu vou cantar aqui agora
A Cultura Potiguar
Que veio de uma mistura
Vem do rio e vem do mar
Vem correndo pelas veias
E saindo do pensar
É rock end Roll, forró e samba
Embolada e baião
O coco de Chico Antônio
A rebeca de Fabião
O folclore do nordeste
Aqui na palma da mão
(Eu vou cantar, eu vou cantar)
(Viva a Cultura Potiguar)
Na Ribeira do Potengi
Todo mundo vem notar
Vem gente de todo lado
Veio nego até da lua
Todo mundo quer saber
De onde vem essa cultura
É hip hop, soul e zambê
Hard core, reggae e blue
Embolada e baião, o xaxado do sertão
O folclore do universo
Aqui na palma da mão
Eu vou cantar, eu vou cantar)
(Viva a Cultura Potiguar)
Inácio da catingueira
Criado de João Luiz
É doutor preto formado
E vigário da matriz
Tanto fala como “abóia”
Como sustenta o que diz
Por isso é “cabra” de fama
Por isso sabe cantar
É, por isso que eu digo
Só lá sabe “aboiar”
(Eu vou cantar, eu vou cantar)
(Viva a Cultura Potiguar)
Jesuíno
(Zé Fontes/Tertuliano AIres) - Zé Fontes
Riograndino comedor de camarão
Minha nação é a tribo potiguar
Maçaranduba, quixaba
Manipoeira, estrada
Lamparina, “chucai véi”
Lazarina, caçuá
Do folclore vim do livro de Cascudo
Meu violão não é mudo
Canto madrigal
Deus do mar
Abraça meu torrão natal
Tonheca sopra no vento a canção
Djalma estrela nova a guiar
Sou pirilampo, passista, araruna
Mestre Lucarino e seu cantar
Assis Marinho uma ceia noutro plano
Zila Mamede nos braços do oceano
Sou João Gualberto
Sou potiguarino
Sou quem mata a fome
Eu sou Jesuíno
Eu não tenho nada
Só sei cantar
Na canção da estrada desanuviar
Natália
(Tertuliano AIres/Nagério)
Meu canto corta a ribeira
Cidade nova de amor
Grito pelos igapós
Um desafio em flor
Tempero a minha alma
Com um ramo de alecrim
O meu coração de rocas
Picado de maruim
E a esperança que descansa
Numa redinha pequena
Capim macio do pátio
Mãe Luiza flor morena
Dix sete botões rosados
Lagoa nova secou
O grande ponto dos sonhos
Candelária, virgem amor
O forte da negra ponta
Cantinho de Mirassol
Brasília teimosa, reis
Barreira d’água, Tirol
O morro branco que guarda
A areia preta do mar
Cidade alta de mágoas
Bom pastor a vaquejar
E a esperança que...
Ninguém Merece
( Marcondes Brasil) - Michelle Lima
Quem disser que está tudo bem
É porque já não tem coração
Basta olhar em cada esquina
Homens, mulheres meninas
Todos espalhados pelo chão
São pessoas inocentes
Dispersas do contingente
Por excesso de discriminação
Cada rosto uma história
Cada ruga um pesadelo
Desamparo, desespero distorção
Ninguém merece, ninguém merece não
Ninguém merece, ninguém merece não
São guerreiros desarmados
Que lutam desesperados
Pra sobreviverem mais um dia
à espera de um milagre
Que os libertem pra sempre
Dessa total, dessa total desvalia
Ninguém merece, ninguém merece não
Ninguém merece, ninguém merece não
Vivem como condenados
De um crime inexistente
Passam dia meses anos
Esquecidos impotentes
Tão dizendo que é normal
Isso muito me aborrece
É desumano, é imoral
É indecente ninguém merece
Ninguém merece, ninguém merece não
Ninguém merece, ninguém merece não
O Exterminador de Sentidos
(Romildo Soares/LupeAlbano) - Rodolfo Amaral
Você! Tem me levado em banho-Maria
Drogado nessa vidinha vadia
Relegado à taquicardia
Toda alegria do meu coração
Você! Na eternidade do meu dia à dia
Tem feito sopa da filosofia
Jogado muita água fora da bacia
Pra quem só queria teorizar o tesão
Refrão
Eu não! Eu quero o ouro do teu supra-sumo
Só quero o resumo da ópera
Eu quero fugir pra Europa
Eu vou inventar outro céu
Você! Tem que aprender a sangrar todo mês
Tem que saber se portar entre gays
Sem tentar embaçar meus canais
Com lições teatrais de pavor
No mais,
Em nome do exterminador de sentidos
Falseia dores, sufoca gemidos
Pelo prazer estreitamente vigiado do lado doído
De toda espécie de amor!
E a dor é só um conceito da nossa psique
É só pra quem ama e tem pique
Quiser ser feliz que se arrisque
Pra lá muito além do beleléu...
Refrão
Eu não! Eu quero o ouro do teu supra-sumo
Só quero o resumo da ópera
Eu quero sumir pra Europa
Eu vou inventar outro Céu
Santa TPM
(Franklin Novaes) - Franklin Novaes
Ela me disse que ia embora
Que não ficava mais aqui
Não era Amélia e nem Aurora
Que escala de mi tem la e si
Fala franco, sei não... Minha nossa!
E eu cá pensando, me perguntando
Se todo mês vai ser assim
E se tivesse um só kilinho de paciência para mim...
Eu fumava!
E ficava bem paciente a dizer: - Meu amor, fique...
Enrolava e fumava o kilo de paciência:
Um e mais dois fazem três e mais sete, dez
Quero onze, doze, treze, quatorze
Nunca mais, hoje, TPM.
Ah! Se um dia a TPM brigasse com o doutor “Piti”
E seu chilique fosse só truque
Perfeito pra me seduzir
É sim, é não... Quem me dera!
E se um kilo de paciência já não bastasse para mim
E eu me enervasse com a TPM,
Com a Santa e com o doutor “Piti”
Fala franco, sei não, me lascava!
Depois saía a buscar a paciência pra dois
Encontra e fumar outro kilo de paci...
Um, passe dois, passe três, três e mais sete, dez
Quero onze, doze, treze e quatorze
Nunca mais, hoje, TPM
... Meu coração não sei porque...
Quer onze, doze, treze, quatorze
Nunca mais, hoje, TPM
Tarde
(Nagério/ Tertuliano AIres) Carlos Bem
É tarde e eu não conheço a vida
Meu peito é uma ferida
E nunca mais vai sarar
Eu ouço seus passos
A tarde destino vem me buscar
Não tenho o que levar
Só um acalanto na fala
E o sonho na mala
A vida é um gole de cachaça
Sorte falta em meu caminho
E nunca que me guiou
A um ventre quente de amor
A dor faz parte da minha alma
E eu não tenho mais calma
De soletrar sofrimento
A margem da estrada
Viver nessa agonia constante
Destino de retirante
Acorde de uma viola
Que o vento devora
A tarde, a vida, a dor...
Volta
(Simona Talma/Khrystal) - Simona Talma
Esqueci teu sorriso, volta
Volta que eu gosto de me olhar
Por que te vejo em meus olhos
Volta que sinto a falta do meu, por favor!
Que
Eu tinha pressa o tempo todo
Agora eu durmo
Vem que só vejo resquícios
E eu quero tudo inteiro
Volta que eu não fotografei teus sentimentos
Que eu nunca tive esse letreiro
Anunciando o que é o amor.

"Ouvi [do senador Renan Calheiros] que seria muito difícil ter candidato por conta da verticalização. Saio magoado porque achei que podíamos sentar para conversar. Ele está inflexível."
Senador Pedro Simon, tentando construir sua candidatura à presidência pelo PMDB
Alex Gurgel

Fábio de Ojuara, depois do Salão da Capitania,
criou o movimento “Toda Merda Agora é Arte”
VIA DOLOROSA
Há dias
Que a inércia
Vence,
Me leva, me traz
Me abandona, me convence
Há dias
Que a iniciativa
Chama
Me assedia, me acorda
Me sacode, me reclama
Há dias
Que a realidade
Machuca
Me afronta, me encanta
Me saboreia, me espanta
Há dias
Que a hostilidade
Inspira
Me satura, me instiga
Me fatiga, me atormenta
Há dias
Que a inocência
Aparece
Me surpreende, me entende
Me alerta, me compreende
Há dias
Que o silêncio
Provoca
Me engole, me domina
Me vicia, me ilumina
Deborah Milgram
Caro Eduardo,
Vejo que o forró Eliniano está sempre pegando fogo. Que Bom!
Estou aqui na Itália, gravando mais um CD. Se chama “Mar”. Estamos em curso: violinos, violas, cello, baixo, percussão, coro, eu e o violão.
Canções minhas adormentadas nos cadernos que vou enchendo diariamente com notas e letras. Adotei a regra de pescar tudo. Às vezes, até cai peixe bom. O pessoal gosta e me anima a sair da minha rede em Cidade Verde, pra tocar aqui nos teatros de Trento, Roma, Nápoles, Riva del Garda e, logo em seguida, Nova Iorque, aonde me espera um lançamento de outro CD, que quase ficou na sucata das torres. Aquela estória: lagartixa adora escombros.
Reapareceu com direito a lançamento no Joe's Pub, em NY, e tour em agosto, em alguns estados dos Estados Unidos. Vamos lá: rede é bom, mas tem que trabalhar também, um pouquinho, noutros balanços ritmados pelo business, o qual, cada dia, me independentizo mais para poder voar e cantar realmente feito passarinho. Vou porque, afinal, os produtores rendem contas com as Cias. distribuidoras. Contudo, agora tô comendo macarrão do bom e vinho do bótimo aqui em Roma, que também é minha casa.
Este e-mail tá ficando ridiculamente grande e babado de babados chovinistas. Abraço procê. Obrigado pela new do beco.
Tico da Costa
CAR(NA)TÉIS
Alguns amigos, transeuntes
(e até personas de relação intermediada pelas parassimpáticas)
têm me perguntado por que não apresentei o MPBeco.
Declinei respondendo que nem sequer pude
comparecer a primeira classificatória
ou mesmo a posse dos confrades.
O fígado acusa esbórnias, boemias e farras homéricas (e precoces).
Assolado por cruel ressaca e delirium tremens
amarrei o bode e a dor-de-cotovelo da ausência.
Em verdade, não fui convidado pelo dileto amigo Dorilima
e acho que o brother Abadon
dá plena e performaticamente a conta do recado
ele, discípulo do poeta da praça (do poeta) Antônio Short
e cúmplice de histórias mis na Natalvesmaia.
Se convidado, também não sei se toparia.
Como ágora, desejo o Beco sem responsabilidades
ou preocupações organizacionais
out side levitante na lama.
Soteropolitanamente, seu Silvasaura Jabaquara Ululante matou a charada,
o apresentador foi imposição da Destaque
única exigência dos meninos do staff da governança
era essencial haver no palco a presença
de no mínimo um baiano.
Plínio Sanderson
O ROCK DOS GROGS, A BABA DO BÊBO E O MPBECO
Sábado, 19 de maio. Boquinha da noite. 2ª eliminatória do primeiro festival de Música Popular do Beco, o MPBeco. Pelo palco, estrelas regionais distribuíram brilhos e acordes. Sou suspeita para falar. Claro que os do peito ganhariam ovações. Mas, como não pude prestigiar as apresentações, não posso falar de preferências ou deferências. Apenas de encerramento.
E ele foi em alto estilo. O bom e velho rock and roll e seu antecedente e ainda vizinho blues agitaram a multidão que fez as estreitas adjacências do Beco ficarem mais estreitas ainda. Num cálculo aproximado, 2 mil pessoas compareceram e deram vida às velhas ruas do centro da cidade, causando um movimento completamente atípico para o dia.
Jovens de todas as idades, crianças, adultos, idosos, todos compartilhavam de uma alegria esfuziante, anárquica até. O território era liberdade. O passaporte poderia ser escolhido ao bel prazer: cerveja pra animar, pinga pra aquecer, meladinha pra lembrar Nasi, água pra naturalista, drink para a turista, coca-cola pra meninada, guaraná pra comemorar. E fumaça, muita fumaça: dos churrasquinhos de gato, dos cachimbos da paz, do cigarro cheiroso do rapaz, do cubano e do pernambucano. Os bares mostraram sua culinária pratodomundo. Som, risos, gritos, muita alegria, quase euforia. Todos se divertiam ao som d'Os Grogs. O casal maduro rebolava indiferente ao calçamento irregular; outro, mais verdoso, beijava-se com sofreguidão. Olhares cruzavam a distância qual flecha certeira, e, mesmo no meio de tantas luzes, o brilho do olhar conseguia distinção.
O Bêbado, anestesiado e desnorteado por tantos alcalóides, babou ao ver a moça bonita. A saliva escorreu reluzente e gosmenta no exato momento em que um raio de luz denunciou sua transparência. Num lapso de lucidez, olhou para os lados, conferindo se alguém percebeu. Ninguém viu, imaginou ele. Feliz por livrar-se do flagrante, caiu no rock, para, depois, muito doidão, cair no chão.
Jimmy Hendrix, Janis Joplin, The Doors e outros contemporâneos fizeram-nos fechar os olhos e lembrar de Woodstock. Epa! É apenas o Beco da Lama em dia de festa.
E que festa!
O poeta subiu ao palco e derramou poesia. Não foi entendido. Não é fácil entender poeta. Ora, e poesia numa hora daquelas? Difícil entender tais questionamentos.
Deus é denunciado por fumar seu baseado. Alguém sabia? Alguém viu? Claro. O sol é a ponta do seu baseado. Apologia? Não! Simples liberdade de expressão que não agradou aos cristãos presentes. A mesma liberdade que se revelou através das escolhas, dos estilos, das tribos reveladas numa noite colorida e repleta de sons e cheiros delirantes.
Que venha o sábado decisivo, com sua alegria e loucura ambulante. Das janelas do infinito, Raul, Cazuza, Bob e outros queridos participantes invisíveis assistirão extasiados a festa. Ao nosso redor, seres mil de universos paralelos vibrarão ao som da música e se alimentarão da nossa energia. Que ela seja da melhor qualidade!
Ana Cristina Cavalcanti Tinôco
RELAÇÃO DAS MÚSICAS CLASSIFICADAS PARA A FINAL DO I MPBECO - FESTIVAL DE MÚSICA DO BECO DA LAMA
(POR ORDEM ALFABÉTICA)
01 - A Filha da Lua (Yrahn Barreto)- Sueldo Soares
02 - Anglicana (Clésio Torres/Yrahn Barreto) - Lene Macedo
03 - Cultura (Neguedmundo)- Neguedmundo
04 - Jesuíno (Zé Fontes/Tertuliano Aires) - Zé Fontes
05 - Natália (Tertuliano Aires/Nagério) - Khrystal
06 - Ninguém Merece (Marcondes Brasil) - Michelle Lima
07 - O Exterminador de Sentidos (Romildo Soares/Lupe Albano) - Rodolfo Amaral
08 - Santa TPM (Franklin Novaes) - Franklin Novaes
09 - Tarde (Tertuliano Aires/Nagério) - Carlos Bem
10 - Volta (Simona Talma/Khrystal) - Simona Talma
Barrados: crítica da crítica II
O Beco da Lama é realmente uma escola. Foi de lá que veio estímulo, para rabiscar estas palavras mal rabiscadas (tá parecendo carta para namorada).
Lá no Beco, a galera dá uma corda amuada. Por isso, engoli corda. Não devia. Mas, agora, prova maior de nossa independência, devo um botijão de água mineral à Pinacoteca.
Mas, falando sério, Barrados, meu jovem, é, acima de tudo, uma mágoa. Porque quando, espontaneamente, o povo protesta, é vulgar ou magoado? Pensamento elitista Hein! Companheiro? Protesto soa melhor do que mágoa. Sabemos da independência e imparcialidade das comissões julgadoras do Salão de Arte de Natal. Artistas conceituados também sabem: por isso, também não participam.
A crítica maior dos Barrados (temos que explicar tudo) é a respeito do pequeno número de Salões oficiais oferecidos pelo “Estado” na cidade do Natal (dois). Essa foi nossa motivação maior. Pode ler no impresso da apresentação, no documento (ficha de inscrição) do Salão.
Pois bem, muito bem, nunca mais vi Carlinhos Bem: polêmica que não é alimentada pela imprensa, só a do casal que engatou no parque industrial. Discussão elegante (Hein!). É bom ser elegante, mas, a deselegância da Funcart enfureceu a todos. Nos dias de hoje, um órgão de cultura vergonhosamente empreendeu uma censura, no melhor estilo “ditadura militar”, contra um bando de pobres coitados.
O Napoleão III daqui ainda disse, na imprensa, que no seu “jornal” não saía nome da oposição. Mas, tudo isso, é pouca bobagem. Muita bobagem é comparar (pensando-se todas as circunstâncias?) Barrados com o “Salón des Refuses”.
Pra início de conversa, nos incluídos, também, Não tinha nada, nem de longe, que se comparasse a um “O Ateliê” de Gustave Courbet: dois pesos, duas medidas.
Ainda assim, nobre Vitoriano, não podemos analisar os Barrados no Salão 2006 sob pressupostos e contexto do século XIV. Aqueles dias eram dias de um mundo pré-industrial. Aqui, vivemos numa província de um mundo moderno, onde mais vale um vitoriano que um vitorioso. Brincadeirinha, não resisti ao trocadilho fulo. Refiro-me, mesmo, sobre àquela velha história do “QI” (quem indica).
Por tudo isso, valeu o Salão. Foi um pé no saco. Incomodou muita gente, que viu os proletariados excluídos, a classe poetaria, fazendo arte. No mundo de Velázquez, de Rembrandt, o vassalo também fazia arte ou não?
É isso aí: talvez no futuro, a exemplo dos excluídos de Paris, que só foram reconhecidos 200 anos depois, a gente também possa ser reconhecido como marco na História da Arte. Todavia, o futuro de nosso legado é duvidoso. A única certeza que temos é a de que os críticos do “Salón des Refuses”, esses, ninguém, nem mesmo o homem que sabe de tudo, sabe quem foram.
Além do mais, rapaz, no ano que vem, tem mais. Até lá, como tudo não é perfeito, vamos tentar corrigir os erros. Falhamos feio, pois a intenção pictórica era a de que figurasse, principalmente, “o mínimo de bom senso” e não a quantidade de artistas consagrados, que lá, na Pinacoteca, figuraram.
Franklin Serrão
CANÇÃO DO DESESPERO
Rasgaram a fantasia de menino e eu não posso mais voar com asas nos olhos. Retalharam-na sem dó nem piedade em tiras transversais no peito da esfinge. Logo essa à qual eu tanto amava e que me caía perfeitamente. Estou seminu, perambulando nas vagas da histeria, apanhando trapos entre sombras que me apontam o dedo, riem das minhas vergonhas expostas e gritam: "Idiota! Idiota! Idiota! Mil vezes idiota!".
O bodoque se quebrou, arranharam o disco de rock, Neruda sumiu na poesia do caos, sufocaram o sorriso de Eurídice nos lábios enrugados da falsidade. Tudo isso enquanto me arrancavam das entranhas da primeira e derradeira estrela - a fórceps - e o desprevenido Orfeu olhava para trás em desobediência aos deuses. Depuseram-me do trono na porrada. Perdi a coroa. Em vez dela, toneladas de silêncio no juízo.
Guardem os conselhos e as certezas num bornal de couro de lacraia prenha. Soquem-nos, se necessário, nas coxas dum buraco negro. Não me venham com ilusões vestidas de diamantes, esmeraldas, rubis ou luas cretinamente cheias que nascem nos braços da serpente, pois tudo é mentira. Enjoei, não cabem mais pedras na boca do meu estômago. Preciso de paz e tempo para digeri-las nos subúrbios do desespero.
Na madrugada de Pasárgada, somente putas tristes feridas na face pela gilete das horas desfilam nas ruas do Alto do Louvor reacendendo pegadas ancestrais de outras damas. Momento infértil para a traição, para a vingança. Possuir a mulher que eu quero na cama que escolherei é metáfora do desejo impossível porque o desejo tornou-se matéria morta na consciência do pobre anjo barroco que despencou do céu.
Doido ao mar! Lancem a bóia de fantasias! Desistam, talvez seja tarde para o resgate. Parece que a treva venceu a última canção na luta contra o fogo. Triste fim da alma no oceano habitado pelo mostro de olhos verdes. Apesar da alegre menina na radiola de ficha do convés, a tristeza é maior que o perdão. Se há brecha no orgulho, o amor não a encontrou e também morrerá na tempestade do velho copo d'água.
A noite embarcou nos braços do pesadelo, mas a memória das estrelas continua a correr em veias de PVC. Criaturas ainda guardam mistérios entre as pernas, a espera de alguém capaz de desvendá-los. Ainda há cadeiras nos bares, garçons amigos chorando uísque no copo nosso de cada dia e garçonetes videntes, tradutoras de corações, afirmando que "nasci para pregar o amor, não para vivê-lo cem por cento".
Cid Augusto

Franklin Serrão

"Avisa ao pessoal de casa queu fui mandar brasa com o senhor São João."
Elino Julião

Elino, sempre!
Levar Elino Julião ao Beco da Lama foi minha maior alegria enquanto diretor executivo da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências. Maior ainda por representar um desafio, aos olhos de muitos, intransponível: levar público ao centro de Natal durante uma passagem de ano.
Para mim, aquele evento seria, se alcançado sucesso, a porta aberta para a realização do I Carnaval do Centro Histórico.
Quando, durante a segunda etapa do Pratodomundo, o Festival Gastronômico do Beco da Lama, o secretário de turismo da cidade, Fernando Bezerril, trouxe-nos a notícia de que podíamos anunciar a realização do ‘Réveillon do Beco’, não tive outra reação: dessa vez trazemos o maior forrozeiro vivo do Nordeste para uma apresentação aqui.
Elino era a única garantia de sucesso, se pensássemos em atrações com artistas norte-riograndenses. Era o nosso maior nome. O que representava o que de melhor tínhamos em nossa música. Não podia ser outro.
Porque Elino era, e continua sendo em sua música, pura alegria. Um menino que trouxe no sangue o vírus da música de sua terra. Uma caixa de fósforos bastava como acompanhamento. Ou só as palmas das mãos. Bate aqui, bate ali, abria a voz e a música fluía fácil de sua alma. E vinha o puladinho que o acompanhava em todas as apresentações. Puladinho que puxava o ritmo, que trazia a coreografia que caracterizava o seu forró mais genuíno de pé-de-serra: sanfona, pandeiro, zabumba e triângulo.
Da combinação destes instrumentos com a voz de Elino, estava servida a melhor receita do som do nordeste. E como Elino contagiava! Como, além de alegre, era bem humorado em sua música! E como cantava com amor a sua terra, seja o Seridó, seja Natal ou o próprio RN, o Nordeste, o Brasil!
Sim, porque Elino representava e representa o que de melhor temos de Brasil e de música brasileira. Até na picardia. Na pulha nordestina.
Os temas de Elino podiam ser o São João ou próprio forró, como o rela-bucho de tanto sucesso interiores afora. Podia ser a cidade e seus logradouros, como no Forró da Coréia.
Quando anunciei a programação que propúnhamos para o Réveillon, chamaram-me de doido: Forró em plena passagem de ano?
Forró, sim. Forró de Elino Julião.
Tomei coragem e telefonei para ele.
Como dizem os daqui: pense numa conversa gostosa! O homem era pura simpatia. Que energia transmitia em cada palavra!
Ah, Elino! Sei ser fácil em palavras e gestos como você, não. Deixo aqui, entre os que ficaram, mais que uma palavra de saudade e homenagem. Deixo uma palavra de agradecimento por você ter-nos feito felizes em tantos momentos, e por toda essa vasta obra que continuará para sempre, com grande alegria, invadindo os sertões nordestinos e brasileiros.
Sei que você merecia muito mais do que teve em vida. Mas também sei que você partiu feliz por ter deixado tudo o que deixou. Especialmente o ritmo alegre e o jeito feliz que foi você e todas as suas composições, até nas debochadas, todas, sempre, cheirando a povo. Povo do Nordeste do Brasil.
Obrigado, esse menino de Timbaúba. Valeu!
Eduardo Alexandre
Calou-se Elino Julião!
Morreu um dos últimos grandes cantores da música nordestina. Elino Julião com seu canto sagrado já não embelezará a vida dos que se orgulham de terem nascido sob o sol causticante dos sertões. A MPB fica com menos poesia, com menos gorjeios, com menos graça. Todos nós que nos encantamos com essa estirpe nobre, computamos outra baixa, o exército dos cavaleiros inspirados por Miguel de Cervantes, chora mais uma despedida.
Elino faleceu no sábado (19) e foi sepultado anteontem, com certeza sem as honras merecidas, com um toque de quase silêncio. Certamente em uma campa sem plumas e sem paetês, mas rodeado dos anjos tortos que se negaram a ser gauche na vida. Foi juntar-se a Jackson do Pandeiro, Gordurinha, Lindú, Ary Lobo e Luiz Gonzaga. Foi ter com o Divino, oferecer-lhe seu canto de ave sagrada.
Nascido no município de Timbaúba dos Batistas, fronteiriço com o sertão do Rio Grande do Norte, nas beiradas dos rios mortos. Gravou mais de 40 discos, entre todos os formatos, sendo que um deles marcaria sua carreira: “O Canto do Seridó”, já na fase do CD, cantando em dueto com estrelas como Fagner, Lenine, Dominguinhos, Elba Ramalho, Marinês, Maciel Melo, Silvério Pessoa, Tetê Espíndola e Ná Ozzetti. Diversas gerações da Música Popular Brasileira decente e pura, saudando uma garganta bendita capaz de me embalar nos bosques férteis da minha alma cansada.
Cantor de qualidades diversas, Elino Julião era compositor não menos genial. Escreveu obras como “Amor Enchucalhado”, “Tamarineira”, “Presente de Papai Noel” e “Relampiou”. Emplacou o sucesso “Rabo do Jumento”, que embalou muitos forrobodós nos chãos de latada desta nação nordestina. Herói. Sim, herói Julião. Se não das ligas camponesas, das ligas quixotescas musicais. Herói entre heróis.
Recomendo a quem puder a aquisição dos CDs “O Canto do Sertão” e “O Canto do Sertão 2” tentando o endereço eletrônico: mensagens@candinhabezerra.com. Todo esforço será recompensado com uma música de fino humor e de musicalidade tão plena quanto viçosa. Lá vamos nós, chorar mais um morto. Nós que empunhamos as armas poéticas e os ritmos soberanos, na luta contra a prostituição do meio musical nordestino.
Perdemos Elino Julião. Enquanto isso, sobrevivem os canalhas que engendram bandas e mais bandas asquerosas, deturpadoras do forró. Vivemos a era dos arremedos, era da falsidade, das mentiras. E, enquanto nos enlutamos de um artista do porte de Elino, um punhado de calhordas analfabetos engordam suas contas bancárias rebolando as nádegas e vomitando a decadência cultural e moral, sim, senhor, sobre nossas cabeças.
Vai lá, Elino Julião! Canta para Deus! Ficamos aqui mais tristes e mais desamparados, mas não deixaremos esses moleques travestidos de grupos musicais nos fazerem de trouxas.
Até a vista!
Ricardo Anísio
Nota musical de falecimento
Jornal de Hoje, 22.05.06
“Eu vou ali fazer uma viagem
cadê coragem pra me despedir
não quero ir, meu Deus peço socorro
eu sei que morro de saudade do Siri.”
(Elino Julião, Siri Siridó, 1976)
Eu havia acabado de deixar a sessão de “O Código Da Vinci”, no Praia Shopping, pouco antes das 22 horas, e fui para uma resenha em Ponta Negra com Jacqueline, Ailton Medeiros, Jener Tinoco, Robinson Faria e sua mulher, Julianne. Nem tinha tomado o primeiro gole de guaraná e o telefone toca. Ouço a voz do produtor cultural Zé Dias. Pensei: lá vem sacanagem (aquele papo de uso do cachimbo faz boca torta).
Mas diferente de todas as outras milhares de vezes em que a voz de Zé vem carregada de provocações ideológicas (quando o assunto é Lula), zombarias futebolísticas (quando há derrotas - perdão da redundância - do Botafogo) e vibrações musicais (quando é o caso de sucesso de algum artista local), daquela vez o timbre era de tristeza. Falando num compasso de marcha fúnebre, ele avisou: “Elino Julião acabou de morrer”.
Minha cabeça rodou e me levou de volta à estreita travessa Mário Lira, nas Quintas, quando a partir dos anos 1960 aprendi a gostar das canções de Elino, tocadas numa constância em todas as rádios de Natal e do interior. Sempre que quero viajar àquele passado lúdico, coloco no CD do carro sua coletânea com o melhor daqueles anos: O Rabo do Jumento, de 1967, Puxando Fogo e Xodó de Motorista, de 1970, A Festa do Senhor São João, de 1973, e Na Sombra do Juazeiro, de 74.
Se a vida fosse um filme, e o gênero fosse bang-bang (quem disse que não é?), Elino seria o meu Ennio Morricone, o compositor de temas dos melhores filmes do diretor Sergio Leone. Suas canções funcionam como trilhas de bons tempos, cada uma delas rememora períodos da minha infância e adolescência. Quando tive o privilégio de gozar da sua amizade, coisa rara entre ídolos e tietes, contei-lhe sobre isso. Ele expressou um orgulho que era para ser só meu. O poeta Graco Medeiros, meu mano, ficou lhe devendo a promessa de me levar para um palmo de prosa em sua casa, como ele queria.
Elino também foi trilha sonora das emoções da Copa do Mundo de 1970, quando seus clássicos foram sucessos em todos os campos radiofônicos do Brasil. Nenhum som me lembra mais aqueles instantes do que Xodó de Motorista, um forró pisado numa seqüência rítmica que mistura lirismo e linguagem popular, numa métrica de soneto aleijado. Naquele tempo, o “quadrado mágico” era formado por ele, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Marinês.
Elino Julião está para a cultura do Rio Grande do Norte como Jackson para a da Paraíba. Sua carreira e discografia são marcas de um artista com fôlego musical e atemporal. Seu forró é original como o trio de instrumentos que agora experimenta ressurreição nos salões de dança, aquele que foi destaque até no “The New York Times”. As louras que hoje rebolam cantando letras ridículas em forrós pasteurizados não amarram a chinela da “deusa do Mercado José”.
Elino se foi como um pássaro cantante. Morreu na sua estação preferida, a estação das sanfonas, dos arrasta-pés, das fogueiras, dos balões, das canjicas. Elino não vai mais amanhecer o dia na festa do Senhor São João, em Mossoró. Mas em sua memória, vamos todos mandar brasa, pois ele gostava mesmo era de animação. Agora, cada vez que meu filho de nove anos pedir para ouvir “O Rabo do Jumento”, eu vou morrer de dor. E por favor, avisa ao pessoal de casa: quem esquecer Elino Julião é um filho de goiamum.
Alex Medeiros
Morreu cantando...
Jornal de Hoje, 22.05.06
O natalense acordou hoje com o céu nublado, com chuviscos que representavam o sentimento de perda daqueles que se despediam de um dos maiores ícones da cultura popular brasileira. O forrozeiro Elino Julião faleceu no último sábado, por volta das 21:30 horas, e desde o começo da tarde de ontem estava sendo velado no Palácio da Cultura.
Às 8 horas da manhã, fãs, familiares e amigos se aglomeravam ao redor do caixão que mostrava o semblante de Elino Julião que, assim como em vida, transmitia paz e a alegria. A missa de corpo presente foi presidida pelo padre Antônio José, que enfatizou que naquele momento estavam celebrando a vida e não a morte. O acompanhamento musical foi feito pelo grupo de forró pé-de-serra "Meirinhos do Forró" que, além das canções litúrgicas da celebração eucarística, homenagearam o cantor e compositor com as músicas "O cajueiro de Pirangi" e "O rabo do jumento", ao lado do flautista Carlos Zens.
Elino Julião faleceu aos 69 anos, em um dos melhores momentos de sua carreira e se preparando para a época do ano que mais amava, o São João. No seu velório, estiveram presentes diversos parentes de uma grande família. Elino Julião teve 14 filhos, sendo três deles com a cantora Lucimar. Ela conta que conheceu o cantor em Campina Grande, sua cidade natal, e que aos 16 anos, já como cantora, fugiu com ele para o Rio de Janeiro. "Vivemos 29 anos juntos, cantamos muito e tivemos três filhos, Elino Julião Júnior, 26, André, 25, e Priscila, 19. Soubemos que Elino tinha falecido às 4:00 horas da manhã do domingo. Tínhamos acabado de chegar de um show dos meninos que têm um grupo de forró chamado 'Os manos' e viemos direto para cá", revela.
Elino Julião Júnior também é professor de Educação Física e era o mais emocionado dos filhos. Ao chegar perto do caixão, conversou com o pai, segurando sua mão. Disse que guardava tudo o que tinha recebido dele, como uma chuteira, e, bastante trêmulo, pedia para que o pai não o deixasse. Amparado pela família, Júnior foi levado para perto dos irmãos, André e Priscila, para tomar um pouco de água e tentar se acalmar diante da perda.
Segundo André, que é jornalista e pretende estudar Direito, além de seguir a carreira do pai, a agenda de shows tanto do grupo que mantém com os irmãos, como a do pai, dificultava o contato entre eles. "A última vez que o encontrei foi no São João de 2004. A Paraíba está em luto por causa da morte do meu pai, ninguém esperava porque ele estava em um momento muito bom da carreira dele. Ele esteve em Campina Grande semana passada, mas não nos falamos", lamenta.
Lucimar explica que as divergências existentes entre ela, os filhos e a atual família de Elino Julião tornaram a convivência difícil. "Há 7 anos ele não via Júnior e Priscila. Mas tivemos muitos momentos bons e agora o que queremos é perpetuar o que ele deixou. Dos anos que vivemos juntos, além de termos em comum o amor pela música e cantar, tivemos quatro filhos, mas o mais novo, João Paulo, morreu aos 8 meses. O céu nublado de hoje foi em homenagem a Elino Julião que adorava a chuva", diz.
Maria Veneranda de Araújo, atual mulher de Elino Julião, ressalta que morte do marido aconteceu no auge de sua carreira. "Ele conseguiu assumir a paternidade das suas mais de 400 obras, inclusive muitas que as pessoas até hoje não sabem que são dele. Agora vivemos um momento de perda de um dos maiores incentivadores da cultura popular.
Nos últimos dias ele soube que seria homenageado pela Prefeitura de Natal durante o São João deste ano, e gravou um documentário pela TV Globo Nordeste (que será transmitido no dia 17 de junho) no qual reconstruiu sua trajetória e contou como era sua vida em Timbaúba dos Batistas, quando cantava e tocava batendo em lata, depois fugindo em um caminhão para Natal, a amizade com Jackson do Pandeiro e depois o seu auge tocando com Dominguinhos no Forró da Lua, no último dia 13. Ele também estava lançando o CD 'Dentro do Movimento', todo produzido cuidadosamente por ele. E ainda estava em estúdio gravando outro disco", conta Veneranda, que também é compositora e costumava fazer a divulgação de todos os trabalhos do marido. "Ele morreu nos meus braços e de Arakém, minutos depois de ter me pedido para que ficasse com a aliança dele 'pois ela estava folgada'", relembra a viúva.
O último adeus ao forrozeiro
Músicos, produtores culturais, artistas, políticos e populares. Todos juntos em torno de um mesmo nome: Elino Julião. O músico, cantor e compositor que na década de 60 conseguiu um espaço nas rádios do país graças ao poder de sua música. A última homenagem, de corpo presente, feita ao ícone do forró pé-de-serra foi durante o seu velório, realizado ao som da música que ele tanto amava.
O produtor cultural Zé Dias enfatiza que a morte de Elino Julião representa a perda do último cantor nordestino popular que fez o rádio se render ao seu talento. "Depois de ter conquistado o sucesso nos anos 60, Elino foi esquecido, caiu no ostracismo na década de 90 e no começo dos anos 2000, Dácio Galvão, Candinha Bezerra e Marcos Lopes (idealizador do Forró da Lua) se uniram para resgatá-lo, colocando-o de volta no lugar de onde ele jamais deveria ter saído, perto do povo. Elino foi do mesmo tamanho de nomes como Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, que também foram seus parceiros. A obra dele está acima da média e não há dúvida de que estamos órfãos", diz.
A cantora Khrystal esteve no velório e, bastante emocionada, lembrou o show do reveillon deste ano do Beco da Lama, no qual dividiu o palco com Elino Julião. "Ele era a tradição da música nordestina e agora a fórmula acabou. Somos os responsáveis por levar tudo isso adiante, cada um a sua maneira. Sempre fui louca por ele, vou lançar meu novo CD em julho e nele gravei uma música dele, o 'Forró da Coréia', mas como minha música é uma mistura de rock com forró, e por isso meio psicodélica, ficava me perguntando se Elino iria gostar. Infelizmente não deu tempo dele ver", lamenta.
O presidente da Fundação Capitania das Artes (Funcarte), Dácio Galvão, afirma que o Brasil acaba de perder o último representante de uma geração da elite do forró. "Ano retrasado faleceu Jacinto Silva que foi parceiro de Elino. O trabalho dele sempre teve consistência, assim como o de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, e exatamente por isso trabalhamos para traze-lo de volta ao cenário musical em um momento em que ele estava completamente excluído. A Prefeitura realizou a gravação de dois CDs dele, o 'Canto do Seridó' I e II, com a participação de nomes como Elba Ramalho, Zeca Baleiro, Lenine, Xangai, sanfoneiros como Toninho Ferragui, além do reencontro com Dominguinhos. Todos esses artistas se entregaram ao projeto pela pessoa de Elino e não pelo cachê. Esta é sem dúvida uma grande perda, tanto local como nacional", enfatiza.
A Prefeitura de Natal vai homenagear o forrozeiro no São João deste ano. De acordo com o prefeito Carlos Eduardo, durante o lançamento da festa, 20 dias atrás, Elino dançou e cantou muito ao receber a notícia. "Ele estava muito feliz com a homenagem, mas, infelizmente, agora será póstuma", observa.
Durante a missa, alguns fãs choravam bastante, como Cléofas Caldas, 45 anos. Natural de Assu, ele afirma que acompanhava o forrozeiro desde a infância. "Tenho diversos discos dele e sua morte é como se estivesse ficando órfão, culturalmente mais pobre". O mesmo sentimento carrega sua mulher, Zelda, que por influência de Cléofas passou a admirar o trabalho de Elino Julião. "Ele é um artista que merece a homenagem que está recebendo, mas infelizmente somos da terra do 'já teve' que espera as pessoas morrerem para lembrar o que elas fizeram", afirma.
Lainês Batista de Araújo, 74 anos, é de Timbaúba dos Batistas - terra natal de seu ídolo. Durante o velório permaneceu ao lado do caixão e seguiu, com o primo, José Gerson de Araújo, para o enterro realizado no Cemitério Morada da Paz, em Emaús. "Acompanhava o trabalho dele, somos conterrâneos. Fiquei bastante emocionado ao saber da morte dele e não poderia deixar de vir aqui, gosto muito dele e lembro que quando ele trabalhava no sítio do prefeito, lá do município, ele via se ia chover quanto relampejava e por isso escreveu aquela música 'Relampeou'. Uma pena não terem cantado hoje", disse enxugando as lágrimas.
Élida Mercês
Elino cala, o sertão chora
Diário de Natal, 23.05.06
Expressão maior da música norte-riograndense, Elino Julião da Silva deixa uma imensa obra musical construída em mais de 50 anos de carreira. O artista, falecido na noite do último sábado, gravou 48 Lps e nove CDs,compôs até seus ultimos dias cerca de 400 canções entre forrós, xotes, baiões, xaxados, marchas juninas, baladas e até um rock (Rock do Camelo). Gravou ainda cerca de 300 canções de outros autores. Mas foram os clássicos Rabo do Jumento, Xodó do Motorista, Na Sombra do Juazeiro, Filho de Goiamum, O Burro e Forró da Coréia e A festa do Senhor São João que o elevaram à condição de mito, tal qual o paraibano Jackson do Pandeiro de quem foi ritimista e amigo.
Nascido em Timbaúba dos Batistas, Seridó, em 13 de novembro de 1936, Elino Julião da Silva era filho de Francisca Augusta, uma lavadeira que ajudava a na criação de treze filhos. O pais, Sebastião Pequeno, era tocador de cavaquinho e concertina. Ainda criança trabalhou como carregador de água e alegrava os habitantes da fazenda onde morava cantando e batendo em latas as músicas que aprendia nas festas de Sant’Ana em Caicó.
Rádio Poti
Aos 14 anos veio para Natal de carona e foi morar com uma tia no bairro das Quintas. Logo estava participando do programa Domingo Alegre, apresentado por Genar Wanderley na Rádio Poti. Obteve reconhecimento. Na emissora, cantava Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e outros. Padre Eymard Lérecat Monteiro, amigo da família, o ajudou nos estudos à noite no Colégio Marista
Foi também na Poti, segundo relatou à revista Brouhaha em sua última entrevista, que conheceu Jackson do Pandeiro, após apresentar-se no auditório da emissora. O paraibano convidou Julião para juntar-se ao seu grupo. O ingresso definitivo só se daria no ano seguinte após Elino cumprir o serviço militar. Foi para o Rio de Janeiro onde passou oito anos na banda tocando triângulo e pandeiro e percorrendo todo o país.
Incentivado por Jackson gravou o primeiro disco em 1961, na gravadora Chanticlê, que além dele, lançou à época Noca do Acordeon, João Silva, Geraldo Nunes, Mineiro e Teixeirinha
Despertou a atenção da Phillips/Polygram e posteriormente da CBS, nesta graças ao interesse do produtor Abdias Filho, marido de Marinez e sua Gente, responsável pelo cast nordestino da gravadora Foi aí que compôs os sucessos - Relabucho (interpretado por Sebastião do Rojão), A festa do Senhor São João, Xodó do motorista (‘‘não há quem resistas/ser motorista sem ter um amor’’) e Puxando fogo, as duas últimas o promoveram bastante como intérprete com presença freqüente em emissoras de TV e Rádio.
Em meio ao sucesso saiu do Rio e foi para São Paulo trabalhar com Pedro Sertanejo (pai de Oswaldinho do Acordeon), permanecendo por seis anos. Luiz Gonzaga estreou o show Chapéu de couro na TV Cultura e o convidou para trabalhar como ritmista. Nesse período o seridoense morou com o Rei do Baião e seu irmão Zé Gonzaga.
Homenagem ao Cantor do Seridó
Uma homenagem especial a Elino Julião marca o projeto Seis e Meia desta noite. O cantor Romil Soares, atração potiguar cantarça canções do autor de Rabo do Jumento. O último show do mês de maio do projeto Seis & Meia terá a cantora mineira Maria Alcina que interpretará sucesso nas décadas de 70 e 80
O show começa às 18h30 e os ingressos estão sendo vendidos na bilheteria do Teatro Alberto Maranhão ao preço de R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (estudantes e idosos).
Completando 25 anos de Carreira, o show de Romildo terá a participação de Pedro Mendes, Geraldo Carvalho, Valéria Oliveira, Khrystal. Na banda estão os músicos Paulo Brunis e Riva (guitarra),Ranier (baixo), Juquinha (bateria) e Gabriel Souto.
Maria Alcina é mineira de Cataguases. Foi para o Rio de Janeiro em 1972 decidida a seguir carreira como cantora, fazendo sua estréia no Maracanãzinho vencendo um festival com a música “Fio Maravilha‘‘, de Jorge Benjor. Com voz grave e estilo irreverente, chegou a ser comparada a Carmen Miranda pelo guarda-roupas escandaloso. Fez sucesso em 1973 interpretando “Alô Alô‘‘, samba de André Filho consagrado por Carmen.
Alcina sempre incluiu em seu repertório músicas dos ícones do rádio, como Marlene, Emilinha Borba, Aracy de Almeida, Bando da Lua, Lana Bittencourt e Carmen Costa. Outro de seus maiores sucessos, em 1974, foi “Kid Cavaquinho‘‘, de João Bosco e Aldir Blanc.
Depois de um período longe das gravações e palcos, gravou em 1992 o disco “Bucaneira‘‘. Mais tarde, em 1995, foi ao Estados Unidos participar de uma homenagem a Carmen Miranda.
Atualmente lançou um CD ao lado do Grupo Paulista Bojo e tem se apresentado com o show ôAlmas femininas‘‘, que é um homenagem as grandes intérpretes. Este será a base do seu repertório para a apresentação do Seis & Meia desta terça-feira, além de sucessos consagrados na sua voz.
No Forró da Lua, o último show
Baiano Fotografia/Divulgação

O último registro fotográfico de uma apresentação de Elino Julião foi realizado no dia 13 de maio no Forró da Lua
A lua tomava conta do céu quando Elino Julião subiu no palco pela última vez. O calendário marcava 13 de maio. Cheio de vitalidade, ele parecia estar adivinhando que seria a sua despedida. Em um momento de grande felicidade, tanto profissional quanto pessoal, a sua música convidou casais para lotarem o salão do Relabucho, construído em sua homenagem no conhecido Forró da Lua, na Lagoa do Bonfim. Quando entrava em cena ele voltava a infância, pulava, cantava e dançava muito. A sua maior alegria era ver o salão repleto de gente dançando. Depois de sua apresentação ele cedeu o palco para o amigo Dominguinhos. "Foi um sucesso", afirmou Marcos Lopes, proprietário do local.
"Naquele dia ele estava muito feliz. Todos os músicos se cansaram e ele não. Ainda voltou para o palco para fazer uma participação no show de Dominguinhos", acrecenta o periussinista de sua banda, Michel Artur de Miranda. Marcos Lopes lembrar de uma conversa com Dominguinhos, em sua casa, ‘‘ele lembrando que tocou com Elino no início de sua carreira. Eles eram amigos e quando liguei para Dominguinhos para dar a notícia ele se emocionou’’
Lopes, que é fã e conhecedor da obra de Elino, fará uma homenagem ao forrozeiro no próximo Forró da Lua, em 10 de junho. "Vou pedir aos sanfoneiros de Natal que façam um repertório em cima das músicas de Elino. Ele era uma pessoa muito humilde, muito simples. Uma pessoa excelente. Era a maior representatividade da música de raiz do nosso estado".
Grandes gravadoras e discos independentes
Elino Julião permaneceu 23 anos na CBS e seu contrato terminou devido a uma política da gravadora que passou a previlegiar cantores estrangeiros em detrimento dos artistas regionais.
A partir dos anos 80, já definitivamente consagrado em toda a região, passou a gravar num esquema independente, priorizando apresentações em cidades do interior do Nordeste, principalmente no período junino. Apresentou-se em todos os estados brasileiros divulgando a raiz da música nordestina. Nunca parou de compor.
Em 1997 voltou a se fixar em Natal em uma casa em Cidade Satélite. ‘‘Eu enjoei do Sul e descobri que poderia morar em qualquer lugar trabalhar’’. Costumava a dizer. Gravou dois discos - O canto do Seridó e Canto de Seridó , produzidos pelo Projeto Nação Potiguar com a presença de artistas como Marinês, Fagner, Dominguinhos, Tetê Spíndolla, Ná Ozetti, Lenine, Xangai, Oswaldinho do Acordeon, entre outros. Nos últimos anos sua produção alcançara dimensão internacional chegando a países de língua portuguesa como Portugal e Angola e também à Bélgica, graças a participação de Elino no evento Brasil 500 realizado em Lisboa em 2000.
Inúmeros artistas gravaram suas canções: Luiz Gonzaga (Meu Saudoso Ceará). Jackson do Pandeiro (Na Bodega do Expedito), Anastácia, Geraldo Correia, Abdias, Genival Lacerda, Inezita Barroso, Coronel Ludogero, Zé Gonzaga, Dodô e Osmar, Jorge de Altinho,Marinês, Trio Nordestino, Sebastião do Rojo, Marinalva, Capilé, Lenine, Elba Ramalho. Zeca Baleiro, Xangai e Fagner Chico César, Silvério Pessoa.
Entre a sanfona de Gonzaga e a poesia de Jackson
Elino Julião é daqueles artistas onde o destino parece ter assentado como sina em sua vida. Não por ser nordestino. Talvez por ser natalense. O que mais os artistas populares locais reclamam, muitos donos de talento digno de reconhecimento mundial, é a falta de bairrismo dos potiguares. Pernambuco fez conhecido Luiz Gonzaga: fez conhecido o nordestino. A Paraíba distribuiu a poesia de Jackson do Pandeiro, a voz "arrochada" de Marinês. No Ceará, uma "turma" de artistas também se projetou nacionalmente.
Em Natal temos Elino Julião. E se ele debandou-se para o sul logo cedo, ainda nos anos 50, não foi por causa da seca, mas por falta de espaço nas rádios locais. O reconhecimento de seu trabalho em sua terra natal foi tardio. Não tem 15 anos. E foi pouco para a grandiosidade de sua obra. São 48 LPs e nove CDs gravados. Quase 400 composições. Um de seus clássicos foi gravado por Jackson do Pandeiro (Na bodega do Expedito). Mas muitos foram os intérpretes – aqueles cantores que sabem reconhecer uma boa música – que adotaram suas composições: Chico César, Silvério Pessoa, Marinês, Zeca Baleiro, Dominguinhos.. a se perder de conta.
Seu último CD, ainda inédito, intitulado Dentro do movimento traz alguns desses clássicos, além de quatro músicas inéditas: Meu novo caso, Embalo pé de serra, O sapo e a faixa que dá nome ao CD. Todas composições próprias. Todas ainda fiéis ao ritmo que adotou em seus mais de 50 anos de carreira. Letras simples a contar causos, costumes, cenários, alegrias e tristezas de ser sertanejo; do ser nordestino. Em Embalo pé de serra, ele diz: "Eu vou voltar pra minha terra/ Meu pé de serra/ Onde eu tenho alegria/ Eu sempre gostei dessa cidade/ Mas nunca encontrei felicidade".
É que Natal não é mesmo bairrista (será mesmo defeito valorizar o talento local?). Quando da notícia de sua morte, ouvi muitos perplexos a perguntar: "Quem é esse?". E como Elino Julião ainda temos alguns ícones, dignos de melhor reconhecimento e incentivo. No forró pé de serra ele foi o último, talvez do Nordeste; uma linhagem de bambas que se encerra aqui, em Natal.
Cultura perde Elino Julião
Carlos Santos/DN

Fãs, amigos e familiares em oração
Morreu por volta das 21h30 de sábado, aos 69 anos, o cantor e compositor Elino Julião. Ritmista de Jackson do Pandeiro e parceiro de nomes como Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Inezita Barroso, Elino Julião da Silva foi vítima de um aneurisma cerebral. A morte de um dos maiores ícones da música popular brasileira comoveu grande parte da cena cultural do Estado, que compareceu ao Palácio Potengi, durante a tarde e a noite de anteontem, onde foi realizado o velório do cantor.
Pai de 14 filhos e casado há 10 anos com Maria Veneranda de Araújo, Elino Julião teve como últimos trabalhos autorais gravados as canções Embalo pé de serra, Dentro do movimento, O sapo e Meu novo caso, que fazem parte do CD Elino Julião dentro do movimento, 49º disco do músico, que, em 53 anos de carreira, compôs mais de 400 músicas. Somadas às interpretações, esse número ultrapassa a marca dos 700 trabalhos, gravados, muitas vezes, em parceria de músicos como Joca Costa, Jubileu Filho, responsáveis pelo arranjo de obras de Elino Julião.
A última apresentação de Elino, foi no dia 13 de maio, no Forró da Lua, ao lado de Dominguinhos. Homenageado com o título de cidadão natalense, concedido pela Câmara Municipal, em novembro de 2005, Elino Julião morre em casa, quando assistia à TV. O cantor, segundo disse a viúva Veneranda de Araújo à reportagem do Diário de Natal, sentiu fortes dores de cabeça e caiu da cama, repentinamente.
"Ele teve uma reação súbita. Ele caiu da cama, aí levantou. Ele teve um dia muito alegre ontem, passou o dia todo cantando. Embalou uns 12 discos para entregar nas rádios. Em seguida, ele avisou que estava com muita dor de cabeça de ar. Fizemos massagem e respiração boca a boca. Ligamos para o 192, mas quando o Samu chegou ele já tinha morrido", contou Veneranda.
Nascido em Timbaúba dos Batistas, Elino Julião foi tema de dois cordéis: O forrozeiro do sertão, obra de Chicó Gomes; e Mil reis do forró, de autoria do poeta Bob Motta, integrante da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte e um dos primeiros a chegar ao Palácio Potengi, para dar o último adeus ao "meu parceiro véi, que vi pela última vez em novembro". O poeta classificou o episódio que marca a perda de Elino Julião como 'inavaliável'. "Não dá para imaginar alguém, mesmo com tantos outros bons artistas, que ocupe o espólio cultural desse homem", comentou Bob Motta.
Em 13 de maio foi entrevistado no programa especial de aniversário de um ano do Toque de Rádio, veiculado na Rádio Poti. Bob Motta o conheceu em Campina Grande, nos idos da década de 1970, no Forró do Zé Lagoa, no Auditório da Rádio Borborema. "Meu pai tinha propriedade por lá e eu, que vivia mais no meio do mato, gostava também de ir ao Forró do Zé Lagoa", lembrou o poeta. Além dele, outro que chegou ao Palácio Potengi muito antes das 17h44 - momento exato da chegada do corpo -, foi o cantor e compositor Chiquinho do Acordeon.
Coincidentemente, ele tocou seis músicas de Elino Julião, na noite em que o mesmo morreu, em meio à uma apresentação realizada no Circuito Estadual de Exposições Agropecuárias, em Caicó. Dentre elas, estavam obras como Na sombra do juazeiro e Rabo do jumento. Elino Julião ainda compôs sucessos presentes no imaginário popular, como é o caso de Na minha rede não, Filho de goiamum e Forró da Coréia.
Em sua agenda, estavam previstos shows em Timbaúba dos Batistas, em 15 de junho, na Casa de Cultura Elino Julião; em Mossoró, durante o Mossoró Cidade Junina, no dia seguinte e em Campina Grande, onde há mais de 20 anos ele participa do São João. Em 22 do próximo mês, ele tocaria ainda em Sítio Novo, e, dois dias depois, em Natal.
VELÓRIO
"Elino de Natal, Elino do Rio Grande do Norte, Elino de Timbaúba, Elino do Nordeste, Elino do Brasil, Elino do Rabo do Jumento, Elino do Rela Bucho, Elino da Coréia. Elino não morreu, se transformou, se encantou!". Este foi o discurso feito por Francisco de Assis Nascimento, sobrinho de Elino Julião, por volta das 18h de domingo, durante o velório. Cerca de quatro horas, por volta das 14h, uma dúzia de pessoas já esperava a chegada do corpo.
A diretora do Teatro Sandoval Vanderley, Ivonete Albano, foi uma das primeiras a chegar ao Palácio Potengi, e, abraçada ao produtor cultural José Dias, chorou a morte de Elino Julião. "É uma perda muito grande por ele ter sido um ícone da MPB. Soube da notícia através de Beethoven (músico), 15min depois de Elino morrer. Depois disso, falei com Veneranda, que me na hora disse ainda não entender o que realmente estava acontecendo. Ela pediu o apoio dos amigos", disse Ivonete Albano. A Fundação Cultural Capitania das Artes homenageará Elino Julião neste São João.
Um dos mais emocionados no velório era José Dias. "Vai ficar uma lacuna grande. Elino era do nível de Jackson do Pandeiro, de Luís Gonzaga e o São João no céu vai ser arrebatador, o São João em Natal vai ser talvez o mais triste. Ele foi um grande artista". Um ônibus vindo de Timbaúba dos Batistas trouxe amigos e familiares de Elino Julião para o velório, que terminou por volta das 22h. A edição de hoje à noite do Projeto Seis & Meia prestará homenagem póstuma ao cantor.
Forró domina velório do artista
O semblante sério que exibia e o paletó com o qual estava no caixão, nem de longe lembravam a pessoa que foi Elino Julião, sempre sorridente e com a camisas estampadas para combinar com a alegria que ele tinha de viver. No Salão Nobre do Palácio da Cultura, seu corpo foi velado pelos irmãos, filhos, amigos, artistas e admiradores. Por volta das 8h30 de ontem o padre Antônio Murilo iniciou a celebração da missa de corpo presente. Antes, o grupo Os Meirinhos do Forró, acompanhados pela flauta de Carlos Zens e de Danúbio Gomes, regente do grupo Pau e Lata, foi prestada uma homenagem a Elino através de suas músicas.
Toda a missa foi no ritmo que ele tanto ajudou a divulgar, as músicas religiosas todas foram cantadas como um forró. Ao final, Isaque Galvão cantou diversas canções do compositor para dar adeus ao representante da cultura popular. Na ocasião, diversos filhos seus prestaram a última homenagem ao pai, comparecendo em seu velório e sepultamento. Do Rio de Janeiro veio Magnólia, irmã de Simone que mora em Recife e também esteve presente.
Filhos
Vindos de Campina Grande estavam presentes Elino Julião Júnior, seus irmãos André e Priscila, acompanhados da mãe Lucimar Costa da Silva que viveu com Elino 29 anos. "A gente estava tocando no sábado quando recebeu a notícia", contou André bastante emocionado. Junto com os irmãos, ele forma o grupo de forró Os manos. Elino Júnior durante vários momentos do velório permaneceu ao lado do corpo do pai e chorava muito, "Não vá meu pai. Você sempre foi o meu orgulho", dizia enquanto chorava. "Vai ficar todo mundo, não deixe a gente", dizia André, amparado pela irmã Priscila.
Também foi ver o pai pela última vez Marco Antônio, um caminhoneiro que mora em Santa Cruz e somente este ano conheceu Elino, "só vi meu pai esse ano, tudo o que sei dele é através do que me contam. Hoje também conheci alguns irmãos meus". Outro filho presente era Arakem, o único que morava atualmente com ele, filho da união com Maria Veneranda de Araújo, sua mulher. Os irmãos de Elino também estavam muito emocionados, alguns artistas não conseguiram conter as lágrimas.

Sepultamento
Depois das 10h, o cortejo partiu em direção ao cemitério Morada da Paz. Uma longa fila de carros tomou conta da BR-101. O corpo de Elino foi recebido ao som de sua música mais famosa O rabo do jumento, tocada pelos Meirinhos do Forró. E foi ao som do forró, como Elino gostava, que ele foi enterrado. Os artistas presentes, como Galvão Filho, Dimas Carlos, Valéria Oliveira, Fernando Luiz, Khrystal, Isaque Galvão, Roberto do Acordeon, entre outros, entoaram músicas conhecidas do forrozeiro como Forró da coréia, Na sombra do juazeiro, Cajueiro de Pirangi, Cofrinho do amor, O burro, entre outras.
Centro Cultural terá nome do cantor
O cantor e compositor Elino Julião, tinha uma identidade muito forte, com o município de Timbaúba dos Batistas, onde a Casa da Cultura, que está em fase de conclusão receberá o seu nome. O prefeito Ivanildo Filho, que ontem esteve em Natal, participando dos funerais do artista, lamentou sua morte. “Sem dúvida alguma é uma perda irreparável, não só para o município, pelo qual Elino tinha um carinho profundo, não tendo esquecido nunca a sua origem. A gente tem uma profunda gratidão, por Elino Julião, por tudo que ele representou e ainda representa, porque se foi o homem, mas ficou a sua obra”.
Como reconhecimento pelo que representava Elino Julião, no meio artístico do Rio Grande do Norte, o prefeito Ivanildo Filho já tinha decidido homenageá-lo, dando seu nome, à Casa da Cultura que será inaugurada no próximo mês.
“Creio que existem ícones nas nossas vidas e na nossa cidade, que a gente precisa dar uma maior relevância, ressaltar. Timbaúba dos Batistas é conhecida pelo bordado, a gente está fazendo um Centro de Artesanato e Timbaúba também é conhecida pelos seus artistas, notadamente pela pessoa de Elino Julião e a gente pretendia fazer uma homenagem em vida a ele”, declarou.
A obra está sendo edificada numa parceria da prefeitura com o governo do estado. “Elino Julião já havia agendado para fazer no dia 15 de junho, uma apresentação em Timbaúba dos Batistas, na inauguração da Casa da Cultura. Agora infelizmente a homenagem vai ser “in memoriam”, à sua imagem, à sua história e vamos trazer para se apresentar nesta data, o grupo de forró, que é integrado pelos filhos dele”, assinalou o prefeito Ivanildo Filho.
“Eu vou te esperar na sombra do Juazeiro”
João Maria Alves

ADEUS
No sepultamento, ontem, o adeus de amigos e o carinho dos fãs
Tribuna do Norte
23/05/2006
Rafael Duarte e Tádzio França
Elino Julião, 69 anos, trouxe o sertão nordestino para ver o mar durante o tempo em que danou a bandeira do forró no pé-de-serra mais autêntico da cultura brasileira.
E foi assim, na companhia da sanfona, da zabumba, de um triângulo, um pandeiro e um cavaquinho dos “Meirinhos do Forró” que Julião deixou as boas lembranças para os fãs, amigos e a família — que mesmo dividida pela fronteira física se uniu para prestar as últimas homenagens. O sepultamento do corpo da maior referência da cultura popular no Rio Grande do Norte ocorreu às 10h30 de ontem no cemitério Morada da Paz em meio à comoção popular e muito forró pé-de-serra.
Julião foi vítima de um aneurisma cerebral. Ele estava dormindo em casa por volta das 21h30 do sábado quando caiu da cama e foi socorrido pela esposa Maria Veneranda de Araújo. “Ele ainda disse que estava bem, mas reclamava de uma forte dor de cabeça. A mão dele estava contorcida. Em seguida, apagou. Ainda fizemos respiração boca a boca, mas não adiantou. Quando o SAMU chegou ele já estava morto”, contou emocionada logo que chegou ao velório realizado domingo no Palácio da Cultura.
O que mais surpreendeu parentes e amigos que conviviam com ele, foi a forma repentina como tudo aconteceu. “Ele estava com todas as taxas em dia, o médico disse que a saúde estava muito bem. Na manhã de sábado ele acordou cedo, saiu para caminhar, depois vendeu discos, distribuiu autógrafos, recebeu amigos... foi de repente. A gente ia começar a distribuir o novo CD “Elino Julião - Dentro do Movimento” esta semana para a imprensa. Ele ia trabalhar o disco no São João”, contou.
Através das canções consagradas na voz e no coração de gente tão grande quanto a obra que começou a montar ainda no lombo do jumento (antes do faca de Nascimento), na fazenda Toco, município de Timbaúba dos Batistas, região do Seridó, Elino Julião criou uma barreira contra qualquer estágio de tristeza.
Aos poucos, as lágrimas deram lugar à alegria das letras que deixou de presente na praça. Teve o brega “Cofrinho do amor”, os sucessos “Forró da Coréia”, “Rabo do Jumento”, “Coqueiro Pirangi” e a quase profética “Vá com jeito”, todas puxadas pelo músico Isaque Galvão - o “filho de Guaiamum” do forrozeiro. “Meus primeiros discos tiveram participação de Elino. No segundo cantei o repertório dele. Lembro que quando acabamos de gravar ele me chamou e disse que eu era seu filho de Guaiamum. Respondi que ele era o pai, nós rimos e me deu um grande abraço. É isso que fica”, conta.
Julião deixa uma obra intensa com mais de 700 composições, contando ainda participações nos trabalhos dos parceiros e de outros músicos. Ainda assim, existe um acervo guardado no baú da família. “Tenho que sentar com calma e ver quantas músicas inéditas ele deixou. Não posso dizer quantas são agora, tenho que esperar um pouco para me recuperar”, disse a companheira, amor e amiga Veneranda.
Julião também estava engajado no lançamento de um DVD e da própria biografia. O amigo e jornalista Alex de Souza afirmou que possui material suficiente, mas não sabe se terá condições de encampar o trabalho após a perda do músico. A criação da Fundação Elino Julião, no bairro Cidade Satélite, também era um sonho. Agora, os amigos prometem transformar a idéia num grande Memorial.
Elino Julião foi músico, representante da cultura popular brasileira, amigo, mas antes de tudo, foi pai e marido. Atualmente, morava na casa da esposa e do filho Araken Araújo, no bairro Cidade Satélite. Veneranda sempre foi tida por quem conhecia o casal como a fortaleza de Elino. Sempre presente, deixava tudo pronto. O filho mencionou a ausência paterna, mas definiu o momento com orgulho quando indagado sobre a importância do pai num dos depoimentos mais emocionados. “Como pai ele era um artista. Mas o importante é que ele sabia que eu o amava e eu sabia que ele me amava”, desabafou.
Elino se perpetua em sua obra
Tribuna do Norte
23.05.06
A primeira oportunidade da carreira de Elino Julião foi dada no início da década de 50 pelo radialista Genar Wanderley, que comandava o programa de auditório Domingo Alegre na rádio Poti. Na época, morava no bairro das Quintas com a família, onde ficou por 18 anos. Após o alistamento militar, voltou à rádio e conheceu o futuro parceiro Jackson do Pandeiro, que o convidou para integrar a banda dele no Rio de Janeiro. Mas acabou conhecendo o Brasil inteiro.
Desse tempo, dizia que cantava mais que Vicente Celestino, apesar da dificuldade em gravar. O trabalho autoral de Elino começou em 1961, na casa de Jackson, quando gravou o primeiro disco pela Chanticlê.
As decepções vieram quando Teixeirinha, que lançara o trabalho ao mesmo tempo que ele, fez sucesso primeiro. Mas Jackson o demoveu da idéia de abandonar a carreira. A mudança de gravadora surtiu efeito. Pela Philips/Poligran gravou os primeiros sucessos, como Puxa-fogo e Xodó do Motorista, que logo viraram hits. Em seguida, foi para a CBS, hoje Sony Music, onde ficou 23 anos.
Ainda no Rio, foi contratado da extinta Rádio Tupi e da Rádio Nacional. São Paulo virou casa por seis anos , quando conheceu Oswaldinho do Acordeon, Luiz Gonzaga e o irmão dele, Zé Gonzaga. O fim do casamento com a CBS, que chegou a promover uma caravana com os músicos pelo Brasil, acabou em 1986, para dar lugar a Michael Jackson e Júlio Iglesias..
Mesmo assim, à essa altura do campeonato, onde se acende uma fogueira Julião tem que estar presente. Do sertão ou nas vilas suburbanas existe um pedaço de Elino. A irreverência e o humor das letras, espécie de crônicas sociais, chegaram a lhe render a alcunha de machista, como quando gravou, já em Natal, o CD “A mulher é quem manda”. Numa das letras, Julião retratava a realidade das mulheres que gostam de apanhar dos maridos. Sobre os anos de carreira, desconversava, como lembra a viúva Veneranda. “Ele só dizia que tinha 50 anos de Rio de Janeiro”, contou.
Um fervoroso torcedor do América
Elino Julião colecionou paixões arrebatadoras na carreira. “Caba invocado” quando o assunto era o coração das donzelas que passaram feito cavalo celado em sua frente, o peito do forrozeiro também ardia por um outro encantamento.
De acordo com o sobrinho Francisco Nascimento, Julião balançava pelo América. O que pouca gente sabe é que dentro daquela máquina de produzir sucessos populares havia um torcedor vibrante daqueles que se descabelam quando o time vai mal e enchem o peito para contar vantagem com o maior rival. “Ele torcia mesmo. Quando ele estava em Natal a gente ia muito para o Machadão ver os jogos do América. Meu tio torcia muito, adorava futebol”, conta.
Francisco lembra de uma história passada em 1997, quando o Mecão figurava entre os principais clubes do país, na série A do campeonato brasileiro. “Não lembro agora qual foi o jogo, mas cheguei na casa dele e foi logo dizendo: `Meu sobrinho, vamos ao estádio? ´ Sim senhor, respondi. Lembro que ainda falei que a vitória daquele dia seria dedicada a ele, que riu antes da gente ir. Foi bom porque conseguimos ganhar o jogo. Ele teve até um desentendimento com um pessoal na emoção da vitória, mas conseguimos contornar a situação. Elino era assim, quando o América entrava em campo era daquele tipo de torcedor que vibrava muito”, disse.
Durante o sepultamento, o sobrinho sentiu a falta da bandeira do clube do coração no caixão. “Acho que ele deve estar reclamando em algum lugar do céu”, afirmou.

“Itamar e Garotinho abririam mão para Simon.”
Paulo Peixoto, da Agência Folha
Orf

Plínio Sanderson
Romildo na Rota de Amsterdam
O cantor e compositor Romildo Soares apresenta amanhã, às 18:30h, no Teatro Alberto Maranhão, o show “Na Rota de Amsterdam”.
Convidados: Pedro Mendes, Geraldo Carvalho, Khrystal, Valéria Oliveira, Simona Talma, Gabriel Souto e Orquestra Boca Seca.
A Banda:
Paulo Brunis (guitarra)
Riva Andrade ( guitarra)
Juquinha (bateria)
Ranier (baixo)
O show nacional será com a performática Maria Alcina
Desespero de um Poeta
Estraçalho os papéis a minha frente!
Faço calos nos dedos, sinto dor;
Deixo louco meu pobre computador
Na procura dum verso mais decente.
Com angústia, esfrego minha mente,
Pra arrancar algum verso com furor,
Mas encontro um vazio no interior
Onde a idéia se esconde no latente.
Olho ao lado, e só vejo os mil papéis,
E devido aos meus erros tão cruéis,
Trava o micro com um verso mal feito.
Enlouqueço, me levanto, fico andando,
Olho pra mim, e termino perguntando,
Onde está o poeta do meu peito?
Gilmar Leite
freudiet
o
poeta superou a fase anal
na ágora, num repente oral
vomita poesia
para o público boquiaberto.
Plínio Sanderson
Barrados
Veja até domingo, no Palácio da Cultura, “Barrados no Salão – Primeira Exposição dos Excluídos”. Esta exposição, organizada em função das comemorações do dia do artista plástico, ensejou uma ligeira polêmica, como sempre ocorre por aqui, molemente alimentada pela imprensa. A polêmica é sempre salutar quando elegantemente levada à frente. Neste caso, pelo que li e ouvi, senti falta de uma reflexão histórica ou alguma referência direta sobre o “Salón des Refusés”, realizada em Paris, em 1863. Para alguns historiadores, aquele foi um marco na História da Arte, ponto de início da pintura modernista.
Como o Salão histórico, “Barrados...” também se compõe (em parte) de obras não selecionadas em um concurso oficial, patrocinado por uma instituição estatal. Mas há alguma diferença. Por exemplo: o “Salón...” ocorreu por imposição do Imperador Napoleão III e contra a vontade dos recusados, que com razão temiam uma reação negativa do público, que de fato houve. Já “Barrados...” é uma iniciativa surgida entre os artistas e que teve democrático apoio estatal e talvez não plena, mas clara aceitação do público. Outra diferença é que, não obstante a presença de obras de Assis Marinho, Pedro Pereira, Diniz Grilo, Eduardo Alexandre, entre outros, a exposição “Barrados...” não tem nada que se compare (pesando-se todas as circunstâncias) a um “Almoço sobre a relva”, de Manet, exposta no “Salón...” de 1863. O que se espera é que esta iniciativa não venha, como o “Salón...”, ter influência sobre um possível desgaste dos Salões promovidos pela Prefeitura do Natal, que têm constituído grande significação para as artes visuais de todo o estado.
Afinal de contas, a mágoa dos recusados sempre tem um alvo preciso: as comissões julgadoras; é apenas “por tabela” que a instituição promotora recebe os resmungos. O nível de conhecimento sobre as artes, práticas artísticas pessoais e até mesmo o (mau ou bom) gosto dos membros destas comissões têm elevado poder de influir sobre as seleções e elas, as comissões, em geral trabalham com absoluta independência, como eu posso atestar. Isto significa que, para um mesmo grupo de inscritos, diferentes comissões fariam diferentes seleções. O fato é que, independentemente destes fatores, um mínimo de bom senso de qualquer comissão teria rejeitado muito do que se vê em “Barrados...”.
Vicente Vitoriano
Crítica da Crítica
Em “barrados”, matéria publicada na recente coluna de Vicente Vitoriano
sem almoço na relva ou na selva das veleidades
o professor tece considerações palpáveis
outras, sem conhecimento dos fatos e deveras equivocadas.
Durante os preâmbulos sempre foi ressaltado o caráter histórico
do evento “barrados”
foi citado o (napoleônico) “Salão dos recusados” de 1863;
revelado o paralelo com a expô Impressionista
na casa do fotógrafo Nadar,
rua dos capuchinhos, 35, Paris, em plena belle époque;
ventilado o movimento dos excluídos da Bienal de 76/77 de São Paulo
(que o colunista não citou)
e ainda, um evento que ocorria concomitante em Sampa
(inconsciente coletivo ou coletivo conseqüente?).
Portanto, realizamos um salão se não sui-generis
(por ser paramentado dialeticamente nas reminiscências plásticas)
mas, que cumpriu os objetivos vislumbrados
glauberiana arte, “dimensão onírica da matéria”
escancarar o espaço da Pinacoteca
(lugar público, único apoio oficial) indiscriminadamente
para artistas com ou sem talento, “sem obras-primas absolutas”
inclusive aos estorvos administrativos do capitão das artes.
Vicente concluiu afirmando que
“as comissões, em geral trabalham com absoluta independência”
e ainda, “um mínimo de bom senso de qualquer comissão
teria rejeitado muito do que se vê em "Barrados...".
Esqueceu de citar que entre as obras premiadas
do último salão da FUNCART
Estava a irmã do chefe.
Obra (não prima, mas obra-irmã) que com certeza por qualquer curadoria
(vixe, vá de retro...)
estaria bem posta na primeira parede da exposição “barrados”.
Bom senso e independência, sic!
Caetano Velasques já vaticinou
“a crítica que não toque na poesia”
porém, Caetanético, discordo da frase seguinte na canção
Nunca basta de filosofia!
Plínio Sanderson
P.S: o caro Vicente não deve ter lido o manifesto escrito para o evento
infelizmente, não pude enviá-lo ao mesmo
como fiz para toda a imprensa
(a do expediente da bruaca e também aos afins)
pois, apesar de assinar uma coluna, não há o e-mail de contato.
Na comunicação acadêmica (ou não) um ato falho,
erro-dito ou erudito inaudito?
“Quem não se comunica se trombica”.
P.S 2: Vitoriano também não deve ter assistido matéria realizada e exibida pela TV da instituição que o professor trabalha
onde relacionei todos os imbricamentos históricos supracitados.
P.S 3: Liguei pessoalmente para o dileto amigo
convidando-o para participar do Barrados.
Precisa-se de Música
O projeto Seis e Meia agoniza
A missiva eletrônica, sobre a qual seus olhos passeiam agora, é, na verdade, um clamor; para os mais versados em assuntos eclesiásticos, é uma ladainha em prol de um evento sério e tradicional chamado “Projeto Seis e Meia”, que acontece, há onze anos, todas as terças-feiras, no nosso resistente Teatro Alberto Maranhão.
Desde o primeiro projeto, com Nico Rezende, venho acompanhando as sagas de Zé Dias e de William Collier. Nunca perdi um show. Nenhum. Tenho assistido, ano a ano, mês a mês, semana a semana, as dificuldades crescentes para a sua continuidade. Ao que parece, a maioria de nossos empresários não sabem das dificuldades do projeto, ou melhor, sequer da existência do mesmo. Cultura nesta província de Câmara Cascudo vale menos que eleitor, após eleição.
Defendi, defendo e defenderei o projeto. É simples minha bandeira: não sou empresário de nenhum artista local; tampouco, nacional. Jamais, tirei vantagem financeira de nenhuma das mais de 540 apresentações que desfilaram nos palcos do TAM, algumas memoráveis. Fui, e digo isto com o orgulho dos privilegiados, testemunha de grandes momentos. Vi a beleza e a leveza da música, através do Delicatto e nem bem este começa sua carreira não recebe a autenticação de alguns tabeliões da cultura desse cartório de beira de Potengi poluído.
Fui testemunha emocionada do vigor nordestino nas cantigas de Galvão Filho. Sua música é Açude de Luz e tem a Energia dos Cristais, como ele próprio afirma. Encantei-me e, comigo, toda platéia do teatro, com a suavidade da mulher cangaceira na visão e interpretação de Babal, outro filho de seu Severino Galvão. Descobri Khristal, sua força e empolgação, se fazendo voz de Manoel Marinheiro, cantando coco, como se o ritmo estivesse sendo criado naquele momento no coração dela, e encantando em algum canto do céu Jackson do Pandeiro.
Testemunhei a qualidade vocal de Wigder Vale; afinado e sóbrio nas suas interpretações, a ousadia e o resgate de nossas raízes com um grupo como o Pedu Breu ou então a magia de um Cleudo, o talento do Café do Vento. A qualidade que habita as esquinas desta terra de Dozinho, Tonheca Dantas e Othoniel Meneses, desfila no palco da nossa principal casa de espetáculo. Foi neste projeto que tive o prazer de atestar o talento de músicos como Diogo Guanabara, hoje no Rio de Janeiro tocando com Oswaldo Montenegro, Antônio de Pádua, Di Stefano, Jorge Moura, Júnior Primata, Serginho Grover, Jubileu, Eduardo Tauffic, Gilberto Cabral, Carlinhos Zens, Fernando Botelho e tantos outros.
Pelo exposto, o projeto já se justifica e não deve mais pedir permissão de continuidade a ninguém. É patrimônio cultural da cidade e do Estado. É referência nacional, segundo os próprios cantores e compositores de renomes nacionais que são convidados como atrações principais. E sobre eles, os nomes nacionais, reservar-me-ei ao direito de apenas citar alguns: Fagner, Chico César, Zeca Baleiro, Lenine, Rita Ribeiro, Francis Hime, Leila Pinheiro, Selma Reis, MPB-4, Alceu Valença, Belchior, Tunai, Oswaldo Montenegro, Paulinho Moska, Sivuca e Glorinha Gadelha, Dominguinhos, Xangai, Luiz Melodia e tantos outros. Cito-os apenas, pois meu objetivo é justificar a manutenção de tal relevante projeto musical, pela óptica do talento local.
Portanto, caros leitores, senhores empresários, políticos e estudantes, amantes da boa música, assistam, ao menos, uma vez, a uma das sessões do Projeto Seis e Meia, e lutem pela revitalização de um evento que em nome da cultura e do bom senso não pode morrer...
Que Orfeu, o Deus da música, nos guarde hoje e sempre... amém.
Adailton Figueiredo
Hugo Macedo
BRASIL PERDE ELINO JULIÃOÉ com muita dor e pesar que comunico aos amigos o falecimento do músico potiguar Elino Julião, aos 69 anos, na noite deste sábado, após passar mal a caminho de um show em Assu.
Elino Julião, seridoense de Timbaúba dos Batista, discípulo e amigo de Jackson do Pandeiro, era uma das personalidades mais importantes da história cultural do nosso Estado.
Perdemos todos com sua ida.
Alex de Souza
Marcus Ottoni

“Lula traiciono al pueblo del Brasil y traicionaria a Hugo Chávez”
Cartaz afixado em rua de Caracas, Venezuela (Blog do Noblat)

Mirabô, Léo 5.2, Mércia Freire
O Forró da Coréia
Elino Julião e Oliveira Batista
Só tem véia
Só tem véia
No Forró da Coréia
Só tem véia
Só tem véia
No Forró da Coréia
Barco perdido, bem carregado
Eu tinha chegado em Natal
Muito mal eu sabia
Onde eram as Rocas
Caí na fofoca legal
Do Arial eu fui à pista
Limpei a pista na Vedéia
Saí tomando uns capilé
Quando eu dei fé
Tava na coréia
Só tem véia
Só tem véia
No Forró da Coréia
Só tem véia
Só tem véia
No Forró da Coréia
Outra vez, quando eu for a Rio Grande
Por favor, ninguém mande eu andar só
Eu prefiro ficar no Igapó
Daquele forró, tenho receio
A Praia do Meio é bom pra mim
No Alecrim, a gente se faz
Eu fico lá trocando idéia
Mas na Coréia eu não vou mais
Na Fundação José Augusto nem tudo é “foliaduto”
Sexta feira, final de tarde, trânsito congestionado, correria, cada um busca seu refúgio, em casa ou num barzinho qualquer da cidade, porque amanhã é sábado e depois é domingo. Não sou freqüentador assíduo dos bares da cidade, mas, vez por outra, me encalho no meio do caminho na volta para casa, mesmo enfrentando os protestos de Zeneide, quando não estou com ela, claro.
Foi o que aconteceu esta semana, ao sair da Fundação José Augusto, instituição que sirvo há muitos anos com orgulho, de tradição e história, que hoje está bela, apesar de ter seu nome envolvido em um escândalo que a imprensa denominou de “foliaduto” e que em nada diminui sua trajetória cultural: mais de 40 anos de história e relevantes serviços prestados a cultura do Rio Grande do Norte e brasileira. Os funcionários, modestos e honestos servidores, doze anos sem qualquer aumento salarial, no entanto, zelosos e dedicados trabalhadores da cultura.
Pois bem, quando afirmo que nossa casa está bela é porque hoje trabalhamos num espaço que foi totalmente restaurado, instalações confortáveis e informatizada. Ao lado do seu prédio principal, onde antes era um amontoado de entulhos, habitado por ratos e baratas, foi erguido um dos mais belos espaços culturais do nordeste brasileiro, “O Teatro de Cultura Popular”, que orgulha a casa do patrono José Augusto e Aluízio Alves, seu fundador, dois ícones da cultura e da política potiguar.
Vi restaurada a velha Fortaleza dos Reis Magos, a interiorização das ações através das Casas de Cultura, quando foi tombado e restaurado mais de 15 monumentos históricos para neles fazer funcionar as ditas Casas. Uma grande idéia, saída de uma cabeça privilegiada, o grande François Sivestre. Não ficou por aí, criou a Revista Preá, elogiada pelos mais diversos segmentos culturais do Estado e do país, um informativo cultural sem preconceito, com espaço aberto para todos os artistas, poetas, historiadores, pesquisadores e homens do povo, representativos da nossa rica e dinâmica cultura popular.
Existem outras ações planejadas e executadas na sua inteligente, dinâmica e profícua administração. Logicamente, para a realização de tais feitos, contou com o apoio da Governadora Wilma de Faria. E, aos que me perguntam: você bota a mão no fogo por François? Respondo: boto sim, não só eu, mas todos os que o conhecem, e em fogo de catingueira verde, como definiu seu amigo Gutenberg Costa, aquelas que ainda são acesas nos “arraiás” do São João, nos mais longínquos recantos interioranos. Enfrentou a implacável ditadura dos generais, quando teve que viver momentos de angústias e solidão nos cárceres do “regime da força”, para silenciar e aplaudir o governo dos generalatos. Nem uma coisa nem outra! Anos depois, o reencontro com mais freqüência: continua o mesmo, irreverente, porém humano, amigo, solidário e fiel às suas convicções, sem se curvar aos poderosos.
Este é o François que conhecemos. O mais é maldade e inveja. Longe dessa “nojeira”, como ele mesmo pronunciou num dos jornais da cidade.
A estas alturas, preciso dar alguns esclarecimentos, porque o leitor poderá concluir: esse é um bajulador juramentado de François Silvestre. Nada disto. Em meu dicionário não existe esta palavra. Sou, sim, um admirador deste homem de cultura. É preciso que saibam, os serviçais, subservientes e bajuladores, que eles são uma espécie que me enoja, me dá tédio, chego a ser acometido por sintomas de náuseas quando me deparo com alguns deles, que não são poucos.
Minha mãe, D. Olívia, 93 janeiros, lúcida, inteligente, uma grande mulher, um exemplo de vida, ao lado de meu pai, que já fez a viagem sem volta, nos ensinaram a mim e meus irmãos, a trilhar os caminhos da ética, da decência, da probidade e a acreditar na força do trabalho. Cultuo isto até hoje, não me arrependo e repasso para meus filhos.
Aos que não têm convivência comigo e pouco me conhecem, se tiverem alguma dúvida do que expus, consulte os colegas da casa ou até mesmo François, para saber quantas solicitações fiz de ordem pessoal ou para alguns de meus familiares? Pedi muito e fui atendido, dentro das possibilidades, e vou continuar pedindo à nova presidente, Isaura Rosado, acreditando na sua competência e sensibilidade para com as coisas do povo, a rica, inconfundível e cobiçada cultura popular do meu Estado, compromissado que sou com ela, seguindo os passos do guru Deífilo Gurgel, uma vida dedicada aos estudos do folclore potiguar e brasileiro.
Severino Vicente
Para te Esquecer
No final da década de setenta, muitos artistas e profissionais dos mais diversos ramos optaram por morar fora do Rio Grande do Norte. Naqueles tempos, as oportunidades eram remotas por aqui, principalmente no quesito arte. Três eram os destinos mais procurados: São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. O último, o preferido dos economistas e técnicos, como Evandro Freire, José Maria Pinheiro Lopes, José Roberto Cavalcanti e muitos outros. São Paulo era a atração principal dos que militavam na imprensa, como Roberto Guedes e Dorian Jorge Freire, que ocuparam cargos importantes na imprensa nacional. Já a cidade do Rio de Janeiro era a preferida pelos que tentavam ganhar a vida através das artes. Muitos talentos foram para lá, entre eles, a cantora Terezinha de Jesus, que se tornou conhecida nacionalmente, e o genial Mirabô Dantas, compositor de primeira. Na verdade um poeta sensível, que saindo de Areia Branca, ainda um menino de treze anos, e já compondo, passou por Natal e aportou depois, 'rapaz feito', no Rio de Janeiro. Com a cara, a coragem e um violão...
No Rio, sem muito dinheiro, Mirabô andou por muitos endereços. Os amigos ajudavam. Esteve pelo menos por umas cinco casas. Fazia músicas, composições belíssimas que eram gravadas por nomes que depois se tornariam grandes da Música Popular Brasileira, como Fagner, a conterrânea Terezinha de Jesus e Elba Ramalho, entre outros. Ganhava pouquíssimo. Tinha que se virar e aceitar a ajuda dos amigos. Era um pra lá e pra cá danado.
Entre as muitas amizades que fez naquela cidade, uma das mais produtivas em termos musicais era com o musicólogo Maurício Tapajós. Com ele, fez inúmeros trabalhos. Tornaram-se irmãos. Lembro que numa das viagens que fiz para o Rio de Janeiro - naquele tempo eu morava em Brasília -, visitei Maurício, que morava no Leblon. Numa tarde de sábado, tomamos todas. Eu, ele, Cláudio Burrão, Chico Acari, Marquete e Terezinha de Jesus. Mirabô não estava. Tinha ido não sei para onde apresentar umas composições a um artista. O apartamento de Maurício Tapajós parecia um shopping em termos de clima: ar condicionado emtodos os ambientes. E ele, todo tempo, perguntava: E Mirabô, não vem não?
Depois de 'ralar' um bocado no território lindo do Rio, finalmente Mirabô arranjou um emprego no Sindicato dos Músicos. Trabalhava durante o dia, fazia músicas à noite e farreava nas madrugadas. Dormir, pra quê? Nesse tempo, já morava na quinta casa. Dividia um apartamento com a potiguar Graça Arruda, que por coincidência era namorada de Maurício Tapajós. Uma relação de grande amor tumultuado pelos inúmeros afazeres dos dois.
Num sábado de verão, Graça 'fez carreira para a praia'. A relação dela com Maurício Tapajós estava complicada. Artista é complicado, não tem horários. Às vezes fala. Noutras não. E, as mulheres querem atenção. Não importa que somente as amemos. Temos que demonstrar isso, e muitas vezes não conseguimos. Apenas amamos, pensamos nelas. Sentimos saudade. Mas, se não dissermos isso, tudo complica. Mas, voltando para o sábado, depois que Graça saiu, Mirabô ficou agarrado ao seu violão. Na mesinha, escrevia notas, poemas. Dedilhava, compunha. Parava, tomava uma cerveja, fiscalizava o Rio pela janela. Ouvia os barulhos. Sentava. Não fazia nada. Depois fazia. Era sábado, dia de relaxar. Calma, a inspiração vem, tem que ter vontade...
Abriu outra cerveja. Fechou os olhos. Como era mesmo o final do poema sonhado? De repente, um sobressalto. A cigarra toca. Nem tão estridente, era até razoavelmente baixa. Mas, soou como uma bomba, porque ele estava distante, navegando em poesias. Perto do céu. Custou a abrir totalmente os olhos. Levantou-se pesadamente e abriu a porta. Era Maurício Tapajós, suado, olhar constrangido de pressa.
- Olá meu irmão, vamos entrando. Venha tomar uma cerveja, que Graça chega daqui a pouco...
- Obrigado amigo. Até quero, mas não devo. Não posso. Faça-me um favor: entregue esse poema a Graça. Diga a ela que foi bom. Ou melhor, não diga nada apenas entregue... Adiós.
Com o poema nas mãos, Mirabô se despediu de Maurício. Que pressa, será que aconteceu alguma coisa? Acho que não, Graça saiu tão tranqüila para a praia. Abanou-se com a página, voltou ao sofá e leu “Para Te Esquecer”. Maurício estava acabando a relação usando um belo poema. Leu de novo e começou a colocar a música. Não demorou, estava prontinha da silva. Ficou feliz, pois naquele final da manhã estava meio árido, sem inspiração, que somente chegou depois que Maurício tinha deixado o bota-fora de Graça.
Enquanto tomava a terceira cerveja, Graça chega da praia esbaforida. Tinha um compromisso à tarde. Vou correndo tomar um banho! Mirabô tentou falar com ela:
- Amiga escute essa canção. Acho que você vai gostar...
- Mirabô eu vou tomando banho e ouvindo. Vou deixar a porta entreaberta. Vá cantando...
Ele começou a cantar a música, que, aliás, estará no seu primeiro CD que será lançado proximamente. Quase no final da música, Graça volta tão esbaforida quanto tinha entrado. Cabelos molhados, enrolada numa toalha, lágrimas nos olhos e gritando:
- Maurício Tapajós esteve aqui!
Leonardo Sodré
MAMÃE CARINA
Conhecia-a num semáforo, na época natalina. O sinal fechou e o carro parou exatamente ao seu lado. Era madrugada e um cobertor agasalhava-a junto aos seus três filhos. Sentados juntinhos, eles apenas esperavam que a cena suscitasse piedade e doações. O mais novo jazia adormecido em seus braços, e os outros dois, com frio e sono, aninhavam-se ao seu redor. Parecia um presépio pós-moderno.
Questionei a validade da mendicância naquela hora. O frio da madrugada poderia ser muito mais oneroso que os poucos tostões amealhados. Não precisei de uma retórica muito convincente. Seu coração de mãe entendeu o conselho vindo de outro igual. Logo após abrir o sinal, ouvi o grito de uma das crianças: “Você deixa a gente em casa?”
É sábio o provérbio que diz: “As coisas não acontecem por acaso”. E Independente de saber o destino dos futuros passageiros, encostei o carro e aguardei-os. Ela aproximou-se com sua família ambulante e falou onde morava. Coincidentemente, bem próximo a minha casa.
Conversamos no caminho. Carina é jovem, quase negra, traços afilados. Uma beleza simples. Mora com o pai dos seus filhos, um catador de lixo reciclável. Já trabalhou em casa de família, mas os cuidados com as crianças a impediu de continuar. Perguntei-lhe sobre seu dia-a-dia; sua infância; seus métodos contraceptivos. Falou que tivera estudos, contudo a necessidade de ganhar o pão trouxera-a a cidade. Mas, na cidade, só fizera reproduzir-se e continuar sem pão. Dependia do posto de saúde para as pílulas e nem sempre tinha o produto por lá. Falei-lhe sobre outras opções. Ela, agradecida, poupou-me de deixá-la exatamente em sua porta. Eu, mais ainda, parei em frente a minha e subtraí alguns itens da dispensa, feliz, por saber que, por um curto tempo, a fome daquelas pessoas seria saciada.
E a vida continuou com sua dança das horas. Às vezes, num ritmo tão frenético que não damos conta e, como na dança das cadeiras, se não conseguimos ter agilidade necessária, dançamos mesmo. Outras vezes, tão incompreensivelmente lenta, que parece até torneira pingando no meio de uma madrugada insone. Pura tortura chinesa.
Carina, após algumas visitas dominicais para lanches e conversas rápidas, sumiu por longos meses. Imaginei problemas no seu assentamento. Não era. Uma pneumonia quase a havia derrubado de vez - soube, tempos depois, quando, um pouco mais recuperada, conseguiu aparecer em suas visitas matinais, trêmula e pálida, sempre arrodeada pelas crianças. Alimentei-a com atenção e comida e, entre surpresa e penalizada, ouvi a novidade: estava grávida novamente.
No dia das mães, recebi Carina e sua filhinha embutida numa barriga de oito meses. Mesmo ainda anêmica, parecia bem melhor que a última vez que a vi. Veio receber roupas e mantimentos que conseguimos arrecadar entre parentes e amigos. Aos vinte e cinco anos incompletos, esta nova criança será seu sexto filho. Aos três anteriores, poderiam ainda estar somados mais um que nasceu deficiente e foi adotado e outro, que desistiu de viver antes de nascer.
Finalmente, quase um ano e meio depois, dou a carona completa a Carina. Seu barraco, feito de papelão e sobras de construção, é o primeiro na esquina de uma nova rua que agora se forma ao pé de uma duna. São habitações com arquitetura feia e pobre, construídas com restos. Descemos seus pacotes de restos de roupas e comidas e desejamos um feliz resto do dia das mães. Pelo retrovisor, enquanto manobrei para evitar as lagoas de lama, vi a cunhada de Carina, que também é mãe e divide com ela o barracão, receber, da filhinha bebê, sentada num resto de carrinho, o melhor presente: um sincero sorriso banguela que iluminou, mais ainda, o dourado da tarde.
Ana Cristina Cavalcanti Tinôco

“É um país cínico. É disso que nós temos que ter consciência. O cinismo nacional mata o Brasil. Este país tem que deixar de ser cínico.”
Cláudio Lembo, governador de São Paulo

Rima e métrica
Além de procurar escrever usando a técnica da métrica e da rima, que eu herdei dos poetas da minha terra, através da influência cultural dos menestréis da viola e do repente, que, às vezes, são tratados por intelectuais que nada conhecem da poesia dos repentistas, e que nunca foram a uma cantoria, tendo apenas uma idéia nebulosa informada pelo meio acadêmico, com seus conceitos de frieza emocional analítica; que, de forma pejorativa, recheada de discriminação, olham com os olhos das costas para os ditos poetas populares (não gosto do termo); que, na verdade, são clássicos, como foram os grandes poetas do passado, tanto em termos de Brasil como no Exterior.
Pois bem: gosto da chamada poesia livre, desde que tenha essência poética. Mas dizer que a poesia metrificada e rimada castra a criação do poeta é puro desconhecimento do processo de criação. Basta ir a uma cantoria e assistir, durante duas ou mais horas, dois poetas improvisando (com rima, métrica e essência poética) belíssimos poemas nos mais variados estilos, sem repetir um verso; enquanto muita gente, pra fazer uns minguados versos, passa duas ou mais horas rabiscando um pedaço de papel numa agonia imensa.
Todas as formas de artes têm, de maneira oculta, a matemática. Música é matemática, artes plásticas e outras artes, também exigem a obrigação do espaço, do tempo e do compasso.
Pois bem: eu escrevi um soneto há algum tempo em aliteração poética, no qual eu não uso preposição, artigo e nem conjunção. Só substantivos, verbos e adjetivos, todos iniciados em V.
Eis o soneto.
Viagem
Viajei várias vezes vislumbrado
Vi verter versos vindo velozmente
Velejei vendo vulto vanguardado
Vindo vingar verdejante vertente.
Vivi vários versos versificados
Vendo verves varando vivazmente
Vieram velhos vates versejados
Varamos vales, viramos videntes.
Vendavais versejantes vibrações
Verteram vinte vorazes vulcões
Vomitando versos vitoriosos
Vibrei vendo visagens vislumbrantes
Vivi várias visões vitalizantes
Venerei velhos vates valiosos.
Gilmar Leite
Viva Lula!
Tribuna do Norte
19/05/2006
A mais antiga lembrança que tenho de Luís Carlos Guimarães me remete ao Natal Club, no primeiro andar de um prédio na avenida Rio Branco com a João Pessoa. A mesa era ocupada por Lula, Sanderson e Newton Navarro, que mandava, comandava e pagava a conta. Eu, convidado especial, me afogando em timidez, tinha 16 anos e pela primeira vez me sentava com poetas, com pessoas já famosas na cidade. Newton me deu de presente o livro Ouro, de Blaise Cendrars, com um oferecimento generoso, que guardei com carinho durante muitos anos, até ser pilhado por uma pessoa sem escrúpulos. Na mesa do Natal Club, ocorreu um episódio que, segundo pesquisas de Woden e Alex Nascimento, já foi narrado 1.263 vezes em mesas de bar da cidade. Para aumentar a estatística, conto mais uma vez. Os três bebiam, emborcavam copos de cerveja numa rapidez espantosa, e eu tomava em pequenos goles o meu Guaraná Antárctica. Já meio melado, Newton se voltou para mim e perguntou em voz alta, agressiva: “E você, não bebe?” Segundo Lula e Sanderson, eu teria respondido: “Não senhor. Mas se o senhor quiser, eu bebo.”
Dessa noite em diante, me aproximei do poeta Lula, que foi meu cicerone em poesia, nos bares, nos cabarés da cidade, nos amores encontrados e desencontrados. Publicamos nossos primeiros livros em 1961, e neste mesmo ano Aluízio Alves patrocinou a ida de meia dúzia de poetas ao Rio de Janeiro, para um encontro nacional de literatura em Copacabana. Tivemos o mesmo alumbramento pelo Rio de Janeiro, numa época em que se podia andar a pé da praça Tiradentes, onde ficava o nosso hotel, até a Cinelândia, esticando até a Lapa, sem ser iluminado por balas traçantes, sem o perigo de ser achado por um bala perdida.
Ah, quantos anos de amizade, de encontros no Rio e em Natal, de cartas que ainda hoje se acumulam nas minhas gavetas desarrumadas. De vez em quando, havia um pequeno estremecimento na nossa amizade, mais por culpa minha, pois eu gostava de provocá-lo, de fazê-lo sair daquela tranqüilidade de currais-novense com monge tibetano sedutor. Culpa também dos astros, dos signos, porque dizem que dois geminianos, com a mesma ascendência, podem se estranhar à toa.
Conversar com Luís Carlos era um grande prazer, como um vinho raro que se degusta sem frescura. Leitor assíduo, atento, todo sensibilidade, ele falava de suas leituras como quem fala de paixões. Trazia para os bares a lembrança dos seus filmes preferidos, passava a narrá-los com a voz tranqüila, o olhar azul passeando em volta, e parecia que se armava uma tela de cinema na mesa em que ele estava. Mostrava os seus poemas, os livros que publicava, e aguardava com humildade quase excessiva uma opinião sobre sua poesia, seus livros que sempre surpreendiam pela qualidade.
No próximo dia 21, depois de amanhã, está fazendo cinco anos que o poeta Luís Carlos Guimarães “não atravessou a ponte de safena”, como ele mesmo registrou com premonição num poema. Mas Lula está tão vivo! Está muito presente no coração de Leda, dos filhos, dos amigos. Está presente cada vez mais pela sedução de sua poesia que vai atravessar gerações e permanecer no tempo - intacta, no ar.
Nei Leandro de Castro

Que falta faz sertanejos nesta Pátria!
Walner Barros Spencer
Júlio César Pimenta

Público presente à primeira eliminatória do I MPBeco
Mutações
Agora que a última fada madrinha,
Escondida no fundo da caixa,
Foi embora de vez, horrorizada,
A terra que era minha e era sua
Virou chaga, ruína e treva,
Multilíngüe açougue de todos nós.
Quem matou mais, quem pagou mais
Quem vendeu mais, quem ganhou mais,
Quem perdeu mais, quem lambeu mais?
Os ossos doentes dessa História pesam mais
Que todo o Urânio do mundo.
Marcílio Farias
Os Bons Companheiros
O Mossoroense
16/05/06
http://www2.uol.com.br/omossoroense/mudanca/conteudo/walner_barros.htm
Bem, não se pode mais afirmar que Lula não ficará como um marco na história política sul-americana. Pois ficará indelevelmente, tanto do ponto de vista dos outros integrantes desse continente quanto do ponto de vista do Brasil. Será lembrado nos anos vindouros - na história - como o 'coveiro' do Mercosul, sepultado por ele em razão de sua imaturidade no trato dos interesses internacionais. Tratou a outros presidentes como se fossem companheiros de cachaça no balcão de uma bodega qualquer, a discutirem futebol e, até, por algumas fotos, com liberdades não protocolares. Ficou estupefato, portanto, quando descobriu que os outros - seus 'compañeros' - eram, em suma, presidentes, ou ao menos tentavam ser defensores de seus respectivos países.
O que preocupa não é o Lula - que mais cedo do que se possa pensar - sumirá do palco, mas o enorme prejuízo que trouxe ao Brasil com suas patacoadas, sandices, infantilidades, megalomania, ilusões e fantasias. Em política internacional, quando não se pode recorrer à força armada - e nem a temos, mesmo se ela pudesse ser usada - para recuperar ou impor respeito de um país pelo outro, decorrem muitos anos para que uma humilhação política sofrida seja absorvida. É o caso atual acontecido com a Bolívia. Lula foi, de macho a rato em estonteantes 10 segundos. Parafraseando um antigo dito anedótico das difusões radialísticas paraguaias de antanho: "Uma pílula de Chávez: plim; dos pílulas: plim-plim; más uma pilula de Morales: brrrrr - borrou-se todo.
Ainda teria desculpa - mas não justificativa - se o ofensor fosse um poderoso país, militar e economicamente superior ao nosso. Um outro de quem eventualmente dependêssemos economicamente. Mas não! Fomos esbofeteados em público e enxovalhados internacionalmente pela Bolívia. E de maneira intencional, adredemente preparada para causar o impacto necessário no intuito de mostrar ao mundo quem manda na América do Sul - deixando claro, é óbvio, que não é o Lula. Por esta razão foi escolhido o momento que garantia a maior cobertura conjunta da imprensa internacional: um evento que reunia a maior parte dos grandes líderes mundiais com algum interesse na América do Sul. Fomos chamados de ladrões, vigaristas, escroques, contrabandistas, sonegadores. Isto em público. Alguém deve ter soprado ao 'cocaleiro' para fazer aquilo como sondagem do espírito ideologicamente comprometido de Lula. Depois, devem ter dito, se desculpe privadamente com ele. Isto bastará. Ele ficará com seu ego satisfeito. Estará pronto, então, para usares tua cara da terneiro mamão e 'solicitares' um aumento do preço do gás.
Sabe por que isto é provável? Todos eles - os 'Bons Companheiro' - sabem que ele é um engodo, um depauperado, um coitado, um deslumbrado, um 'pafúncio que não teve infância'. Acha-se um predestinado, o que não é garantia de qualidade, pois Hitler o foi também. Talvez seu destino, a razão de sua existência resida nesse poder destrutivo de seu toque: o 'poder do toque real' negativo. Por não ser naturalmente um Rei, pode até tentar se portar como, mas ao invés de seu toque curar escrófulas, ele contamina mortalmente tudo aquilo que toca e todos os que o cercam. E lá fica ele, pimpão, saltitante como um tico-tico comendo alpiste, tentando caminhar estilosamente, como um 'john wayne tupiniquin'. Nem tem estilo próprio e nem altura física para imitar o 'grandalhão' americano que deve ter sido o seu ídolo infantil. Quer copiar o estilo norte-americano de ser presidente - com acenos rápidos, de esguelha, como de quem tem grande carinho pelos outros, mas não tem tempo para atendê-los. Falta-lhe porte, pois nem as roupas lhe caem bem (neste aspecto sou mais Morales). Isto não é um defeito, mas torna-se um pela fobia da imitação. Nunca vai notar que a vida real é diferente dos filmes holiudianos. Afinal, ele sempre foi um ator a representar peças e roteiros não escritos por ele; a falar textos escritos por outros, a se portar em cena obedecendo a marcação ideológica marcada no palco e sob a direção de um outro mais bem preparado para dar à peça o enfoque necessário.
Mas há um aspecto nisto tudo que me intriga: este Lula é realmente um pernambucano? Um sertanejo? Pode ser que seja nascido por lá, mas não possui o melhor da tradição desta encandeada e valorosa terra, os valores da honra - o de não levar desaforo para casa. Ninguém pode ensinar decência e honra se não as possuir, se não as valoriza, se não as conhece. É no mundo rural, nos preceitos de nossos avós, que deve ser encontrado o antídoto para esta doença política que grassa e corrompe a nação. Deveriam vir ao mundo rural brasileiro, e ao nordestino de modo particular, não em busca de votos para sustentar calhordas - sejam quais forem, e são quase todos - mas para retemperar em suas almas o sentido de hombridade, síntese e catalisador de todas as qualidades de um ser humano.
Mas, estranhamente, todos estão quietos. Estarão conformes? Cansados? Desiludidos? Até pode ser, mas esta nossa geração que já errou tanto deve ao menos fazer um último esforço para entregar à próxima geração - que já está aí - um país limpo, isto é, pode até ser pobre, mas tem de ser digno.
Que falta faz sertanejos nesta Pátria!
Walner Barros Spencer
Beco da Lama exibe finalistas de festival de música
Diário de Natal – 16/05/06 – Caderno Muito
http://www.dnonline.com.br/parceiros.php?url=http://diariodenatal.dnonline.com.br/index2.php
Cerca de duas mil pessoas estiveram presentes na primeira eliminatória do I MPBeco, que foi realizada na tarde de sábado, no Beco da Lama. Cinco canções, entre as dez concorrentes da etapa, estão classificadas para a grande final que se realiza no dia 27 de maio. No próximo sábado, acontece a segunda semifinal, com outras dez músicas participantes.
As cinco canções classificadas são: Cultura, Cultura, de Nêguedmundo; Natália, de Tertuliano Aires e Nagério; O exterminador de sentidos, de Romildo Soares e Lupe Albano; Santa TPM, de Franklin Nogvaes e; Volta, de Simona Talma e Khristal.
Ao final da apresentação das dez músicas concorrentes, Ricardo Silva, Esso Silva e Gilmar Santos - componentes da banda The Bluesy Band, contaram com a participação da gaita do músico Moisés de Lima, e até as 22 horas fizeram o público dançar ao som de clássicos do blues e do rock dos anos 60 e 70, tocando Peter Frampton, Erick Clapton, Doors e Beatles, entre outros.
Ao final das apresentações, a Comissão Julgadora do Festival, composta pelos músicos Carlos Zens e Camilo Lemos, o maestro Neemias Lopes, o músico, cantor e compositor Geraldo Carvalho e mais o professor do Cefet, João Batista de Morais Neto, apresentou os cinco classificados para a etapa final do festival.
No próximo sábado, partir das 16 horas, será realizada a segunda eliminatória do Festival, com a apresentação das seguintes músicas:
Coco Existencial, de Jorge Negão; Tarde, de Tertuliano Aires e Nagério; Jesuíno, de Zé Fontes e Tertuliano Aires; Afaga-me, de Ângela Castro; Ninguém merece, de Marcondes Brasil; A filha da lua, de Yrahn Barreto; Folguedos, de Khrystal, Nelson Freire e Tertuliano Aires; Água de moringa, de Hardy Guedes, Quatro doses, de Léo Ventura e Anglicana, de Yrahn Barreto e Clésio Torres.
Serão classificadas cinco canções, que se juntarão às cinco classificadas no dia 13, e farão a final do festival no dia 27 de Maio. Os shows de encerramento dos dois próximos sábados serão realizados por Os Grogs (dia 20 de maio) e Boca de Sino (27 de maio).
O I MPBeco tem subsídio da Prefeitura de Natal, através do Programa Djalma Maranhão de Incentivo à Cultura/Capitania das Artes. Seus patrocinadores oficiais são a Destaque Promoções, a Cardiocentro e a Offset Gráfica e Editora. O projeto recebe também o apoio cultural da Aeromidia, Choperia e Saduicheria Continental e Interjato.
Programação do Projeto SeaWay Cultural de 18 a 21.05
18 - Quinta Cássio Duarte, em show instrumental de Percussão – 21h
19 - Sexta - Show BENDEGÓ, com Cacau Arcoverde, Khrystal, Tica
Rodrigues, Ângela Castro e Titina – 21h
20 - Sábado - Elis Rosa e o Futebol na MPB – 21h
21 - Domingo - Thomaz e Carlos Moreno em show instrumental de Guitarra
E Violão – 20hs
PS: O show de Elis Rosa o Futebol e a MPB tem o patrocínio da EMVIPOL,
SESC/RN E GOVERNO DO ESTADO. Apoio OffSet Gráfica.

“A 'Veja' chegou ao limite da podridão da imprensa.”
Presidente Lula, sobre denúncia de que teria conta no exterior
Hugo Macedo

Naufrágio no açude Gargalheiras
Nem havia amanhecido. Eram umas 4 horas da madrugada quando ele se levantou da mesa, pensativo. Estava só desde as 2 da madrugada, quando os companheiros, vencidos pelo sono, resolveram ir para os seus apartamentos na pousada onde estavam hospedados. Sopesou a garrafa. Ainda dava para tomar um cálice de vinho.
Estava fazendo um pouquinho de frio, coisa rara naquele mundo de pedras que rodeia o açude Gargalheiras. Coçou a barba pensativo. Levantou-se. Até o fela da mãe do garçom foi dormir!
Viu um flash do outro lado do açude e imaginou que o fotógrafo Hugo Macedo já estava começando a captar a natureza. Buscou a taça. Emborcou de uma só vez o gostoso tinto seco que estavam tomando desde começo da noite anterior. Depois, ajeitou as sandálias, acendeu um Carlton e, saindo da pousada, começou a passear pela beira do açude. No meio destas pedras dava para fazer um filme de reiar!
O dia começava a clarear. Passou por um pescador que se dirigia para sua canoa, que o cumprimentou:
- Dia...
Ele respondeu com voz embotada.
- Bom-dia...
Será que estou bêbado?
Continuou a andar. Preciso fazer alguma coisa senão vou ficar louco, esperando aquele povo acordar às 10, 11 horas da manhã. O pior é que nem tem um bar aberto...
Passando perto da margem, viu uma lancha com a chave na ignição. Conhecia aquela embarcação que pertencia ao dono da pousada. Sabe de uma coisa? Vou dar uma volta pela imensidão do Gargalheiras. Paro na casa de Hugo, do outro lado, tomo umas dez e lá pelo meio-dia volto para o almoço.
Entrou na lancha e deu partida. Nada. O motor ficava fazendo um barulhinho de quem não quer pegar. Tentou umas dez vezes, até que um outro pescador que ia passando gritou:
- Puxe o afogador, mané!
- Mané é a sua mãe, ou pai. Sei lá! Vá se reiar!
- Vai tu maracatu!
- Não lhe respondo mais! Fez um gesto obsceno com o dedo e tentou ligar novamente a lancha, dessa vez puxando o afogador conforme aquele idiota tinha ensinado. Vrummm! Pegou na hora.
Desamarrou a corda que a prendia numa estaca, esquentou o motor com algumas aceleradas e depois foi saindo devagar. Queria contornar todo o açude, ver tudo e terminar parando do outro lado, conforme os seus planos. Acelerou mais e ficou deslumbrado com o rastro branco da espuma que a potente lancha ia deixando. O único barulho no açude era o da sua embarcação.
Quase passou por cima de uma canoa, quando estava olhando para trás, desviou na hora e continuou. Passou pela bonita Pedra da Baleia. Foi até a ‘prainha’ e, quando já vinha voltando, em toda velocidade, pumba! Bateu numa pedra escondida pela água e virou.
Susto grande.
Todo molhado, cigarro apagado ainda pendente na boca. Que danado eu vou fazer agora?
Não demorou, chegou uma canoa com dois pescadores. Do outro lado, eles não viam o náufrago que estava agarrado na lancha, quase sem ver nada, com os óculos cheios de gotículas de água, que ampliavam ainda mais o sofrimento daquele momento.
Ouviu o lento barulho dos remos e a conversa dos dois, quando iam chegando:
- Tatá, essa batida pareceu coisa de cinema...
- Num foi Dudé. Foi um vôo lascado! Vou até fazer uma música falando disso. Será que tem gente viva?
- É bem capaz...
Dudé não fechou a boca, quando ouviu o grito vindo de trás da lancha:
- Eu tô vivo, aqui, do outro lado!
Contornaram a lancha virada e deram de cara com o náufrago tremendo de frio, cabelos e barba em desalinho, camiseta branca colada no corpo e duas sandálias que boiavam.
- Vige Dudé - disse Tatá -, é aquele homem que gosta de cachaça mineira e que faz filme. Vamos puxar logo ele pra canoa.
- É mesmo - concordou Dudé -, você pega pelos fundos da calça e eu puxo pelos braços, senão a canoa vira também.
O náufrago perguntou:
- Tem que ser pelos fundos da calça? Se for, cuidado para não puxar a cueca que eu sou muito cabeludo.
- Ora, você tá reiado aí e ainda faz exigências... Disse Dudé, já fechando a cara.
Depois que o náufrago se acomodou na canoa, já refeito do susto e do porre da noite toda, foi logo perguntando:
- Vai abrir o bar hoje?
- Hoje não - disse Dudé -, já trabalhei muito pescando gente...
Tatá remava na frente, o náufrago ficava no meio tremendo de frio e Dudé remava na traseira. No meio do caminho, Tatá começa a puxar conversa:
- Num é o senhor que faz cinema?
- É...
- Já fez algum filme com uma virada danada daquela?
- Não...
- Eu nunca mais vou esquecer do que o senhor fez. Pense numa coisa espritada!
Náufrago já estava brabo com a conversa. Não agüentava mais ter que dar explicações a Tatá, que continuou.
- Mas que o senhor parece um artista, parece! Vige Maria, quando a lancha bateu na pedra, o seu vôo parecia daquele homem de apelido Zero Zero Sete. Pense num vôo bonito! Se o senhor tirasse a barba, já que não faz filme, podia ser até ator...
Quando ele chegou à pousada, todos o esperavam aflitos na entrada. A notícia do acidente já havia se espalhado.
Seu estado era lastimável. Havia perdido as sandálias e a camiseta branca estava toda suja do lodo da canoa salvadora. Assim que foi entrando, todos falavam de uma só vez querendo saber o que tinha acontecido. Ele não dizia nada, até que levantando os braços gritou:
- Eu não faço mais filmes! Tragam um barbeador pelo amor de Deus. Eu agora sou ator!
Léo Sodré
Ficção ou realidade?
Leitores, amigos e curiosos de plantão (onde estão incluídas pessoas das duas primeiras categorias) que leram os dois textos meus já publicados na brava Papangu, “Encantamento” e “Despedida de solteira”, perguntaram a este escrevinhador se as referidas histórias eram “ficção” ou “realidade”.
A cada pergunta, eu hesitava. De início, respondia categoricamente que cada linha impressa era pura ficção, tudo saído da minha cabeça, tal qual os hobbits de Tolkien. Mas depois, sozinho, eu matutava: será que tudo foi ficção? Uma vez que as histórias nasceram dentro de mim e ganharam a luz do mundo, não se tornaram de certa forma uma realidade em si?
Levei o raciocínio ainda mais longe. Uma vez que a ficção pode ser uma realidade, quem garante que a chamada “vida real” não é pura ficção. Quem me garante que não vivemos todos em uma realidade como a do filme Matrix? Quem me assegura que meu emprego, minha casa, meu cotidiano, serão mesmo reais? Toda a minha vida pode ser o sonho de alguém (Deus? Shiva? Fellini? Algum escritor?) ou uma realidade artificial como a de Jim Carey no filme “O show de Truman”. E se como a menina em “O mundo de Sofia” eu não passar de uma personagem? Então não cabe mais o questionamento se o que eu escrevo é realidade ou não, já que eu mesmo e tudo que me cerca pode não ter um pingo de realidade. Nada é real, portanto.
Pensando nisso tudo decidi chamar meu velho amigo advogado João Marcelo Dantas para tomarmos uma cerveja. Cogitei também chamar o velho e folclórico Lúcio Albuquerque, o “Ratazana”. Mas, espere aí, Lúcio é apenas o personagem de um livro que estou escrevendo, “A República do Ódio” (Merda! Não deveria ter revelado isso! Dá azar dizer aos leitores o nome do livro que se está escrevendo. Mas, se pode ser tudo uma irrealidade, quem garante que alguém está lendo este texto? Por falar nisso, a revista Papangu realmente existe ou não passa de minha imaginação? Já bolei tantos nomes de revistas imaginárias...)
Mas, voltemos a Lúcio Ratazana, playboy, bebedor e piadista que vive às custas do dinheiro do pai, funcionário aposentado da Petrobrás e cursa desleixadamente publicidade na UnP. Um cara excelente, mas...fictício. Eu não poderia telefonar para ele. Lembrei então de outro velho amigo, Henderson Dantas, conhecido como “Peixe”. – Vou ligar para ele... – pensei. Mas, hesitei. E se Henderson também não passar de uma figura da minha imaginação? Estaria eu enlouquecendo? Mas, pensava eu, se Ratazana é um personagem meu, assim como Sissi, George Magalhães, Vanessa, Amorim... quem me garantia que Henderson é real? E quanto as outras pessoas do meu pequeno universo, eram reais? Quem me garantia que Geane, Leila, Paulo César, Davi, Pinto Junior são reais – alguns deles sequer parecem reais - e D´artagnan, Capitu, Riobaldo, Dom Quixote, não? Afinal, a realidade não é aquilo que temos à mão e que faz parte de nossa vida e de nosso dia-a-dia? Os três mosqueteiros sempre fizeram mais parte da minha realidade do que, por exemplo, uma simpática velhinha da Bielo-Rússia. Ainda que real, essa hipotética senhora, chama-la-emos de Natasha Ivanova, é mais ficcional para mim do que Capitu, com seu olhar oblíquo e dissimulado ou de Sissi, a auto-destrutiva e bela jovem que protagonizou meu romance “Ponto de Fuga”.
Enfim, é complicado distinguir ficção de realidade... Quando lancei em 2000 “Ponto de fuga”, que trata da história de um empilhador de caixas de supermercado brucutu que mata com três tiros a citada Sissi e cumpre uns dez anos de cadeia, me perguntaram se a história era auto-biográfica. Talvez. Quem sabe, eu já tenha matado alguém e sido preso e não me lembro, como nos filmes em que o protagonista perde a memória. Talvez eu precise procurar um analista, quem sabe a dra. Flaviana Bertoldo, magra, bela e depressiva, dona de imensos olhos verdes, que queria ser veterinária mas terminou se tornando uma das mais prestigiadas psicólogas de Natal. Oh, não, espere aí...ela não passa de mais uma personagem do ainda inconcluso “A República do Ódio”... Talvez eu precise de um analista de verdade. Ou beber uma cerveja no Beco da Lama com Dunga, Léo Sodré (se ainda não tiver se mudado de mala e cuia para o país de Mossoró) e Lívio. Isso se eles forem reais. Beco da Lama... sei não, parece cenário de romance de Jorge Amado ou Aluísio Azevedo. Será que o beco da Lama é real ou fictício?
Cefas Carvalho
Alex Gurgel
Registro(Texto lido ontem, durante a cerimônia de posse da nova diretoria da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências)
Como havia um Beco no meio do caminho, fiz dele o beco que passou em minha vida.
Do beco, por ser viço, fez-se vício que, como droga, contagia e arregimenta, multiplica-se.
Como na sarjeta do vício havia um corpo, no beco, o bolero entoado em desafino juntou-se a um violão que juntou-se a uma caixa de fósforos, que se fez percussão. Alimento.
Do bolero nasceu a banda e da banda fez-se espetáculo.
E vieram festas e vieram vozes e veio o coro no meio da noite em serenata.
A menina, linda menina, fez-se encantada praieira ao som da flauta, que fez-se harmônica, que fez-se sinfônica, que um dia chegará ao Beco que desnuda-se em todas as madrugadas.
No meio da cidade, da minha cidade, havia um beco. Um beco tão grande que tinha nome de rua e era pai de todos os becos. Não os da cidade, mas pai de todos os becos do mundo, abençoado Beco.
Sua cidade decerto tem um beco como a minha. Um beco da lama como o meu.
Se não tiver, deve ser triste a sua cidade.
E deve ser triste porque na sarjeta do vício feito beco não haverá um bêbado cantando a volta do boêmio. Volta ao beco, ao álcool, ao vício maior que é o próprio beco.
Não por ser o Beco pelo Beco, mas pelo que ele guarda em suas canções tristes ou baladas alegres, beco que se desfaz em sorrisos e tem pernas de apaixonada amante, sempre aberta a amar por amar. Como vício.
Vício de ser e querer ser sempre beco. Ou beco ser enquanto ente: vivo, pulsante, feito ribombares de zés-pereiras em sábados de carnaval.
Nesse Beco, rio de minha vida, por sorte ou ventura, havia um tamborete e havia uma mesa que pedia uma cerveja que pedia companhia.
Da companhia, o beco fez-se confraria e a confraria tomou a cidade por não se bastar a si mesma.
E foram tantos os becos, tantos os bêbados trôpegos que não se pode mais: de beco da cidade, a cidade tornou-se beco de seu próprio beco, pois dele encantou-se para poder ser, com nome, identidade e todas as digitais guardadas - registro de antigamente em cartórios de saudade: poesia.
Eduardo Alexandre

"Se a Petrobras não participar do gasoduto do sul, não haverá gasoduto do sul."
Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores
MPBECOI FESTIVAL DE MÚSICA DO BECO DA LAMA
Festival do Beco da Lama tem primeira eliminatória neste sábado
A primeira eliminatória do Festival de Música do Beco da Lama – I MPBECO – acontece neste sábado, 13 de maio, a partir das 15:30 horas. A etapa reunirá 10 músicas, escolhidas por sorteio, entre as 20 que foram selecionadas pela Comissão Julgadora.
Cada intérprete terá até 20 minutos para fazer a sua apresentação. O tempo foi definido em reunião conjunta da produção do Festival com os músicos, e é considerado suficiente para a realização de ajustes de som e organização do plano de palco.
Na abertura da eliminatória, antes das apresentações, será empossada a nova diretoria da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama – SAMBA.
Com este evento, o horário previsto para o encerramento das apresentações concorrentes é 19:30 horas, mas a festa prosseguirá com um show da “The Bluesy Band”. A banda é formada por Ricardo Silva, Écio Silva e Gilmar Santos, e apresentará um repertório que privilegia clássicos do rock e do blues dos anos 60 e 70. No intervalo do show serão anunciadas as cinco músicas classificadas para a etapa final, com realização prevista para 27 de maio.
Músicas Concorrentes da 1ª Eliminatória com seus intérpretes
Música nº 01: Nátalia - Khrystal
Música nº 02: O Exterminador de Sentidos – Rodolfo Amaral
Música nº 03: Sonho de Palhaço – Raniery Araújo
Música nº 04: Pra Desopilar – Banda Kassava
Música nº 05: Volta – Simona Talma
Música nº 06: Cordel da Morte da Amada – Cleudo Freire
Música nº 07: Santa TPM – Franklin Novaes
Música nº 08: Cultura - Neguêdmundo
Música nº 09: Côco Existencial – Jorge Negão
Música nº 10: Seu Lugar – Valéria Oliveira
O BUNDA-MOLE
- Ei, Quinho...Quinhooô, porra ! – deu um baita berro, do portão principal, Kid Vigarista, um sete-um das Celas Novas, metido a queixudo, cheio de guereguere.
- Pede aí pro Turco, ou vai tu mesmo, galado, fazer uma mola no Coroa da biblioteca. Caçote, da Cafuinha, tá pedindo um adianto de branco e um galo lá pro homem – Kid deu o recado, aos berros.
- Porra, meu irmão, logo agora ? – emputeceu-se Evilásio.
Quase toda noite o melado do caçote enchia o saco de uns e outros. Um galado, dentro da cadeia, pedindo arrego adoidado. Agora, uma carteira de giz e mais cincoentinha do cente-e-vinte-um-puro gente boa. A grana, sacava, era prá completar o preço de um chara de manga-rosa. Andava custando (puta que pariu!) sessenta pau, sem choro nem vela. A merda que a maioria da maria-Joana entocada nas bocas da colônia num tava com nada, era paia pura. Não dava prá fazer um fumaceiro legal, rodar o básico numa boa, ficar doidão, curtir a lombra, tirar um bode...
Deu uns três berros, chamando o Turco. Nada. Merda! Devia tá no coito da igreja dos crentes, esparrando com a bíblia na mão, tirando onda de obreiro. Ou então (fila da puta!) escondido, se mancando para não fazer a mola, o mandado do pinta cheio de mistura nos artigos.
O jeito era ir ele mesmo; A lei da cadeia obrigava. Agora era Caçote que tava a fim de um arrego, mas amanhã podia ser ele, Evilásio Joaquim dos Santos, de vulgo “Quinho do Morro”, conheiro necessitado, querendo fazer a cabeça, arrochar um murrão de elba-Ramalho, esquecer essa praga de cunhão, sonhar com as lias da vida...
No comprido corredor iluminado e vazio da Galeria, caminhou no devagar, pelo meio, cabrito, filmando com o rabo do olho as celas do lado esquerdo, escuras e aparentemente silenciosas. Era ali que a moçada da pesada pagava sentença, gente de crepe, cadeia-grande. Pouco papo com aquela rapaziada, nenhum acerto! Urubu, ali por cima, voava de costa, meu irmão! Com eles, tinha que ser “bom-dia”, “sarava” e “boa-noite” e tamos conversado.
Há uns três dias, mesmo, Cara de Gato, um sarará barril-de-chope, bicho cevado do Rancho, tinha buchichado no campo de futebol que na cela 08 havia um arrumadinho feito para fazer um duzentos-e-treze que o homem, o diretor, tinha, muito Cabral, botado na enfermaria dos tuberculosos, longe daquelas feras. O estrompador, bicho nojento, no avião, ia pagar com o frinfa a miséria que tinha feito com uma boizinha, filha de um pedreiro da Cidade Nova. Se botasse queixo, rodava! O baixinho da faxina, zagueiro do Limpol Futebol Clube – podia até ser esparro, também! – garantiu ter dado um flagrante em Pirado e Sérgio Caveira, as duas peças pagando sugesta num dos rancheiros, um armeiro cobra-criada, para atravessar muito ferro bom prá quentura da Galeria.
Imaginando o tamanho das naifes do armeiro, sonhou ter uma daquelas. Valiam uma nota dentro da cadeia. Mas , quem era ele? Não era barão. Cadê Cabral? Era um provisório, ainda, quase um Zé. Mesmo assim, tinha lá o seu bico, feito por ele mesmo. Um cabo de colher, amolado na medida, espetado com muita arte, espetado num pedaço de cabo de vassoura, apertado com tira de câmara-de-ar. Enrustido, mocozado, num tijolo solto da parede da cela, encostado ao come-quieto – uma limpeza, meu irmão!
Lembrou do último baculejo que os homens deram, de madrugada, num esporro do caralho. Uma geral do cacete! Feita pelo Cabo Neném, um samango até bom prá preso mas muito malandro na hora de descobrir transação-errada nos bagulhos da rapaziada. Pintou sujeira, naquele dia. Foi uma merda na Galeria e nas individuais. Só não mexeram na biblioteca e no plantão-de-luz. Até faca-peixeira de 12 polegadas, uma massa, novinha, o desgraçado levantou ! O pau comeu, sujesta geral! Foi muito nego prá cafua grande por conta de fumo, pneu e ferro. Parecia, até, que todo mundo tava de-cima. Trinta, sessenta dias de cunhão, de mofo, no pavilhão de segurança, onde não tem moleza, sem visita, sem banho de sol, sem mulher. Ele não, qualé ? Esperto, tava na sua, ligado na geral, sem lombra, sem dar bobeira. Os homens passaram longe do mocó do ferrinho, deram só uma revirada ligeira no caixote dos possuídos e ele, Evilásio, cheio de munganga, dando “bom-dia” a um e a outro soronha, oferecendo branco, “sim senhor” prá cá e prá lá, muito malandro. Ficara ancho da vida com o sete-um bem aplicado na guarda. É isso aí, tava ficando esperto, cadeieiro sabido, um pilantrinha. Tudo isso só com dez meses e poucos dias de cana.
Ia pisando numa banana podre jogada no caminho sujo do final do corredor. Lembrou o nome tão falado:“Caldeirão do Diabo”! Achava bonito esse nome. Parecia negócio de filme de bangue-bangue, arrebite como o diabo! Era como chamava a cadeia, na Rádio Caboré, um tal de Biratan Camélia, na “Ronda da Cidade”, uma zorra do caralho, maninho! Todo santo dia, antes da sirene buzinar o rango, João de Bituca, cento-e-vinte-um, cadeia-grande que tinha vindo da Detenção em Petrópolis, ligava, na cela, o papagaio-de-pilha muito chinfra para ouvir o pilantra. João conhecia a peça. Jurava de pé junto que o tal locutor metido a queixudo, malhador de preso, era um xis-nove do cacete e não passava de um cento-e-vinte-e-um-melado das bandas de Pernambuco, matador de duas mulheres. Tinha puxado cadeia aqui, o vagabundo, transferido e encagaçado. Pirulitara por conta de transação de político canalha, era um boca-preta, cheio de arrumado, recebendo toco de traficante, fazendo acerto também com os homens. Sabia lá! Era tanto buchicho que ninguém morava mais no que era quente ou não...
Chegou à grade da biblioteca, butucou: cadeado na porta, luz apagada, televisão desligada. Mão na bermuda, tirou a carteira de branco dos colhões, o isqueiro: catinga de pica do caralho! O Coroa dormindo? Chamou, baixinho. Nada. Mais uma filmada para dentro: bulhufas! Resolveu esperar, sentado na borda do jarrão de planta. Acendeu a canela-branca, ficou na dele, cubando. Caçote que se fudesse, doido por maconha, pedindo favor daqueles.
Um puto grito na enfermaria dois, ali perto. No mínimo, devia ser Luís Doido, fugindo da turbina de algum bicho atrasado, desses que não recebem mulher no parlatório, no refúgio-do-amor, nos come-quietos das celas.. Eita Diabo ! Hoje ninguém sorna direito por aqui, nesses lados. Faz pena mesmo, o doidinho. Era uma lapa de homem, todo mundo diz. Fechou um cara com uma birrada de tamborete, prás bandas de Alexandria. Não tem ninguém por ele, o coitado. Hoje, definhado de corpo, amarelo, pirado todo, impregnado de remédio, servindo de menino prá vagabundo, gritando a noite toda, de dia comendo casca de banana e barro de reboco. ´E do cacete, mesmo!
Pancada no portão da frente, bate-bate de cadeado, papo-furado de carcereiro, polidoro do caralho. Deve ser Baixa-Verde ou Pé-de-Pato chegando. Dois frajolas. O capa-preta deixa trabalhar fora (trabalhar , uma buceta!), uma tal de prisão-albergue. O cara só vem dormir e se manda cedo, prá liberdade, prás gatas, pro bem-bom – fazer transação-errada, isso sim!
Deu um barrufo no branco e sacou, dos lados do aviário (parece que é na guarita do canto do muro!), a voz de Elísio, um soldado, pedindo a Paulo Lagartixa, da cela dos pedreiros, um papagaio emprestado, aos gritos, para espantar o sono.
Porra, nada do velho, do coroa! O bichano de Paraíba, saindo na carreira, desembarreirou do escuro da biblioteca (fila da puta!), passando por cima do seu pisante, à toda, no rumo do gabinete do diretor. Bichão cevado! Se der sopa, vacilar na galeria, tá fudido, vira ensopado, não dá outra.
Levantou o rádio para espiar o rolé do peludo. Tirou uma linha, deu uma mironada com a luneta, indo bater no portão da administração. Estirando as pernas deu uma chegadinha no plantão de luz: Ceará, escornado, de bode, enrolado na baladeira puída, da cabeça aos pés. Adiante, brechou uma réstia de luz, por baixa da igreja dos crentes. Nunca entendeu aquela palavra, “ecumênica”, que o coroa mandou pintar na porta, com autorização do coronel. Luz acesa, naquela hora, só pode ser o Turco, o sacana malandrão. É quem fica com a chave, dá uma, também, de zelador, bota banca de bom moço, “aleluia”, “aleluia” (aleluia é o caralho, filho de rapariga!).
Se mandou de volta prá porta da biblioteca. Merda de avião, fresco do Kid Vigarista, filho de cangaieira Caçote! O coroa era capaz de ter se mandado prá Cela Especial jogar baralho com os Carneiro, perder e sair puto da vida, esculhambando todo mundo. É dar um tempo, prá ver.
Botou, de novo, o trucado no cimento do jarrão. Passou a mão no penúltimo canela-branca da carteira amassada e fedorenta. O isqueiro, no fim do gás, quase não fez fogo. Prá prevenir, tinha de fazer, quando chegasse à cela, uma teresa fina, boa também para afugentar muriçoca. Deu a primeira puxada olhando para os mosaicos do chão e, levantando a lata, filmou a placa “gabinete dentário”. Era ali onde tirava serviço de faxina Geraldinha (puta que pariu!), entendida em erva e cento-e-cincoenta-e-sete. Caiu por fumo. Era boa como o cão. Cada peitaço, um bruto coxame, os pés bonitos... Parecia, até com Judite!
Ditinha, aquela rapariga! Dois meses sem pintar no pedaço. Deve tá numa boa, a piranha. As meninas na casa de mamãe, o bruguelo em Macaíba com a filha de Raimunda (cagüeta sem-vergonha!). E eu, porra? Aqui, no cunhão, sem descolar nenhum, a não ser o do giz – que a velha traz, coitada, na visita. Maconha minha, mesmo, nunca mais! A base, agora, é fumar baga dos outros, na marica dos outros, e quando dão, porra! A galinha safada (eu pego aquela puta!) nem para me arriar o óleo aparece! Prá mim, Quinho do Morro, desde os doze anos na vagabundagem, bom até no priz-de-suta, punga de primeira, ventanista dos bons! Eu, Evilásio, que lhe tirou os tampos (buceta e cu!) e que lhe deu, lá fora, vida mansa. Para mim é que ela (a rapariga!) não tá fazendo mola e adianto! E isso tudo (tô sabendo!) faturando macho em Ponta Negra, na Praia do Meio. Gringo e turista! Dando uma (tô sabendo!) de granfa nos cortiços-de-bacana, fazendo particular, brizoletando com filhinho-de-papai, fazendo apontamento de brilho prá barão ! Só tá faltando mesmo é ela em vez de cafungar, passar a enfiar nos canos. Aí eu quero ver se arranja macho se ficar toda bichada, pé-de-chumbo, indo parar na colônia dos doidos! Pode até (maconheira sem-vergonha!) dançar numa overdose de coca ou de josafan!
Levantou-se, puto. Bateu o piso no chão, com raiva e força. Arrancou uma folha da planta do coroa, o cigarro no bico, fumaça na bicicleta, injuriado na cuca. Juca Sexta-cheira caiu aqui uns dias e derrubou mais serviço de Ditinha, lembrou. Mafioso, o sacana do pinta. Também o que ele transa de pó e fumo não está no gibi. Tem dinheiro, é bacana, barão. Advogado não lhe falta (puta que o pariu!). Com pouco tempo de cadeia, deu uma de dezesseis, gastou os tubos com um porta-de-xadrez aloprado e se mandou prá rua prá vender pros granfinos e cheirar de novo. Juca é escroto mas também não ia levantar aquela parada: o lance de Ditinha cheirando a neve direto! Já tava, disse ele, de venta escorrendo. Nota alta prá esse talco todo ela não tem! Brizola é coisa prá ricaço, doutor, madame emperequetada, tudo no mocó. Prá sacanear mais, o sacana do traficante jurou por todos os santos que o particular de Judite, agora, era na casa de um doutor, na praia, bichão importante. A mulher do barão, disse Juca (prá completar!), é uma doidona cheia de arrumado que escreve em jornal e tem uma porrada de emprego! Essa pinta, Juca morou, joga nas três colunas: transa cafifa, sapatão e sapatilha (puta que a pariu. tô fudido!)! E Ditinha entrando nessa, pode? Tem nada não, um dia eu saio desta merda, na limpeza ou no pinote, e aquela nojenta do caralho me paga, vira presunto, eu garanto!
Demoronando, no vacilo, descontrolado – depois de queimar os dedos com a piúba do cigarro –,levantou-se e a plenos pulmões, tossindo como um gato engasgado, uivou:
- Puta merda, onde é que aquela rapariga foi se meter, porra !
Deu-se a primeira merda, então:
- Que porra de esporro é esse aí fora?! – Era o coroa, voz alterada, o sono interrompido na sua comarca.
- Seu coroa, não é nada não! É que Caçote mandou pedir um adianto... - Vá pro caralho, seu bunda mole ! Espere aí, seu ladrão de merda, pé-de-chinelo ...!
Evilásio Joaquim dos Santos, o “Quinho do Morro”, pagando cana por um lance mal aplicado dentro de um coletivo, punga-melado e ex-cafifa de Judite Marques, conhecida na orla como “Ditinha Maluca”,dançou com o sapo do coroa. Botou a viola no saco, passou lotado pelo corredor da galeria, entrou na sua coletiva, sentou na baladeira suja, bateu a grade com um dos pés sujos e desandou a chorar, feito um menino novo, escondendo a lata com as mãos...
Na cela vizinha e fronteira Zé-de-Nita, duzentos-e-treze amansado por uns três ou quatro aviões, robô e laranja de primeira, no momento o garoto exclusivo do dedo-mole Severino de Patu, refestelado no colo e na tipóia do seu respeitado franchone, gritou, zonando, debochado:
- Vai dormir, bunda-mole corninho! Teu mal é sono, tetéu! Vai pular da caixa-d’água, otário!
Laélio Ferreira
in “Trampo na Comarca”, inédito

“Eu não sei de onde tirei isso, se foi da imprensa, se foi de ouvido ou se foi da minha cabeça. Sobre essa entrevista, não sei mais onde está a verdade.”
Sílvio José Pereira, ex-secretário-geral do PT
Hugo Macedo

DEIXA DE LERO DE CONSISTÊNCIA, META A MÃO NA CONSCIÊNCIA
Detesto afirmar que, ao menos uma vez, concordo com o tirano Capitão das Artes: o nível deveria ser outro, e não a repugnante postura da intolerância para com a diversidade e o contraditório.
Parafraseando Arnaldo Antunes, deixa de lero-lero de consistência e bote a mão na consciência!
Os cartazes são a materialização da posição autoritária no episódio “Barrados no Salão e Excluídos no Cartaz”. Todos nós, lesados pela malversação do erário municipal, devemos exigir que os cofres públicos sejam ressarcidos pelos equivocados mentores de ato tão ignóbil.
Outrossim, basta ver o expediente da “bruaca” da FUNCART e constatar a cooptação dos editores culturais. Exceção inglória de Alex de Souza, que, com sua práxis, dá uma aula de jornalismo independente.
Sem estrutura nenhuma, estamos realizando um Salão que veio para ampliar o horizonte da produção/veiculação da arte, principalmente para quem não pertence ao séqüito do podre poder ou ao crivo dos curadores (“uns gênios”). O evento foi irretocável (divertido, bonito e multimídia): uma plêiade de artistas, em entrelaçamento de influências e confluências pessoais, num ímpeto de liberdade individual e igualdade social. A “oposição oficial” que criticava o Salão esteve toda presente, subiu as escadas do palácio e aderiu babelescamente à festa.
Fatal e irremediável, a artista Sayonara Pinheiro detonou a exposição dos adesistas e assumiu uma postura elogiável de independência e contra a censura praticada pela instituição hereditária. Causou a maior celeuma; deflagrou uma hecatombe nas hostes dos mancomunados. Dizem que chegou a pedir demissão (não me perguntem de qual sinecura).
Esse senhor (que está) presidente da FUNCART passou anos na coordenadoria do Centro de Documentação Eloy de Souza, na Fundação José Augusto, numa passagem inócua, basta comparar toda sua gestão com a administração relâmpago da professora Isaura Rosado Maia (apenas alguns meses); além disso, utilizou a instituição em usufruto próprio.
Faz-se necessário abrir a caixa preta da Fundação Hélio Galvão! Pois esta terminou viabilizando um “Pontão de Cultura” no Ministério da Cultura. Para isso, é necessário pelo menos dez pontos de culturas, cada um de cento e oitenta e cinco mil reais, perfazendo hum milhão oitocentos e oitenta e cinco mil reais. Será que tem recursos para entoar o “Canto das Sereias”?
Pergunta-se: por que não foi divulgado na mídia? Convenhamos, não é apenas falta de ética: é imoralidade um gestor público que canalizou os recursos para sua Fundação Hélio Galvão, em detrimento do órgão estadual para que trabalhava, ou seja, pagávamos seu salário para ele produzir para si (é mole?).
Abaixo a caretice! Fora os dirigentes que se escondem em torres de marfins. ARTE RETA LAMA ALMA. Viva as práticas e atitudes rebeldes. Mais forte são os saberes do povo!
Plínio Sanderson
O caminho de beber livros
Ainda lembro, no encantamento de minha juventude, de quando descia para a Ribeira em busca das novidades da Livraria Clima. Saía do colégio de bolsa nas costas e sol a pino. Descia a ladeira do Baldo embalado pelos gestos falsos da gravidade que mostrava a sua verdadeira intenção quando eu passava por baixo do viaduto e subia pela Rio Branco.
O cansaço esticava em légua e meia a ladeira ingrata. A calçada da esquerda era a que me proporcionava a melhor visão do majestoso e esquecido prédio da TVU. Dava uma paradinha no Cinema Nordeste para ver os cartazes das matinês e encontrava, vez por outra, alguma loira de olhar sedutor em uma posição meio desinibida que escondia seus fartos seios com as mãos, resguardando-se por trás do vidro da vitrina.
Voltava a Rio Branco e aproveitava para cortar caminho pelas ruas posteriores ao Churchill para ouvir a melancólica poesia que as pedras desalinhadas dos antigos calçamentos me segredavam. Atravessava correndo a Junqueira Aires até parar na calçada da Capitania. As brechas da velha fachada sem cor, juntamente com os restos das pequenas construções que se avizinhavam, deixavam-me encarar, do outro lado do nada, o rio Potengi.
Num pulo já estava no pátio da rodoviária. O ruge-ruge de pessoas e ônibus era o prenuncio do partir e do chegar. Velhos, crianças, feirantes, cestos de frutas, feijão, galinhas amarradas pelos pés, vendedores de amendoim, cobradores e seus trocados por entre os dedos, motoristas e seus cafés, apitos de fiscais. Era um sem-fim de imagens em breves segundos. Ônibus de porta de manivela esperavam malas, bagagens e bagulhos que se entocavam um a um em seu subsolo.
Meu passo sem medo cortava as plataformas dos intermunicipais e dos interurbanos. Alguns homens e mulheres sem-destino olhavam aquele reboliço em busca de alguns trocados ou, com um pouco de sorte, um trago a mais.
Entrava na Dr. Barata em busca da Livraria Clima. Ainda na porta procurava as estantes do lado esquerdo. Lá findavam as minhas buscas. Cheguei a passar horas folheando os livros e procurando aqueles que se encaixavam com a mesada semanal.
Esbaldava-me com tantos livros. Foi lá que conheci as letras de Alex Nascimento (Quarta-feira de um país de cinzas), Celso da Silveira (50 glosas sacanas), Tarcisio Gurgel (Os de Macatuba), Deífilo Gurgel (Os dias e as noites), Waldir Reis (Nós sofre, mas nós glosa), José Alexandre Garcia (Acontecências e tipos da Confeitaria Delícia) e tantos outros escritores.
Amealhei alguns trocados economizando no lanche escolar, para conseguir comprar alguns livros. Hoje, quando passo em frente da antiga Clima, sinto a saudade do trajeto Alecrim-Ribeira. Sinto que minha disposição já não é a mesma e não consigo mais ver as estantes do lado esquerdo onde me encantavam o buscar e o revirar livros. A velha rodoviária ainda permanece com aquele cheiro de esquecimento. Nunca deixará de ser velha. Talvez por já ter nascido assim.
Enfileirados em minha estante descansam os antigos exemplares. Guardam o meu carinho e alguns segredos em suas letras. As folhas soltas, marcadas, relidas, fazem um trajeto que nunca sairá de minhas lembranças. Uma lembrança que nunca será substituída...
José Correia Torres Neto
A Pomba e o PintoA pomba vinha voando alegremente. Havia subido numa térmica potente na frente do Teatro Lauro Monte Filho e, lá de cima, quase alcançando uma nuvem, olhava o centro de Mossoró pequenino. Tinha discutido com Pombarez, seu atual marido, pela enésima vez, por causa de uma certa vizinha que costumava ficar batendo asas por ele. Por isso, resolveu voar antes das chuvas de abril, que certamente iriam esfriar um pouquinho a cidade e espantar algumas térmicas do centro. Resolveu voar muito para esquecer da rival. Não tinha raiva de Pombarez. Pombos, tinham muitos. Até gostava de brigar com ele para se sentir 'livre e solta'. Ria por dentro, quando pensava nisso. Ele, sempre culpado, ficava na maior tristeza. Coitado!
Lá do alto, contornando uma das curvas do Rio Mossoró, sentiu o cheirinho azedo do aqüífero, que está sendo rotineira e implacavelmente poluído das mais diversas formas. Já era umas três horas da tarde. Uns três pescadores insistiam em fisgar alguns peixes, entre tanto lixo acumulado.
Tão fácil limpar. A Pomba pensou. Basta alguns funcionários da prefeitura com varas e ganchos e em pouco tempo estaria tudo desobstruído. Aproveitou outra lufada de ar quente e subiu mais alto ainda. Tanto, que conseguia ver de muito longe a mudança das cores da tarde, ao longe. Mudança bonita do Sol do sertão que se vai. Depois, aprumou-se para descer rápido. Tinha visto um menino com um saco de pipocas na beirada do rio e calculou que com certeza iriam sobrar algumas migalhas para ela.
Foi chegando rápido, já planando. Garbosa. Era uma pomba bonita, misturada de branco e preto, de coxas grossas e avermelhadas. Foi quando viu um pinto. Aliás, o pinto mais feio que ela já havia avistado na sua vida. Meio amarelado, penas arrancadas e esmaecidas, olhar distante, encruado. Ele também olhava guloso para o saco de pipocas do menino, que nem o tinha notado.
Também, com um piado fraco desse ninguém vai vê-lo. Vão terminar pisando nele...
Quando Pomba parou, arrolhando para todos os lados, o menino vibrou de satisfação, logo iniciando a distribuição de pipocas. E, o que iria ser apenas um lanche, se transformou no seu jantar, comendo avidamente, porém com a elegância costumeira de todas elas. O pinto, que nem foi cumprimentado, comia pedaços menores rapidamente, correndo de um lado para o outro, numa sofreguidão que não combinava com o seu estado físico.
Quando o menino foi embora, Pomba subiu num resto de banco de uma praça no final da Travessa O Mossoroense, que deveria ser lúdica, observando o Rio Mossoró e alguns pescadores. Vez por outra, lufadas leves de ar mudavam a posição de suas penas na cabeça e dorso, realçando sua beleza. Olhos semicerrados, lembrava Gabriela a espera de Nagib.
Obviamente, o esquálido pinto, de olhar esperto e pidão, não conseguiu subir naquele banco. Ficou calado. Somente observando tão bela e desconhecida criatura. Sonhou por alguns instantes em ser um pássaro tão bonito quanto ela. Sonhou...
Foi quando ela virou-se e perguntou:
-E aí, Pinto? De onde tu vens, todo rasgado, magro e tão sofrido? Além do mais, sozinho! O povo da tua raça, feito os urubus, costumam andar em bandos.
A voz dele era fina, trêmula, mas explicou-se direitinho:
- Sabe, dona Pomba, eu nasci semana passada numa chocadeira lá para as bandas de Assu e vinha num caminhão em direção ao Ceará, numa caixa com outros 'irmãozinhos', quando o bicho bateu num quebra-molas (aqui tem um bocado, né?) perto daqui e eu escorreguei. Tonto e desorientado, terminei por chegar nessa beira desse rio, há uns quatro dias. Somente não morri de fome porque tem essa água azeda e porque não faltam muriçocas para comer. Aliás, Dona Pomba - Como é gostosa essa pomba! -, pense numa cidade para ter muriçoca!
Pomba gostou da sinceridade de Pinto. Era inteligente e colocava bem os pensamentos. Aos poucos, noite adentro, foi se afeiçoando a ele, até que resolveu levá-lo para o seu poleiro, o melhor do Teatro Lauro Monte Filho, na cobertura. Nem pensava mais em Pomberez e já imagina Pinto grande, galo cheio de tesão e esporas imensas. Vou é matar Pomberez de ciúmes! Ah, se vou? E foram.
No outro dia, quando Pomberez chegou da farra, encontrou Pomba de asas dadas com Pinto. Ensaiou uma briga. Quis expulsar Pinto, dizendo:
-Não admito traições! Mostre suas armas.
Pinto mostrou apenas uma. A única coisa que a natureza tinha lhe dado em abundância.
Pomberez, de olhos arregalados e ensandecido de pavor, voou em direção à Praça Vigário Antônio Joaquim, num vôo estabanado, quase se chocando com a estátua do Governador Dix-Sept-Rosado.
Passou uns tempos sem ser visto por aquela região e alguns companheiros alados acham que ele trocou aquele reduto pelos ares secos do Seridó, nas proximidades do Açude Gargalheiras, em Acari.
Com o tempo, Pinto se transformou num galo bonito, orgulhoso, grande e brilhoso. Comedor de pipoca, sem dispensar uma muriçoquinha - só para lembrar os velhos tempos -, vez por outra, e Pomba, agora meio despombalecida de tanto amor nas alturas, era só alegria.
Lá debaixo, as pombas e os pombos novos comentavam o milagre acontecido nas margens impuras do rio Mossoró: "É o casal Pinto Pomba! Amor para quinhentos anos".
Léo Sodré

“Muitos suspeitam que ele esteja ingerindo, nas caladas da noite, porções de comida ‘não contabilizada’. Mas, a julgar pelas manifestações oficiais do médico de Garotinho, o caixa dois dele não chegou à geladeira.”
Josias de Souza, Nos Bastidores do Poder, Folha Online

Carta ao corpo
“Esse corpo moreno, cheiroso e gostoso, que você tem, é um corpo delgado, da cor do pecado, que faz tão bem...”
Se pudesse abstrair-me de ti, meu corpo, cantaria esta canção e depois diria que estou bastante satisfeita por habitar-te. Sei que não és nenhum exemplar perfeito da espécie humana, mas, até agora, vens dando conta do recado. Através do teu ventre, já brotaram filhos e, nisto, cumpriste os preceitos do Senhor, quando disse: “Crescei-vos e multiplicai-vos”. Entre teus braços e coxas já se aninharam amores de vários matizes e, por mais diferentes e efêmeros que possam ter parecido, todos deixaram lições inesquecíveis - doces cicatrizes. Afinal, como sempre dizes parafraseando o poeta: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
E pequena não sou, meu pequeno corpo. Tenho uma sede enorme de saber e de viver. Quero, ainda, conhecer muitas ciências, tantos sabores, outros amores. Quero visitar países, navegar por diferentes mares, voar por outros ares. Quero sentir novos odores, olhar inusitadas cores, desconhecidas flores, cenas nunca dantes vistas. Quero, ainda, uma vida simples e muita natureza, pois, através dela, estou mais perto do meu Pai. Quero também o mar, sempre o velho e querido mar, princípio e fim de tudo; ver muito pôr-do-sol, tomar banhos de chuva, cachoeira, lagoa ou rio.
Hoje, escrevo para parabenizar-te, corpo amado. Mesmo próximo da esquina do meio século, ainda lutas por dias melhores. Que persistente – diria, até teimoso - és!
Claro, sabes que os tempos de limitações se aproximam, e, mesmo se preparando, queres ultrapassar barreiras, mudar paradigmas, derrubar ou não deixar que se estabeleçam velhas concepções culturais. Nesta nova bandeira que agora fazes flamejar, há muito amor, respeito, amizade. E consideração, em primeiro lugar por Deus e depois por ti mesmo, pois, se não te amas, quem poderá amar-te? Depois, pelos que cercam a ti, que dividem contigo momentos de lazer, prazer, labuta e dor; pelas verdadeiras amizades, que, com o passar dos anos, sedimentam-se e burilam-se como jóias raras; pelas antigas companhias, eternas sintonias e trocas de energias.
Quero, entretanto, que lembres que estarei sempre contigo analisando as opções; alertando sobre as encruzilhadas da vida; aguçando a sensibilidade; abrindo os canais para que faças escolhas bem conscientes, susceptíveis à lei universal da ação e reação, sem deixar-se iludir pelas miríades da paixão, pelos apelos dos instintos, pelo fascínio apenas da beleza.
Parabéns corpo querido, por não te deixar curvar sob o peso dos anos, pela dor das desilusões, decepções, sonhos desfeitos, esperanças adiadas. Sabes que, após cada tempestade, há um sol radiante; que há um tempo para amar, outro pra chorar; que a chuva pode inundar e a inundação fertilizar; que as estações sucedem-se e nunca estarás sempre alegre ou sempre triste. Respeitas e vives plenamente estes tempos, pois assim é a vida: feita de sucessões, passagens, de surpresas que trazem encantamentos ou pesadelos. E é essa sua riqueza. Que vivê-la com intensidade seja teu lema. Não há mais tanto tempo. Vamos buscar a essência das coisas verdadeiras; descobrir a porção de Deus que há nelas, e, um dia, quando tudo for apenas simples recordações, estaremos unidos, crescidos e prontos para novas jornadas.
Com amor,
Tua Alma.
Ana Cristina Cavalcanti Tinôco
PIADINHA DE VELÓRIO
Estavam conversando três ex-governadores, Zé Agripino, Garibaldi e Geraldo Melo e mais Miguel Mossoró, no velório de Aluízio Alves.
Entre eles, a pergunta era sobre o que queriam que as pessoas falassem na hora em que estivessem no caixão:
Zé Agripino:
- Apesar de ser adversário político de Aluízio, gostaria que falassem que também fui um homem público digno.
Garibaldi:
- Apesar de ser da família de Aluízio, gostaria que falassem que eu tive idéias próprias.
Geraldo Melo:
- Eu gostaria que falassem que fui um tamborete muito alto e que fiz muito pelo RN...
Aí, os três se viraram para Miguel Mossoró e perguntaram:
- Apesar de ainda não ter tido nenhum mandato, o que gostaria que falassem do senhor na hora em que estivesse no caixão?
Miguel Mossoró:
- Pra falar a verdade, a única coisa que eu queria que falassem de mim na hora em que eu estivese no caixão, era: Óia, ele tá se bulindo!
Mário Henrique

“Só a saudade reconstrói, no amor, outra esperança.”
11.08.1921 Aluizio Alves 06.05.2006
Tribuna do Norte

“Ele foi o maior líder político do Rio Grande do Norte.”Manoel de Brito
“No Rio Grande do Norte nunca houve alguém tão carismático, antes ou depois.”
Brasília Carlos Ferreira
"Ele foi um revolucionário que modificou todas as referências políticas.”
Laíre Rosado
“Apesar de um mito, sempre foi pragmático: tomava decisões políticas como um jogador de xadrez prepara suas jogadas.”
Roberto Furtado
“Aluízio sabia a exata dimensão da notícia”.
Cassiano Arruda Câmara
"Os que ficam no panteão popular são aqueles que falam fundo do coração do povo.”
Editorial do Diário de Natal

“Recado
Álvaro Moreyra, segui o seu conselho: As amargas, não.”
José Alexandre Garcia, abrindo o Acontecências e Tipos da Confeitaria Delícia

Zé Alexandre, o memorialista da boemia, completaria hoje 81 anos de idade.
Acontecências e Tipos da Confeitaria Delícia
José Alexandre Garcia
A Lata
Nos primeiros tempos, não havia W.C. ou simples mictório na Confeitaria.
Mijava-se numa desocupada lata de 5 quilos de ameixa, colocada num canto estratégico, não tão à vista da freguesia, mas também não tão oculta que dela não se apercebessem os necessitados.
Quando o conteúdo atingia os perigosos limites da borda, alguém dava o grito de alerta:
- Chega, Olívio, a bicha está cheia!
Aí, um garachué ou o próprio Portuga em pessoa, com infinitos cuidados para não respingar pelo chão ou sobre as próprias vestes, despejava-a em frente da Confeitaria, mas, de preferência, no meio-fio dos estabelecimentos vizinhos (se ninguém estava percebendo).
Quando era noite, assumia um olhar cúmplice e apontava a rua:
- Vire-se por aqui, mas cautela, meu rapaz, não me mije na porta da Confeitaria.
Aliás, dois vizinhos queixavam-se do intenso odor amoniacal, quando, de manhã levantavam as respectivas portas de ferro.
Eram Newton Rocha, o mais sociável dos sócios de Rocha & Irmão, e Aprígio Teixeira, vulgo Pipiu, que, de rústico homem de campo, tornara-se dono de farmácia, quando o velho e bonachão Dr. Guilherme resolveu aposentar-se.
Olívio fazia cara de inocente.
- Interessante, a porta do meu estabelecimento está sempre limpa.
Neste ponto, não resisto à tentação de contar uma história de Pipiu, que entendia de criação e plantação, boi, vaca, feijão macassar, casa de farinha e feitura de rapadura e jamais de artigos farmacêuticos.
Um empregado novato na casa equivocara-se com um pedido e, quando o freguês mui justamente reclamou, Pipiu sentiu-se no dever de passar uma reprimenda no funcionário, à guisa de satisfação ao freguês.
- Cuidado, menino! Numa troca de remédio, você mata um desgraçado deste e onde vamos parar? Ele no cemitério, você no olho da rua e eu na cadeia!
Escusado dizer que, assombrado com a perspectiva, o comprador nunca mais botou os pés nem na calçada da farmácia.
Mas, voltando à lata de Olívio, uma vez desenrolou-se uma quase tragicomédia entre o proprietário e José de Brito, irmão do despachante João de Brito, uma espécie de capataz dos ingleses em São Miguel e que, de raro em raro, vinha à capital.
Mas, quando vinha, tirava o atraso. Tomando uma Brahma braba, vingando-se das semanas e semanas de monotonia nos Cafundós de Judas, como justificava-se.
Naquela vez, acompanhou o irmão, assíduo do Português. Não sabia nada sobre mictórios, W.Cs. ou latas.
Depois de bem uma dúzia de cervejas, sentido a bexiga cheia, olhou dum lado e outro e, como não encontrou indícios do procurado, perguntou a João de Brito:
- Onde é que se verte água aqui?
- Ali, naquela lata – apontou displicente, o perguntado.
Zé de Brito levantou a dita cuja a jeito e chô, chô, chô.
Quando Olívio tomou ciência, a lata ameaçava transbordar.
- Cuidado para não me molhar o chão! – gritou.
E, de longe, com as precauções devidas, procurou entregar-lhe a lata sobressalente.
Zé de Brito, quando se aliviava, desligava-se do mundo. Parecia uma cachoeira caudalosa e interminável e não atinava como proceder à operação triangular de soltar a ferramenta, como chamava Gastãozinho, idem a lata cheia e apossar-se da substituta.
Olívio alarmava-se.
- Atenção! Atenção para não molhar as caixas de biscoitos!
Não houve jeito. Quando Zé de Brito abotoou a braguilha, a Confeitaria parecia ter sido lavada à mangueira, todo mundo com os pés levantados, em cima doutra cadeira, e Olívio e os garachués empenhados em sacudir água, passar creolina e enxugar o chão.

"Quem não tá bêbado, tá com inveja!"
Eugênio Meio Quilo
Yasmine Lemos

E tudo terminou em Samba
Correio da Tarde, 02.05.06
Alex de Souza
“Aqui vale tudo, vale declarar voto - se quiser pode até anunciar no megafone, vale propaganda, vale boca de urna, boca de fumo, vale tudo!" Calma, não precisa chamar a Justiça Eleitoral nem a Polícia Militar. É só o poeta Plínio Sanderson, presidente da comissão eleitoral, explicando como funciona a democracia na Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (Samba). A eleição para a diretoria da associação de boêmios mais pitoresca da cidade movimentou a tarde de sábado no Cento de Natal.
A urna foi liberada às 11h, sob um sol de rachar, na esquina das ruas Coronel Cascudo e Doutor José Ivo, em frente ao bar Quatro Cantos. Inscritos no "livro marrom" do Beco, 322 figuras estavam aptas a exercer o direito etílico de escolher a nova diretoria.
Mas, convenhamos, ninguém acreditava que o Beco tivesse tanto freqüentador assim. O "livro marrom", com a lista dos votantes, era uma esculhambação - mas de respeito. Cada página vinha com o nome do votante, ou o número da carteira de identidade, ou um apelido, ou só o número telefônico. Para evitar a presença de fantasmas, cada chapa tinha um fiscal, com uma cópia dos votantes, e cada voto era marcado nas duas cópias. Daí, não era de se estranhar se demorasse um pouco para localizar o nome de alguém.
Quem chegava, fazia sua fezinha num dos candidatos, o jornalista Alex Gurgel e o professor Ubiratan Lemos, o "Professor Bira", e ia engrossar a boca de urna no Bar de Nazaré, na expectativa da apuração dos votos, programada para as 17h30, no Bardallos.
Nas pesquisas de mesa em mesa, uma coisa era certa: mais do que 100 votantes e o resultado seria uma incógnita. Menos que isso, dava Professor Bira. O candidato Alex Gurgel, já pressentindo o pior, reclamava da 'politização' do pleito. "O 'PCdoBeco' e o PT vieram votar em peso, o que vai pesar na hora do resultado", declarou.
E foi dito e feito. Às 17h, a urna foi fechada, para tristeza do professor Giancarlo Vieira e do sebista Harrison Gurgel, que chegaram com dois minutos de atraso. A comissão eleitoral conferiu o número de eleitores que compareceram e pediu a conta, ao som de Lapada na Rachada. Deu R$ 29: seis cervejas, um prato de macaxeira com carne-de-sol, um refrigerante e um burrinho de cana. "Assim, queria ver faltar mesário. Fica a sugestão para o TRE", declarou Plínio Sanderson.
A festa se transferiu para o Bardallos, para tristeza de Dona Nazaré. Lá, o primeiro aviso foi proferido pelo megafone: "Faltam cinco minutos para a abertura da urna, favor trazer uma cerveja para a mesa de apuração." Quando a apuração chegou à metade, todo mundo já sabia que o Professor Bira tinha levado.
O que ficou difícil foi saber o número exato de votantes. A primeira contagem de 100; a segunda, 99; teve uma até que findou em 98; e, por fim, confirmaram 100 votos. Eleição de boêmio...
No final, o agradecimento dos candidatos, o discurso do eleito e a despedida de Eduardo Alexandre, o Dunga, da presidência da Samba. Ainda teve um gaiato que gritou: "Ele tá bêbado." Mas o professor Eugênio Soares rebateu de pronto: "Quem não tá bêbado, tá com inveja!" Ah, ia esquecendo: o resultado oficial. Professor Bira levou 72 votos, Alex Gurgel teve 26 votos e dois malucos conseguiram a façanha de anular o voto.
Alex de Souza
Dando vida ao CentroA Samba vem desenvolvendo um trabalho de resgate do Centro Histórico de Natal desde que foi fundada. De uma pequena agremiação de boêmios criada meio que na galhofa, a Sociedade ganhou destaque nos últimos dois anos, sob a presidência do poeta Eduardo Alexandre, com o desenvolvimento de atividades como a Lavagem do Beco, que mobilizou artistas e intelectuais para a importância do local, o Carnabeco, uma aposta na folia tradicional, e o Pratodomundo, o festival gastronômico com iguarias dos botecos da região.
O presidente eleito, Professor Bira, pretende dar continuidade a esses projetos. E quer também aumentar a mobilização dos artistas que freqüentam o espaço. "Queremos reforçar o compromisso com o resgate e conservação do Centro Histórico e abrir espaço para movimentos culturais alternativos e demais movimentos sociais", declarou. Um proposta de Bira é o "Dê uma hora ao Beco", projeto que visa ajudar as crianças de rua que freqüentam o Centro da Cidade. "É muito bom a gente se divertir, mas não custa nada tirar só uma hora do dia para ajudar", explica.
O poeta Cefas Carvalho lança na Livraria Siciliano, do Midway Mall, hoje, a partir das 19:00h, o seu terceiro livro: Reinvenções.MADA
Começa hoje, na Arena do Imirá Plaza, Via Costeira, o festival Música que alimenta a alma
21:00h - Coletivo Rádio Cipó (PA)
21:30h - Zerooitoquatro (RN)
22:00h - Montgomery (RN)
22:30h - Macaco Bong (MT)
23:00h - Neguedmundo (RN)
23:30h - Volver (PE)
00:00h - Dusouto (RN)
00:30h - Agregados FDR (RN)
01:00h - Pavilhão 9
01:40h - O Rappa
Retrovisor
Também hoje, às 21:00h, no Veleiros Restaurante - Ponta Negra: Khrystal.
Quem não viu o show anterior do Retrovisor, não deve perder esse de jeito nenhum.
Muito rock. Ritmo.
Khrystal não perdoa, não economiza, ataca, beija, alisa... comunica!
Vai perder?????
Valeria Oliveira
Projeto SEAWAY CULTURAL
Olha o futebol aí, gente!
Nesta Quinta-feira, às 21:00h a cantora ELIS ROSA apresenta o Show A MPB NO FUTEBOL, temporada que começou em Abril e vai seguir por este mês, nos dias 12, 20 e 26, além do mês de junho até o Brasil finalizar sua participação na Copa. Pixinguinha, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Fagner, Zeca Baleiro e Chico Buarque serão cantados exaustivamente pela craque Elis Rosa e sua banda.
Zé Dias
Hoje - ELIS ROSA canta o futebol na MPB, às 21:00h;
05/maio/06 - SEXTA-FEIRA - CIRLEIDE ANDRADE canta DICK FARNEY, às 21:00h;
06/maio/06 - SÁBADO - SUELDO SOARES, em show acústico, às 21:00h
07/maio/06 - DOMINGO - ARIANE com show instrumental de violino e
bandolim, às 20:00h.
Espaço América
Programação.
QUINTAS, 18:30h
MÁRCIO ARAÚJO
JAZZ E BLUES COM PAULO SARKIS E NEEMIAS LOPES
SEXTAS, 18:30h
MÁRCIO ARAÚJO
A FLAUTA DE CARLOS ZENS E GRUPO
SÁBADOS, 12h
MÁRCIO ARAÚJO
GRUPO REGIONAL CHORO & CIA
ESPAÇO AMÉRICA
Av Rodrigues Alves. Tirol. Ao lado da Academia Athlética.
Informações: 3201.3800
ESPAÇO EMPREENDEDOR
A Agência Cultural SEBRAE/SESI, em continuidade às atividades do ESPAÇO EMPREENDEDOR, realizará mais um encontro com os agentes culturais da cidade. Desta vez, o palestrante será o produtor cultural IVAN FERRARO, fundador e vice-presidente da Associação dos Produtores de Discos do Ceará (PRODISC) e idealizador da Feira da Música de Fortaleza.
O encontro ocorrerá no dia 09 de maio e terá como objetivo principal evidenciar a possibilidade de intercâmbio entre a experiência das ações coletivas do segmento musical cearense, que nesta oportunidade estará compartilhando informações sobre: o associativismo - caso do PRODISC - iniciativas, dificuldades, responsabilidades coletivas e resultados, bem como o evento consolidado da Feira da Música de Fortaleza, como ferramenta de desenvolvimento do mercado musical da região nordeste.
O ESPAÇO EMPREENDEDOR é uma iniciativa da Agência Cultural SEBRAE/SESI para a aproximação dos agentes culturais e econômicos do Rio Grande do Norte, possibilitando assim, um espaço para a troca de informações, apresentação de propostas coletivas, palestras, bate-papos presenciais e outras formas de comunicação que promovam o fortalecimento do empreendedorismo cultural.
Data: 09/05/2006
Hora: 17:00 horas
Local: sede da Agência Cultural SEBRAE/SESI – Solar Bela Vista
Av. Luís da Câmara Cascudo, 417 - Cidade Alta
Informações : 3201.1131 e 3215.4990
agenciacultural@rn.sebrae.com.br
www.agenciacultural.com.br

"Ainda que consagrado pelo tempero libertário, o universo do Beco da Lama é democrático. Principalmente quando o assunto é o convívio humano. A rotina da região é feita sem distinção. Da anarquia à direita. Da esquerda ao que sobrou do paraíso. É onde o guardador de carros e o deputado passam para tomar a saideira antes de voltar para casa."
Rafael Duarte, repórter de Tribuna do Norte
Yasmine Lemos

Saudação ao Beco
Beco da Lama
Beco da fama
Beco dos poetas
Beco dos boêmios, dos tristes e dos alegres.
Beco dos homens, das mulheres e dos similares.
Beco do galo, da cabra e da borboleta.
Beco dos vinte e cinco, da rifa e do rei de ouro.
Beco da cachaça, da meladinha e da gelada.
Beco do fogo do cigarro e da fumaça.
Beco da galinha, do carneiro e do guisado.
Beco do sapateiro, da bota e do chinelo.
Beco da tarde, do sol, da noite e da perdição.
Beco dos iguais, do cachorro que late e do gato que passa.
Beco dos diferentes, dos agregados e dos que passam.
Beco lúdico, libertino e santo.
Beco de todas as cores, dos pecadores e do perdão.
Beco que Deus toma de conta.
Beco de Iemanjá e de todos os orixás.
Beco que nasceu beco e só quer ser beco.
Beco que nem liga para ser rua, mas quando a noite chega
Há briga de estrelas para iluminá-lo.
Amém
Jobel Costa
Beco Vivo da Lama
Regadas a caldo de mocotó e cerveja, as eleições da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências agitaram o centro antigo no último sábado. O vencedor foi Ubiratan Lemos, o professor Bira, da chapa Beco Vivo.
Karl Leite
02/05/2006 - Tribuna do Norte Rafael Duarte - Repórter
Caldo de mocotó, “churrasquinho de gato” e cerveja gelada. Tudo isso no meio da rua com a população desavisada, mas de olho na urna instalada no coração do Beco. Na medida certa para consagrar o novo presidente da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (Samba) - entidade organizada há 14 anos para levantar a imagem de um dos pontos mais tradicionais da cultura boêmia de Natal - na primeira eleição direta da história da comunidade.
O pleito ocorreu sábado passado em frente ao bar Quatro Cantos (antigo bar do Nasi) e “lavou” o Beco. Agora, a responsabilidade pela gestão da Samba, durante os próximos três anos, está nas mãos do professor de xadrez e matemática Ubiratan Lemos, de 43 anos. Ele encabeçou a chapa Beco Vivo e conquistou 72 dos 100 votos válidos. A concorrente, liderada pelo jornalista Alex Gurgel, Sempre Samba, teve o apoio de apenas 26 pessoas. Dois sócios anularam o voto.
Ao todo, 322 eleitores estavam aptos a escolher o sucessor do poeta e jornalista Eduardo Alexandre (Dunga), segundo presidente da história da Samba e reconhecido pelo trabalho que fez à frente da entidade. A posse da nova gestão deve ocorrer no dia 13 de maio, durante o I MPBeco.
Professor Bira diz que o grande projeto para o Beco é social
Yasmine Lemos
Poeta, comunista, libertário, casado, pai de uma menina e freqüentador do Beco há 18 anos, o “Professor Bira” acredita que a vitória veio pelo empenho dos 38 componentes de chapa. Ele prometeu equilibrar as ações culturais e sociais da região ao lembrar que o carro chefe da campanha, o projeto “Dê uma hora ao Beco”, pretende ocupar a juventude que freqüenta o Beco da Lama e as adjacências, como a praça André de Albuquerque. “Vamos manter e ampliar os projetos culturais desenvolvidos pela gestão passada, porque ninguém é doido de fazer o contrário se deu certo. Mas o grande projeto da gente é social. Aqui tem muito jovem abandonado, menino de rua mesmo, sem ter para onde ir. Acho que temos o dever de mudar isso. E não vai custar nada. Vamos pedir que quando os freqüentadores vierem tomar sua cerveja, que cheguem uma hora mais cedo para orientar, ensinar e passar alguma mensagem para a juventude que cresce aqui. No Beco a gente tem artista, jornalista, advogado, professor... A idéia é fazer uma programação e até remunerar esse pessoal”, explicou.
O plano prevê parcerias com empresas privadas através das leis de incentivo à cultura. “Nosso primeiro contato será com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) para mostrar as idéias e tentar acertar um apoio. A gente tem que ocupar essa garotada. Todo mundo tem que participar”, disse.
Bira conta que seu nome surgiu entre os “amigos de copo” quando a chapa concorrente já havia sido definida. No entanto, o nome de Alex Gurgel não foi digerido pelo grupo, segundo ele, pela ausência do jornalista nos principais eventos realizados no Beco. Na verdade, o Beco da Lama ganhou tanta visibilidade nos últimos anos por conta dos eventos organizados pela Samba com o apoio do Estado, que a eleição teve uma importância ainda maior para a comunidade que freqüenta o local. Prova disso é que em vez de um grupo apontar um nome para administrar a Samba, como ocorria até então, pela primeira vez na história do Beco o pleito foi decidido através de votação direta.
De fato, por atrás do discurso fraterno do vencedor, havia uma declarada disputa de terreno. “Todo mundo das duas chapas se conhece, toma cerveja junto. Mas o Alex é muito recente aqui. Quando ele anunciou a candidatura, vieram me perguntar se a gente ia deixar ele tomar o Beco da gente. No I Carnabeco, ele não apareceu, no I Pratodomundo, também não veio. Acho que não chegou a vez dele”, disse.
Procurado pela reportagem ainda durante a votação, Gurgel desmentiu o concorrente e criticou algumas propostas da Beco Vivo, como o “Tributo à Che Guevara” que, com a vitória de Bira, deve ocorrer durante esta gestão.
O jornalista centrou suas propostas na área cultural e defendia a construção de uma sede para a entidade. “Essa história de que eu não estava aqui nos eventos é conversa fiada dele. O problema é que eu dou aula no sábado e não posso chegar aqui mais cedo. Agora, eles têm umas propostas que não entendi. Homenagear Che Guevara!? A gente tem tanta gente importante do nosso Estado que poderia ser valorizada, como Newton Navarro, Câmara Cascudo, Auta de Souza... e eles querem fazer um tributo à Guevara!? O Beco tem que valorizar a cultura da terra”.
Mesmo diante das provocações veladas e tão comuns em eleições, a votação ocorreu num clima de harmonia até às 17h, quando a comissão eleitoral divulgou o resultado. Daí para frente não mudou muita coisa. Mais caldo de mocotó, “churrasquinho de gato” e muita cerveja gelada.
A fauna do Beco só cresce
Yasmine Lemos
Marcos Boi, Ajax Felipe, Zé da Pindoba e Anaxágoras de Lima. Artemilson, Robério “O Coisa” e Biba Thompson. Paulo Zero Grau e Adebal Galego Feio. Assim de supetão, a relação parece a escalação de um time de pelada. Mas estavam todos lá marcando presença. Titulares absolutos da lista de sócios da Samba. Afinados para a escolha do presidente mais popular do Beco.Ainda que consagrado pelo tempero libertário, o universo do Beco da Lama é democrático. Principalmente quando o assunto é o convívio humano. A rotina da região é feita sem distinção. Da anarquia à direita. Da esquerda ao que sobrou do paraíso. É onde o guardador de carros e o deputado passam para tomar a saideira antes de voltar para casa.
Ponto de encontro de artistas, jornalistas, advogados, professores e autoridades, o Beco, hoje, tem mesa reservada até na Câmara Municipal de Natal, onde cinco vereadores montaram o que a boemia local chama de “bancada do beco”. A idéia é trazer à tona carências como questões de infra-estrutura ligadas ao espaço.
O presidente da Comissão Eleitoral que organizou o pleito de sábado, Plínio Sanderson, contou que o grupo de parlamentares incluiu no orçamento geral deste ano uma verba de R$ 300 mil para a urbanização do Beco. “O Beco hoje está precisando de ajuda. Está sujo, largado nesse aspecto”.
Cerveja e nome na lista
Em dia de eleição, regra é regra até no Beco da Lama. É verdade que a boca de urna estava institucionalizada pelo megafone na mesa da comissão eleitoral - usado pelo sócios que quisessem declarar o voto. Mas só votou quem tinha o nome na lista. Ainda assim, alguns “companheiros de copo” desavisados insistiam em participar.
O caso mais curioso foi o de uma senhora meio “alta” com pinta de alemã que se identificou, atropelando as palavras e depois de muita discussão, como artista plástica Josineide Varela, de 63 anos. Ela queria votar de qualquer jeito, mesmo admitindo que não conhecia os candidatos nem as chapas concorrentes.
A cena não chegou a ser um “barraco” (não passou de um bate-boca com o candidato pela chapa Sempre Samba, Alex Gurgel) mas valeu pelo inusitado e para mostrar porque o Beco da Lama é considerado ainda o ponto mais rico da boemia natalense. Eis os “melhores momentos” do diálogo entre Josineide e Alex Gurgel:
Yasmine Lemos
Josineide: Eu gosto de chutar (faz o movimento rápido como se levasse o copo à boca) por aqui. Mas onde é que a gente vota?Alex: O nome da senhora está na lista?
Josineide - Que lista, meu amigo! Venho aqui todos os dias. Só quero votar...
Alex - Mas a senhora só pode votar se tiver o nome na lista. Se não tem, não vota.
Josineide - Como é que é? Você vai me dizer agora como eu devo fazer, é? Minha mãe morou por aqui a vida toda! Todo mundo me conhece aqui. Vou votar sim.
Alex - Minha senhora, entenda - é uma regra. Imagine se todo mundo que quisesse votar viesse para cá? Não ia ter condições. Se o prefeito de Natal quisesse votar hoje ele não podia porque o nome dele não está na lista. Me diga porque a senhora votaria?
Josineide - O que é isso, meu amigo!? O prefeito é uma autoridade! Você não pode fazer isso. Vou votar e ainda trouxe dois amigos que vieram da Alemanha para votar também.
Alex - Minha senhora, não pode! A senhora conhece pelo menos os candidatos que estão participando da eleição?
Josineide - E eu lá quero saber de candidato, meu amigo! Vou votar no melhor. Me diga uma coisa - vocês têm sede?
Alex - Não.
Josineide - Meu amigo, vocês não têm nem sede e ainda querem me impedir de votar? Como é que pode?
Alex - Mas se a senhora não sabe nem quem são os candidatos...
Josineide - E você lá conhece algum candidato!
Alex - EU SOU CANDIDATO! Tá vendo? Como é que a senhora quer participar se não sabe de nada?
Josineide - Olha aqui, quero uma cerveja. Não dá para conversar com você sem tomar cerveja.
Alex - Tem vários bares aqui...(ele aponta para a região)
Josineide - (Depois de entrar e sair do bar em frente, onde a discussão se dava, ela volta provocando) Aqui não tem cerveja. Quero votar.
Alex - Eu já lhe disse que a senhora não vai votar.
Josineide - Que absurdo! Você sabe por que isso está acontecendo?
Alex - Porque a senhora não tem o nome na lista...
Josineide - Não! Porque não tem organização! Isso é coisa de brasileiro! O Congresso Nacional só tem safado. Isso o que está acontecendo aqui é uma sacanagem...
Alex - A senhora está misturando as coisas. Não tem nada a ver uma coisa com outra. Aqui é a eleição da Samba.
Josineide - De quem? Está vendo? Até o nome é uma porcaria (diz o nome Samba com desdém e dança na frente do repórter e do candidato numa cena que lembrava as chanchadas da década de 70).
Alex - Mas Samba é Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências. Olhe, a senhora não sabe nem o que significa o nome da entidade. Quanto mais votar...
Josineide - Olhe aqui, meu amigo: eu vou me candidatar à vereadora nas próximas eleições e ainda vou ter mais votos que você! Agora eu vou tomar uma cerveja e depois vou votar, você não vai me impedir! (depois de se despedir, ao seu estilo, Josineide vai até à urna e fala alguma coisa para o mesário, que balança a cabeça negativamente. Em seguida, ela resmunga, olha para o lado e entra no bar mais próximo, atrás da famigerada cerveja).

“A Bolívia decidiu nacionalizar a exploração dos negócios de petróleo e gás no país. O presidente Evo Morales ordenou a ocupação pelo Exército dos campos de produção das empresas estrangeiras no país, entre elas a estatal brasileira Petrobras.”
Da Folha Online

O CASAMENTO DE NEZIM COSTA
Manoel Costa morava na fazenda Oiticica, no limite entre os municípios de Sítio Novo e Santa Cruz. Filho de uma família de agricultores, tinha nove irmãos e era o mais velho.
Desde cedo, começou a trabalhar na lavoura e nas atividades do sítio, para ajudar os pais a criar os irmãos. Tirava leite, ajudava a fazer queijo, amansava garrotes para a campinadeira, enfim, como ele próprio falava: faço de um, tudo para ajudar meus pais na lida da Oiticica.
Nezim , como era chamado, gostava muito de trabalhar e era por demais controlado nos gastos. Católico fervoroso, rezava todas as noites para a sua santa de devoção, Santa Rita de Cássia. Assistia três missas por ano: a da sexta-feira da Paixão; 22 de Maio (missa de Santa Rita) e; a Missa do Galo, no fim do ano.
Todos os sábados, Nezim pegava o caminhão de Zé Beiju, para ir à feira de Santa Cruz. Passava na feira do gado para saber como estava o preço do boi, do bode e até de burro mulo, cavalo, etc.
Depois, passava na usina de algodão para comprar torta de caroço para as vacas de leite e os bois de campinadeira. Por volta de 11 horas, pegava o primeiro transporte que passasse na fazenda e voltava pra casa. Almoçava, ligava a forrageira e preparava a ração do gado do curral.
Os irmãos mais novos de Nezim começavam a tomar cachaça logo cedo na feira do gado, depois desciam pro cabaré, pra dançar forró e namorar com as cabôcas novas que vinham de Cuité, Campina Grande e de outras cidades e gastavam o dinheirinho que ganhavam na semana.
As irmãs casaram muito novas e foram mudando da fazenda, umas pra cidade, outras para outros sítios onde moravam seus maridos. Depois, os irmãos foram morar na cidade, trabalhar de pedreiro ou de servente, e dois deles foram pra São Paulo, em busca de trabalho melhor remunerado.
Nezim ficou só com o casal de velhinhos, que, por ironia do destino, morreram de pneumonia, no frio de Julho. O velho Costa morreu na véspera de São João e Sinhá Leopoldina, na noite de São Pedro.
A tristeza tomou conta da Oiticica, enquanto durou o luto pelos pais de Nezim. Os irmãos vieram visitá-lo, as irmãs davam conselhos pra Nezim arranjar uma companheira, pra não ficar tão sozinho naquele casarão.
Nezim, que de sexo não entendia nada, nunca tinha ficado com mulher e brigava com os irmãos, quando flagrava algum deles escanchado na jumentinha de carregar água do barreiro, para a serventia da casa.
Um ano depois da morte de Seu Costa, o luto tava desfeito e Nezim resolveu atender o convite das irmãs e foi a uma festa de São João, no Saco de Dentro, terras de João Valentim, no município de Lages Pintadas.
Chegando lá, tomou a tradicional "chamada de cana", coisa que ele só fazia aos domingos, antes do almoço. Tomou mais uma e mais outra, com pamonha, milho assado e rolinha torrada.
Nezim, pela primeira vez, sentiu o efeito inebriante da aguardente. Ficou surpreso ao saber como era bom. Quando se deu conta, já estava dançando com Ritinha, viúva de Zacarias Nó Cego, que foi morto a faca, na bodega de Luis Baeta, em São Bento do Trairi.
Ritinha, esquentada e experiente, pegou o solteirão pelo braço e levou pro salão, pensando mais nas economias do gajo do que no homem bom que era ele. Mas ficou surpresa e contente, quando sentiu nas pernas se avolumar a virilidade daquele fazendeiro que a única vez que sentiu um orgasmo, foi em um sonho, onde acordou assustado pensando que estava tendo uma agonia.
Depois da festa, até o casamento, foi um pulo. Ritinha tinha o nome de sua santa de devoção e fazia-o sentir umas coisas que nunca sentira antes, danado de bom.
A festa foi simples como era ele: com um paletó do seu velho pai, ele casou. Foram pra Oiticica, onde Nezim mandou matar um boi erado, que estava cevando, com 25 arrobas.
Dançaram bastante, até que Ritinha, com o efeito do conhaque São João da Barra, um afrodisíaco do sertão, pegou o marido pelo braço e levou para o quarto.
Chegando no quarto, na mesma cama que fora de seus pais, Nezim estremeceu. Ritinha percebendo, apagou a lamparina e puxou-o para a cama, já se desfazendo das roupas.
O rapaz era só virilidade e não tinha certeza de como fazer as coisas. Ritinha conseguiu trazê-lo pra cima dela e o coitado, muito desajeitado, encostou o peito no seu rosto, como quem quer esconder a vergonha e, numa agonia feroz, numa tremedeira violenta, gozou no umbigo da noiva.
Foi quando Ritinha, cheia de desejo, falou pra Nezim:
- Não é aí não, Nezim. É mais embaixo.
Nezim retrucou:
- Espere, muié! Ainda tem um lugázim mió do que esse?
Frei Carmelo

Hugo Macedo©