segunda-feira, janeiro 30, 2006

COM RAPARIGA E TUDO

Marcus Ottoni


"Deseja-se convencer o eleitorado de que ele deve se dar por satisfeito com a ausência de alternativas. Ou vamos de Lula X Serra ou de Lula X Alckmin. E ponto final. É como se o país estivesse condenado a uma espécie de quarto mandato à FHC.

Em 2006, a pregação de campanha talvez possa ser resumida num único não: não voltaremos a fazer as coisas que fizemos. A plataforma serve tanto para PT quanto para PSDB. E quem quiser que acredite.

Enquanto Lula decide entre o ser e o não ser e o PSDB opta entre o chuchu e o pepino, você, caro leitor, pode refletir sobre a armadilha que estão lhe aprontando. Caia no Fla-Flu das pesquisas, se quiser. Ou cobre um pouco mais de consistência no debate eleitoral."

Josias de Souza


Ilustração: Léo Sodré Foto: Hugo Macedo


Aventuras de Paulinho a cores
Bar de Fátima


Paulinho é uma figura muito conhecida em Natal, filho de Raimundo Barros, conhecido como Raimundo do Cartório, Raimundo Perna Santa ou Raimundo Lombo Preto. Era tabelião do sexto cartório, situado no Cantão das Cocadas, assíduo freqüentador do Bar de Nasi, no Beco da Lama.

Paulinho, que só estudou até a terceira série do primeiro grau (diz que não terminou o colégio, porque faltou tijolo), fez um acordo com o pai para que o apurado do cartório na sexta-feira ficasse pra ele. Depois desse dia, ele começou a trabalhar: foi a todos os clientes que gostavam de pagar na segunda, pra dizer que daria mais quatro dias de prazo, pois "a partir daquela data só precisaria pagar na sexta."

Depois disso, já cheio de dinheiro no bolso, com a renda polpuda do cartório, arranjou uma namorada muito bonita, chamada Fátima. Rapidamente, apaixonou-se por ela, que além de bonita e carinhosa, era muito experiente no assunto de sexo.

Ora, Paulinho a cores (tem um olho cinza e outro verde), também conhecido por Paulinho Feio, ficou encantado com a namorada e resolveu fazer-lhe todos os gostos. Comprou uma casa na Redinha pra ela e instalou um bar na Bernardo Vieira, esquina com Hermes da Fonseca, a Quinze. O bar era situado onde hoje é a passarela do “midueimól”.

Fátima que era filha de um soldado da polícia, morava com os pais na Redinha e trabalhava no bar, que tinha um balcão e mesas no térreo e uma mesa de sinuca no primeiro andar.

Antônio Mecânico, que tinha uma oficina na quinze, só vivia no bar tomando cachaça e jogando sinuca. Saía pela bola cinco e terminava o jogo de uma tacada só. Com alguns mais afoitos, ele jogava só com uma mão, apostando, e nunca perdia. Só não conseguia ganhar de Paulinho. Quando iam jogar, o taco de Antônio espirrava, ele arriscava bolas fáceis e errava, então, Paulinho, tranqüilo, proprietário do lugar, derrotava o mecânico.

Um belo dia, depois de uma farra pesada, Paulinho foi pegar Fátima em casa às cinco horas da manhã. Quando chegou, acionou a buzina do “bugue”, um Selvagem zerado, acordando todo mundo. A mãe dela apareceu, dizendo que Fátima havia ido para o bar receber umas bebidas. A Cores extranhou: receber bebida às cinco da manhã? Mas, resignado, foi ao encontro da amante no bar.

Quando se aproximou do local, percebeu que o bar estava fechado, mas, como tinha uma cópia da chave, resolveu dar uma olhada. Abriu a porta e, no térreo, estava tudo calmo, não tinha ninguém. Foi quando ele escutou um gemido, que, a princípio, julgou que fossem dois cegos fumando, um passando o cigarro para o outro e se queimando: aiii, uiii, aiiii, uiii...

Resolveu subir à sala do sinuca para checar. Sacou o Taurus 38, niquelado, cano curto, e começou a subir os degraus, de costas para livrar o flagrante. No meio da escada, ele resolveu espreitar e viu as pernas de Fátima ainda com a sandália japonesa nos pés, abertas, apontando pro teto e, no meio delas, Antônio Mecânico, com as calças arriadas, saindo pela bola cinco. Foi o suficiente.

Paulinho saiu em disparada, resmungando:

- Por isso que eu nunca perdi no sinuca pra esse filho da puta.

Começou a gritar na frente do bar:

- Quem quiser comprar uma casa barata na Redinha, ainda leva um bar de lambuja, com rapariga e tudo.

Frei Carmelo

por Alma do Beco | 3:29 AM | | Ou aqui: 0




domingo, janeiro 29, 2006

NO BARRO VERMELHO

Marcus Ottoni



"O candidato Lula de 2006 não tem nada de mito, nem de promessas."
Eliane Cantanhêde

Ilustração: Léo Sodré Foto: Hugo Macedo



Eixo

Na distância
de dois corpos
compreensão absoluta,
atritos inexistentes,
virtuais encontros
Perfeitos, solúveis,
Ilimitados de saudades,
virtuais…

Deborah Milgram



Teus seios fartos, querida;
lindos e maravilhosos,
que nem pêssego, por fora,
aveludados, sedosos;
deixam-me aceso, à espreita,
têm a medida perfeita,
para os meus lábios gulosos...

Bob Motta




PONTE JERÔNIMO DE ALBUQUERQUE MARANHÃO

Conversava essa semana com Aroldo Martins, colega dos tempos de Marista e escritor do melhor e sintético calibre.

Aroldo escreve sobre Natal, sua história e causos, sua gente.

E ele, em seu grande amor pelas nossas dunas e mangabeirais, sentenciava:

- Não existe uma avenida, rua, beco, qualquer logradouro em Natal que homenageie o fundador da cidade.

E sugeriu que a ponte Forte/Redinha recebesse o nome de Jerônimo de Albuquerque Maranhão.

Não sei se falta a homenagem ao fundador. Se há, deve ser tão pífia que não chega ao conhecimento do cidadão natalense.

Escrevo essa nota para firmar a sugestão do amigo. Concordo com ele.

Seria uma forma de chamar para a História o cartão postal que breve estará caracterizando a cidade.

Ponte Jerônimo de Albuquerque Maranhão, uma justa homenagem ao esquecido fundador da cidade do Natal.

Eduardo Alexandre



A Manga e o Sal

Na minha infância, quando morava na rua que leva o nome do poeta Segundo Wanderley, no Barro Vermelho, onde ainda hoje habitam os meus pais, uma das minhas maiores realizações era subir na frondosa, centenária e, até então, surpreendentemente produtiva mangueira que ficava no extenso quintal.
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Aquela mangueira, com suas belas e rosadas mangas, era o playground da minha infância. No seu topo eu passava tardes e manhãs (à noite, como uma caverna, a árvore era habitada por felizes morcegos), aventurando-me, como num filme de Tarzan, escalando as alturas arriscadas, colhendo e largando os frutos pesados e doces que desabavam por entre as folhas longas e lustrosas e os galhos esverdeados, produzindo um som sibilante peculiar até o barulho retumbante da queda. A queda, que eu mesmo experimentei um dia e que causou um dos maiores sustos que minha mãe já teve na vida: o filho prostrado no chão, de bruços, próximo a um ciscador com as pontas de ferro oxidado viradas para cima. Foi só o susto do baque. Nenhum órgão ou osso avariado. O trauma, no entanto, fez com que eu demorasse a voltar aos galhos daquela árvore.
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Essa queda, a primeira forte, símbolo de outras que viriam na minha existência, também experimentou meu irmão mais velho, Jansênio, maior expressão de aventureiro – e eu buscava imitá-lo – que se apresentava na época. Caiu de uma altura maior, mas, como eu, não chegou a quebrar osso, para alívio momentâneo de todos, pois as incursões à nave da mangueira voltavam a se repetir pouco tempo depois.
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Certo dia daquela época, esse mesmo irmão, revoltado temporariamente com uma negativa paterna de alguns dinheirinhos, decidiu dar o troco das moedas que não recebeu, preparando a cena: subiu até o ponto mais alto, ali onde os galhos se retorciam – ciosos de não poderem mais crescer – e ameaçava se jogar. Papai, à porta, dizia que iria chamar os bombeiros. Eu ria, incrédulo da cena. Lembro-me que o único efeito doloroso disso tudo foi um grande galo na minha cabeça, realizado pela mão paterna, que, fechada, rápida e certeira, atingiu meu cocuruto na hora em que me esbaldava no riso.
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Na mangueira subiu também uma vez o meu irmão Janair que logrou realizar um dos maiores dramas da minha infância, quando, aos berros que se ouviam em quase todo o Barro Vermelho – da Jaguarari até a Olinto Meira, da Segundo Wanderley até a Meira e Sá – se desesperava, afirmando que as abelhas estavam o atacando. A cena era patética e assustadora. Hoje, graças a Deus, somente risível. Meu irmão, longilíneo como sempre foi, preparava-se para saltar, de pé sobre um galho forte. Um dos outros manos estava sob a mangueira, com os braços abertos, aguardando o tombo, como se pudesse segurar aquele varapau que perigava se precipitar lá de cima. Até que a coragem apareceu (ou a platéia) e o que estava trepado desceu, aos gritos e choros, ralando-se todo pelo tronco espesso e verrugoso da árvore fantástica.
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Não me lembro de minha irmã Jaiana, ou o meu irmão Jaime, terem se arriscado nos braços daquela planta majestosa. Preferiam o perfume e o sabor dos frutos carnudos, fibrosos e suculentos, debaixo da bela e agradável sombra (que nos períodos de entressafras – porque não corríamos o risco de termos a cabeça atingida por um bólido cor de rosa – era o nosso lugar predileto de estudos).
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Hoje são só lembranças. Nesses dias de verão, a mangueira, aquela mangueira única e inesquecível que se tornara quase um membro da família, já não vive, atingida que foi pelo cupim. Resta o sabor da memória. O sal da lágrima que embota o olho saudoso de quem viveu aqueles dias felizes e ingênuos. Esse mesmo sal que era melado e aplicado ao fruto sensual e colorido, que sorvíamos como o seio materno, lambuzando de paz e de conforto os nossos rostos e espíritos infantis.

Lívio Oliveira




O RICO E O POBRE

Rico recebe conselhos,
o pobre leva cacete.
O rico caga dejetos,
o pobre caga tolete.

Piroca de rico velho,
anda um pouco adormecida.
A do pobre, já se sabe,
chamam logo a falecida.

O rico espera o porvir,
porvir do pobre já foi.
A moça rica menstrua,
a moça pobre tem boi.

Lixo de rico é detrito,
lixo de pobre é munturo.
O rabo do rico é ânus,
o do pobre é cu, no duro.

Moça rica é muito linda,
a moça pobre é careta.
Xoxota de rica é vulva,
na pobre, o nome é buceta.

Sarro de rico é amor,
o do pobre é cachorrada.
Rico fudendo está amando,
foda de pobre é trepada.

Rico impotente é doente,
pobre impotente é capado.
Rico fresco é travesti,
pobre jeitoso é veado.

Rico correndo é atleta,
pobre correndo é ladrão.
Ovo de rico é testículo,
ovo de pobre é colhão.

Rico mora em palacete,
o pobre mora em maloca.
A rola do rico é pênis,
rola de pobre é piroca.

Rico tem indisposição,
pobre tem dor de barriga.
Rico amarelo é gremia,
pobre já sabe; é lombriga.

O rico não passa bem,
pobre está com caganeira.
Bosta de rico são fezes,
bosta de pobre é sujeira.

O rico limpa o furico,
com jato de água termal.
O pobre, se limpa o rabo,
é com sabugo ou jornal.

Rica que chifra o marido,
é avançada, é brincadeira.
O pobre quando é enganado,
é corno e a mulher chifreira.

Arlindo Castor de Lima
NATAL-RN, JUN 1966


ODOIÁ, MINHA MÃE,
SANTA DOS NAVEGANTES


Senhora dos Navegantes e de quem dela se acerque pedindo proteção, do topo da igreja de pedras escuras talvez trazidas dos arrecifes do outro lado do rio, da praia de Santa Rita ou Jenipabu, vizinhas, deita seus olhos sobre o mar: recomenda ao Senhor a dádiva dos peixes para os que se aventuraram na imensidão das águas, rogando retorno feliz.

Zelosa, também estende proteção aos que ficam, e todos, agradecidos diante de sua imensa bondade, fazem dengo, aprontando a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, no último domingo de janeiro, sobre águas corredouras do Potengi e solo da paciente Redinha, por assim se chamar pelas extensas redes-de-pesca dependuradas e a fazer voltas, labirintos, para a secagem, limpeza e reparos da malha, em varas bifurcadas fincadas em meio ao areal branquinho que recebe, não se recordam os anos, manso, o vento que renova o chão que é quase pó, da ponta de céu azul, claro, de poucas nuvens, onde se misturam águas doces, de pra lá dos igapós, aos sargaços desaguados do mar atlântico, imenso e verde, quase sereno.

O rio, Grande por nominação de conquistadores lusitanos, mercenários de El-Rey, tomado de barcos decorados em bandeirolas coloridas por todos os lados, comemora. O velho mercado, nativo da vila originária de antigos pescadores, também, no seu cheiro de dendê e cachaça, ginga tostando no óleo da caçarola, à frente dos fiéis, fogão já não mais à lenha, parece templo, quase silêncio.

Em derredor do Redinha Clube, herança de primitivos veranistas, armam-se barracas para a venda de comidas e bebidas - grude de Extremoz, tapioca, fuba embutida em barquinhos feitos artesanalmente em palitos de palha, linhas e papel-seda de cores vivas, vermelho, amarelo, azul; quentão na ordem do dia, quando a caipirinha, a de dois dedos (mindinho e indicador), a cerveja, falam mais alto e ajudam o canto e os acordes do violão. Em operação, carrossel, roda-gigante, balanços de barcos pesados, estandes de tiro, jogos-de-argola, e até alto-falante, a oferecer músicas às bem-amadas. Desejo.

No palanque montado de véspera, em frente à capelinha branca, oratório de pescadores, de poucos bancos, humilde como eles, será encenado o boi-de-reis, uma chegança, quiçá um fandango, participantes excitados, gajeiro encantado pela presença e beleza das pastorinhas - cordões azuis, encarnados, espíritos de velha etnia. Tradição.

O povo fará procissão. O padre, em paramentos cuidados, dirá missa e, feito batista, sacramentará os pagãos; moças casadouras ganharão aliança em vestes bem brancas; novenas anteciparão maior proteção.

- Viva Nossa Senhora dos Navegantes !

- Viva !

As Imagens são duas, que importa, se a festa é única como a crença do povo?

- Odoiá!

Apinhado de fervor à espera das bênçãos que vêm do rio, o trapiche que serve ao embarque e desembarque da Santa, o mesmo usado pelos que fazem a travessia fluvial, hoje no Albacora Azul - pintado de verde e branco - estará pleno, e os rojões espoucarão à passagem da boa mãe poderosa, tranqüila e terna, eterna na memória católica.

- Vai um alfinim, moço? Cuscuz ao leite-de-coco?

A praia, da ponta do cemitério dos ingleses - hoje ancoradouro da balsa do Pipes - ao quebra-mar do farol da barra, estará toda tomada por uma multidão de devotos. Bugres, a circular, trazendo gente bonita, bronzeada ao sol do passeio pelas dunas móveis, fazem a alegria dos turistas. Os donos de bar, os balaieiros de pitombas, serigoelas e cajás, os meninos do picolé, o sorveteiro Clóvis, festejarão lucros, e das ruas da vila, junto ao prefeito e indefectíveis pedintes de voto, sorridentes e prometedores, virá a procissão de terra trazendo a Santa dos mesmos milagres, mais humilde, não menos gentil, saída da capelinha branca e erguida, ninguém sabe quando, na mais elevada duna, acompanhada de cantorias e rezas entoadas ao ranger de terços de velhas senhoras, muitas, filhas de finados caçadores-de-caranguejo dos mangues seculares da lamacenta Camboa, para onde não se dirigirão Os Cão, aguardo de terça-gorda de carnaval.

Tudo será alegria, e o encontro das Imagens é a fé renovada a cada fim do mês do caju.

Alegria tanta que se desdobra em novidades, fazendo o insistente Baiacu na Vara antecipar a quarta-de-cinzas e de tristeza, lembrança de que o ano nosso começa na quinta, ainda devagar, para se firmar na segunda-feira de fim de folia.

Na margem oposta, da Pedra do Rosário, local onde a Padroeira Nossa Senhora da Apresentação foi deixada por colonizadores impositores de religiosidade, ao quebra-mar do Forte, protetor da Povoação dos Reis, depois cidade Natal, contra corsários do norte e indiada em revolta, sem querer entregar-se, virar escrava, ceder o chão, na boca da barra, a gente acotovela-se, aplaudindo a passagem da Santa da igreja de pedra, renovando súplicas por dias melhores.

No cais do porto, o navio apita e a tripulação acena, agitando lenços ou bandeirolas que enfeitarão de gestos multicores os nautas da procissão embarcada. Os ioles descerão as rampas dos clubes da rua Chile, outrora importante a ponto de abrigar sede de governo provincial, o ex-todo-poderoso Lloyde inglês, grandes frigoríficos da indústria da pesca, famílias de tradição e labuta, e singrarão o rio soberbos como em memoráveis regatas, ao lado de lanchas modernas e velozes, algum iate porventura ancorado no clube da Limpa, jet skis em manobras lépidas e mergulhos radicais, velas coloridas das pranchas do wind surf da paisagem mais jovem, uma ou outra quase extinta jangada de praia do litoral norte, mais distante do progresso, Maracajaú, Pitangui, Muriú, ou, quem sabe, um paquete como os que subiam a praia do Maruim sobre rolos de troncos de coqueiro, nos fins de tarde, entupidos de mistérios e de lulas, polvos, tartarugas, ciobas fresquinhas, cavalas, ariocós, galos-do-alto, xaréu, e até o pegajoso cangulo de apreciado e, dizem, milagroso caldo.

Os timoneiros estarão em festa. Os ultra-leves, como as gaivotas, pairando, seguindo a frota, também. Os pescadores contarão estórias, falarão das tormentas e cerrações, nortadas, e recordarão comemorações de outrora, ritual de anos sem conta, antecipando o 2 de fevereiro de Iemanjá, de Iara, rainhas das águas, quando teria festa no mar.

Uma imagem pelo rio, outra pelos becos e ruas da chamada e amada prainha, esquina à venda do cansado Deífilo, rua do Cruzeiro, cemitério às homenagens dos póstumos, Pé-do-Gavião, calçadas profanas do povo novo, de profissões hoje diversas. Todos confundem-se à passagem das Senhoras do navegante, são todos iguais nesse momento, na fé e na festa, no aplauso aos rogos atendidos, na crença na Santíssima Unidade, dogma de bem-querer.

Como começou essa festa, não se sabe. Vem de antes da virada do século, diziam os mais idosos repuxando memórias que vinham dos pais, referências de avós, de tios que enfrentaram os mares e os ventos de antigamente, embarcações diminutas contra o tenebroso oceano e que só retornavam se guardados pelas súplicas da Boa Senhora.

A procissão de duas imagens é recente, dos tempos da construção da igreja dos veranistas, época na qual os nativos insurgiram-se contra a posição da Imagem voltada para a vila, de costas para o mar, de onde vinham as orações mais recorrentes, salgadas de perigo e medo de morte medonha, incerta, muitas vezes sem choro de corpo presente.

Atendido o apelo, a paz voltou à vida da velha vila e estância gostosa e romântica de veraneio, cativante, acolhedora, balneário a amealhar boêmios e corações mais despojados, amantes de violões que cantavam praieiras de doces e revelados amores, e que falavam de ventos que assobiam em telhados, assanham cabelos da morena e encrespam ondas do mar... tempos que jamais voltarão, é verdade, mas que materializam-se em sonhos no dia da festa santa.

- Saravá !

Eduardo Alexandre

por Alma do Beco | 6:58 AM | | Ou aqui: 0




sexta-feira, janeiro 27, 2006

VIDA ALHEIA

Marcus Ottoni


Esse é o PSDB que bate duro no PT (com razão) e que se diz diferente dele (sem razão).
Ricardo Noblat

Franklin Serrão


Eu canto se não sinto o que aparento
e invento um contraponto, se nem tanto.
E enquanto me desmonto em fingimento,
sustento o que pressinto em contracanto.

Suplanto esse confronto e me arrebento:
me enfrento, me desminto e me quebranto.
Por manto, em labirinto me apresento:
me ausento, nada aponto e me decanto.

No entanto, me remonto e me acrescento.
Sedento de absinto me transplanto,
conquanto o desaponto seja alento.

E ao vento eu seja extinto, sem espanto,
sem pranto, sem apronto e desatento,
pois lento é que, sucinto, me levanto.

Antoniel Campos




ADONDE EU ME CRIEI

Eu me criei num lugá,
qui inde existe lealdade.
Adonde a sêca é castigo,
adonde água é raridade.
Adonde tem sufrimento,
mais tombém tem uis momento,
de munta felicidade.

É um lugá maravioso,
digo no instante preciso.
Lá, quando num tem trabáio,
o sujeito véve liso.
Na sêca, lá é o inferno;
mais quando chega o inverno,
se transfóima in paraíso.

Adonde de um bom forró,
se disfruitá, inda pode.
O forró de pé de serra,
a matutada ssacode.
É só o triângo, sá dona;
o zabumba e a sanfona,
ô intonce o pé de bode.

Adonde a bôca incarnada,
de uma cabôca facêra,
anima a rapaziada,
na Festa da Padroêra.
Adonde se ôice uis gimido,
duis amô improibido,
lá no mêi dais capuêra.

Adonde lá na cunzinha,
o fogão de aivenaria,
pura fumaça branquinha,
e puro chêro, anuncia,
qui já tem cuscuz nôvíin,
e um gostoso cafézíin,
na manhincença do dia.

Adonde você disperta,
cum o canto da sariema.
Cum o anum branco cantando,
lá nais gáia dais jurema.
Adonde o qui acuntece,
se transfóima numa prece,
ô intonce num poema.

Foi nêsse lugá, seu môço,
qui eu me criei, meu irmão.
Entre ais pega de jumento,
e ais festa de apartação.
Êsse lugá tão falado,
in prosa e verso, cantado,
é meu amado sertão...

Bob Motta




Vida alheia

No território livre e libertino do Beco da Lama, quando se reúnem mais de quatro intelectuais em volta de uma mesa, o nível das fofocas vai às alturas. Um dia desses, entre rodadas de meladinha e doses de uma raríssima Malhada Vermelha, o disse-me-disse começou com Marcel Proust e não sei como terminou porque pedi licença e saí depois de uma longa sessão de maledicências eruditas. O mais extrovertido dos bequianos começou a sessão demonstrando muita intimidade com o autor de Em Busca do Tempo Perdido. Sabia de tudo. Falou da paixão desvairada de Proust pela mãe, uma mamãe judia que correspondia à paixão do filho com a mesma intensidade. Os dois trocavam abraços, beijos e longas cartas derramadas. Quando a mãe, possessiva, onipresente, recebia uma carta dele, ficava louca. A uma dessas cartas, ela respondeu qualquer coisa assim: “Leio, releio as suas cartas, mordisco todos os cantinhos e depois, à noite, ainda as provo, se sobrar alguma coisa de bom para saborear”. Proust também adorava dar telefonemas à mama querida (sim, já havia telefones em Paris no final do século 19, esclareceu o narrador).

Um dos presentes, com jeito debochado, perguntou: “Quer dizer que a frescura foi a herança maior que a mãe lhe deixou?” O proustiano não ligou para o comentário e continuou discorrendo sobre a vida do romancista que é, para ele, um dos melhores do mundo.. Quem não sabia ficou sabendo das intimidades de Proust. De suas paixões de adolescente por rapazinhos bonitos. Do seu grande amor por Reynaldo Hahn. Da asma, doença que o maltratou como uma maldição. De sua reclusão num quarto com cortinas nas janelas, onde ele se exercitava, todos os dias, para escrever um romance de três mil páginas. Proust dormia às oito horas da manhã, acordava às cinco da tarde, ganhava beijinhos da mãe, tomava remédios em quantidades industriais, escutava música e escrevia, escrevia. À noite, andava pelas ruas desertas de Paris, correndo o risco de ser assaltado, e comia “confit de canard” nos bistrôs.

Outro debochado bequiano aparteou em voz alta: “Nós temos um Proust, nós temos o nosso Proust!” E disse, enumerando coincidências: “Como Proust, Alex Nascimento dorme às oito da manhã e acorda às cinco da tarde. Em seguida, fica ouvindo música, lê bulas e pensa na busca do tempo perdido. Adora dar telefonemas. Tarde da noite, sai pelas ruas desertas de Natal, correndo riscos, para fazer lanche numa carrocinha. Quem não tem “confit de canard” vai de cachorro-quente. Como Proust, Alex é uma alma apaixonada e adora um rapazinho que se chama Ugo Senhagah.” Acudiram três cavalheiros, todos três de copo na mão, e o detrator da loucura alheia teve que pedir desculpas.

Marcel Proust foi deixado de lado. Pediram nova rodada de meladinhas e outro intelectual falante desafiou: “Ganha a Papangu do mês quem disser o nome completo de Picasso!” Ninguém chegou perto e o intelectual, de memória nos trinques, declamou: “Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Cipriano de la Santísima Trindad Ruiz y Picasso.” Antes que começassem a dizer que Picasso era mão-de-vaca, mesquinho, ciumento, brigão, pedi a conta. Estou aguardando um relatório de Volonté.

Nei Leandro de Castro

por Alma do Beco | 1:20 PM | | Ou aqui: 0




domingo, janeiro 22, 2006

AS ÁGUAS VÃO ROLAR

Alexandro Gurgel


Ponta Negra

"Onda de violência em Natal, falta de estrutura e o estigma da prostituição que se alastra são os principais problemas apontados para explicar a queda dos negócios na praia mais famosa de Natal."
Gancho de Manchetão de O Poti, de hoje.


Trampolim de Areia Preta – Urbanização Sylvio Pedroza


Violência, falta de estrutura
e o estigma da prostituição que se alastra

Esses são problemas que há muito estão diagnosticados em Natal.

Ponta Negra precisa voltar a ser nossa. Não que não queiramos o turista lá. Queremos. Não para buscar meninas prostituídas, mas para desfrutar da beleza física da praia, conhecer melhor nossa gente, nossa história.

O debate a ser travado, por necessidade urgente, é como substituir a prostituição por algo que nos represente de fato.

E o que melhor nos representa é nossa cultura, nossa arte.

Se a resposta é essa, compete-nos mostrá-la a quem de direito: ao prefeito, ao secretário de turismo, ao presidente da Fundação Capitania das Artes. Se preciso, e parece que é, pedir ajuda à governadora, ao presidente da Fundação José Augusto e também ao secretário de turismo do estado.

Não vamos acabar com a prostituição ali nem em qualquer lugar, mas podemos, planejadamente, ocupar culturalmente o espaço, de forma a mostrar que a nossa cidade está mais aberta ao turismo cultural que ao da exploração sexual.

É difícil fazer? É.

É necessário o desenvolvimento de toda uma estratégia para que atinjamos objetivos, mas cabe à autoridade pública o primeiro passo: o interesse em mudar a triste realidade (momentânea?) da esquina do continente, essa terra de um Deus mar.

Eduardo Alexandre




As águas vão rolar

Daqui a outubro, muitas águas correrão à margem.


Deixaram sangrar. Sangraram.
Não entenderam fábulas de ovos e serpentes.
Eram cobras criadas do mesmo serpentário.
Somos apenas pasto, nesta cadeia alimentar.


Parece existir uma certa condução deliberada para bipolarizar o debate, quando vivemos um momento no qual sabemos que não podemos acreditar em qualquer dos lados, ambos engalfinhados em verdades de práticas escabrosas

Desprezam-se candidaturas como as de Heloísa Helena - ainda não posta; ou a de Roberto Freire, que nem aparece na consulta ibope.

Não se ouvem as esquerdas do PT, muito menos o que diz o PSTU. A imprensa podia ajudar, mostrando se tem alguns bons, e reservar-lhes mais espaços. Ping-pong às vezes cansa.

Quem está mal pago na lambança toda é o povo, logo ele, que paga a lambança.

Esperar autofagia entre os dos executivos - Federal, estaduais - e dos legislativos, é uma ingenuidade sem tamanho.

Se eles se locupletam e disso vivem, o que esperar? Que tucanos peçam o impedimento de Lula e petistas o de Serra ou Aécio ou Alckmin?

O aterrador é a perspectiva de convivermos com isso por mais um ano, mais um mandato, talvez outros e outros.

É o modelo republicano que faliu ou somos nós, os homens e mulheres, que não temos jeito?

Neuza Margarida Nunes

por Alma do Beco | 10:56 AM | | Ou aqui: 1




sábado, janeiro 21, 2006

GALO DA BICA OU DO CAMINHO?

Marcus Ottoni


Eleição 2006
Lula planta votos na Baixada
Manchete do Jornal do Brasil, de hoje

Marcelus Bob



Nós, que fazemos a Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências, levamos para a Capitania das Artes e Fundação José Augusto um projeto que tem por objetivo principal resgatar o carnaval urbano de Natal. Esse é um sonho de muitos natalenses, que, há mais de duas décadas, vêem o nosso carnaval se espalhar pelas praias de veraneio, deixando a cidade vazia de qualquer folia.

É um projeto ousado, porém relativamente barato, em torno de 150 mil reais. Um investimento que, com certeza, em curto prazo, terá retorno incalculável para a cultura e, principalmente, para o turismo de Natal.

A idéia é levar o carnaval para o centro histórico, resgatando nossa paisagem de origem.

Para mexer com imaginário popular, duas bandas serão criadas: a Galo da Bica e a Galo do Caminho. Na verdade, Banda do Galo da Santa Cruz da Bica e Banda do Galo da Rua do Caminho de Beber Água. Três ícones de nossa história e dois galos a se rivalizarem, como os antigos xarias e ganguleiros. Não que eles saiam às esporadas. Só alternativas que se misturarão a uma folia maior, pensada, planejada para fazer renascer o melhor da época momesca: a espontaneidade da folia satírica, bem humorada, colorida.

E para colorir e trazer alegria e público para um carnaval que não mais existe numa cidade vazia, mais provocações ao imaginário popular, com disputas entre grupos folclóricos, grupos de papangus, bonecos e troças carnavalescas. A idéia é atribuir-se prêmios para que as fantasias surjam, os bonecos apareçam e tomem as ruas do Centro Histórico. Prêmio Câmara Cascudo para o melhor grupo folclórico, o folclore abrindo as programações do carnaval nosso de todos os dias, desde a sexta-feira gorda, em passeios pelas ruas Santo Antônio, Praça André de Albuquerque, Rua da Conceição e; muitos outros prêmios.

Na Praça André de Albuquerque, uma praça de alimentação e uma Feira da Fantasia. Entre a praça e o Palácio da Justiça, com frente para a Assembléia Legislativa, o palco principal do evento, para shows que entrarão noite adentro, com artistas nossos, cantando as músicas do carnaval brasileiro. Para crianças e velhas gerações, na Praça da Poesia, no pátio interno do Palácio da Cultura, quatro bailes, dois para os Galinhos do Centro Histórico e dois para os saudosos do Gango do Tetéu, dos anos 50 do século passado.

Ainda existem na cidade os blocos de carros alegóricos? Vamos levá-los, então, ao Centro Histórico. Vamos criar prêmios para atrair fantasias, viver sonhos. Criar condições para uma Maratona Fotográfica tendo como tema o evento e; realizar uma oficina de artes plásticas onde os nossos pintores materializarão em risco e tinta o carnaval e seus encantos.

O prefeito quer a festa. Dácio Galvão, presidente da Capitania das Artes, e Amélia Freire, diretora de promoções culturais da Fundação José Augusto, gostaram do projeto. Há dificuldades orçamentárias, mas boa vontade para tentar superá-las. Agora, é trabalhar para tudo dar certo. E esperar que o povo de Natal entre em beco e saia de beco acompanhando as bandas que levarão alegria e animação aonde antes só existia o vazio.

Você, que gosta de carnaval, prepare o espírito: adquira na Feira da Fantasia a máscara ou adereços que o fará folião e; para brincar, escolha o Galo de sua preferência ou os dois, porque eles se somarão a uma tradição que será criada e se fará história na cidade do Natal.

Quem viver, verá.


Eduardo Alexandre
Diretor Executivo da SAMBA
Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências

por Alma do Beco | 6:39 AM | | Ou aqui: 0




terça-feira, janeiro 17, 2006

CAPA DE CORDEL

Marcus Ottoni


Escorrego na pista

"Presidente, entregaremos um terço desta estrada até o final de seu governo... Ou melhor, até o fim do seu primeiro mandato."
Alfredo Nascimento, ministro dos Transportes, ontem, em São José de Mipibu.



Tá na hora, amigo Dunga,
é o "pega pá capá".
DOIS HÔME E UMA MUIÉ,
vai dá munto o qui falá.
Vô pubricá o cordé,
e qui nem sôpa no mé,
no Beco, eu quero lançá.

Você, Pêdíin e dona Ivone,
do poeta véi, num iscapa.
Quem mijá fora do cáco,
no Beco, entra no rapa.
Purisso peço a vocêis;
quero uma foto duis três,
prumode eu butá na capa...

Bob Motta

por Alma do Beco | 2:58 PM | | Ou aqui: 0




sábado, janeiro 14, 2006

DOIS HÔME E UMA MUIÉ

Marcus Ottoni


O verdadeiro Duda Mendonça é personagem forjado nesse mundo. Ele está envolvido com superfaturamento de contratos com órgãos públicos, remessas ilegais de dinheiro para o exterior, contas secretas em paraísos fiscais, sonegação de impostos e crime eleitoral. Pode-se creditar à sua genialidade a invenção de uma nova categoria da propaganda – o marketing bandido. É nessa modalidade que ele é um grande especialista.
Alexandre Oltramari, Julia Duailibi e Otávio Cabral na Veja desta semana

"Se o presidente tomar a decisão de fazer o melhor governo possível, sem estar tão preocupado com a questão da reeleição, que muitas vezes atrapalha, ele seria um candidato muito forte em 2010, quando ainda estaria jovem, com muita força aos 65 anos."

Senador Eduardo Suplicy, do PT de São Paulo





INVENENAMENTO, CABARÉ, ARREPINDIMENTO E CUNFISSÃO

Eu vô contá uma istóra,
acredite e faça fé.
De um triângo amoroso,
dois hôme e uma muié.
Tiria invenenamento,
findô in arrepindimento,
in vêiz de num cabaré.

O Dunga mais dona Ivone,
tramaro divagaríin,
um crime passioná,
cum malíguino caríin.
E era inté mêi aberto;
tava quage tudo certo,
mode invenená Pêdíin.

Quando Pêdíin se reiasse,
uis dois ía se casá.
A budega in cabaré,
ía logo transfóimá.
E cum essa riviravorta,
o casazíin vida torta,
num parava de sonhá.

Baibinha mais Paparazzi,
já tava a cumemorá.
Geraldo Assunção e Albérico,
mais uis dois vêi se ajuntá.
Quando uis quato se ajuntava,
nôta coisa num falava,
meu fíi, pode acreditá.

Dizía: Cum o cabaré,
o Beco vai se animá.
Mió qui Maria Boa,
o do Beco vai ficá.
E é bom í logo pensando,
Dunga, vá logo istudando,
qui nome nóis vai butá.

Cumo todo cabaré,
qui se preza, é prá tê lá,
meio mundo de rapariga,
e um salão, mode dançá.
Vai tê luz vremêia e bicha,
a radiola de ficha,
e uis quarto, prá furunfá.

Vêiz purôta um sanfonêro,
vêiz purôta um violão,
vêiz purôta uma rabeca,
cunfóime ais ocasião.
Gardênia é a cunzinhêra,
de mão cheia, de premêra,
nóis quato é uis cafetão.

No beréu a entrada é franca,
pode chegá quem quisé.
Muié atráis duis marido,
marido atráis dais muié.
Pode entrá bicha iscrachada,
sapatão cum namorada,
nêsse nosso cabaré.

O beréu é do povão,
do aluno e do professô.
Puta de bêra de istrada,
de bebum e trabaiadô.
De todo e quaiqué sujeito,
duis pulítico, do Prefeito,
do gari e Gunvernadô.

Vai todo tipo de artista,
músico, cumpositô,
desenhista, repentista,
artista prástico e pintô.
Vai produtô curturá,
prá acabá de amisturá,
poeta e decramadô.

Dispôi qui vocêis casá,
pode vivê viajando,
qui nóis, aqui, do beréu,
de conta, fica tumando.
Acredite, cumpanhêro;
o qui entrá de dinhêro,
prá vocêis, nóis vai mandando.

Uvindo essas coisa tôda,
dona Ivone só pensava,
in se livrá de Pêdíin,
dia e noite, ela sonhava.
Caminhando p'ro artá,
cum a marcha nupiciá,
ela já se imaginava.

Inquanto isso, o remorso,
cumeçô a castigá,
a cunciênça de Dunga,
e o pobe a se aperriá.
Quando oiava prá Pêdíin,
tinha pena do bichíin,
e só fartava chorá.

Aquele pêso de curpa,
in Dunga, dava uma prensa.
Sem um sigundo de forga,
sem sussêgo, sem cremença.
E Dunga se aperriava,
cada vêiz mais aimentava,
seu drama de cunciênça.

E o Dunga, boa gente,
segue seu drama a sofrê.
Bebia uma, ôta, mais ôta,
dispôi, tornava a bebê.
Sendo um cabra boa praça,
já sufria c'á disgraça,
qui tava prá acuntecê.

Na lua nova, crescente,
no reduto curturá,
chega o pade no pedaço,
nosso vigáro gerá.
Dunga pede prá Subríin,
tocá p'ro pade Agustíin,
pru mode se cunfessá.

Chamô o pade num canto,
e dixe cumpenetrado:
Pade, eu vô lhe cunfessá,
qui tô cum um grande pecado.
Num tenho nem um inimigo,
mais quero matá o amigo,
Pêdo Abech, invenenado.

O pade lhe arrespostô,
num portuguêis misturado:
Meu fíi, uma coisa dessa,
é bem grave e má pensado.
Se cunsiguí êsse intento,
será no mêrmo momento,
ao inferno, condenado.

Seu pade, o pecado é séro.
Qué vê ? Eu vô lhe amostrá.
Cunvocô a dona Ivone,
mode a cunversa, iscutá.
E dixe: É essa danada,
seu pade, a maió curpada,
do qui eu quero praticá.

Cum uis istrupiço dela,
faiz gato virá cachorro.
Tira o juízo da gente,
e eu tô pidindo socorro.
Se eu cuntinuá cum ela,
vô caí na isparréla,
ô eu inlôqueço ô môrro.

É munto mais pirigosa,
isso eu digo mêrmo a ela.
Faiz o cabra se jogá,
do úrtimo andá, da janela.
É pió qui a da Bahia,
qui o véi Jorge Amado, um dia,
chamô de cravo e canela.

Ela é tão infernizante,
qui tava alí, ixpricando,
qui se Pêdíin ficá vivo,
vai vivê infernizando.
Nóis vai tê sofrê eterno,
a vida vai sê um inferno,
cum êsse turco atanazando.

E tem mais, pade Agustíin;
vô lhe dizê, cumpanhêro.
Dispôi de matá Pêdíin,
nóis vai casá bem ligêro.
E adispôi do cassamento,
daquele mêrmo momento,
nóis vai butá um putêro.

E o pade, nessa artura,
meu fíi, danô-se a rezá.
Na defesa de Pêdíin,
resôiveu imburacá.
Supricô, dixe: Assim seja,
pidiro mais uma cêiveja,
mode Dunga se acaimá.

Saiu mais Dunga e Ivone,
e Pêdíin, lá do seu bá,
mais Maria do Socorro,
e uis cinco, bem divagá,
fôro lá p'ro Bá do Nardo,
cada um bebê um cardo,
e a saidêra tumá.

Lá práis tanta, ais oração,
do pade fizero efeito.
Uis pensamento de Dunga,
mudaro logo, de êito.
E Dunga se alevantando,
a dona Ivone chamando,
dixe, batendo nuis peito.

Dona Ivone, o perdão,
lhe peço nêsse momento.
Pruquê mode ais oração,
disistí do meu intento.
É incríve, mais vô dizê:
A sinhora pode crê,
num vai tê mais casamento.

O pade me cunvenceu,
adispôi de munta luta.
Cum oração e cunversa,
sem usá a fôrça bruta.
Pêdíin, pode cunfiá,
qui eu num vô mais matá,
tu, turco fela da puta.

Sastisfeito c'á nutiça,
Pêdíin entrô no chevette,
deu de garra in dona Ivone,
qui nem um marionete.
Paricia um carnavá,
êles a cumemorá,
e a se jogare confete.

Adispôi de tudo isso,
foi só comemoração.
E cada um mais melado,
se abraçaro cumo irmão.
Num teve mais casamento,
nem o invenenamento,
só reconciliação.

Foi nisso qui terminô,
a trama contra Pêdíin.
Nem findô invenenado,
e munto menos sòzíin.
Terminô mais dona Ivone,
mais uma ruma de aspone,
rudiado de caríin.

Roberto Coutinho da Motta,
O nome, papai iscuiêu.
Bob Motta é pseudônimo,
E cum êle, assino eu.
Rimo, amostrando in meu verso,
Tudo o que ai no universo,
O dom, foi DEUS QUEM ME DEU...

Natal,RN, 13 de janeiro de 2006
Autor: Roberto Coutinho da Motta

Bob Motta

por Alma do Beco | 7:53 AM | | Ou aqui: 0




quinta-feira, janeiro 12, 2006

BAND-AID

Marcus Ottoni


Band-aid

"Isso que está se fazendo agora deverá se estragar com as primeiras chuvas. São obras que não mexem com a estrutura dos pavimentos".
José Alberto Pereira Ribeiro, presidente da Associação Nacional das Empresas de Obras Rodoviárias

“Falam que o Alckmin não tem tempero, que é um picolé de chuchu. Mas é preciso cuidado: é um picolé de chuchu com tempero de pimenta malagueta. Ele tem perfil de bom moço e é perigoso, porque não sabemos até onde pode crescer. Serra nós já conhecemos.”
De um colaborador do presidente Lula, segundo Ricardo Noblat.



Franklin Serrão

Pedro Abech e Dona Ivone


Velhos guerreiros
Tribuna do Norte
12/01/06


Yuno Silva - Repórter

Como o tempo voa (é o que dizem por aí!!), e o brasileiro é um povo festeiro por natureza, os planos para o período momesco já começaram. A partir de agora, as decisões estarão cada vez mais sujeitas à programação carnavalesca. Junto com esse movimento, também surge uma porção de dúvidas na cabeça do folião: cair na farra ou aproveitar os dias de folga para descansar? Axé music, frevo ou samba?

Atentos a essas e outras questões, artistas já preparam o terreno para não deixar o Carnaval passar em branco. Um deles é o cantor e compositor potiguar Dosinho, que aproveita a chegada do Carnaval para lançar um novo trabalho. Seguindo uma tradição vista em anos anteriores, Dosinho acaba de lançar o álbum “Carnaval Festa do Povo — Músicas de Dosinho”, quinto CD em uma carreira de 53 anos. O lançamento oficial está marcada para o início de fevereiro, com shows no SeaWay Shopping e no restaurante Paçoca de Pilão, em Pirangi praia”, informa.

“Neste novo disco, fiz questão de incluir músicas que estouraram em carnavais passados, principalmente em Pernambuco, como ‘Carnaval com Bin Laden’, mais (as clássicas) ‘Doido também apanha’ e ‘Vão me levando’. Deste CD, duas já estão tocando nás rádios em Recife: ‘Bloco do Mensalão’ e Dollar na Cueca’. Devo grande parte do meu sucesso aos radialistas de lá”, aponta Dosinho.

Cansado de cantar “confete e serpentina”, atualmente o potiguar passeia na praia das paródias, com letras bem humoradas que satirizam assuntos atuais, o comportamento das pessoas, a política e as modernidades do relacionamento entre homens e mulheres: “Procuro abordar esses temas com tom de bom humor, pois Carnaval é alegria”, garante. Nascido em Campo Grande, região oeste do Estado, e batizado Claudomiro Batista de Oliveira, Dosinho ganhou projeção regional quando, em 1966, duas de suas músicas estouram no Carnaval pernambucano, “Vão me levando” e “Não se faça de doido, não”.

Banda Independente no Bar das Bandeiras

Para provar que o clima de Carnaval já toma conta dos ânimos do brasileiro, a Banda Independente da Ribeira realiza seu primeiro ensaio nesta quinta-feira, a partir das 19h, no Bar das Bandeiras, Largo da rua Chile, Ribeira. “Serão seis ensaios até o dia 16 de fevereiro, sempre às quintas-feiras a partir das 19h, lá no Bar das Bandeiras. Na sexta, dia 17/2, às 17h30, a banda sai com seus 26 músicos do Beco da Lama (Bar do Nazi) em direção à Ribeira (Bar das Bandeiras)”, adianta o arquiteto Haroldo Maranhão, um dos fundadores e diretor da Banda. “Estamos preparando uma surpresa para o público que acompanhar a prévia deste ano. Aguardem o dia 17”, diz com tom de mistério.

Pela terceira vez consecutiva, o instrumentista Gilberto Cabral (trombone) assumirá a regência da Banda Independente da Ribeira. Cabral, que também coordenou o trabalho das quatro bandas que animaram o réveillon natalense, provavelmente deverá assumir o comando das atrações escaladas pela Prefeitura/Fundação Capitania das Artes: “Ainda não fechamos nada, mas as primeiras conversas que tive com a direção da Funcart sinalizam a possibilidade de um entendimento”, disse Gilberto com cautela. “Acredito que terei uma resposta definitiva nos próximos dias”, conclui.

Gilberto Cabral, que lançou o CD instrumental “Musa” em 2004 e participou da edição 2005 do projeto Cosern Musical, planeja lançar um novo trabalho só com frevos: clássicos e autorais. “O projeto ainda está ganhando forma, mas a idéia é virar o ano com o CD nas mãos”, planeja.

Também cheio de planos, o atual presidente da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências — Samba, Eduardo Alexandre, aposta em uma grande festa durante o Carnaval. “Em 2005, o Beco da Lama contabilizou uma movimentação interessante que chamou a atenção da sociedade. Realizamos o 2º festival gastronômico ‘Pratodomundo’, nosso primeiro réveillon também chamou atenção do natalense. Ainda não posso adiantar muito coisa, pois precisamos acertar detalhes referentes a parceria com as Fundações José Augusto e Capitania das Artes. O que não queremos é perder a oportunidade de fazermos um grande Carnaval sem ficarmos limitados à modelos antigos. O Carnaval do centro histórico terá um novo molde popular”, garante Eduardo.




2 Crônicas do Edgar

Envenenamento, Cabaré,
Confissão e Arrependimento no Beco

Dunga e Dona Ivone estavam planejando matar o turco Pedro Abech envenenado.

Pedrinho morto, eles casariam e transformariam a bodega da Gonçalves Ledo num grande cabaré, sonhavam.

Barbinha comemorava. Ele e Paparazzi, e Geraldo Assunção e o camarada Albérico, as duplas imbatíveis, não falavam noutra coisa.

- Com um cabaré no Beco, a coisa vai ficar mais animada. Dunga, esse cabaré tem que ser bem melhor que o de Maria Boa. Aí você e Ivone se mandam para Miami e ilhas do Caribe e podem deixar que eu e Paparazzi administramos os negócios, incentivava Barbinha.

Só que o remorso estava a martelar o juízo de Dunga.
Enquanto Ivone sonhava-se livre do turco, já ensaiando a cerimônia religiosa, véu e grinalda bem brancos, Dunga sofria com a desgraça que estava por acontecer no Beco Sul.

Noite alta, lua ainda nova, porém crescente, chega o vigário geral, padre Agostinho, ao pedaço. Dunga pede para Sobrinho tocar uma canção para o vigário, a Linda Baby, de Pedrinho Mendes, e logo depois chama-o para uma conversa reservada, ao pé do poste.

- Padre, eu estou precisando me confessar.

- Si.

- Padre, eu estou tramando contra a vida de um grande amigo.

- Ma non pode...

- Padre Agostinho, o pecado é sério.

E chamou dona Ivone à conversa.

- É que essa mulher, padre, deixa todo mundo doido. Ela é muito mais perigosa que a original baiana, aquela que inspirou Jorge Amado para escrever a Gabriela Cravo e Canela. Tanto, que a estão chamando de Dona Ivone Gabriela. Ela e eu, padre, estamos planejando casar, mas ela não tem coragem de enfrentar o turco. Diz que se ele ficar vivo, jamais vai perdoar o nosso casamento e vai passar o resto da vida atanazando.

- Si.

- Aí, padre, a gente vai matar Pedrinho; vai casar e vai montar um negócio bem mais próspero: um cabaré.

A essa altura, o padre, percebendo a gravidade da confissão, intercedeu em defesa do turco.

- Ma non façam isso com o pobrecito!

E suplicou pelo amor de Deus!

Dunga pediu a bênção ao padre e rezas para que o mau espírito se afastasse do seu corpo, e... mais uma cerveja. Esperou que Pedrinho fechasse o bar e foram os três: ele, Pedrinho e Ivone, e mais dona Maria do Socorro, tomar uma saideira no Bar do Naldo.

Lá para as tantas, talvez em decorrência das rezas do padre, Dunga não agüentou:

- Dona Ivone, a senhora me perdoe, mas não vai mais ter casamento. Padre Agostinho me convenceu a não matar o diabo deste turco.

Satisfeito com a notícia, Pedrinho tomou do Chevette preto e foi deixar Dunga em casa, mas só depois de muitas outras cervejas e muita comemoração.




Feijoada Turca

Pedrinho ganhou, da prefeitura de Rio do Fogo, na praia de Zumbi, um terreno para construir sua casa de veraneio. A prefeitura dá o terreno, mas exige que, em seis meses, pelo menos o baldrame esteja construído.

Época de vacas magras, ele recebe a sugestão de fazer um "entre amigos" para levantar a grana do baldrame, R$ 500,00, segundo pedreiro da região praieira.

Vai à cozinha, conversa com a mulher, Dona Ivone, e chega com a notícia:

- Sábado, vamos ter uma feijoada, com som ao vivo e sorteio de 24 latas de cerveja! Cinco reais a senha!

- Mas Pedrinho, como é que vai ser essa feijoada? Vai ter pé de porco, orelha de porco, charque, carne de sol, livro, paio, laranja, couve cortadinha? Pergunta o jornalista Luciano de Almeida.

- Claro, responde o turco, eufórico. Vai ter tudo isso e muito mais: vocês não perdem por esperar!

Na Sexta à noite, apesar da fumaça do fogareiro a carvão que tomava conta de todo o espaço, não deixando ninguém respirar, o cheiro do feijão, vez por outra, chegava às narinas dos freqüentadores.

Com raras senhas na mão, Pedrinho comenta:

- Já vendi sessenta senhas. Até a deputada Fátima Bezerra comprou. Fátima, os vereadores Hugo Manso, George Câmara, e até Fernando Mineiro, que não é dado a esses eventos. Vai ser um acontecimento político essa feijoada! Comemora.

Dos primeiros a chegar, Luciano de Almeida toma mesa estratégica defronte ao ventilador turbinado da casa, e espera a chegada de companhia ao lado do seu Domec em taça especial.

No Beco da Lama, não se falava em outra coisa, todos despedindo-se de todos para um pulinho ao Bar do Pedrinho, para a degustação da já famosa feijoada. No Bar de Nazi, Zacarias Anselmo, da CUT, pede para que Gardênia traga a feijoada ao bar. Faz uma cota, passa dez reais para Gardênia, e espera chegar o produto do desejo coletivo.

Quando chega a quentinha com um pouquinho de arroz, um pouquinho de farinha e uma concha de feijão estrategicamente jogada no fundo do invólucro, a turma entreolha-se espantada.

- É isso a feijoada de Pedrinho? Sem carne alguma? Esse tiquinho? Essa picardia toda? A gente devia ter pedido era a feijoada de Neide!

Aperreado, morto de vergonha por ter sugerido a feijoada de Pedrinho, Zaca vai a Neide e compra a feijoada de 3 reais, do jeito que é servida no dia-a-dia.

- Uma única feijoada de Neide vale por 3 dessas de Pedrinho, comenta Dedé, o tesoureiro da Sociedade dos Amigos do Beco.

Em Odete, o cronista do cotidiano do Beco, Caubi, desce o pau na feijoada.

- Uma picardia de fazer gosto. Vocês precisam ver. Carne? Só se diluída no cozimento! Uma vergonha real de cinco contos de réis.

Em Pedrinho, chegam Fátima Bezerra e Geraldão, então pré-candidato a governador do Estado pelo PT, e começam conversa com Luciano de Almeida. Discutem assuntos do partido, da proibição de Dom Alair Villar à candidatura de Padre Fábio pelo partido, enquanto tomam aperitivos esperando o apetite chegar.

Quando a deputada pede a feijoada e vê chegar aquela baixelazinha, pequenina e rasa ña qual Pedrinho serve sua tábua de frios, envergonhada, ela pergunta:

- É essa mesmo, a feijoada de Pedrinho, Luciano? Experimenta, demora mais um pouco e se despede da turma, deixando o gordo Geraldão, do alto dos seus 160 quilos, em dúvida se compra ou não a senha da feijoada de Pedrinho.

Com medo da fome, ele toma providência:

- Pedrinho, me dê cinco dessas senhas! Mas, antes, me traga alguns copos de caldo aqui para mim e para o companheiro Luciano.

As pessoas vão chegando e a decepção toma conta do bar. Decepção que logo se transforma em galhofa e motivo de muito humor.

Uns chamam Ivone e trocam suas senhas compradas de véspera por cerveja. Outros, se mandam, dizendo ser melhor passar fome noutro lugar, o bar esvaziando-se e só conseguindo público cativo lá pelas 5 da tarde, quando o volume do som foi aumentado para que se ouvisse o especial da Rádio Universitária, com Terezinha de Jesus.

A picardia do turco chegara ao limite: não teve música ao vivo; Pedrinho não queria sortear as cervejas; para conseguir dois pedacinhos de carne no seu prato, Geraldão teve de ameaçar chamar a polícia; outros nem ameaçando com Procon, a nada mais tiveram direito; e, isso, diante de todos os comerciantes de bares e similares da vizinhança, que haviam comparecido para prestigiar o turco amigo.

Em todos os botecos da cidade, o assunto rendeu o resto do dia; todo o Domingo, e, na Segunda-feira, ainda era a feijoada turca de Pedro Abech que estava nos comentários de todos.

Na terça-feira seguinte, reconhecendo que tinha exagerado, Abech se sai com essa:

- Ora, eu não disse a ninguém que ia ter uma carnada. Disse que era feijoada. E feijão teve, ora se não!

Com a continuação dos protestos, ele, entre amigos, ainda tentou remendar:

- Sábado próximo, eu reuno a diretoria e dou uma feijoada grátis para todo mundo.

Paparazzi, que ouvia a conversa ao lado de sua Inês, comentou:

- Se a de cinco reais foi o que foi, a de grátis deve ter apenas um caroço no prato, acompanhado de palito. Venho não!

Edgar Allan Pôla

por Alma do Beco | 2:47 AM | | Ou aqui: 0




terça-feira, janeiro 10, 2006

A MALA NADA NA LAMA

Marcus Ottoni


“O lado bom da crise. Ela chamou a atenção da sociedade e agora vamos dificultar o banditismo do caixa dois. (...)
Temos candidatos honestos, mas ainda existem muitos com o espírito do estelionato. Há certas pessoas nas quais falta brio na cara. "
Ministro Carlos Velloso, presidente do TSE

Franklin Serrão


A mala nada na lama
e em tenebroso conúbio


Indo e vindo se proclama,
trás-pra-frente, o mesmo tom:
— êta, palíndromo bom! —
"A mala nada na lama" !
Com cara de melodrama,
o "escariotes" Delúbio,
reticente, sonso e dúbio,
"esfaqueia" o presidente...
que, com ele, fode a gente,
e em tenebroso conúbio.

Antoniel Campos



A mala nada na lama
em tenebroso conúbio


O povão grita, reclama,
anacíclico e disperso,
declamando sempre o verso:
“a mala nada na lama !”
Nos impuseram a derrama,
deram a grana pro Delúbio
- deles, todos, o mais dúbio,
um Judas Iscariotes !
- Do Erário secaram os potes,
em tenebroso conúbio !

Laélio/2006




Cantando galope na bêra do má...

No premêro dia, in qui eu te avistei,
te ôiêi, tu me ôiô, fiquei acanhado.
Disviei a vista, meio incabulado,
porém, do teu vurto, eu num disgrudei.
Pru riba da rôpa, alí caiculei,
teu côipo intêríin, qui eu quiria apaipá.
Cumo num pudia, alí lhe agarrá,
peguei a caneta e meu caderníin,
fiz só trêis istrofe cum munto caríin,
Cantando galope na bêra do má...

Na bêra da praia, fiquei maginando,
você totaimente, sem rôpa, dispida.
E eu lhe amassando, tão feliz da vida,
no quebrá dais ôindia, drumí, fui sonhando.
Ví você acesa, prá mim se amostrando,
se oferecendo, prumode eu lhe amá.
Minha boca safada foi logo ixplorá,
você, meu poema, de carne e de osso,
e eu fui disfruitando de tu, meu colosso,
Cantando galope na bêra do má...

Te bejêi na testa, no rosto, na bôca,
lambí teu pescoço e o ispaço entre uis peito,
e cada um duis dois, bejêi sastisfeito,
e tu me dizendo: Te amo; cum a voz rôca.
Aí...fui descendo, e tu quage lôca,
pidia ansiosa, mode eu te "acunhá"!
Ai, ai, quem me dera, qui fôsse reá,
tudo isso num fôsse só um sonho, então,
prá eu num tá contando, chêíin de tezão,
Cantando galope na bêra do má...

Bob Motta




Use e abuse

Quando escrevia “A doida e o poeta” no frio da redação do O Mossoroense, trabalhando até amanhecer o sábado, apesar das mãos castigadas pela artrite, não imaginava a repercussão. Recebi e-mails, uns simpáticos como o da moça com nome de artista que se queixava de haverem tirado as aspas e a assinatura dela do meu texto; outros desaforados, do tipo “O que faz alguém trair a confiança dos amigos, expondo as suas intimidades”.

Telefonaram-me de Natal: “Você não tinha o direito de tornar público o meu caso”. Soube em Mossoró que pelo menos três amigas queridas, sentindo-se espelhadas por conta própria ou induzidas a isso por alguém estão, como diz meu filho mais novo, “tristes de mim”. Houve quem agradecesse, “Muito obrigado, adorei me ver no jornal”; e quem dissesse “É isso, é gozo, puro prazer, que torna cada encontro o desencontro de amanhã”.

Apareceu até uma suposta admiradora secreta, chamada “Olhar”, pedindo-me sinais. “Caro Cid Augusto”, diz ela, “Eu li A doida e o poeta, que inveja senti... lembro daquela outra lá no Conjunto Nacional, que sorte aquela teve. Você a desejou... a fitou. Gostaria que me desejasse. Sinto ciúme do seu corpo que não pode encontrar o meu! Sinto ciúme dos seus beijos que são de outra. Do teu olhar que é para outra! Por que não me escreve?”

Juro por Nossa Senhora das Bicicletas, por Santa Briguilina, pela Morena de Tibau do mestre Antônio Rosado e por este marzão verde de espumas brancas que meus olhos contemplam entre o espanto e o prazer que “a doida e o poeta” da crônica do último domingo não são indivíduos, que eles são filhos de várias histórias, de várias criaturas parecidas comigo, talvez com você, personificadas na linha tênue entre a realidade e a ficção.

No poeta há partes de mim, sombras de minha loucura, fraquezas de minha carne afeita a desatinos, sombras de experiências perdidas no tempo, mas não na memória. Ele, no entanto, não sou apenas eu, é a conjunção metafísica de coisas que vivi, de que muitos viveram, do cotidiano refletido em livros e jornais, de conversas malucas que somente quem freqüenta a alma das madrugadas com pretensões de cronista é capaz de reinventar.

A doida “bonita, simpática, lida, viajada, inteligente e eficaz na arte do amor” que venera os sem-vergonha “enquanto os detesta da boca para fora” é uma lista de mulheres fantásticas que povoam os sonhos e os pesadelos de vários poetas. Resumidamente, diria que nasceu da mistura cósmica de versos de Florbela Espanca com dramas rodriguianos, decepções e romances “quase secretos” de mulheres conhecidas ou vistas à distância.

Eis a verdade nua e crua para quem acredita nas mentiras de um sujeito perdido nos descaminhos do verbo. Não me justifico além daqui, pois a palavra, seja em prosa ou verso, perde a autoria quando cai no imaginário do leitor. Doida e poeta, portanto, podem ser qualquer gente, de qualquer sexo. Poeta pode ser doido e doida pode ser poetisa. Se um dos dois a seduz – ou o seduz – fique à vontade para usar e abusar dos meus delírios.

Cid Augusto



Fixação


"Seus olhos no retrato. Fixação: minha assombração. Fixação: fantasmas no meu quarto. I want to be alone". Ouvia Paula Toller cantar e perguntava-se como alguém permitia chegar a tal ponto. Nunca tinha passado por uma paixão tão intensa, quase obsessiva. Dessas que desde o primeiro abrir de olhos, pela manhã, no exato momento em que os neurônios começam a interconectarem-se, a imagem do ser amado já começa a transitar no circuito.

Achava uma tremenda mancada ter chegado a esse estado. Uma imprevidência, falta de tino. Até mesmo percebeu, para seu espanto, que havia se desligado do mundo lá fora. Amigos, família, filhos, todos tinham sido deixados em quinto plano. Agora, comia-bebia-dormia-e-sofria aquela paixão.

Sentou-se na cama, acendeu um cigarro e, enquanto fazia desenhos imaginários com a ponta dos pés no carpete, viajou ao passado para reviver alguns deliciosos momentos, quando na desordem da cama, após o apaziguar dos corpos em brasas, horas de carinhos e conversação eram gastas sem terem contas a prestar ao mundo lá fora. Submergiu desse tempo, quando a sombra leve da dúvida lhe tocou a razão:

– Essa entrega toda vale a pena?

Apagou o cigarro e pensou em ligar para um amigopara falar. A paixão, uma dessas piadas infames, deixa-nos absurdamente sós, pensou. O cansaço, misturado à melancolia típica do final de ano, fez as coisas parecerem insuportavelmente pesadas. Não sabia mais o que era tudo aquilo ou, ao menos, no que tinha se transformado.

Lembrava de maneira muito límpida do dia em que teve a certeza de estar com a pessoa certa. Foi um gesto mínimo, mas não sabia se ainda tinha seu telefone ou se teriam assuntos em comum, um carinho numa hora inesperada, e isso bastou para que entrasse numa zona de conforto típica dos amores envelhecidos com ar de eternidade. E ess’a certeza lhe incomodava: sabia que além de tudo, apesar de haver tanta movimentação em sua vida, nada lhe despertava tanto interesse que justificasse desistir daquela paixão para viver outros ares.

Num impulso repentino, levantou-se, pôs uma roupa bonita, perfumou-se, pegou a chave do carro e saiu. Precisava gritar aos quatro cantos do mundo o quanto amava aquela criatura. O quanto seu amor era intenso, profundo, difícil de guardar só para si. Tinha que dar vazão àquela agonia que lhe perseguia dia após dia. Precisava deixar-se consumir por aquele fogo tal qual lenha seca em fogueira viçosa. Sim iria viver aquela paixão até arrefecê-la. Até que a paz pudesse voltar a reinar em seu coração.

Crys/HJ



GENTE!

Berilo Nepomuceno, vulgo Lilo, nasceu e se criou nas profundezas do sertão das Alagoas. Seu pai, “Seu Pitôco”, assim como “Seu Francisco”, aquele dos dois filhos do filme que ta indo em busca do Oscar, deu um duro danado pra mandar Lilo pra Capital, querendo que ele: “fosse gente!”.

Lilo estudou, estudou, estudou mas, assim como uma burra (em inglês: she-ass) teimosa, não saía do canto. Vendo que naquele ritmo ia deixar “Seu Pitôco” “de tanga” e não ia ser “gente” nunca, resolveu arriscar. Juntou os panos de bunda que tinha, escreveu pro pai dizendo que ia fazer uma viagem e se danou pros estrangeiros em busca das oportunidades.

Pegou uma lotação e foi pro Recife embarcar “pras Europas”. Na Veneza Brasileira comprou uma passagem na British Caledonian e se mandou pra Londres, mesmo com seus parcos conhecimentos anglos-saxônicos.

Ao desembarcar, foi sabatinado pela imigração:

- Name?

- Francisco Nepomuceno de Mello.

- Country and Sex?

- Brasil, five times a week.

- No, no times, kind!

- Not so Big! (fazendo cara de modesto!)

- No, no, no...male ou female?

- Male, Female....sometimes she-asses.

Resultado: virou “gente”.

Hoje com a liberação do casamento gay é o solteiro mais cobiçado de toda Inglaterra, depois do príncipe, é claro!

Tadeu Neri

por Alma do Beco | 5:58 AM | | Ou aqui: 0




domingo, janeiro 08, 2006

S O D A D E

Marcus Ottoni


"Não lhe parece estranho que Lula, que esqueceu os funcionários públicos e não liberou verba para obras fundamentais, prometa agora aumento ao funcionalismo e abra a burra do governo para a gastança em 2006, ano da eleição?"
Ferreira Gullar

"Eu sei como eu vou trabalhar. Vou mostrar que o PT e o PSDB são iguais em tudo. Por exemplo: são iguais na política econômica e em relação ao caixa 2. Iguais também na compra de votos. O PSDB comprou votos para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso. O PT e PSDB são iguais na prática da corrupção. E iguais na ineficiência administrativa. "
Anthony Garotinho


Hugo Macedo

Gardênia, você abre mão da presidência para mim, fica na vice, e o tio Laélio a gente deixa de secretário. Topas?

Hugo Macedo lança livro "Beco Estreito"
Enredos nas Terras do Major Antão

Autor: Hugo de Macedo Vieira (jornalista e fotógrafo)
Charges: Leonardo Sodré (artista plástico e jornalista)
Lançamento: 13 de janeiro de 2006
Local: Casa da Cultura de Parelhas
Hora: 20:30 horas.


O livro relata cinqüenta causos contados nas ruas, mesas de bar e esquinas de Parelhas. Trata-se de uma obra que fará parte das comemorações dos 150 anos de emancipação do município.
O autor pretende resgatar e eternizar as histórias cômicas do folclorista Mané Bonitim, do poeta Baé, do matuto Boró, do esperto e manhoso Galego de Emídio, de Mané Diana e tantos outros parelhenses que circulam na cidade, insultando, instigando, brincando, enfim, contando o dia a dia do município, de maneira alegre e divertida.


FIADO OU À VISTA

Jorge Tenente suava e espantava as moscas enquanto salgava carne no seu açougue, quando entrou Miguelzinho, conhecido como o maior devedor da cidade. O mesmo, de uma conversa escabreada, disparou:

- Jorge, meu amigo, me venda dois quilos dessa carne que amanhã, bem cedinho, eu venho lhe pagar.

- Ora, Miguezim, eu já tô salgando pra não perder! – Rebateu o açougueiro.

BACURAU

O cobreiro Chico Vilar pretendia abrir uma conta e foi ao Banco do Brasil de Parelhas. A gerente o atendeu e pediu para que ele sentasse, e começou a fazer as perguntas do cadastro:

- Nome?

- Francisco Vilar.

- Filiação?

- PMDB.

- Não! Os seus pais?!

- Esses é que são bacuraus mermo!


NATALPRESS
www.natalpress.com




Você vai sobreviver SIM!
p/ Antoniel Campos


Nas páginas dos seus livros,
nas peles acariciadas, nas bocas beijadas, nas carnes possuídas.
Nos sonhos libertinos, nos pensamentos devassos,
No sorriso maroto. No olhar escroto.

No abraço afetuoso,
No cuidado carinhoso,
Na fala mansa, no jeito faceiro, no sorriso matreiro.
Na inspiração, só paixão; no aperto de mão, no silencioso perdão.

E nas prateleiras do meu coração

Você será eterno
Como os libirintos de Borges
Como os móveis identificados e as borboletas azuis de Garcia Marquez
Como as putas e pais de santo de Jorge Amado
Como Emília e Visconde de Sabugosa
Como os Moinhos e Don Quixote de Cervantes
Como o inferno de Dante
Como o agora, o depois e o antes.

Crys



Do Clip One

Essa fila
Essa lida
Essa aposentadoria minguada
Essa taxa
Esse imposto
Imposto
Ao cotidiano
Só vai mudar
Sem sangue
Com voto
O juiz condenando
O transgressor
O usufrutuário
Do capital!!!

Eduardo Alexandre




S O D A D E

Dessa palavra sodade,
num existe tradução.
É uma dô qui quando ataca,
nuis faiz sofrê de muntão.
É dô qui quando se sente,
mexe cum tudo da gente,
lá dento do coração.

Sodade num tem plurá,
purisso, véve sòzinha.
Martratando munta agente,
do seiviçá à rainha.
Machucando c'á lembrança,
ais vêiz, matando a esperança,
de quem prá ela caminha.

Faiz o valente chorá,
faiz o forte isfraquicê.
Faiz a gente se lascá,
sem drumí e sem cumê.
O cabra fica achatado,
sofrendo disisperado,
pidindo a Deus prá morrê.

E o hôme, principamente,
acredite se quisé.
Sofre c'a situação,
nisso pode fazê fé.
O cabra sofre à vontade,
se a danada da sodade,
fô do tá "bicho muié".

O dia fica cumprido,
o cabra acorda chorando.
Passa o dia puros canto,
mocorongo, matutando.
Num consegue nem surrí,
e ais vêiz, quando vai drumí,
vai se deitá saluçando.

Mais inda resta um consolo,
digo na minha poesia:
Antes de incruzá cum ela,
facilmente tu surría.
Pode iscrevê qui é verdade:
Adonde exití sodade,
arguém foi feliz um dia.

Prá finalizá, eu digo,
puro mundo, andando a êrmo;
do fundo do coração,
cum o peito prá lá de infêrmo.
Sodade, eu digo surrindo:
É isso qui eu tô sintindo,
de você agora mermo...

Bob Motta




Saudade de Vingt-un

Estava relendo belo escrito épico do grande poeta Caio Cézar Muniz, por título Quando Mossoró amanhecer sem Vingt-un, quando recrudesceu a saudade do velho e querido mestre, o eterno feiticeiro das letras, cuja presença no plano celestial foi requisitada por Deus Todo Poderoso.

Vingt-un deixou uma saudade imensa, uma falta que se intensifica a cada momento. É impossível preencher a lacuna que ele deixou, pois Vingt-un é insubstituível, é eterno e, a cada dia que passa, fica mais difícil suportar a ausência do grande mecenas. Caio Cézar Muniz, competente editor-assistente da valorosa Coleção Mossoroense, antecipou de forma sublime através de sua brilhante poesia o que estamos sentindo com relação à falta da presença física de Vingt-un em nosso meio.

Jerônimo Vingt-un Rosado Maia foi um entusiasta do humanismo, da fraternidade e da disseminação da alegria e do amor. Vingt-un se transformou em sinônimo de felicidade, irradiando aos quatro cantos a ternura e o respeito aos seus semelhantes.

Quantas saudades o senhor deixou Vingt-un Rosado, quantas angústias nos corações de quem te amava e que continuam te amando. Seus verdadeiros amigos estão a rogar a Deus lugar privilegiado para que desfrutes integralmente a colheita divina que semeastes no plano terreno.

Durante os milênios vindouros a humanidade tem o dever de louvar e honrar os legados de Vingt-un, sobretudo Mossoró e sua brava gente, a qual, como já foi dito, é digna de se levar a uma cruzada.

Mossoró, o Rio Grande do Norte e o Nordeste, principalmente, tem a obrigação de louvar-lhe por tão brilhante trabalho, personificado através dos seus legados, incluindo entre estes a magnitude incomensurável da Coleção Mossoroense, bem como a edificação das Universidade Federal Rural do Semi-Árido e Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, futura universidade federal de Mossoró, com as Benções do Eterno Todo Poderoso e boa vontade de pessoas com visões apuradas e clarividentes.

A Coleção Mossoroense, meu querido Vingt-un, está sendo muito bem encaminhada por seu digníssimo filho Jerônimo Dix-sept Rosado Maia Sobrinho. Ele possui seu sangue, suas idéias e também sabe da importância do trabalho que o senhor desenvolveu por mais de cinquenta anos, intuindo difundir a cultura do nosso povo através do sonho que começou a ser esboçado desde àquelas palestras de Câmara Cascudo no Colégio Diocesano Santa Luzia, em 1936.

Vingt-un, o senhor deixou muitas saudades, deixou muitos corações tristes, mas que se alegrarão gradualmente por terem certeza que estás em um plano bem superior, acompanhado por Deus Pai, o Grande Arquiteto do Universo.

José Romero Araújo Cardoso




O paraíso tem nome: Diogo Lopes

Imagine um lugar repleto de natureza exuberante por todos os lados; um pedaço do paraíso onde o visitante pode encontrar uma variedade ambiental impressionante como mar, mangue, restinga, rio, estuário, dunas, falésias, coqueirais, caatinga, tabuleiros e lagoas. Diogo Lopes, distante 25 km de Macau e 215 km da capital potiguar, é uma praia quase desconhecida pela grande maioria dos potiguares, abrigando uma natureza intocável.

A praia de Diogo Lopes é localizada entre as comunidades de Barreiras e Sertãozinho, que fazem parte de uma grande reserva ambiental e são formadas por gente simples e acolhedora. Para preservar esse paraíso, a comunidade unida criou a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Estadual Ponta do Tubarão, implantando projetos produtivos para a pesca e para o turismo ecológico.

A comunidade tem consciência que deve manter o meio-ambiente intacto, evitando que a região seja tomada por estrangeiros e pelo turismo predatório, sem planejamento, a exemplo de Pipa e Canoa Quebrada. Conforme Rosa Pinheiro, Sub-coordenadora de Gerenciamento Costeiro do Idema, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Ponta do Tubarão traz, juntamente com as perspectivas do estabelecimento da gestão integrada, frente à preservação ambiental, um belo exemplo do valor da organização comunitária.

Em Barreiras, comunidade distante 3 km de Diogo Lopes, uma faixa de areia alva e fina, com pouca vegetação de mangues, serve de porto seguro para pescadores cansados e é também usada como lugar de diversão para a comunidade. Na praia de Chico Martins, é possível visitar a Ilha do Tubarão que inicia a restinga que forma a reserva ambiental.

Ao longo da baía Ponta do Tubarão, pequenas ilhas formam um estuário com manguezais, repleto de vida marinha e aves migratórias. A restinga abriga alguns “ranchos” (casa de taipa feita por pescadores na beira da praia para tratar o peixe, guardar material e descansar entre uma pescaria e outra) e um longo braço de mar cercado de coqueirais. O estuário é protegido pelo Rio Tubarão, criando uma paisagem paradisíaca, formando um rico ambiente, povoados por uma grande diversidade de animais e servindo como ponto de desova de tartarugas.

Por trás da vila de pescadores, as dunas móveis formam grandes falésias que encontram a caatinga, separando o sertão e o mar numa cena única, mágica. Essencialmente uma comunidade pesqueira, Diogo Lopes, se estende por Sertãozinho e Ponta de Pedra. A pesca artesanal é feita em alto mar, na costa e nas enseadas e marés. Os botes, jangadas, barcos a motor, canoas e ioles se concentram nessa comunidade, respondendo por quase 80% do pescado da região de Macau e contribuindo para a economia local.

Diogo Lopes, Barreiras e Sertãozinho são comunidades festivas, realizando várias comemorações durante o ano: em janeiro, a festa de São Sebastião (padroeiro de Barreiras); as Festas das Flores, em maio; os festejos de Nossa Senhora dos Navegantes (padroeira de Setãozinho e Macau), em agosto; as comemorações de São Francisco de Assis (padroeiro de Diogo Lopes) e a regata de barcos, em setembro.



Fragmento da história de Diogo Lopes

Muito antes da chegada dos europeus na região de Macau, o rio já era conhecido pelos índios potiguares como “Unaputuban”, que mais tarde, nos séculos XVII e XVIII figurava em mapas náuticos como “Rio do Tubarão”.

De acordo com historiografia popular, o povoado de Diogo Lopes teve sua origem com so irmãos Fiogo e Gaspar Lopes que aportaram no Rio Tubarão, em data incerta. Diogo Lopes permaneceu na localidade, enquanto Gaspar partiu para o sertão.

Por volta de 1717, Gaspar Lopes era proprietário de uma fazenda que tornou-se vila e seu nome denominou o lugar até 1921, quando o povoado transformou-se na cidade de Pedro Avelino. Segundo os moradores mais antigos, o português Diogo Lopes permaneceu na sua fazenda de gado e pesca até meados do século XVIII.

Em 1797, o Rio Tubarão era conhecido como rio Diogo Lopes, registrado numa escritura de venda da região de Macau. Em 1922, o nome de Luiz Carlos de Souza Miranda era publicado na revista Centenário de Macau como proprietário do “Sítio Diogo Lopes”.

Até os anos 70, existia uma trilha carroçável ligando Diogo Lopes e Barreiras à Macau e Guamaré, mas era intransitável durante épocas de inverno ou nas grandes marés. Quando foi confirmada a produção de petróleo no campo terrestre, a Petrobrás nivelou e asfaltou as estradas da região.



Em busca do manejo adequado

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável da Ponta do Tubarão, localizada, em parte no município de Guamaré e parte no município de Macau, foi criada em julho de 2003 com o objetivo de preservar os recursos naturais e a sustentabilidade da comunidade local. A área permite a pesquisa científica, a pesca, o turismo e variadas atividades econômicas. Porém, o mais interessante é que surgiu da mobilização da própria população, que sentiu a necessidade em conservar o meio ambiente, aprendendo a lidar com ele, sem prejudicar o desenvolvimento econômico.

A RDS Ponta do Tubarão é formada por um Conselho Gestor, fazendo parte representantes das prefeituras de Macau e Guamaré; representantes do Idema (órgão responsável pela coordenação do conselho), Promotoria da Comarca de Macau, Gerencia Nacional do Patrimônio da União, Ong’s e representantes das comunidades de Diogo Lopes e Barreiras

Através do Conselho Gestor, foram estabelecidos debates que abordavam as necessidades e a forma como a comunidade se organizaria para desenvolver as prioridades da reserva. Eles se dividiram em 25 entidades representativas de cada interesse. Após o regimento ser construído, foi apreciado e aprovado pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente (Conema), sendo homologado pelo Governo do Estado. A área da RDS Ponta do Tubarão tornou-se um sistema sustentável de exploração consciente dos recursos naturais. A principal característica é o manejo da fauna e flora local com base em pesquisas científicas.

A preocupação com o turismo ecológico foi que impulsionou a criação da reserva. Após uma tentativa de implantação de um resort italiano no local, a população, com receio de perder a autonomia e prejudicar a natureza, resolveu se unir e levar o pedido de conservação ambiental até a Assembléia Legislativa, quando então, A União embargou o empreendimento estrangeiro.

A base de todo o projeto da RDS é o envolvimento das comunidades com a Reserva, participando dos debates e projetando ações para o trabalho com meio-ambiente e na vigilância, preservando a natureza e promovendo sustentabilidade econômica e social.

No momento, o plano de manejo é a prioridade. Dezenas de reuniões já foram realizadas em dois anos de criação da Reserva, discutindo os principais problemas, conflitos, necessidades e expectativas da população.

Alexandro Gurgel

por Alma do Beco | 9:29 AM | | Ou aqui: 0




sexta-feira, janeiro 06, 2006

S.O.S BARES E CABARÉS

Marcus Ottoni



"O PT é uma página virada em minha vida."
José Dirceu


Hugo Macedo


Papo no becodalama@yahoogroups.com

Quem sugere o quê?

Estava pensando sobre o carnaval. Como fazê-lo no Centro. Na Cidade Alta.
Uma banda? Galo da Rua de Beber do Caminho da Santa Cruz da Bica?
Corso de blocos alegóricos e carros de carnaval. Baterias de Escolas de Samba. Papangus. Fantasias. Frevo. Rock. Baião. Bonecos. Os Cão. Kengas. Independente da Ribeira. Carnaval do Centro Histórico? Largo do Rosário? Largo de Santo Antônio? Praça da Matriz da Apresentação? Rua Direita? Rua do Meio? Da Palha? Beco da Lama? Praça da Alegria? Praça da Poesia? Larguinho da Capitolina? Onde? Nesse Centro Histórico. Todo.

Como? Quem? Com quem?

Temos parcerias com Capitania e Fundação José Augusto. E a perspectiva de fazer um bom carnaval.

Quem sugere o quê?

Dunga

Grifo em vermelho de
Antoniel Campos


Dunga,
Por que não A TROÇA DO NAZIR, com um boneco gigante em homenagem ao saudoso bodegueiro?

Bob Motta



Para o departamento de custos:
1 Boneco pro "Troço de Nasi é Meladinha"

Glorinha de Oliveira? Trio Irakitan? Bobô, Odaíres, Terezinha? Coco? Maculelê? Toré de Catu de Cima? Songa? Isaque? Esquina 16? Pedro esta é uma terra de um deus mar? Poesia? Artes Plásticas? Teatro de Rua? Feira de fantasias?

Dunga



Dunga,
Que tal concurso de papangu, Corso e a volta triunfal da querida lança-perfume?
Eu, Crys
Doida pra ficar doida


O concurso de papangu é boa idéia.
Dunga




O Barulho do Tempo

Começa a chover em cada cor dos sonhos que não consegui ter.
As tintas escorrem lavando meus cabelos curtos como se fossem roupas.
Sinto uma pressa que só se acalma na advertência:
Nada pode ser afirmado sem que uma questão surja como toda solução.

Os dias não pedem licença.
O tempo vai passando com a impressão de que se indispõe aos pensamentos.
A conseqüência mora no antes?
Percebida em seu erro, se mostra no depois de nossas vidas?

Quero a confusão de tudo o que, de tão perto, finalmente faz silêncio.
Conhecer o vazio é criá-lo desabitado?

O barulho dos passos se solta dos pés
Para em nós carregarmos o relento do mundo.

Leticia Az




ALZHEIMER

Memórias arquivadas, empoeiradas
Empilhadas, desorganizadas
Inanimadas...
É preciso restaurar a franqueza!!!

Deborah Milgram



S.O.S BARES E CABARÉS
DA RUA SÃO PEDRO-ROCAS-NATAL-RN

Eu vi Danusa de Salles,
dizer na televisão,
que nas Rocas, tão querendo,
fechar nossa diversão.
O fim da Rua São Pedro,
além de me causar medo,
me entristece o coração.

Ilustríssimo Promotor:
No aspecto cultural,
nas Rocas, rua São Pedro,
é, além de colossal;
manancial de memória,
que se confunde com a história,
da cidade do Natal.

Ali na rua São Pedro,
nossa Natal tem aos pés,
estórias maravilhosas,
do povão, que é nota dez.
Berço de ouro de escritores,
poetas e trovadores,
botecos e cabarés.

Fui lá com Newton Navarro,
numa manhã de sol a pino.
Fui também, com meus dois manos,
Clóvis Motta e Zé Quirino.
A dupla, de cara cheia,
me apresentou Zé Areia,
graças a Deus e ao destino.

Em nome da boemia,
sob o céu de azul anil,
não feche os bregas, doutor;
pois ali nunca se viu,
lhe juro, nesse momento:
Nenhum aliciamento,
nem prostíbulo infantil.

Presepadas, sempre teve.
E quando eu quero matar,
a saudade do passado,
corro ligeiro pra lá.
Volto feliz pra danado,
com o gravador carregado,
de cultura popular.

Isso, lá, tem de montão;
por isso, lá sempre eu vou.
O que falo nas palestras,
que nos colégios, eu dou,
não foi universidade.
Seu doutor, foi, na verdade,
o povão que me ensinou.

Lá eu conhecí Duruca,
cozinheiro de talento.
Dedé, Nazareno, Víulle,
e a todo e qualquer momento,
no beréu de dona Helena,
numa conversinha amena,
Piaba, Olavo e Nascimento.

Se as radiolas de ficha,
deixarem de funcionar,
doutor, com toda certeza,
o senhor vai se tornar,
digo, nos versos que faço:
O coveiro de um pedaço,
da cultura potiguar...

Natal, 27 de novembro de 2002

Bob Motta




Mulher (ontem e hoje) é tudo igual

Foi a primeira e última vez que minha mãe me arrastou a um salão de beleza.

Eu, ainda menino-buxudo, muito a contra-gosto acompanhei minha mãe a uma dessas sessões de tortura, digo, beleza.

Ao entrarmos no salão o cheiro forte dos produtos químicos capilares misturado aos aromáticos dos esmaltes adentravam às narinas como uma colherada das grandes de Emulsão Scott garganta abaixo.

Além do cheiro, o barulho daqueles secadores de cabelos enormes que pareciam tubarões engolindo as cabeças das clientes, faziam com que as conversas se processassem num tom altíssimo num verdadeiro contraste ao leve burburinho do salão de barbeiro de Seu Xico.

E foi nesse clima aromático-barulhento que minha mãe ouvia da colega ao lado, enquanto esperavam a vez de serem engolidas pelos secadores, que ela, Dona Luzia, tinha comprado um pequeno sítio em Parnamirim com um belo de um bananal de bananas-anãs (ou banana-nanica, para outros) que apesar de serem pés pequenos as bananas eram enormes. Enquanto falava, Dona Luzia fazia gestos mostrando o tamanho dos pés de banana e, afastando as mãos, mostrava quão grandes eram as bananas colhidas.

D. Luzia nem chegou ao fim da conversa quando a senhora que estava com o tubarão barulhento na cabeça próximo a ela, levantou o secador e prontamente perguntou:

- Dá pra senhora me dar o endereço ou o telefone desse baixinho?

Tadeu Neri




Uma viagem no tempo

Os limites da cidade iam até a Avenida 15 (Bernardo Vieira), onde havia um posto fiscal, chamado Corrente, que fiscalizava saídas, entradas e bandeiras. A pista de asfalto, construída pelos americanos durante a Segunda Guerra Mundial, serpenteava entre dunas, silêncios e verdes até Parnamirim. Os outros limites, a leste e oeste, tinham mais esplendor: o rio Potengi e o mar de águas mornas.

Nas marés altas, os botos vinham brincar de esconde-esconde nas águas do Potengi. Nas marés cheias de medo, diziam alguns, os cações faziam expedições, furiosos, famintos, cortando as águas com a lâmina de suas barbatanas. Os meninos pescavam morés, pulavam da Pedra da Chapuleta ou desafiavam os cações, fazendo torneios de cangapés no meio do rio.

O mar era um latifúndio azul-turquesa ao alcance de todos. Perto da Fortaleza dos Reis Magos, estrela dos lusíadas, pétrea sentinela, havia o Poço do Dentão, com suas grutas, seus mistérios, sua inexplicável profundidade à beira-mar. Itamar, que depois seria personagem de romance, jurava de pé junto: numa das grutas do poço, havia um tesouro escondido pelo pirata Rifault. Todos os dias, os meninos pobres mergulhavam à procura da arca cheia de ouro e pedras preciosas. Viviam desse sonho.

Perto da Rua da Estrela, morava uma viúva sem filhos, jovem e bonita. Não saía de casa, não cumprimentava ninguém, não devolvia a bola que caía nos seus domínios. Numa tarde, os meninos olhavam pelas brechas do portão, em busca de mais uma bola perdida, quando surgiu um daqueles alumbramentos de que fala Manuel Bandeira. A viúva brincava com seu cachorrinho, dançando e levantando a saia para o animal, que corria à sua volta. As coxas eram roliças e a calcinha, ai!, era de cor clara. Naquele dia, houve jogos olímpicos em homenagem a Onan.

Nas matinês do Rex, nossos sonhos cavalgavam na garupa do cavalo do Zorro. Ajudávamos o herói a esmurrar o vilão e também queríamos beijar a mocinha, mas isso o valente amigo de máscara negra não permitia. Tão difícil quanto beijar a namorada do herói dos seriados era beijar a namorada de verdade. O namoro tinha suas regras rígidas: com duas semanas, ela permitia pegar na mão; com três semanas, um beijo no rosto; com um mês, um beijinho na boca, mas nada de prospecções de língua. A mocinha que permitisse mais do que o estabelecido corria o risco de ficar falada.

Bons tempos, mesmo com essas restrições. As ruas descalças, o rio, o mar, os vastos espaços nos levavam a descobertas, aventuras, saudáveis estripulias. Desde cedo, os meninos aprendiam a desafiar perigos. Havia mendigos valentões, que odiavam os seus apelidos e poderiam ferir gravemente um daqueles pirralhos com uma pedrada certeira ou um murro no pé do ouvido. Mas nenhum mendigo podia passar perto da turma, sem ouvir o seu apelido gritado em coro. Caju Azedo era o mais afobado, o mais desaforado. Aos gritos de “Caju Azedo! Cadê a castanha?”, ele dizia que as nossas mães, coitadas, guardavam a castanha num lugar muito reservado lá delas... Ah, Natal da minha infância, gaveta cheia de sonhos, território das minhas grandes amizades.

Nei Leandro de Castro


O SONHO DO POETA
(o REPOUSO DO GUERREIRO)


Alexandro Gurgel
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"O pior é que adormeci com Khrystal e acordei com Elino."
Dunga, depois do flagra.


No romper da madrugada
sonhava um sonho bonito


Com a careca iluminada
pelas luzes do sucesso,
Dunga dormiu, fez ingresso
no romper da madrugada !
- Sonhava com a doce amada,
sonhava com o Infinito ?
- Sonhava, sim, acredito,
com seu pai, Zé Alexandre !
- Sonhava, pois, sonho grande,
sonhava um sonho bonito... !

Laélio



No romper da madrugada
sonhava um sonho bonito

O Centro, o Beco, mais nada.
Pinta no espaço o poeta
sua tela mais concreta
no romper da madrugada !
Multisonora e animada,
Frevo, Forró e Cabrito,
à meia-noite, o apito,
brinde de Schin com Skol
e embriagado de Sol
sonhava um sonho bonito... !

Antoniel Campos



M O T E

NO ROMPER DA MADRUGADA
SONHAVA UM SONHO BONITO


G L O S A S

1. Com a carcaça arriada,
em pleno Beco da Lama,
fez do meio fio, cama,
AO ROMPER DA MADRUGADA.
Dois mil e seis, na entrada,
exagerou-lhe o agito.
Nosso Dunga, só o pito,
em sonho, era visitado,
e com seu pai, abraçado,
SONHAVA UM SONHO BONITO...

2. Dunga, acredito eu,
sonhou e aqui eu digo,
com seu pai, seu mestre e amigo,
amparado por Morfeu.
No domingo, amanheceu,
agarrado com Cabrito;
cujo bafo de priquito,
o fez dar u'a suspirada,
NO ROMPER DA MADRUGADA,
SONHAVA UM SONHO BONITO...


Bob Motta



Laélio, Bob Motta, Antoniel....

voces são MARAVILHOSOS....
nada melhor para aquecer meus dias, e, para o Guerreiro, DUNGA, muita alegria.
Beijos em todos,

Dália



Laélio,

lindo, muito lindo. Tás mudando de estilo ou foi escorrego momentâneo?
Foi porrão, visse?

Cláudio Galvão



Prezado Laélio:

Foto super legal! Ela retrata o "guerreiro" após lutar batalhas inglórias pela
revitalização do nosso centro histórico de natal.
Mas, tal qual Dom Quixote, não vamos desistir dos moinhos de vento.
Um feliz 2006 para você.

Daliana Cascudo


Caríssimo Dunga,

gostei das fotos sobre o I Revéillon
do Centro Histórico de Natal. Não ligue para as
gozações quanto à soneca. Cerveja e cansaço acaba
nisso.
Grande abraço do

Walcy



SONETO APÓS O BANHO

Te imagino perfumada e bem fresquinha,
num vestido solto e longo, após o banho.
Me coloco a imaginar e não me acanho,
que estejas sem soutian e sem calcinha.

Te agarro na porta da cozinha,
delicio-me a amassar teus seios fartos.
Passo a mão nos morros gêmeos dos teus quartos,
te fazendo arrepiar, minha rainha.

Teu vestido, arranco eu, de amor, sedento;
com a visão de tão belo monumento,
para o alto, jogo todo meu pudor.

Minha boca te beija de cima a baixo;
e ao sentir teu gôzo, rápido, me encaixo,
ansioso, em teu manancial de amor...

Bob Motta



Última flor do lácio, inculta e bela...

“Desesperadamente eu canto em português”
Belchior

Última flor do lácio inculta e bela, És a um tempo, esplendor e sepultura! O verso mais conhecido do soneto “Língua Portuguesa” de Olavo Bilac é uma das mais apaixonadas declarações de amor ao idioma e tem muitos devotos, entre os quais este escrevinhador. Nunca fui exatamente fã do parnasianismo algo esnobe de Bilac, mas esta poesia particularmente sempre me tocou. Talvez pelo amor quase obsessivo que tenho pela língua portuguesa, tantas vezes maltratada.

Recordar os versos de Bilac me fez, portanto, refletir sobre como cuidados de nossa língua pátria. Que o brasileiro não é dos mais cuidadosos com o falar e o escrever, é notório. Contudo, percebo, com certa angústia, que a Internet vem contribuindo para com o maltrato da língua portuguesa. Explico: a necessidade de escrever rapidamente e a falta de necessidade de ser formal em mensagens na rede estão fazendo que criemos uma outra língua na web, como dizem. Uns dizem que isto é besteira, que não fazemos senão ampliar o velho método de escrever mensagens e recados caseiros em linguagem sintética, quase cifrada. Será mesmo? Alguém que passa metade do dia trabalhando à frente de um computador conseguirá desligar o mecanismo de linguagem “internética” ao desligar a CPU? Um adolescente consegue com facilidade passar da linguagem reduzida da rede para produzir uma redação formal?

Faço deste texto, portanto, um apelo: que nós, amantes da língua portuguesa, não deixemos a linguagem descuidada prevalecer sobre o português claro e correto. Não se trata de entender o que a outra pessoa quer dizer, mas de ter o prazer de escrever corretamente, ainda que isso demande mais tempo. Não desejo posar de vestal do templo e jurar por Camões que escrevo sempre você em lugar de “vc” ou “beijos” em vez de “bjs. Claro que ganhamos tempo (que é dinheiro, dizem) com a redução das palavras. Claro que a língua também é construída com esta redução, como é o caso de “você”, que se origina do formal “vossa mercê”. Mas também estamos contribuindo para criar uma outra língua sem ter garantia que o português oficial continuará sendo escrito e falado corretamente fora do mundinho do computador. Além disso, damos aos mais jovens, que já começaram a escrever no computador, um péssimo exemplo. Reduzir uma ou outra palavra não mata ninguém (nem a língua), é claro. Mas podemos ler frases assim na rede: “aki ta otm, tô (: hehehe. Vms p/ balada + tarde? Vai ser D+ Rsrsrs. bjs”. O pior é saber que quem escreve assim são justamente jovens das classes alta e média, pré-universitários ou já no terceiro grau, ou seja, nosso futuros advogados, professores, médicos e engenheiros. Florbela, Quintana e Manuel Bandeira devem estar se revirando em seus túmulos.

Cefas Carvalho

por Alma do Beco | 5:37 AM | | Ou aqui: 0


Hugo Macedo©

Beco da Lama, o maior do mundo, tão grande que parece mais uma rua... Tal qual muçulmano que visite Meca uma vez na vida, todo natalense deve ir ao Beco libertário, Beco pai das ruas do mundo todo.

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